5.3 Caracterização da pós-graduação
6.1.1 O princípio da integralidade e a abordagem integral do processo
A integralidade da atenção à saúde deve ser o eixo norteador da necessidade de mudança na formação dos profissionais dessa área. Assim, é tarefa do setor da saúde contribuir para que a educação se vincule ao mundo do trabalho e às práticas sociais em saúde (CECCIM; FEUERWERKER, 2004; SILVA; SENA, 2006, 2008).
Segundo o paradigma da integralidade, o foco da atenção deve ser na saúde (e não na doença), o papel do aluno no processo de ensino-aprendizagem deve ser ativo, as atividades práticas devem ocorrer no sistema de saúde (COSTA, 2007).
Como a saúde comporta diversas dimensões, sua atenção integral requer a atuação de diversos profissionais, com necessidade de integração. Não se espera formar superprofissionais, mas profissionais capacitados a interagir em benefício da pessoa (CECCIM; FEUERWERKER, 2004).
Quando a pessoa é reconhecida como unidade e totalidade, ou seja, de forma integral, em todas as suas dimensões (física, psíquica, social e espiritual) e como ser único e diferente, e a saúde não é concebida como mercadoria, a atenção às necessidades das pessoas torna-se o próprio objeto da saúde.
O conceito de integralidade aproxima as pessoas que cuidam da dignidade daquele que é cuidado, uma vez que ressalta as diversas dimensões do cuidado. Sem que a integralidade seja observada, haverá a tendência de se buscarem respostas às necessidades biológicas, que restringem a compreensão da pessoa humana.
6.2 A formação do graduando em Odontologia
Influenciados pelos relatórios Flexner e Gies, os cursos de Odontologia constituíram-se segundo o modelo biomédico, que privilegia o estudo das doenças, fragmenta o ensino em especialidades e assim enfatiza a formação técnica em detrimento da formação humanística e ética (BOELEN, 2002; HADDAD; MORITA, 2006). Para Perez (2004), esse modelo reduziu o ser humano ao seu organismo biológico, levando os profissionais a serem vistos como simples prestadores de serviços.
Se por um lado esse modelo favorece o desenvolvimento de materiais e técnicas, por outro traz o desafio de combinar esses avanços com as necessidades das pessoas, das sociedades e com seus valores morais. Os conteúdos, fragmentados ao longo do curso, tentam ser resgatados ao final da graduação nas disciplinas de Clínica Integrada ou nos internatos.
No Brasil, a reforma universitária de 1968, dentre outras características, estimulou a divisão dos cursos de graduação em ciclo básico e ciclo profissionalizante; incentivou a criação da extensão como forma de aproximar a universidade da sociedade; criou os departamentos como menor área administrativa da universidade e ressaltou o papel da universidade na produção do conhecimento, tornando indissociável o ensino, a pesquisa e a extensão (FÁVERO, 2006; MALTAGLIATI; GOLDENBERG, 2007).
O Curso de Odontologia surgiu em duas vertentes: a europeia, em que se torna uma especialidade do Curso de Medicina e a Americana que transformou a Odontologia em um curso separado da Medicina em 1840. Esse modelo americano
foi seguido pelo Brasil, com o estabelecimento em 23 de outubro de 1884, do primeiro curso de Odontologia, em anexo à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia (FOUSP, 2007).
No Brasil, de 1995 a 2003 houve uma expansão no número de vagas em cursos de Odontologia de 95,6%. Além disso, o crescimento é caracterizado pela privatização do ensino, com 68,8% de instituições privadas (OLIVEIRA et al., 2006; HADDAD et al., 2006).
Esta expansão se observa nos cursos de graduação das diversas áreas do conhecimento, pois expressa a ampliação do próprio ensino superior (BRASIL, 2007).
Nos cursos de Odontologia, de acordo com o censo do INEP, foram oferecidas, em 2007, 16.141 vagas e houve 10.806 ingressantes (BRASIL, 2007).
Por outro lado, a taxa de crescimento no número de concluintes em Odontologia entre 1996 e 2007 foi de 20,27%, enquanto a taxa de crescimento da população brasileira no mesmo período foi de 17,13%, conforme Quadro 6.1:
concluintes Odontologia população brasileira
1996 6.956 157.070.163
2007 8.366 183.987.291
Taxa de crescimento 20,27% 17,13%
Fonte: INEP e IBGE
Quadro 6.1 – Comparação entre o número de concluintes em Odontologia e a população brasileira em 1996 e 2007
Esses dados indicam que, apesar de ser frequente a justificativa de que uma das causas das modificações do mercado de trabalho em Odontologia e que
caracterizariam uma “crise” é o número excessivo de profissionais formados a cada ano, talvez essa não seja a justificativa suficiente e nem a mais adequada.
É verdade que houve um aumento no número de IES que têm cursos de Odontologia, bem como de vagas disponíveis, mas há muitas vagas ociosas.
O descompasso entre a forma idealizada de exercício profissional – prática privada e autônoma, com consequente oferta de serviços inacessíveis para a maior parte da população – e a realidade do mercado de trabalho poderia ser uma explicação mais plausível para a “crise da Odontologia”.
Esse descompasso exige mudanças nas universidades que decorrem da organização do mundo do trabalho em saúde, das exigências em relação ao perfil dos profissionais, dos desafios da transdisciplinaridade na produção de conhecimento ou pela necessidade de a universidade reconstruir seu papel social considerando a multiplicidade de lugares produtores de conhecimento no mundo atual (CECCIM; FEUERWERKER, 2004).
No Brasil, essa preocupação com o imperativo de responder às necessidades da população levou ao estabelecimento de diretrizes curriculares para todos os cursos da área da saúde nos anos 2001 e 2002.
Na Europa, também se iniciou um processo de mudanças curriculares. Em 1999, estabeleceu-se o tratado de Bologna que visa à unificação do ensino superior europeu em razão da criação da Comunidade Comum Europeia, mantendo a diversidade entre os países e facilitando a mobilidade, a transferência, a colaboração interinstitucional e a qualidade do ensino (SANZ, 2003).
Na educação odontológica norte-americana, em 1995, Field salientava que a atenção integral ainda era mais um ideal do que uma realidade e que se baseava fortemente nos procedimentos e não no cuidado ao paciente.
As mudanças curriculares nos Estados Unidos requerem que os princípios norteadores da educação odontológica sejam: o pensamento crítico, a educação continuada, o desenvolvimento humanístico, a descoberta científica e a integração do conhecimento, a atenção odontológica baseada em evidências, o desenvolvimento do corpo docente e da equipe de saúde, a fim de atingir as necessidades da sociedade (KASSEBAUM et al., 2004; HENDRICSON et al., 2006).