4. OS BENS PRIMÁRIOS
4.3 O princípio da diferença
A justiça como equidade se define, sob diversos aspectos, como uma teoria igualitária. Na controvérsia contemporânea sobre o igualitarismo, Amartya Sen (2001) lançou uma importante indagação: igualdade de quê? Para Sen todas as teorias da justiça contemporâneas se constituem em teorias igualitárias, inclusive a libertária. O economista reconhece que as diversas teorias são distintas entre si, que possuem princípios e premissas específicas, que encarnam uma filosofia política substantiva, por vezes antagônicas, mas todas são igualitárias em algum componente específico e esse, segundo Sen, é o traço essencial de todas elas. No caso da teoria libertária, para pegarmos o exemplo mais paradoxal, ela se constitui numa teoria igualitária porque seu fundamento não é a liberdade de mercado ou a defesa do estado mínimo, conforme Nozick, ou de sua extinção completa, conforme Rothbard. Antes disso, o libertarianismo se define por exigir a igualdade de todos perante a lei: uma “igualdade de direitos”, como afirma Sen, é o núcleo dessa teoria.
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Para um exame geral da doutrina utilitarista, ver Kymlicka (2006, cap. 2). Peluso (1998) e Carvalho (2007), por sua vez, fornecem uma compilação de ensaios que discutem o utilitarismo a partir de diversas óticas.
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Nota-se que em TJ, p. 97, Rawls considera os bens primários como elementos de avaliação de justiça social e bem-estar, mas este último o autor menciona um tanto que passageiramente. Porém, em seus escritos posteriores (Rawls, 2004, cap. 5), o filósofo rejeitou que os bens primários seriam elementos para mensurar o bem-estar, restringindo a sua função apenas para julgamentos de “justiça política”. Nos seus últimos escritos, a justiça política veio a ser com ainda mais força o objeto de sua teoria.
No caso da teoria rawlsiana, o igualitarismo além de concentrar-se no componente da liberdade igual, também se apresenta no tocante aos bens primários em geral. Estes recursos serão a base das políticas distributivistas no sistema de Rawls. Aí que entra em operação o princípio da diferença: a regra normativa para regular a distribuição de bens primários em sociedade.
O princípio da diferença é o elemento ordenador das exigências de igualdade na teoria da justiça de Rawls. Os bens primários devem ser regulados pelo princípio da diferença, que é parte do segundo princípio da justiça, o qual convém retomar:
As desigualdades econômicas e sociais devem ser ordenadas de tal modo que, ao mesmo tempo, (a) tragam o maior benefício possível para os menos favorecidos e (b) sejam vinculadas a cargos e posições abertos a todos em condições de igualdade eqüitativa de oportunidades. (RAWLS, 2002, p. 333, grifo nosso)
Como se denota, o segundo princípio da justiça (o da igualdade democrática) está dividido em duas partes, sendo a primeira o que Rawls chamou de “princípio da diferença” e a segunda o princípio da “igualdade equitativa de oportunidades”. Assim, as expressões “maior benefício” e “menos favorecidos” se determinam através do gozo de bens primários de que cada cidadão usufrui e os casos de desigualdades, bem como, para comparações interpessoais de bem-estar e justiça, na teoria de Rawls, serão determinados com base na lista de bens primários.
Em que pese o caráter igualitário que o princípio da diferença imprime à justiça como equidade, Rawls (2002, p. 67) reconhece que pode haver desigualdades entre os cidadãos na posse e gozo de alguns bens primários, como na renda e riqueza das pessoas e associações, além de desigualdades nas prerrogativas de autoridade na sociedade. Porém, essas desigualdades são justificadas somente quando submetidas à força do princípio da diferença, isto é, quando as desigualdades sirvam para a promoção das expectativas - em termos de bens primários - dos grupos menos favorecidos62. Em TJ, Rawls (2002, p. 99) assim comenta: “os
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Oportunamente, Álvaro de Vita alerta que não há fundamento na objeção de que “o princípio de diferença autoriza desigualdades excessivas, desde que pequenas melhorias ocorram nas expectativas dos que se encontram na posição mais desfavorável”. E acrescenta: “Esse equívoco, muito a gosto dos economistas, decorre de considerar a justiça maximin à parte da concepção da qual ela é apenas um de seus componentes”. (VITA, 2007, p. 251).
bens sociais primários que variam em sua distribuição são os direitos e prerrogativas de autoridade, além da renda e da riqueza”. Como se verá, esse ponto pode conter uma forte tensão (Kymlicka, 2006).
Para Vita (1993, p. 48), “o princípio de diferença traduz uma concepção de igualdade de recursos ou ‘bens primários’ [...] e não uma concepção de igualdade de resultados ou de bem-estar”. Desse modo, Rawls novamente afasta-se da perspectiva normativa do utilitarismo, cuja principal característica é o seu caráter consequencialista63 para avaliação do bem-estar, pois a noção de bens primários desloca o espaço avaliatório da execução dos planos de vida, para os meios para a sua execução. Tal foco, aliás, veio a ser objeto da ilustrada crítica apresentada em diversos trabalhos pelo economista indiano Amartya Sen (1979; 1985 e 2001).
Antes de se adentrar mais detalhadamente na crítica de Sen aos bens primários, sublinha-se por ora que ela se fundamenta principalmente no caráter de meio que eles assumem para julgamentos de justiça e bem-estar. Todavia, isso não significa que Sen abrace a abordagem utilitarista clássica que concentra a avaliação do bem-estar e justiça apenas à medida que estes são atingidos (caráter consequencialista). Assim, alternativamente ao utilitarismo e à justiça como equidade, a contribuição de Sen consiste na sua abordagem das capacidades (capabilities approach) que, para julgamentos de justiça e bem-estar, avalia o que certas coisas (good things) são capazes de fazer para os seres humanos, de modo que Sen considera tanto os “elementos meios” que se considera fundamentais para avaliação de justiça e bem-estar, quanto para a justiça e bem-estar propriamente atingidos (elementos fins- consequencialistas)64, porém, não avaliados em estados mentais subjetivos (satisfação/prazer/felicidade) como faz o utilitarismo. A abordagem das capacidades pretende
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O consequencialismo, como um forte elemento do utilitarismo, requer que se verifique se o ato ou procedimento em questão produziu algum bem identificável ou não. Isto implica que o espaço avaliatório apropriado para julgamentos de justiça ou bem-estar, de acordo com o utilitarismo, deve ser aquela situação de bem-estar que uma pessoa realmente atinge. Ou, melhor dizendo, é o ponto efetivamente atingido de bem-estar por uma pessoa, não se levando em conta os meios que favoreceram a pessoa a atingir este nível de bem-estar. Ver Kymlicka (2006, p. 13 e 24-41).
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É essencial considerar-se que, embora “justiça” e “bem-estar” aqui pareçam estar sendo tratados como algo semelhante, não necessariamente o são. Destaca-se, porém, que o utilitarismo, por exemplo, considera que o maior bem-estar atingido equivale, normativamente, também à maior expressão da justiça. Na justiça como equidade, entretanto, a justiça não está submetida a avaliações gerais de bem-estar do tipo “quanto maior o bem- estar geral maior é a justiça”. Em Rawls, a justiça tem prioridade e o seu julgamento último não está vinculado à mensurações de bem-estar. Por isto, de acordo com Rawls, a justiça como equidade assume um caráter ético deontológico no que diz respeito à justiça (a justiça tem prioridade sobre o bem ou a eficiência) e não teleológico (o bem tem prioridade sobre o justo) como requer o utilitarismo. Ver Rawls (2002, p. 32). Vita (2007, cap. 2), porém, reage a este ponto, considerando que a teoria de Rawls não é tão deontológica como quer assumir o seu autor. Para um exame geral do tema, ver Kymlicka (1988) e Freeman (1994). Nós, todavia, não tomamos posição nessa contenda, visto que foge do escopo do trabalho.
focalizar o espectro de possibilidades que um sujeito tem para escolher entre as diversas formas de vida que valoriza.