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Capítulo 2 – A (IN)DISPONIBILIDADE DOS DIREITOS TRABALHISTAS

2.3 O Problema da Confissão de Direitos Indis poníveis

O Código de Processo Civil brasileiro estabelece, no artigo 320, que a revelia não induz o efeito da confissão fática do quanto alegado pelo autor, quando a questão posta ao Juízo versar sobre direitos indisponíveis91.

Se, portanto, a demanda versar sobre o estado de uma pessoa, a inexistência de defesa do réu não induzirá à veracidade dos fatos alegados na petição inicial. Uma característica marcante dos direitos indisponíveis é sua tutela estatal diferenciada, por meio da lei.

O Código pretendeu atribuir garantia aos titulares de direitos indisponíveis diante da magnitude dessa espécie no contexto normativo da sociedade brasileira. Com essa afirmação, todos os direitos tidos como indisponíveis estão livres da mazela da confissão.

Nelson Nery e Rosa Maria de Andrade Nery lembram que, nesses casos, mesmo que ocorra revelia em demanda cuja lide versar, v.g., sobre anulação de casamento, o autor ainda deverá provar os fatos constitutivos do seu direito (art. 333, I, do CPC), sendo vedado ao magistrado julgar a ação de forma antecipada (art. 320, I, do CPC)92.

A jurisprudência pátria reconhece a ocorrência da confissão em dissídios individuais trabalhistas. Não obstante o artigo 844 da CLT determinar que a ausência do

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Sú mula no 243 – Resolução no 15/1985, DJ 9.12.1985, mantida pela Resolução no 121/ 2003, DJ 19, 20 e 21.11.2003.

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“Art. 320. A revelia não induz, contudo, o efeito mencionado no artigo antecedente: I – se, havendo pluralidade de réus, algu m de les contestar a ação; II – se o litígio versar sobre direitos indisponíveis; [...]” (sem grifo no origina l).

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NERYJUNIOR,N.; NERY, R. M. de A. Código de processo civil comentado e legislação extravagante. 11. ed. São Paulo : Revista dos Tribunais, 2010. p. 621.

56 reclamante na audiência designada implique arquivamento da demanda, a jurisprudência reconhece que, na prática atual do processo trabalhista, vem se tornando cada vez mais rara a figura da audiência una, em que se praticam todos os atos, incluindo a sentença. Com isso, tornou-se comum a prática de segmentação da instrução processual em duas ou mais audiências.

A redação da Súmula no 7493 do Tribunal Superior do Trabalho, portanto, admitiu ser aplicável a confissão à parte que expressamente intimada deixa de comparecer à audiência na qual deveria prestar depoimento.

Da mesma forma, esse Tribunal confirmou, pela redação da Súmula no 9, que a ausência do reclamante em audiência de prosseguimento, quando cindida a audiência una, não implicará arquivamento da demanda, como determina o a rtigo 844 da CLT, em clara demonstração que o direito pretendido em Juízo se submete a rígidas regras procedimentais94.

As regras aludidas impõem ao autor da ação dura consequência: a confissão95. Resta concluir, pois, que o autor da ação trabalhista ausente, sem justificativa, à audiência posteriormente designada para coleta dos depoimentos sofrerá os efeitos da confissão, reputando-se verdadeiros os fatos alegados pela parte adversária. Disso resultará grande prejuízo ao autor.

Pois bem. Admita-se assistir razão à corrente doutrinária que qualifica o conteúdo do Direito do Trabalho como sendo indisponível. Nesse caso, ter-se-á contradição lógica a superar, pois o Código de Processo Civil (art. 320) prescreve uma regra mais vantajosa que

93 Sú mula no 74 – “ I – Aplica-se a confissão à parte que, expressamente intimada co m aquela co minação, n ão

comparecer à audiência e m prosseguimento, na qual deveria depor. II – A prova pré-constituída nos autos pode ser levada em conta para confronto com a confissão ficta (art. 400, I, CPC), não imp licando cercea mento de defesa o indeferimento de provas post eriores. III – A vedação à produção de prova posterior pela parte confessa somente a ela se aplica, não afetando o exercício, pelo mag istrado, do poder/dever de conduzir o p rocesso.”.

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Súmula no 9 – “A ausência do reclamante, quando adiada a instrução após contestada a ação em audiência, não importa arquivamento do processo”.

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Conforme salientam Wagner Giglio e Cláudia Giglio Veltri Corrêa, “O arquiva mento somente pode ocorrer pela ausência injustificada do recla mante (e mpregado ou empregador) à audiência inaugural. Se a audiência for adiada antes da tomada do depoimento pessoal, a rec la mação não ma is será arquivada, mas aplicada ao reclamante ausente a pena de confissão” (GIGLIO,W.;CORRÊA , C.G.V.Direito processual do trabalho. 16. ed. São Paulo: Sara iva, 2007. p. 199).

57 a contida na CLT (art. 844) e a resultante da interpretação dada pelo Tribunal Superior do Trabalho (Súmula no 9), o que não se consegue admitir, pois a presença do princípio protetor e, por conseguinte, o da norma mais favorável, conduziria à conclusão oposta.

Ao transportar a discussão para a seara que não a do Direito do Trabalho, com o objetivo de identificar outras formas de correlação entre direitos indisponíveis e confissão, encontra-se o direito a alimentos96.

Suas raízes estão na preservação da dignidade da pessoa humana, da solidariedade social e familiar,97 bens muito próximos dos objetivados pela proteção dispensada ao trabalhador.

No que tange ao instituto da confissão na ação de alimentos, nota-se que a Lei no 5.478/1968, que regula referida ação, não prevê confis são ao autor ausente na audiência designada.

A esse propósito, Yussef Cahali leciona:

“A sanção pelo não comparecimento do autor à audiência de ação de alimentos é o arquivamento do pedido e não a absolvição de instância; e o não comparecimento de que fala é a ausência voluntária, sem forma maior, nem justificativa. Do mesmo modo, não é caso de extinção do processo sem resolução do mérito (art. 267, II, do CPC) a paralisação do processo alimentar por mais de um ano, caracterizado o abandono – é que, tratando-se de ação especial de alimentos, melhor se ajusta a cominação prevista na própria Lei 5.478/68, art. 7o, em caso de abandono ou desinteresse do alimentante pelo andamento do processo, assim, simples arquivamento do pedido.”98

Com essas assertivas, deve-se reconhecer, até aqui, a dificuldade de se enquadrar as disposições de Direito do Trabalho como puramente indisponíveis.

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Le mbra Yussef Cahali que a doutrina se orienta “no sentido de reconhecer o caráter de ordem pública das normas disciplinadoras da obrigação legal de alimentos, no pressuposto de que elas concernem não apenas aos interesses privados do credor, mas igualmente no interesse geral [...] e mbora sendo o crédito alimentar estritamente ligado à pessoa do beneficiário, as regras que o governam são, como todas aquelas relativas à integridade da pessoa, sua conservação sobrevivência, como dire itos inerentes à personalidade, normas de ordem pública” (CA HALI,Y.S.Dos alimentos. 5. ed. São Paulo: Rev ista dos Tribunais, 2006. p. 32).

97 DINIZ, M . H. Curso de direito civil brasileiro. 22. ed. São Paulo: Sara iva, 2007. v. 5, p. 536. 98

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