CAPÍTULO I PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO E SUA RELAÇÃO COM AS ERBS
1.2 As ERBs e os seus impactos sobre à saúde
1.2.3 O princípio da precaução, a sociedade de risco e as ERBs
A sociedade de risco, assim definida por Beck (2013), é aquela decorrente da pós- modernidade, sendo o seu embrião a revolução industrial do século XVIII, na qual o desenvolvimento tecnocientífico foi potencializado pelo incremento da incerteza quanto às atividades e tecnologias empregadas no processo econômico.
A produção de risco na sociedade pós-moderna é caracterizada por: riscos que podem ser controlados e riscos que fogem ao controle, pois quando não se tem a certeza do dano que produz, orienta-se a não arriscar!
Beck (2013) apresenta dois tipos de risco: o concreto ou potencial, que é visível e previsível pelo conhecimento humano; e o abstrato, que tem como característica a invisibilidade e a imprevisibilidade pela racionalidade humana. Pode-se dizer que o risco abstrato é aquele regulado pelo princípio da precaução, no qual há a incerteza do risco.
O referido autor aponta ainda a arquitetura social e a dinâmica política na qual o Estado está envolvido, como responsáveis pelos riscos:
(1) Riscos, da maneira como são produzidos no estágio mais avançado do desenvolvimento das forças produtivas – refiro-me, em primeira linha, à radioatividade, que escapa completamente à percepção humana imediata, mas também às toxinas e poluentes presentes no ar, na água e nos alimentos e aos efeitos de curto e longo prazo deles decorrentes sobre plantas, animais e seres humanos -, diferenciam-se claramente das riquezas. Eles desencadeiam danos sistematicamente definidos, por vezes irreversíveis, permanecem no mais das vezes fundamentalmente invisíveis, baseiam-se em interpretações casuais, apresentam-se portanto tão somente no conhecimento (científico ou anticientífico) que se tenha deles, podem ser alterados, diminuídos ou aumentados, dramatizados ou minimizados no âmbito do conhecimento e estão, assim, em certa medida, abertos a processos sociais de definição. Dessa forma, instrumentos e posições da definição dos riscos tornam-se posições-chave em termos sociopolíticos. (BECK, 2013, p.27) A Teoria do Risco, assim denominada por Beck (2013), tem ligação direta com o princípio da precaução, em especial do risco abstrato, pois justamente vai ao encontro do que preceitua o referido princípio, de que na incerteza do dano não se deve correr os riscos.
No caso das ERBs e da radiação não ionizante, ela se encaixa perfeitamente no risco abstrato, pois as radiações não são visíveis sem o auxílio de instrumentos específicos, e este é um fator importante para a falta de percepção humana em relação ao risco.
Outra questão que se coloca é: até que ponto vale a pena correr os riscos da atividade? Deve-se pagar para ver? Ao que tudo indica, no caso das ERBs vale, e muito. De acordo com a Revista Exame, o setor das telecomunicações no Brasil obteve a 4ª posição (Telef Brasil) entre as empresas que mais lucraram em 2018 no país, ficando atrás apenas da Petrobrás e de instituições bancárias, com lucro estimado de R$3.166.297.000,00 (três bilhões cento e sessenta e seis milhões e duzentos e noventa e seta mil reais), ou seja, trata-se de um negócio extremamente lucrativo e qualquer legislação que impeça o seu crescimento estaria barrando o lucro. Neste sentido Leite e Belchior asseveram:
Para agravar ainda mais o clima de incertezas a que se está imerso, o desenvolvimento econômico abafa as consequências negativas do seu progresso, isto é, há uma invisibilidade dos riscos ecológicos, decorrente do fato de que o Estado e os setores privados interessados utilizam meios e instrumentos para ocultar as origens e os efeitos do risco ecológico, com o objetivo de diminuir suas consequências, ou melhor, com o fim de transmitir para a sociedade uma falsa ideia de que o risco ecológico está controlado. (2012, p. 16).
Acrescentam ainda os autores:
Não se pode viver, entretanto, tão vulnerável aos riscos e às incertezas, de forma total, sob pena de se encontrar em um verdadeiro caos ou retroceder ao estado de natureza hobbesiano. Nesse sentido, o Direito, como ciência, precisa abrir espaços para discussões em torno de novas formas de sociabilidade, por meio da criação de instrumentos jurídicos que busquem trazer à baila medidas de gerenciamento preventivo do risco, baseado nos princípios da prevenção, precaução, da responsabilização e da solidariedade. (2012, p. 17).
De acordo com a citação acima, é possível estabelecer uma relação direta do licenciamento ambiental como instrumento de gerenciamento preventivo de riscos, conforme citado pelos autores, desde que a norma jurídica, no caso específico sobre licenciamento de estações rádio base, esteja fundamentalmente baseada no princípio da precaução.
Como é possível observar, o crescimento econômico das sociedades sempre esteve vinculado à exploração direta do meio ambiente. Portanto, os riscos tanto de esgotamento de recursos como de danos sempre existiram. Salienta-se a este respeito que quanto maior a população, maior a produção e maior o consumo de bens. Um fato que se destaca é que os riscos mudam ao longo dos anos, e a partir do momento que eles mudam, despertam um alerta sobre a necessidade de a sociedade estar atenta para uma tomada de decisão sobre correr ou não os riscos.
A função do princípio da precaução é justamente evitar o risco e, consequentemente, o dano quando houver incertezas quanto a sua nocividade, principalmente quando este for invisível. Sua atuação deve pautar-se em legislações que estabeleçam como prioridade a proteção do meio ambiente, e que se tornem viáveis e efetivas no seu cumprimento legal.
A sociedade já vivencia efetivo momento de escolhas, porém, a utilização do princípio na tomada das decisões estabelece um resgate de valores segundo o qual, em primeiro lugar deve valorizar e priorizar a sobrevivência das espécies.
CAPÍTULO II- O LICENCIAMENTO AMBIENTAL NA PROTEÇÃO DO MEIO