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Apresentação da Psicologia Existencialista de Sartre

1.2. O problema da Psicologia enquanto ciência

A ciência é um tipo de conhecimento específico que proporciona ao homem cada vez mais elementos para que possa transformar seu meio e a si próprio. As chamadas ciências da natureza não buscam mais descobrir o sentido da totalidade sintética do mundo. Procuram sim esclarecer “as condições de possibilidade de certos fenômenos de ordem geral” (Sartre,1965, p.11). Isto é o mesmo que dizer que a ciência moderna não persegue o

conhecimento absoluto, mas dedica-se ao esclarecimento de fenômenos, compreendendo as variáveis envolvidas e sua articulação interna, para tornar possível a intervenção com controle de resultados sobre eles.

Agora cabe a indagação: o homem tem os instrumentos para transforma-se psicologicamente, superar os impasses de sua vida de relações e ser sujeito de seu ser? Tem os elementos para compreender como é uma personalidade e como ocorre desta vir a se complicar, quais as condições de possibilidade de um impasse psicológico ocorrer, que variáveis estão atuando e o que deve ser feito para superá-lo? Isso é o mesmo que perguntar: a Psicologia, tornou-se de fato uma ciência? Logrou esclarecer as condições de possibilidade dos fenômenos psicológicos? Elucidou a estrutura da realidade humana que torna possível a emoção, a imaginação, a percepção, o pensamento? Esclareceu como esses fenômenos tornam-se possíveis?

No que tange ao fenômeno da imaginação: a Psicologia delimitou o que é constitutivo de qualquer fenômeno imaginante? Quais as características de uma imagem, e o que a diferencia de outro fenômeno como a percepção? Fazendo a revisão nesta área, Sartre verificou que o debate gira em torno da imanência da imagem, onde acaba por se fazer da consciência um lugar povoado por simulacros que vêm a ser as imagens (Sartre,1996, p.17). Verificou que pelo hábito de pensar todos os modos de existência segundo a existência física, a Psicologia de até então, acabava fazendo da imagem uma cópia das coisas, existindo elas mesmas como coisas independentes (Sartre,1987, p.17). Quanto a demarcação das condições de possibilidade do fenômeno imaginação ocorrer a Psicologia responde que “é para mais tarde, quando tivermos fatos suficientes” (Sartre,1965, p.11).

No que diz respeito às pesquisas sobre os fenômenos emotivos, Sartre (1965) ao invés de encontrar na Psicologia, o esclarecimento a propósito de quais as componentes imprescindíveis para que uma emoção aconteça, deparou-se com a polêmica ordem dos fatores: será a tempestade fisiológica que provoca a emoção ou a emoção provoca uma tempestade fisiológica? Verificou que os psicólogos ao estudarem uma situação de emoção, buscam os fatores determinantes, porém isolando para tanto, as reações corporais, os comportamentos e os estados de consciência. A partir disso apresentam suas explicações fixando a ordem dos fatores segundo critério e convicções pessoais. Ou seja, enquanto para os partidários da teoria intelectualista o estado de consciência será primeiro e as perturbações

fisiológicas e de comportamento conseqüentes, para os partidários da teoria periférica a ordem dos fatores é inversa, ou seja, a pessoa está triste por estar chorando (Sartre, 1965, p.13). Contudo, a demarcação da ira, do medo, da alegria, e da cólera, assim como dos demais fenômenos emotivos que ocorrem com os homens cotidianamente, continua sem ser esclarecida com o rigor da ciência moderna.

Nada diferente ocorre no que tange a demarcação da personalidade. As discussões centram-se no lugar em que o ego habita: se enquanto centro de todos os desejos da vida psíquica define-se como um habitante formal ou material da consciência (Sartre,1994, p.43). Mas quais são as condições de possibilidade para uma personalidade existir, que variáveis compõe este fenômeno que é a personalidade de cada um de nós? O que é imprescindível para a constituição de qualquer personalidade? Eram questões alheias a esta disciplina até aquele momento.

O que Sartre verificou ao fim das contas, foi que não havia na Psicologia esclarecimentos científicos dos fenômenos psicológicos, ou seja, que esclarecessem a universalidade desses fenômenos, ou, o que é o mesmo, as condições de possibilidade deles ocorrerem. Entretanto não vamos entender com isso que não havia explicações para as ocorrências psicológicas. Na verdade, a heterogeneidade na Psicologia era uma constatação que se impunha a simples visada das estantes da literatura técnica desta disciplina. Uma infinidade de afirmações, interpretações, explicações, especulações propunham-se a tornar inteligíveis acontecimentos humanos de ordem psicológica. As mesmas ocorrências eram assim interpretadas e explicadas de modos tão diversos quanto fossem os estudos e pesquisas a respeito. A heterogeneidade dos fatos levantados por essas pesquisas que percorriam desde a ilusão estroboscópica até o complexo de inferioridade, evidenciava a inexistência de qualquer relação entre estes dados e, indiscutivelmente, a total desordem desta disciplina. (Sartre, 1965, p.10).

Para contextualizar essas verificações críticas de Sartre, faz-se necessário inscrevê- lo no seu contexto histórico e científico onde outros intelectuais já constatavam e discutiam a situação precária da Psicologia enquanto ciência. Politzer, outro intelectual francês, na década de 20 do século passado já havia sido categórico ao afirmar a necessidade de rever toda a Psicologia de até então, pelo seu caráter pré-científico e místico que lhe era constitutivo. Este marca que já se sabia, há mais de cinqüenta anos, que havia chegado o momento em que a

Psicologia devia passar da etapa pré-científica para a científica (Politzer,1965, p.51). Esta passagem se fazia necessária, pois ninguém diferenciava, em meio à confusão de base da Psicologia, o que se tratava de resultados científicos ou pré-científicos dentro desta disciplina. E enfatizou que a reforma nesta disciplina consistia “justamente em romper com toda a psicologia tal como tem sido até aqui” (Politzer, 1965, p.62). De modo que a nova Psicologia não seria a continuidade do que se denomina até então de “Psicologia”, mas uma verdadeira ciência.

Na mesma década, na União Soviética, não foram diferentes as constatações críticas de Vygotski a respeito da situação desta disciplina. Afirmou o autor russo que, como cada escola psicológica transformou em dogmas, verdades que diziam respeito apenas a certos fatos, os conceitos psicológicos se multiplicaram, de tal modo que tendiam ao infinito e que sendo assim, “de acordo com a conhecida lei da lógica, seu conteúdo tende a idêntica celeridade a zero” (Vygotski,1986, p.227). Questionava o autor russo, ao fim das contas, “qual é o conceito que procuramos como objeto da psicologia e qual é a resposta que procuramos para pergunta do que é que a psicologia estuda?” (Vygotski,1986, p.213). Evidenciava, do mesmo modo que Politzer, que para a psicologia constituir-se como ciência fazia-se necessário antes de mais nada demarcar o objeto desta ciência.

É evidente que nos encontramos diante de uma encruzilhada, tanto no que se refere ao desenvolvimento na pesquisa quanto ao acúmulo de material experimental, à sistematização dos conhecimentos e à formação de princípios e leis fundamentais. Continuar avançando em linha reta, seguir realizando o mesmo trabalho, dedicar-se a acumular material paulatinamente, resulta estéril e inclusive impossível. Para seguir adiante é preciso demarcar o caminho (Vygotski, 1986, p.203).

Sendo esta a situação da Psicologia encontrada por Sartre, compreende-se como o seu projeto intelectual que consistia em engendrar uma nova Psicologia, que viesse de encontro com as necessidade e exigências científicas já verificadas em sua época, tinha razão de ser. O trabalho intelectual de Sartre dedicado a Psicologia veio a ser uma resposta à situação deficitária contatada até então.

Contemplando essas preocupações com o status científico da Psicologia, Sartre localizou como esse acúmulo de fatos heterogêneos não é o resultado do acaso, mas dos princípios da pesquisa psicológica. A psicologia procura estudar o fato, ou seja, aquilo que é inevitável encontrar no curso da investigação e como uma novidade em relação aos fatos

anteriores. Procura-se assim estudar os fatos em si mesmos, a partir deles mesmos, sem uma demarcação prévia do objeto psicológico (Sartre,1965, p.10). Busca-se descrevê-los, registrá- los, como se o resultado desse acúmulo heterogêneo pudesse dar-nos uma demarcação dos fenômenos psicológicos (Sartre, 1965, p.11).

O que Sartre esclarece é que esse pretenso purismo metodológico, de recorrer aos fatos sem nenhuma demarcação teórica que os ilumine é fadado ao fracasso pelo próprio princípio científico. Os fatos são sempre demarcados segundo uma definição, ainda que formulada aleatoriamente, sem o respeito a realidade. ‘Os fatos não mentem’, não é uma verdade em ciência, pois os fatos em si mesmos não afirmam nenhuma verdade para além deles, é sempre possível jogar com fatos isolados, ou seja, eles são sempre selecionados conforme uma definição prévia, que pode ou não respeitar os processos da ciência. Como Politzer aponta com propriedade, não é dos fatos que extraímos o objeto da psicologia.

Se dirá, por ejemplo que es preciso tomar, del behaviorismo y de la Erlebnispsychologie (psicología de la vivencia), lo que está en conforme con los hechos. "Pero, a que hechos? A los hechos psicológicos tal como los definió el behaviorismo o tal como los há definido la psicología introspectiva? Siendo estas definiciones contradictorias, si me ubico en una o en otra, uno de los domínios caerá por completo, y será imposible tomar a la vez de uno y del otro lo que esté “conforme hechos” (Politzer, 1965, p.47).

Sartre vai a fundo neste problema epistemológico e aponta que as pesquisas em psicologia utilizam-se de conceitos preestabelecidos para examinar os fatos, mas o fazem implicitamente. Caso contrário, como se diferenciaria os fatos emotivos daqueles que não o são? Como os conceitos a priori permanecem implícitos, e acabam sendo formados aleatoriamente, sem compromisso com a rigorosidade científica.

Na realidade, o psicólogo poderia ter-se apercebido, aqui, que já tem uma idéia de emoção, visto que, depois do exame dos fatos, traça uma linha de demarcação entre os fatos emotivos e aquêles que não o são: como poderia a experiência proporcionar-lhe um princípio de demarcação, se ele não o possuísse antes? Todavia, o psicólogo prefere limitar-se à crença de que os fatos se agrupam, por si próprios, ante o seu olhar (Sartre, 1965, p.12).

Faz-se necessário tornar presente, que a ciência não trabalha com os fatos, mas com fenômenos, enquanto conjunto de ocorrências. Dos fatos busca-se a relação entre eles de modo a chegar aos fenômenos, com sua articulação interna. É neste sentido que Sartre ancora- se na verificação de Husserl com relação a incomensurabilidade entre os fatos e as essências, ou seja, na constatação de que pela descrição dos fatos não teremos jamais as essências, ou em outros temos, a demarcação do fenômeno (Sartre,1965, p.14). A descrição de infinitas imagem

ou situações emotivas, por si só, nunca nos darão a essência dos fenômenos da imaginação ou da emoção. A essência é o que faz uma emoção, sempre singular e única, ser uma emoção e não qualquer outro fenômeno. Demarcar a essência é verificar as condições de possibilidade de um fenômeno ocorrer. Sendo assim, essa essência é a mesma em qualquer fenômeno emotivo, ou seja, “é a mesma para qualquer homem” (1996, p.16) e como afirma Sartre “a primeira tarefa do psicólogo é explicitá-la, descrevê-la, fixá-la” (1996, p.16).

Será mesmo necessário reconhecer que só as essências permitem classificar e examinar os fatos. Se não recorrêssemos implicitamente à essência de emoção, por exemplo, ser-nos-ia impossível distinguir, entre a massa dos fatos físicos, o grupo específico da emotividade. A Fenomenologia indicará, portanto, já que do mesmo modo, recorremos implicitamente à essência da emoção que recorramos também de uma forma explícita e que fixemos de uma vez para sempre, por meio de conceitos, o conteúdo dessa essência (Sartre, 1965, p.14).

Essa crítica epistemológica de Sartre à Psicologia, que acumula fatos desordenadamente sem a demarcação científica do seu objeto de estudo, recai deste modo, sobre um problema de relação entre os fatos singulares e a sua essência, ou seja, sobre um problema de ordem ontológica. Isto é o mesmo que dizer que desdobra da falta de elucidação do ser da realidade e de esclarecimento da relação do singular com o universal, ou seja, um problema de existência e essência.

Sartre constatou portanto, a necessidade de, antes de prosseguir com o levantamento de fatos, clarear as essências, ou seja, definir os fenômenos psicológicos segundo o processo científico. Entretanto, no decorrer desta empresa, deparou-se com um problema ontológico: qual a consistência do ser do sujeito e do ser do objeto para que essa demarcação faça-se possível? Como definir, demarcar o objeto, garantindo que sua objetividade não se diluirá nas idéias do sujeito? E, por outro lado, como assegurar que é o sujeito que produz conhecimento e não as verdades que se apresentam diante de certos homens eleitos? Questões como estas somente poderiam ser resolvidas com o estudo do ser da realidade, ou seja, a verificação ontológica destes dois pólos: o sujeito e o objeto, ou o homem e mundo.

É neste sentido que Sartre constatou que não se fazia possível iniciar pela Psicologia uma vez que a ontologia não tinha esclarecido de modo satisfatório estas questões de base. Fazia-se necessário antes de adentrar na Psicologia, estabelecer uma ontologia que servisse de sustentação para uma Psicologia científica.

A Psicologia, encarada como ciência de certos fatos humanos, não poderia ser um início, visto que os fatos psíquicos com que nos deparamos nunca são os primeiros. São, sim, na sua estrutura essencial, reações do homem contra o mundo; pressupõem, portanto, o homem e o mundo e não podem assumir o seu verdadeiro sentido se, primeiramente, essas duas noções não forem elucidadas (Sartre, 1965, p. 15).

Fazia-se necessário assim elucidar as noções de homem e de mundo, ou em outros temos, a condição ontológica que esclarece a condição de possibilidade da ciência, pois enquanto a relação do sujeito que investiga com o objeto que é investigado não for devidamente esclarecida, a possibilidade de produzir conhecimento científico é sempre posta em questão, e conseqüentemente a Psicologia enquanto ciência sempre remetida ao infinito. Pois, ao fim das contas, como produzir ciência se a definição do objeto depende das idéias do sujeito que investiga? Ou, por outro lado, o que vem a ser a ciência se o conhecimento simplesmente for encontrado já pronto pelo sujeito que o descobre?