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O problema da requisição dos barcos alemães

Foi pois, num contexto de agravamento do deficit de produtos alimentares e das dificuldades crescentes de importação, devido à desorganização da rede da marinha mercante internacional, que o Governo português decidiu decretar a requisição dos navios alemães surtos em portos nacionais. Certamente, outras razões pesaram na decisão do Governo, a começar pela vontade de abandonar a neutralidade e assumir um lugar no conflito europeu, ao lado dos Aliados. No entanto, para o nosso estudo, interessa-nos, sobretudo, perceber a relação com o problema das subsistências, de resto usado pelo Governo como pretexto da requisição dos navios alemães.

O jornal O Primeiro de Janeiro, de 1 de Março de 1916, fazia eco de uma notícia sobre os barcos alemães que estavam «recolhidos» em portos portugueses, devido à neutralidade de Portugal. Corriam boatos de que estes barcos estariam a ser utilizados por Portugal, para o transporte de produtos alimentares. Os vespertinos falavam de um «ultimatum» alemão, que foi desmentido. Dizia-se que este país queria saber quantos navios Portugal precisava para ocorrer à crise das subsistências. Havia informações de que inúmeros marinheiros e comandantes dos navios já os tinham abandonado e de que muitos já tinham sido evacuados para Vigo, por via-férrea. Estes barcos estavam ao largo desde o início da guerra, dezoito meses antes. Os súbditos alemães residentes em Portugal começaram a vender os seus bens e a abandonar o país.53

Este jornal informava que o cônsul alemão tinha sido convocado a comparecer junto dos mesmos, para se proceder ao necessário inventário. Fora avisado de que, caso não comparecesse, seriam nomeadas duas testemunhas. O Governo tinha determinado que, para além das competências que tinham sido atribuídas à comissão encarregada de administrar os navios alemães em Decreto de 24 de Fevereiro de 1916, teria também

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que contratar nas capitanias dos portos o pessoal civil necessário para tripular estes navios.54

Estes barcos, que estiveram retidos nos portos por muito tempo, tiveram que sofrer avultadas reparações, agravadas pela sabotagem a que tinham sido sujeitos. As reparações prolongaram-se por vários meses. O primeiro a largar o porto foi o “Mailand,” de 1740 toneladas. O jornal ignorava se tinha saído já em serviço, ou só em experiência.55

Fonte: O ex-vapor Colmar agora chamado Machico — Ilustração Portuguesa

Brito Camacho, falando no Parlamento, em 25 de Fevereiro de 1916, disse que lera nos jornais que o Governo tinha efectuado a apropriação, não apenas dos barcos surtos no Tejo, mas em relação ao todo nacional. Perguntava se o Governo pretendia utilizar todos eles para o comércio marítimo português, para resolver o problema da alimentação pública e o transporte das matérias-primas de que o país necessitava. Disse que esta pergunta tinha a ver com o facto de a capacidade destes barcos ser bastante superior às necessidades. Por outro lado, lera nos jornais que estes barcos seriam «tripulados, ou pelo menos comandados, por oficiais da marinha de guerra, arvorando pavilhão e flâmula». Por serem por este facto considerados barcos de guerra, não poderiam ser utilizados para o tráfego mercantil.56

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O Primeiro de Janeiro, Ano LXIII, nº 52, Porto, 1 de Março de 1916, p. 1.

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Idem, ibidem.

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O Chefe do Governo, Afonso Costa, respondeu dizendo que a requisição destes barcos tinha sido legítima. A lei em que o Governo se fundou para assim proceder, era a lei das subsistências, de 7 de Fevereiro, cuja base 10ª dizia que «o Governo poderia requisitar, em qualquer ocasião, as matérias-primas e os meios de transporte que se encontrem nos domínios da República».57 Esclarecia também que os barcos tinham sido requisitados e não apropriados, pois que neste caso os barcos passariam a pertencer ao Estado e não era isso que acontecia. Que estes barcos eram muito necessários porque, como o transporte de mercadorias marítimas vinha até esta altura a ser efectuado por barcos estrangeiros, agora tal já não era possível, porque a Alemanha suspendera completamente as suas carreiras, devido ao bloqueio, e as navegações inglesas e francesas e estavam muito diminuídas.58

Declarara, também, que seriam necessários todos os barcos para poderem garantir o comércio para a Europa, Estados Unidos, Brasil e as colónias portuguesas. Sem estes barcos haveria o agudizar da crise das subsistências, não só na metrópole, como nas colónias, pois que elas eram, também, muito dependentes. E frisava: «assim é preciso uma grande frota marítima para conservar o preço que as subsistências e as matérias- primas que hoje atingiram»59.

Estas palavras seriam desmentidas, pouco tempo depois, com a cedência da maior parte dos barcos à Inglaterra.

Um articulista do jornal A Montanha referia que estava convencido de que o Ministro do Trabalho estava a trabalhar activamente para a solução da crise das subsistências. Acreditava que grandes eram as dificuldades, sendo a maior o problema dos transportes e que fora para o resolver que o Estado português requisitara os navios alemães ancorados nos nossos portos. Como tais navios tinham sido inutilizados pelas suas tripulações, só um ou dois estavam em condições para navegar. Referia que o antigo «Vesta», agora crismado de «Foz do Douro», que estava ancorado no Porto, necessitava de peças que já tinham sido pedidas à Inglaterra. O Governo tinha destinado este barco

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Diário da Câmara de Deputados, sessão de 25 de Fevereiro de 1916, p. 15

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Idem, ibidem.

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ao comércio do Porto. Concluía que era muito importante que este navio entrasse, quanto antes, em operação.60

Segundo o mesmo articulista, as ofertas de milho que apareciam não davam garantias nenhumas de cabal abastecimento do mercado, tanto mais que atingiam preços exorbitantes. Considerava que, para «o próximo abastecimento do país – e para o seu completo abastecimento são precisas, pelo menos, trinta a quarenta mil de toneladas – havia que limitar o açambarcamento e regular os preços». Sabia estarem encomendados três mil toneladas de açúcar a embarcar nos portos de Luanda e de Lourenço Marques. Não podia, no entanto, esquecer que, sem meios de transportes, não era possível trazer essa mercadoria para Portugal, tanto mais que eram afundados, diariamente, dois a três barcos e que algumas empresas internacionais de navegação amarraram os seus barcos nos portos, num movimento de pânico bem justificado.61

Não nos podemos esquecer de que a marinha mercante portuguesa era muito exígua e que o grosso do comércio internacional português era transportado por navios estrangeiros. Era uma debilidade tanto mais incompreensível quanto Portugal acabara de ceder à Inglaterra a maior parte dos barcos alemães apreendidos. Até o barco destinado a ficar ao serviço dos comerciantes do Porto só efectuou uma viagem.

O Jornal Pátria, na sua edição de 10 de Julho de 1917, comentava que, se o Governo português não tivesse cedido os navios alemães a uma casa inglesa, que tirava um grande partido na sua utilização, e fizesse carreiras de navegação entre a metrópole e as nossas colónias, entre Lisboa e o Brasil, América do Norte e a própria Inglaterra, o país não estaria com tantas privações, muitas delas por falta de transportes marítimos próprios.

Dos 72 navios apreendidos, o Governo cedeu 80 % à casa Furness & Co., de Londres, ficando Portugal absolutamente privado de transportes para as necessidades do seu comércio e à mercê da marinha mercante estrangeira. O resultado disto foi a paralisação quase completa da nossa exportação de vinhos, de cortiça, etc., e o quase esgotamento dos depósitos de arroz e de açúcar, ficando absolutamente vazios os celeiros.62

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A Montanha, Porto, 26 de Abril de 1916, p.1.

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A Montanha, Porto, 26 de Abril de 1916, p.1.

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Na sessão de Câmara de 20 de Julho de 1917, o Presidente da Comissão Executiva, Eduardo Santos Silva, protestava, em nome da Câmara, contra o facto de a Comissão de Transportes ter resolvido entregar a administração do vapor «Trafaria» a uma entidade particular. Afirmava, que foi uma «resolução que coisa alguma pode justificar e que só redunda em desprestígio desta Câmara e das entidades que com ela administraram a primeira viagem de inteira harmonia com as instruções do Governo, que zelosamente cumpriram»63.