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Conforme preleciona Nalini, “não há necessidade de se renunciar ao progresso, para a preservação do patrimônio ambiental”58, no entanto, o desenvolvimento sustentável é

necessário economicamente e ambientalmente, pois quando da produção de bens para a satisfação das necessidades da coletividade se deve sempre levar em consideração a proteção do meio ambiente, que é de interesse social. No intuito de estudar a abordagem que o legislador brasileiro dedica à questão ambiental, importa conceituar o que seja sustentabilidade, colecionando a definição de Juarez Freitas59:

Eis o conceito proposto para o princípio da sustentabilidade: trata-se do princípio constitucional que determina, com eficácia direta e imediata, a responsabilidade do Estado e da sociedade pela concretização solidária do desenvolvimento material e imaterial, socialmente inclusivo, durável e equânime, ambientalmente limpo, inovador, ético e eficiente, no intuito de assegurar, preferencialmente de modo preventivo e precavido, no presente e no futuro, o direito ao bem- estar.

Este autor entende que a sustentabilidade está além do tripé econômico, social e ambiental e preconiza a multidimensionalidade do conceito. Freitas60 acredita na dimensão ética da sustentabilidade, segundo a qual os seres possuem um liame subjetivo que obriga uma

58 NALINI, José Renato. Ética Ambiental. Campinas: Millennium Editora, 2010, p. 125.

59 FREITAS, Juarez. Sustentabilidade - Direito ao futuro. 2 ed. Belo Horizonte: Fórum, 2011, p. 41. 60 FREITAS, Juarez. Sustentabilidade - Direito ao futuro. 2 ed. Belo Horizonte: Fórum, 2011, p. 58.

conduta harmoniosa, de modo que o desenvolvimento de uma comunidade específica não pode ser óbice ao desenvolvimento de outra nem à vida digna dos cidadãos futuros. Corroborando com o entendimento de uma dimensão ética, Nalini61 faz a seguinte reflexão:

Somente uma conversão – ou uma reconversão ética – poderá inverter o círculo vicioso da inércia, da gastança, do desperdício, da insensibilidade, para uma existência de zelo pela natureza. De uso responsável. De desenvolvimento sustentável. De sensibilidade ambiental. De amor à natureza e de amor ao próximo. De respeito à vida. De luta permanente para consecução de uma vida digna.

Além da dimensão ética, Freitas62 postula também o caráter jurídico-político da sustentabilidade em sua dimensão vertical, com a participação do Estado, e horizontal, observando a responsabilidade dos cidadãos (horizontalização) de buscar o Estado Sustentável, que consiste em direito e dever de todos, sem deixar de notar que uma visão multidimensional é o cerne para o desenvolvimento sustentável, o qual deve ser compreendido como um processo de cooperação entre Estado e sociedade em âmbito econômico, social, ético e político. Nessa esteira também se encontra o conceito de Milaré63:

...a sustentabilidade pode ser entendida como um conceito ecológico – isto é, como a capacidade que tem um ecossistema de atender às necessidades das populações que nele vivem –ou como um conceito político que limita o crescimento em função da dotação de recursos naturais, da tecnologia aplicada no uso desses recursos e do nível efetivo de bem estar da coletividade.

Cabe destacar que o desenvolvimento sustentável não é albergado nem pela Constituição Federal nem pelo Direito Internacional se não for garantido junto à satisfação do mínimo social, à existência digna, à boa governança e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, pois o desenvolvimento que não respeita o princípio da dignidade da pessoa humana não é sustentável. Na conclusão de Gabriel Wedy64, o desenvolvimento sustentável, na sua perspectiva objetiva, significa também a proteção do núcleo essencial de direitos fundamentais, como a vida, a saúde e o meio ambiente equilibrado, além e do princípio da dignidade da pessoa humana.

Para o mesmo estudioso, o direito fundamental ao desenvolvimento sustentável é também um dever que deve estar calcado nos pilares da inclusão social (orientado pelo princípio

61 NALINI, José Renato. Ética Ambiental. Campinas: Millennium Editora, 2010, p. 19.

62 FREITAS, Juarez. Sustentabilidade - Direito ao futuro. 2 ed. Belo Horizonte: Fórum, 2012, p. 63.

63 MILARÉ, Edis. Direito do ambiente. 5ª ed. reformulada, atualizada e ampliada. São Paulo: RT, 2007, p. 68. 64 WEDY, Gabriel de Jesus Tedesco. O direito fundamental ao desenvolvimento sustentável na era das

mudanças climáticas. Disponível em: <http://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/7236#preview-link0>. Acesso em: 10 nov. 2019.

da dignidade da pessoa humana), da tutela do meio ambiente, do desenvolvimento econômico (tendo como base uma economia verde, de baixo carbono) e da boa governança. O desenvolvimento apenas encontra guarida no texto da Constituição quando está calcado nesses quatro alicerces, os quais o sustentam e requerem constante harmonização.

Conforme postula William Marques65:

O paradigma do desenvolvimento sustentável pressupõe uma releitura da questão desenvolvimentista, para além do tradicional sentido de crescimento econômico quantitativo, considerando que deve abarcar também a equidade intra e intergeracional, no que tange aos aspectos econômico, social e ambiental.

Assim, entende-se a sustentabilidade como um princípio garantido internacionalmente e também internamente, o qual responsabiliza todos os atores da produção e do consumo, além do Estado para assegurar desenvolvimento, limitado conforme as capacidades da natureza, com o fim de atender o bem estar das gerações atuais sem negligenciar o das próximas, de modo que haja equilíbrio entre a produção de riqueza e as capacidades do meio. A garantia fundamental em comento é corolária da Constituição Federal, que reserva um capítulo para o meio ambiente e dispõe em seu artigo 225 que:

Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

A ideia esposada pelo legislador constituinte de 1988 coaduna-se com a lógica adotada pelo art. 45 da Constituição Espanhola de 197866. O legislador brasileiro explicita indubitavelmente, embora sem usar o vocábulo específico, a intenção de buscar a sustentabilidade no âmbito nacional, especialmente por tratar-se de bem coletivo essencial ao bem-estar. Nessa esteira, extrai-se da paradigmática manifestação67 em Mandado de Segurança

65 MARQUES JÚNIOR, William Paiva. Socioambientalismo e Direitos da Natureza na Integração Latino-

Americana para o Bem Viver. In: José Fernando Vidal de Souza; Julio González García. (Org.). III Encontro de Internacionalização do CONPEDI. Madrid, Espanha: Ediciones Laborum, 2015, v. 12, p. 291-312.

661. Todos tienen el derecho a disfrutar de un medio ambiente adecuado para el desarrollo de la persona, así

como el deber de conservarlo.

2. Los poderes públicos velarán por la utilización racional de todos los recursos naturales, con el fin de proteger y mejorar la calidad de la vida y defender y restaurar el medio ambiente, apoyándose en la indispensable solidaridad colectiva.

3. Para quienes violen lo dispuesto en el apartado anterior, en los términos que la ley fije se establecerán

sanciones penales o, en su caso, administrativas, así como la obligación de reparar el daño causado. (ESPANHA. Constituição Espanhola de 1978. Disponível em:

<http://www.senado.es/web/conocersenado/normas/constitucion/index.html>. Acesso em: 17 nov. 2019.)

67 FEDERAL, SUPREMO TRIBUNAL. MS 22.164-0-SP. Min. Relator Celso de Mello. Julgado em: 30 out.

do ministro Celso de Mello, à luz da recém-ocorrida Eco-92, nos idos de 1995, o indicativo do caráter protagonista que o Judiciário brasileiro passou a garantir à sustentabilidade dentre os direitos coletivos:

O direito à integridade do meio ambiente – típico direito de terceira geração – constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de um poder atribuído, não ao indivíduo identificado em sua singularidade, mas, num sentido verdadeiramente mais abrangente, à própria coletividade social.

Sendo a moda uma indústria que produz inúmeros resíduos químicos e sólidos, além do descarte inconsciente decorrente de sua produção em massa e do estímulo ao consumismo alimentado pela obsolescência programada, a dicotomia reconhecida pelo mesmo ministro em seu voto na ADI nº 3.540-168 é bem evidente, assim como a necessidade de sua superação:

Concluo o meu voto: atento à circunstância de que existe um permanente estado de tensão entre o imperativo de desenvolvimento nacional (CF, art. 3º, II), de um lado, e a necessidade de preservação da integridade do meio ambiente (CF, art. 225), de outro, torna-se essencial reconhecer que a superação desse antagonismo, que opõe valores constitucionais relevantes, dependerá da ponderação concreta, em cada caso ocorrente, dos interesses e direitos postos em situação de conflito, em ordem a harmonizá-los e a impedir que se aniquilem reciprocamente.

Importa ressaltar ainda que a Constituição Federal explicita a prioridade dada ao meio ambiente saudável também nos princípios que regem a atividade econômica no inciso VI do artigo 170, que dispõe sobre a “defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação”. Essa relação de dependência entre meio ambiente e consumidor é anotada por Milaré69 em seus escritos:

...sob a rubrica “interesses difusos” ou “interesses transindividuais” ou “interesses coletivos”, há uma associação mais do que implícita entre consumo e meio ambiente. Tanto a proteção do meio ambiente como a proteção do consumidor são princípios da ordem econômica, nos termos da Constituição Federal de 1988. Isso quer dizer que, no plano constitucional, as duas esferas de preocupação (meio ambiente e consumidor) estão igualmente situadas, e funcionam como limites à livre-iniciativa, uma vez que a ordem econômica se direciona para a ordem social, como afirmam os requisitos jurídicos e o ordenamento econômico-social a partir da Carta Magna.

68 MELLO, Celso de. Medida Cautelar em Ação Direta de Inconstitucionalidade, nº 3.540-1, de 12 ago. 2005.

Diário da Justiça, Brasília, nº 162, 2005.

Dessa forma, nota-se a necessidade de a cadeia de moda funcionar sempre calcada nessas disposições constitucionais, tendo em vista todos os riscos que cercam os processos concernentes ao meio, já estudados anteriormente. No que concerne ao consumidor, a Constituição de 1988 já deixava clara a intenção de conscientizá-lo acerca do papel de protagonista que deve adotar na garantia do desenvolvimento sustentável, quando dispõe no artigo 5º, LXXIII que:

LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência;

Não resta dúvida de que a disposição constitucional é clara quanto ao direito do cidadão de se opor a atos que atentem contra o meio ambiente, no entanto, interessa destacar também que, na doutrina, preocupa-se também com a responsabilidade do cidadão-consumidor para com a sanidade ambiental, atendo-se ao bem-estar dos cidadãos do futuro:

Vem a propósito uma indagação: terá o consumidor, pelo simples fato de ser consumidor, um vínculo com o meio ambiente e a sustentabilidade? Não há dúvida de que esse vínculo existe e pode facilmente ser identificado no bojo dos processos de produção-consumo e consumo-produção. Nesses processos encontram-se ações e reações em cadeia, com grande significação nas interações homem-mundo natural ou, se se preferir, nas relações sociedade-meio ambiente. As demandas dos indivíduos e a sociedade vão ser direcionadas para o mundo natural por meio dos processos e sistemas cósmicos: daí, o impacto que elas provocam sobre a sustentabilidade com o binômio produção-consumo.70

A seguinte jurisprudência emanada pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal apresenta a importância dos princípios de proteção ao meio ambiente, enaltecendo o dever de solidariedade com as gerações futuras:

MEIO AMBIENTE – DIREITO À PRESERVAÇÃO DE SUA INTEGRIDADE (CF, ART. 225) – PRERROGATIVA QUALIFICADA POR SEU CARÁTER DE METAINDIVIDUALIDADE – DIREITO DE TERCEIRA GERAÇÃO (OU DE NOVÍSSIMA DIMENSÃO) QUE CONSAGRA O POSTULADO DA SOLIDARIEDADE – NECESSIDADE DE IMPEDIR QUE A TRANSGRESSÃO A ESSE DIREITO FAÇA IRROMPER, NO SEIO DA COLETIVIDADE, CONFLITOS INTERGENERACIONAIS – ESPAÇOS TERRITORIAIS ESPECIALMENTE PROTEGIDOS (CF, ART. 225, § 1º, III) – ALTERAÇÃO E SUPRESSÃO DO REGIME JURÍDICO A ELES PERTINENTE – MEDIDAS SUJEITAS AO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA RESERVA DE LEI – SUPRESSÃO DE VEGETAÇÃO EM ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE – POSSIBILIDADE DE A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, CUMPRIDAS AS

EXIGÊNCIAS LEGAIS, AUTORIZAR, LICENCIAR OU PERMITIR OBRAS E/OU ATIVIDADES NOS ESPAÇOS TERRITORIAIS PROTEGIDOS, DESDE QUE RESPEITADA, QUANTO A ESTES, A INTEGRIDADE DOS ATRIBUTOS JUSTIFICADORES DO REGIME DE PROTEÇÃO ESPECIAL – RELAÇÕES ENTRE ECONOMIA (CF, ART. 3º, II, C/C O ART. 170, VI) E ECOLOGIA (CF, ART. 225)- COLISÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS – CRITÉRIOS DE SUPERAÇÃO DESSE ESTADO DE TENSÃO ENTRE VALORES CONSTITUCIONAIS RELEVANTES – OS DIREITOS BÁSICOS DA PESSOA HUMANA E AS SUCESSIVAS GERAÇÕES (FASES OU DIMENSÕES) DE DIREITOS (RTJ 164/158, 160-161) – A QUESTÃO DA PRECEDÊNCIA DO DIREITO À PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE: UMA LIMITAÇÃO CONSTITUCIONAL EXPLÍCITA À ATIVIDADE ECONÔMICA (CF, ART. 170, VI) – DECISÃO NÃO REFERENDADA – CONSEQÜENTE INDEFERIMENTO DO PEDIDO DE MEDIDA CAUTELAR. A PRESERVAÇÃO DA INTEGRIDADE DO MEIO AMBIENTE: EXPRESSÃO CONSTITUCIONAL DE UM DIREITO FUNDAMENTAL QUE ASSISTE À GENERALIDADE DAS PESSOAS. – Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Trata-se de um típico direito de terceira geração (ou de novíssima dimensão), que assiste a todo o gênero humano (RTJ 158/205-206). Incumbe, ao Estado e à própria coletividade, a especial obrigação de defender e preservar, em benefício das presentes e futuras gerações, esse direito de titularidade coletiva e de caráter transindividual (RTJ 164/158-161). O adimplemento desse encargo, que é irrenunciável, representa a garantia de que não se instaurarão, no seio da coletividade, os graves conflitos intergeneracionais marcados pelo desrespeito ao dever de solidariedade, que a todos se impõe, na proteção desse bem essencial de uso comum das pessoas em geral. Doutrina. A ATIVIDADE ECONÔMICA NÃO PODE SER EXERCIDA EM DESARMONIA COM OS PRINCÍPIOS DESTINADOS A TORNAR EFETIVA A PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE. (STF - ADI-MC: 3540 DF, Relator: Min. Celso de Mello, Data de Julgamento: 01/09/2005, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJ 03-02-2006 PP- 00014 EMENT VOL-02219-03 PP-00528)

Dada a complexidade da questão e pautado nos princípios internacionais internalizados pelo Brasil e amplamente positivados como direitos fundamentais, é amplo o tratamento destinado pelo legislador infraconstitucional às várias facetas que concernem o assunto.

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