Estabelecer o que significa o bem-estar do idoso não é tarefa das mais fáceis, podendo os critérios variar de acordo com as condições econômico-financeiras, psicossociais e biológicas, conforme já dito anteriormente.
Para Novaes (2000), o processo de envelhecimento tem muito a ver com a vivência e as experiências que a pessoa adquiriu ao longo de sua vida, enquanto na velhice, a aceitação da realidade provoca rupturas e traumas que exigem novas posturas perante a família e a sociedade. Muitas vezes ocorrem situações que não promovem o bem-estar do idoso e que violam sua dignidade e, nesse momento, o convívio familiar produz o bem-estar necessário para a construção de sua dignidade.
Necessário se faz apontar que a dignidade da pessoa humana é uma qualidade intrínseca de todo ser humano, sendo irrenunciável e inalienável, não podendo, de forma alguma, ser separada do mesmo. Decorre, então, ser inaceitável que uma pessoa não possua condições mínimas para garantir sua sobrevivência, uma vez que não há como dissociar dignidade da realização dos direitos fundamentais.
A propósito, Galindo (2006, p. 225) sustenta que: “[...] a realização dos direitos fundamentais deve ser a mais ampla possível. É uma tarefa básica do Estado democrático, e a própria legitimidade desse Estado depende do seu compromisso e empenho para proceder a essa realização [...].”
Uma vez entendido que a dignidade da pessoa humana é o que há de mais relevante para sua vida; o que a diferencia dos demais seres vivos; o que a coloca em uma situação de superioridade frente aos demais, deve haver uma ação conjunta entre família, sociedade e Estado, atuando de forma coesa para o atendimento prioritário do bem-estar do idoso.
Diante disso, pode-se dizer que a dignidade da pessoa humana é um dos princípios que sustenta a garantia institucional dos direitos do idoso. Sobre o tema, pondera Mariana Filchtiner (2007, p. 63):
A concepção mais conhecida de dignidade, como registra a doutrina, parte da ideia kantiana de autonomia ética do ser humano, que consistiria no fundamento da dignidade humana e sustentaria a vedação de que o homem seja tratado como objeto, inclusive por si mesmo, que tem de dar-se a ela mesma a sua lei, em que a vontade constitui uma espécie de causalidade dos seres vivos racionais, e a liberdade, uma propriedade que teria causalidade de poder atuar independentemente de causas externas que a determinem. Dessas noções, extraiu Kant a ideia de “dignidade de um ser racional que não obedece a outra lei senão aquela que institui, ao tempo e ele mesmo”. A moralidade seria a conclusão dessa sequência, da liberdade que conduz à autonomia e que situa a todos os homens no mundo dos fins, convertendo as pessoas em seres dignos e que não tem preço: “[...] no reino dos fins tudo tem um preço ou uma dignidade. [...] quando uma coisa está acima de todo o preço, e, portanto não permite equivalente, então ela tem dignidade”.
Cumpre referir que o art. 229 da CF/88 não deixa dúvidas quanto ao papel dos filhos em dar assistência aos pais na velhice, carência ou enfermidade, porém, muitas vezes, não é o que de fato se observa, percebendo-se total descaso e até seu abandono.
É, assim, notória a distância existente entre o aparato legal e seu efetivo cumprimento. Mesmo porque, consta de forma muito clara na CF/88 que um dos fundamentos do Estado Democrático de Direitos é a dignidade da pessoa humana e como tal, os idosos, que já deram muito de si para os filhos e família, merecem ser atendidos em suas necessidades básicas, incluindo saúde, moradia, medicamentos. Enfim, merecem uma sadia qualidade de vida, parte integrante da reserva de eficácia da dignidade humana.
Nas palavras de Bitencourt Neto (2010, p.128):
a reserva de eficácia da dignidade da pessoa humana, quanto à garantia de meios mínimos para tanto, admitir a necessidade de intervenção previa a eficácia plena de sua dimensão prestacional [...]. Assim, se para os demais direitos fundamentais, em especial os direitos sociais, a eficácia plena como direito a prestações depende de interposição legislativa, a fim de assegurar, em especial, o respeito ao princípio democrático e à repartição de funções, o mesmo não vale no caso do direito ao mínimo existencial.
Observa-se que, em alguns casos, devido ao descaso ou abandono do Estado e da família, necessita-se da intervenção de órgãos como o Ministério Público e a Defensoria Pública, a fim de que exijam, judicialmente, o cumprimento do determinado pela CF/88, relativamente às tarefas do Estado. Salienta-se que a Defensoria Pública atua na defesa dos seus direitos individuais, como direito a alimentos, medicamentos, entre outros.
2.3.1 Dignidade como limite e tarefa do Estado
A busca pelo atendimento das necessidades básicas do idoso corresponde à imperativos da dignidade, e sua privação, carência e exclusão do mínimo existencial exige a intervenção estatal por meio de ações que viabilizem a efetivação de seus direitos.
Para Antonio Carlos Wolkmer (apud OLSEN, 2011, p. 315), o conceito de mínimo existencial passa pela teoria das necessidades humanas. Segundo o autor, “não há dúvida de que a situação de privação, carência e exclusão constituem razão motivadora e a condição de possibilidade do aparecimento de direitos [...].” Desse modo, observa-se que a dignidade humana se faz por meio da concretização dos direitos fundamentais e o quão relevante é o papel do Estado no cumprimento de suas tarefas, incluindo a garantia de proteção à vida e à saúde, mediante políticas sociais públicas de atendimento ao idoso.
A fim de corroborar com o exposto, mister se faz mencionar o art. 10 do Estatuto do Idoso:
Art. 10. É obrigação do Estado e da sociedade assegurar à pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais, garantidos na Constituição e nas leis.
I – faculdade de ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;
II – opinião e expressão; III – crença e culto religioso;
IV – prática de esportes e de diversões; V – participação na vida familiar e comunitária; VI – participação na vida política, na forma da lei; VII – faculdade de buscar refúgio, auxílio e orientação.
§ 2º O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, de valores, ideias e crenças, dos espaços e dos objetos pessoais.
§ 3º É dever de todos zelar pela dignidade do idoso, colocando-o a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.
Percebe-se, assim, que o Estatuto do Idoso dispõe acerca da obrigatoriedade da família em assegurar ao idoso a efetivação de seus direitos fundamentais, porém, o Estado tem obrigação solidária em dar-lhe apoio e fornecer-lhe o que for necessário para a garantia de seus direitos e bem-estar, entendendo-se como tal o suprimento das condições mínimas de dignidade e respeito.
Infere-se ainda que “a dignidade é um valor espiritual e moral inerente à pessoa, que se manifesta singularmente na autodeterminação consciente e responsável da própria vida [...].” (MORAES, 2008, p. 48). Todavia, em faltando as condições necessária para a materialização dos direitos fundamentais, cumpre ao Estado a tarefa de supri-los através de atividades que contribuam no processo de envelhecimento saudável, possibilitando ao idoso o desenvolvimento da autonomia e de sociabilidade.
Dentro dessa perspectiva, a Resolução 109/2009 aponta a importância da intervenção estatal e social, pautando-se nas características, interesses e demandas dessa faixa etária.
Ainda, a suprarreferida Resolução 109/2009 considera que
a vivência em grupo, as experimentações artísticas, culturais, esportivas e de lazer e a valorização das experiências vividas constituem formas privilegiadas de expressão, interação e proteção social. Devem incluir vivências que valorizam suas experiências e que estimulem e potencializem a condição de escolher e decidir. (BRASIL, 2009).
Não sendo, entretanto, atendidas as demandas, interesses e necessidades vitais dos idosos, cabe a órgãos que possuem legitimidade para a tutela de seus direitos, tais como a Defensoria Pública e o Ministério Público, atuarem na defesa de tais direitos, possuindo a tarefa de zelar por esses interesses, garantindo-lhes sua dignidade.