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5 O PROBLEMA CIENTÍFICO: REPRESENTAR OU INTERVIR.

[...] à humanidade não se propõe mais do que os problemas que pode resolver, pois, olhando mais de perto, ver-se-á sempre que o problema mesmo só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo existem ou se encontram em estado de existir (MARX e ENGELS, 1973, p. 92).

A discussão do conceito de problema percorre toda a história do conhecimento. Em geral, define-se como “problema” qualquer situação que inclui a possibilidade de uma alternativa. O problema não tem necessariamente caráter subjetivo, não é redutível à dúvida; trata-se mais do caráter de uma situação que inclui diversas alternativas.

Para Abbagnano (1998), no pensamento moderno, a noção de problema foi e continua sendo das mais negligenciadas. A esse respeito, ele registra: “[...] embora falem o tempo todo em problemas e achem que é sua função solucionar certo número deles, os filósofos não se preocuparam muito em analisar a noção correspondente” (p.796).

Os aspectos anteriormente abordados sobre a atividade sócio-humana em geral e sobre a atividade científica em particular permitem-nos proceder a algumas reflexões sobre as peculiaridades do processo de delimitação do problema científico nas

condições atuais de desenvolvimento da ciência como força produtiva direta, reflexões que estarão condicionadas pelas peculiaridades da atividade científica.

A atividade científica, como forma particular da atividade sócio-humana, responde, em todo momento, a necessidades, orienta-se para o objeto dessas necessidades, transforma–se quando essa necessidade é satisfeita e reproduz-se em dependência de determinadas condições. A atividade científica só existe em forma de ações ou de sistemas de ações orientados à materialização de fins concretos. É precisamente aqui que se esclarecem o lugar e o papel da delimitação do problema na atividade científica: a identificação e a delimitação dos problemas realiza-se a partir da delimitação de fins concretos que devem ser atingidos em determinadas condições para sua consecução. Anteriormente, assinalávamos que qualquer fim existe objetivamente numa situação objetiva, e a ação para sua consecução, juntamente com seu aspecto intencional, tem também um aspecto operacional que é definido a partir das condições objetivo-materiais necessárias para sua consecução1.

O caráter orientado para os fins da atividade, porém, como aspecto essencial da delimitação dos problemas na atividade científica, leva-nos necessariamente a outro aspecto essencial: o sujeito como protagonista da atividade. Comentávamos, anteriormente2 que a relação entre a atividade e o sujeito é complexa e multilateral e salientávamos como se revela essencial considerar a natureza social da atividade humana, não só pelo caráter social do produto do trabalho, mas pelo fato de que as pessoas trabalham conjuntamente umas com as outras, estabelecendo vínculos sobre bases diferentes em cada época histórica.

Conseqüentemente, a delimitação dos problemas é uma conseqüência da divisão do trabalho, não só segundo o objeto de trabalho, mas, também, a partir das relações que os diferentes sujeitos estabelecem na sua atividade. Nesse sentido,

1 Ver capítulo 3, página 24. 2 Capítulo 3, página 25.

revela-se especialmente relevante o fato de que determinada comunidade de indivíduos, determinada corporação, constitui-se em sujeito da atividade científica. Tais indivíduos, simultaneamente com o processo de delimitação de problemas orientados para os fins da prática social, vão delimitar outros problemas orientados para fins próprios da necessidade de desenvolver e aperfeiçoar a própria atividade científica, ou seja, encontrar formas concretas de responder às exigências do desenvolvimento econômico-social e às exigências do desenvolvimento da própria ciência. Recordemos que Marx (1973, p.288) registrava que “a corporação representa em si a forma geral em que descansam todas as instituições sociais, dirigidas a elevar a produtividade do trabalho social ”.

Consideramos que esse aspecto da existência da ciência como atividade, como instituição social que se configura com um sujeito qualitativamente diferente, dada sua natureza coletiva e organização institucional, é um aspecto de extraordinária importância e que tem sido ignorado pelas concepções que abordam a ciência como um sistema de conhecimento e que reduzem o problema científico à sua expressão cognitiva como perguntas que devem ser respondidas, ignorando o fato de sua elaboração no contexto de uma ação concreta orientada para fins transformadores da natureza, da sociedade e do próprio homem.

Podemos constatar que, nas concepções teóricas que abordam a ciência como sistema de conhecimento, a atividade científica, seja para resolver problemas (LAUDAN, 1998) ou para superar o antagonismo entre representar ou intervir (HACKING, 2001), continua sendo abordada como uma atividade acadêmica, produtora de conhecimentos, e seus problemas ficam reduzidos a dilemas, a raciocínios problemáticos, que se resolvem conceitualmente, sem vincular os problemas da atividade científica às exigências da prática social concreta, que, em última instância, determina a existência da ciência mesma, considerando, em todo momento, o sujeito como um sujeito epistêmico e não como o protagonista de uma forma particular da prática social em condições sócio-históricas concretas.

Evidentemente, essa aparente autonomia da atividade científica como atividade cognitiva é uma expressão das características estruturais da organização da produção capitalista que mediatizam a organização da atividade científica. Destacávamos, anteriormente, que, na organização capitalista da produção, atingimos um desenvolvimento considerável das qualidades do sujeito da atividade produtiva; cada participante individual do processo converte-se em executor de uma função estreitamente especializada e, por outro lado, no processo de desenvolvimento do caráter social da atividade, acontece um processo de alienação dos participantes, instalando-se a impessoalidade das relações humanas, agudizando-se a contradição entre a forma individual de existência da força de trabalho e o caráter social de sua utilização.

Particularmente orientada para a concretização das peculiaridades do problema científico como categoria e para sua delimitação no âmbito da atividade científica, surge a tipologia da atividade, elaborada por M. S. Kagan (1989)3. Revelou-se evidente que os problemas, na sua condição de concretização de determinada orientação para determinados fins, têm um caráter multidimensional, na medida em que, neles, encontramos aspectos transformadores, cognitivos, valorativos, comunicativos e artísticos.

O caráter transformador dos problemas resume a orientação promotora de mudanças produtivas e sociais que a atividade científica contribui para materializar. Particularmente relevante revela-se a contribuição de Kagan, ao colocar uma dimensão projetiva ou modeladora dentro da atividade transformadora, com a função básica de elaborar programas de ação futura para a atividade prático-material real. Nesse sentido, podemos afirmar que a existência da ciência como força produtiva direta pressupõe necessariamente que os problemas que nela são abordados estejam

precisamente orientados a uma atividade modeladora do desenvolvimento econômico- social mediante programas de ação futura.

A atividade cognitiva, tradicionalmente abordada como processo epistemológico de construção de conhecimento pelas teorias que abordam a ciência como sistema de conhecimento, mostra-se, na abordagem de Kagan, funcionalmente subordinada à atividade transformadora, o que salienta o lugar e o papel do conhecimento como meio, como instrumento para a transformação, mediante a consecução de fins que satisfaçam a necessidade de transformar, de forma criadora, a natureza, a sociedade e o próprio homem e não como uma finalidade em si mesma.

Evidentemente, os problemas delimitados na atividade científica, como subsistema da atividade sócio-humana, representam-se cognitivamente, mas sua finalidade não é representar e, sim, intervir mediante as transformações protagonizadas pela prática social. Nesse sentido, constatamos uma forma qualitativamente diferente de responder à disjuntiva colocada por Hacking (2001) sobre a finalidade do conhecimento: representar ou intervir. As respostas de Hacking a esse questionamento mantêm-se, em todo momento, dentro do próprio processo cognitivo, procurando as respostas no papel do sujeito na empiria científica, mediante sua intervenção na abordagem dos fenômenos e dos processos estudados.

Particularmente relevante e inovadora para a conceitualização do problema científico revela-se a identificação da orientação valorativa como um aspecto essencial da atividade científica que permite superar a clássica oposição positivista entre fatos e valores. Destaca-se, nesse sentido, a consideração de que a orientação valorativa é uma forma específica de reflexo do objeto por parte do sujeito, ou seja, que o reflexo não se reduz a uma representação da realidade objetiva, oferecendo aspectos subjetivo-objetivos sobre valores. Destacam-se, nesse sentido, as contribuições oferecidas por Tugarinov (1959) quando refere que conhecimento e valoração são

aspectos internos do movimento consciência-valoração-prática, movimento determinado pelas necessidades e pelos interesses do homem na sua atividade vital.

Parafraseando Hegel, na delimitação de problemas científicos por indivíduos e por grupos sociais, não só procuramos, mediante o intelecto, apreender o mundo tal qual ele é, mas, pelo contrário, tentamos fazer o mundo como ele deveria ser, conseqüentemente, com o sistema de valores implícito em tal transformação (HEGEL, 1959).

Os aspectos transformador, cognitivo e de orientação valorativa da atividade científica implicam uma inter-relação entre sujeitos, dado o caráter coletivo e histórico da atividade científica, o que supõe um novo aspecto da atividade científica: a atividade comunicativa, ou melhor dizendo, a interação comunicativa. É preciso salientar que a importância da interação comunicativa não só está dada por sua função integradora dos diferentes componentes do sujeito coletivo, mas, sim, pelo fato de que a atividade transformadora, subsidiada pelas atividades cognitivas e de orientação valorativa, supõe um complicado processo de organização da atividade, em seus aspectos material externo e mental interno e de seus vínculos com os fins perseguidos, o que exige um complexo processo de comunicação intersubjetiva e intrasubjetiva, ou seja, dos sujeitos entre si a respeito dos fins a serem atingidos e dos modos de sua consecução, assim como do indivíduo com ele mesmo a respeito de sua própria atividade e sua conseqüente regulação. Nesse sentido, é preciso salientar como o lugar e o papel da linguagem e da comunicação na atividade científica configuram-se como elementos mediadores e internalizadores por excelência.

Talvez possa revelar-se estranho para alguns o fato de termos abordado, em nosso trabalho, a apropriação artística no contexto da atividade científica. Os problemas que a prática social coloca para a ciência, hoje, configuram-se como necessidades de intervenção criadora e não só como produção de discursos explicativos, ou seja, o conhecimento da realidade e sua transformação ideal mediante

a função orgânica do reflexo e das transformações da realidade para a criação de uma nova “realidade”, o que, necessariamente, supõe relações qualitativamente novas acerca dos aspectos cognitivos e valorativos das ações transformadoras que levam à aparição de qualidades novas, emergentes, nas quais se concretizam valores estéticos, simbolicamente relevantes para a prática social. Consideramos esse aspecto particularmente relevante na delimitação de problemas científicos nas ciências humanas, o que merece um estudo exaustivo que escapa às nossas possibilidades nesta tese.

A identificação das diferentes formas da atividade científica (transformadora, cognitiva, de orientação valorativa, comunicativa e de apropriação artística), realizada a partir das formas de atividade estabelecidas por Kagan (1989), permite-nos enriquecer o estudo realizado por Echeverria sobre os quatro contextos da atividade científica4 .

É preciso salientar que, para Echeverria, a questão a superar é a disjuntiva entre o contexto da descoberta e o contexto da justificação mediante a abordagem da ciência como um sistema de conhecimento que possui uma finalidade em si mesmo sem subordinar a atividade científica à atividade sócio-histórica, à prática social. Isso determina que as mudanças identificadas na atividade científica sejam consideradas como conseqüência do contexto em que a atividade se realiza e não como conseqüência de transformações qualitativas nos seus fins. As considerações de Echeverria significam, sem dúvida, uma contribuição importante para superar a redução da ciência à produção de conhecimento científico, mas afiguram-se limitadas pelo fato de colocarem a ênfase no papel da prática cotidiana dos cientistas e não no papel da atividade científica na prática social.

4 Ver capítulo 4, páginas 100 a 107.

Por outro lado, a identificação das peculiaridades do problema científico obriga- nos a submeter à discussão alguns aspectos relacionados com a unidade e a diferença existentes entre o processo empírico espontâneo de conhecimento e a atividade científica como forma especial do processo de conhecimento. Mostra-se evidente que, em ambas as formas do processo, identificam-se como elementos desse mesmo processo a atividade cognitiva, os meios, os objetos e os resultados do conhecimento, e esses mesmos elementos oferecem as características diferenciadoras entre ambos.

Destaca-se o fato de que, na ciência, estudam-se, não só objetos implícitos na atividade prática cotidiana, mas, também, objetos que aparecem no desenvolvimento da própria ciência, o que, unido à influência da divisão do trabalho, leva a critérios de identificação de problemas científicos que condicionam modalidades diferentes de pesquisa, sejam elas empíricas ou teóricas. Aliás, é necessário salientar que a atividade cognitiva científica orienta-se para a solução de um problema formulado conscientemente e que, dependendo do objeto estudado e de sua problematização, promoverá pesquisas fundamentais, fundamentais orientadas ou aplicadas5.