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OS GRANDES MODELOS ESTRUTURANTES DO PENSAMENTO NO OCIDENTE EUROPEU

28 Empregamos o termo “imaginal” no sentido dado a esse conceito pelo filósofo francês Henry Corbin (1903 1978): como ligado à imagem e à imaginação, mas não à imaginação como fantasia e sim como imaginação

1.2.1 O problema do conhecimento ou a gnosiologia

Como vimos, o início do novo modelo ou paradigma do pensamento ocidental se deu quando começou um questionamento metódico sobre as coisas (ta onta) ou sobre o mundo (kosmos) e seu princípio primeiro (arché), constituindo-se assim numa reflexão cosmológica, isto é, sobre a origem e a ordem do mundo. Depois disso, os filósofos passaram a questionar “qual era o princípio eterno que ordenava todas as coisas e que permanecia imutável sob a multiplicidade e transformação delas (...) concebido como fundo imperecível presente em todas as coisas, fazendo-as existir tais como são. Esse fundo presente em todas as coisas é o Ser” (CHAUI, 2009, p. 121). A pergunta predominante passou a ser então “O que é esse Ser (to on) que subjaz e sustenta todos os entes (ta onta)? Essa mudança assinalou a passagem na filosofia nascente de uma reflexão predominantemente cosmológica para o primado da ontologia, ou seja, a reflexão sistemática e rigorosa (logia) sobre esse Ser (ontos) de todos os entes (cf. ibid.).

Os primeiros filósofos consideravam que o ser humano era capaz de chegar a esse conhecimento do Ser, dos entes e do kosmos mediante essa reflexão metódica e sistemática, pois, sendo os seres humanos parte do mundo (kosmos) e da natureza (physis), e estes sendo organizados por uma razão suprema (lógos), então os seres humanos, como seres dotados de razão (lógos) e por esta razão ser parte do Lógos que rege o mundo, seriam naturalmente capazes de conhecer a natureza, o porquê dos entes e a natureza do Ser.

E então os filósofos começaram a formular, mesmo assim, algumas questões a respeito da própria natureza do conhecimento: “Pensamos com base no que percebemos ou pensamos negando o que percebemos? O pensamento continua, nega ou corrige a percepção? O modo como os seres nos aparecem é o modo como os seres realmente são?” (CHAUI, 2009, p. 123). Pensamos a partir do que os nossos sentidos percebem, ou o conhecimento verdadeiro é aquele que corrige ou mesmo que nega as percepções dos sentidos? Essas questões são gnosiológicas, isto é, são uma reflexão sistemática e rigorosa (logia em grego) sobre o conhecimento (gnose, em grego).

Assim, essa reflexão inicial a respeito do conhecimento levou-os a distinguir e relacionar de diferentes maneiras a percepção sensível e o pensamento, e a buscar entender as leis que regem o pensamento. Afinal, se este é uma “fração” do pensamento ou razão (lógos) que rege o mundo conforme certas leis, as leis do pensamento ou razão (lógos) que está no ser humano devem ser análogas às do lógos do mundo. Desse modo, mesmo antes de Sócrates e Platão, os filósofos anteriores como Heráclito, Parmênides, Demócrito etc. formularam as primeiras questões gnosiológicas e, mesmo antes de Aristóteles, as primeiras questões a respeito da lógica.

No entanto, embora esses filósofos afirmassem a possibilidade do conhecimento da verdade das coisas e do Ser, e explicassem o porquê dessa possibilidade, as divergências entre as cosmologias e as gnosiologias propostas por eles fizeram com que no século IV a. C. surgissem alguns filósofos, tais como Protágoras, Górgias, Isócrates, que concluíram pela impossibilidade de o homem conhecer a verdade das coisas, posto que, segundo eles, “se isso fosse possível, pensaríamos todos da mesma maneira e haveria uma única filosofia” (CHAUI, 2009, p. 123). Esse movimento filosófico, chamado posteriormente de sofista, passou então a defender que os seres humanos só podiam ter opiniões subjetivas sobre as coisas e que, por isso, as pessoas deveriam usar a linguagem para convencer os outros a adotar suas opiniões.

Para eles, uma vez que a verdade é uma questão de opinião e não de percepção da essências das coisas nem de reflexão que conduz à essência das coisas, a linguagem seria um instrumento mais importante do que a percepção (cf. CHAUI, 2009, p. 123).

Como vimos anteriormente, foi Sócrates que, distanciando-se tanto dos primeiros filósofos, que priorizaram o conhecimento da natureza (a cosmologia), quanto dos sofistas, que negavam a possibilidade de um conhecimento verdadeiro das coisas, priorizou o conhecimento da natureza humana (antropologia), buscando demonstrar que a verdade poderia sim ser conhecida, mas desde que o homem compreendesse sua própria natureza e, a partir desse conhecimento, pudesse compreender o caminho que tem de trilhar (o método) para chegar à verdade das coisas. Esse conhecimento de si ou autoconhecimento deveria conduzir o homem a concluir que possui uma alma racional, semelhante à alma do mundo, e que nessa alma estão as idéias de todas as coisas. Depois desse conhecimento da natureza humana, seria necessário um caminho para dar à luz a essas idéias ou essências das coisas que já estão inscritas em nossa alma. Para isso, deveríamos primeiro nos afastar das ilusões dos sentidos, que só nos dão a aparência das coisas, e das palavras, que só nos dão opiniões sobre as coisas. E esse parto (maiêutica) da essência ou da verdade das coisas se daria pelo exame das diversas opiniões e percepções das pessoas sobre determinada coisa, até que, após a enunciação de uma série de opiniões ou percepções diferentes ou contrárias, a pessoa questionanda encontrasse “em sua própria alma racional a idéia verdadeira ou a essência da coisa procurada”.

Platão, discípulo de Sócrates, e Aristóteles, aluno de Platão, primeiros filósofos do chamado “período sistemático” da filosofia, seguiram, aprofundaram e modificaram o método de Sócrates: Platão propôs a dialética (ver capítulo 1.2) e, Aristóteles, a lógica (ver capítulo 1.2). Além disso, definiram formas e graus de conhecimento e critérios para distinção entre conhecimento verdadeiro e opinião ou ilusão (cf. CHAUI, 2009, p. 123). Platão distinguiu “quatro formas ou graus de conhecimento, que vão do grau inferior ao superior: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual” (ibid.), os dois primeiros seriam fruto de um conhecimento sensível e, os dois últimos, de um conhecimento inteligível. Como observa CHAUI (ibid.): a crença é nossa confiança na verdade do conhecimento proveniente dos nossos sentidos; a opinião é nossa aceitação tanto do que percebemos com os sentidos quanto do que outras pessoas nos ensinaram a respeito das coisas. Esses dois primeiros graus de conhecimento são ilusórios, pois advêm apenas da aparência das coisas e correspondem às

sombras refletidas na parede da caverna descritas na alegoria dada por Platão no Livro VII da sua obra República. O terceiro grau, o do raciocínio, é um grau preparatório para o quarto e o mais elevado grau do conhecimento. Ele “treina e exercita nosso pensamento, purifica-o das sensações e opiniões e o prepara para a intuição intelectual, que conhece as essências das coisas” (CHAUI, 2009, p. 123) ou as Idéias, que são a natureza verdadeira e transcendente das coisas, que devem ao Bem não apenas sua inteligibilidade, mas também seu ser e sua essência. O instrumento mais perfeito para a purificação do racicínio (o terceiro nível do conhecimento) seria a matemática; e o instrumento mais perfeito para a intuição intelectual (quarto nível) seria a dialética. Para Platão, apenas o quarto grau do conhecimento é um conhecimento científico (episteme), pois os dois primeiros seriam apenas ilusórios ou opiniões (doxa) e o terceiro, seria preparatório para o quarto. Na teoria platônica a matemática remete também ao mundo inteligível, mas a uma região inferior deste, e é preparatória para a dialética, que remete às regiões intermediárias do mundo inteligível. Pois na matemática a alma utiliza figuras do mundo sensível para passar pelo raciocínio a seus modelos inteligíveis, enquanto a dialética ascendente já parte diretamente das idéias ou das essências para chegar ao cume do mundo inteligível, onde está a idéia do Bem.

E cada um desses quatro graus de conhecimento corresponde a um grau ou nível diferente da realidade e do ser, numa escada em que o quarto degrau ou o quarto nível é a contemplação pura das Idéias, em cujo ápice está o princípio supremo e absoluto do qual dependem todas as Idéias: o Bem, Deus. Portanto, para Platão, mesmo o nível mais alto de conhecimento divide- se em graus, pois primeiro há uma intuição intelectual das Idéias e da Idéia suprema: o Bem, o que, como Platão descreve no mito ou alegoria da caverna (República VII), é como contemplar o sol, ao sair de uma caverna: primeiro, a luz do sol cega; depois, a vista vai se acostumando e é possível olhar para as coisas que são iluminadas pelo sol; posteriormente, é possível contemplar o sol (metáfora do Bem supremo) refletido nas águas ou contemplar o céu à noite e ver a luz das estrelas e da lua; por fim, a vista ou a alma humana é capaz de contemplar diretamente o sol ou o Bem.

Essas diferentes etapas do quarto grau do conhecimento remetem, no seu cume, às diferentes etapas da contemplação mística, descrita por todas as grandes tradições espirituais. Embora não tenham sido aprofundadas diretamente por Platão, foram amplamente descritas pelos grandes neoplatônicos Plotino, Proclo, Jâmblico e Damásio, como relatamos anteriormente, no resumo que apresentamos da relação forte que se estabelece em Plotino (e nos

neoplatônicos em geral) entre mythos e logos. Por isso, o platonismo e o neoplatonismo sempre foram o elo forte de articulação entre a filosofia e a mística não só no cristianismo, mas também no islamismo e no judaísmo.

Aristóteles dividiu o conhecimento não em quatro graus, como Platão, mas em sete. No entanto, embora a divisão do conhecimento seja mais rica em graus, é mais pobre no que diz respeito às diversas etapas do grau mais alto, pois em Aristóteles esses diferentes níveis da contemplação do mundo inteligível não são enunciadas. Além disso, a divisão do conhecimento proposta por Aristóteles apresenta uma diferença qualitativa não absoluta entre os níveis inferiores (do conhecimento sensível) e os superiores (do conhecimento intelectual), mas como uma progressão na qual o de baixo permite o de cima e “vai sendo formado e enriquecido por acumulação das informações trazidas por todos os graus” (CHAUI, 2009, p. 124). Os sete graus propostos por ele são: sensação, percepção, imaginação, memória, linguagem, raciocínio e intuição intelectual. As informações trazidas pelas sensações organizam-se e permitem a percepção; as percepções organizam-se e permitem a imaginação; juntas, as duas primeiras permitem a memória, a linguagem e o raciocínio (cf. ibid.). No entanto, em uma das passagens entre os graus do conhecimento formulados em Aristóteles há uma ruptura semelhante àquela entre os graus do conhecimento propostos por Platão: a separação radical se dá “entre os seis primeiros graus e o último ou a intuição intelectual, que é um ato do pensamento puro e não depende dos graus anteriores” (ibid.). No entanto, para Aristóteles, diferentemente de Platão, isso não significa que os seis primeiros graus do conhecimento sejam ilusórios, mas significa apenas que oferecem um grau maior ou menor de verdade, cada um deles permitindo o acesso “a um aspecto do Ser ou da realidade” e, o sétimo ou mais alto, a intuição intelectual, permitindo o acesso ao “conhecimento dos princípios universais e necessários do pensamento (identidade, não-contradição, terceiro excluído) e dos primeiros princípios e das primeiras causas da realidade ou do Ser” (CHAUI, 2009, p. 124). Nos seis primeiros graus, o conhecimento é alcançado seja por indução seja por dedução (demonstração e provas). Porém, no sétimo “conhecemos o que é indemostrável (princípios) porque é condição de todas as demonstrações e raciocínios” (ibid.). Esses princípios indemonstráveis, que são alcançados diretamente pela intuição intelectual, são os axiomas, que fundamentam todas as disciplinas. Na Parte III, veremos que o desenvolvimento de uma axiomática comum entre os diferentes tipos de conhecimento implicados numa equipe transdisciplinar de pesquisadores acadêmicos e outros participantes portadores de saberes não-acadêmicos. E esta axiomática é um das características de uma das duas perspectivas de

transdisciplinaridade que aparece na pesquisa qualitativa que realizamos nas áreas da Educação, das Ciências da Saúde e do Meio Ambiente e que apresentamos na PARTE III.

Como observa Galeffi, o conhecimento filosófico, que, segundo Aristóteles, é o conhecimento “das primeiras causas e dos princípios das coisas” diferencia-se das outras formas de conhecimento pela sua finalidade, e “como sua finalidade diz respeito ao conhecimento

verdadeiro, isto é, ao conhecimento das causas e princípios do que é, o maior dos sábios será

aquele que melhor se aproximar do conhecimento universal de todas as coisas” [o destaque é do autor] (GALEFFI, 2001, p. 68). E tanto para Platão quanto para Aristóteles, quem deve governar é justamente esse sábio, pois ele é “capaz de tudo governar na unidade dos princípios e causas” (ibid., p. 69). E a filosofia, nessa perspectiva, é considerada como “a única ciência que possui autoridade e primazia sobre as demais ciências. Neste sentido, elas se aproxima do Absoluto ― ela se torna uma ciência Divina, uma ciência de Deus” (GALEFFI, 2001, p. 69).

Embora as questões da gnosiologia ou teoria do conhecimento tenham sido colocadas já pelos primeiros filósofos e aprofundadas por Sócrates, Platão e Aristóteles, foram os filósofos modernos, nos séculos XVII e XVIII, que as consideraram anteriores às questões da ontologia e como pré-condição tanto para a filosofia como para as ciências35. Voltamos a tratar deste tema no capítulo 1.4, quando apresentamos de maneira resumida o desenvolvimento do modelo ou paradigma científico.

Um dos motivos desse deslocamento da gnosiologia para a disciplina primeira da filosofia foi, como veremo no próximo capítulo (que trata do desenvolvimento do modelo ou paradigma teológico), a presença das três religiões abrahamicas: judaísmo, cristianismo e islamismo, com seus filósofos e teólogos, que se tornaram o modelo de pensamento dominante no Ocidente entre os séculos V e XV d. C. “As três religiões do Livro”, como são chamadas essas três religiões, partiam da noção de Queda do primeiro ser humano, do primeiro Adão andrógino36, que tinha inicialmente um corpo e uma inteligência da mesma natureza de um

35 Como vimos no capítulo 1.2.1, dentre essas questões gnosiológicas estão: “Pensamos com base no que percebemos ou pensamos negando o que percebemos? O pensamento continua, nega ou corrige a percepção? O modo como os seres nos aparecem é o modo como os seres realmente são?” (CHAUI, 2009, p. 123). Pensamos a partir do que os nossos sentidos percebem, ou conhecimento verdadeiro é aquele que corrige ou até mesmo que nega as percepções dos sentidos?

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Na tradição judaica há descrições minuciosas da potência desse primeiro Homem, chamado de Adam Kadmon, o Adão Arquetípico ou Primordial (ver O Zohar, O livro do esplendor. São Paulo: Polar, 2006. p. 313). Há

anjo (e até superior à dos anjos) e, portanto, tinha acesso direto aos conhecimentos divinos ou às essências de todas as coisas ― tanto que podia dar o nome a todas as coisas, porque extraía o nome da contemplação direta das essências (cf. Gênesis, 2: 20). Devido às várias quedas ou afastamentos do ser Humano dessa sua natureza original, ele passou a estar cada vez mais separado da inteligência divina e da natureza. Por isso, as reflexões filosóficas no âmbito desse novo modelo de pensamento dominante no Ocidente, o modelo teológico, partiam desse pressuposto da separação entre o homem decaído e a natureza das coisas ou entre o homem decaído e a inteligência divina, que tudo sabe, pois tudo vê. Para as tradições do Livro, a misericórdia divina, de tempos em tempos suprimia essa separação causada pela Queda mediante revelações sobre as verdades a respeito de Deus, do Mundo e do Homem concedidas através de profetas, que as retransmitiam para suas comunidades. Vimos no capítulo 1.1 que esses conceitos relativos a diferentes níveis de realidade e à Queda do ser humano de uma realidade mais perfeita para este nível menos perfeito de realidade são alguns dos que estão presentes nos mitos de todas as grandes culturas tradicionais ou nas sabedorias ancestrais dos diversos povos, constituindo uma “invariância antropológica” (cf. PAUL, 2009, 2012), a partir da qual torna-se fácil um diálogo transcultural. Voltaremos a este tema várias vezes nos próximos capítulos. Também eram dessa natureza as revelações recebidas pelos poetas- videntes ou poetas-profetas (aedos) da Grécia Antiga, as quais deram origem aos mitos gregos fundadores. Também é dessa natureza a revelação que receberam e recebem os grandes xamãs das tradições ancestrais, bem como as que receberam os sete Rishis37 da tradição hindu antiga, e as que receberam e recebem alguns grandes lamas do budismo tibetano38 etc.

Com isso, durante os dez séculos da chamada Filosofia Medieval (que descreveremos de maneira resumida no próximo item), durante os quais o modelo teológico foi predominante, os filósofos trabalharam com essa distinção entre os conhecimentos que a nossa razão pode alcançar por si mesma e os conhecimentos que só podem ser alcançados mediante uma revelação divina (cf. CHAUI, 2009, p. 125), definindo, portanto, duas maneiras de conhecer: pela razão natural e finita (a “luz natural”) e pela revelação (a “luz sobrenatural”). Por isso, para os filósofos desse longo período, era normal que o conhecimento racional estivesse

também uma descrição bem detalhada desse primeiro Homem nas obras do metafísico e visionário alemão Jacob Boehme (1575-1624) e nas obras da visionária católica alemã Anne Caterine Emmerich (1774-1824).

37 Segundo a tradição hindu, os Rishi foram visionários para os quais, mediante a abertura para estados mais elevados de consciência, os Vedas (as Escrituras Sagradas do hinduísmo) foram originalmente revelados há aproximadamente 3000 anos.

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São os ensinamentos revelados, chamados de Terma (tesouro escondido), que são encontrados por grandes lamas chamados de tertons (em tibetano, significa “descobridor de tesouros escondidos”).

subordinado aos conhecimentos revelados pelos profetas, não podendo haver contradição entre as verdades da razão e as verdades da revelação, pois, devido à Queda, a razão natural do homem normal teria enormes limites, que só poderiam ser superados pela revelação.

Como veremos mais adiante, durante esses dez séculos da Filosofia Medieval, os filósofos propuseram métodos para o bom uso da razão natural e para sua harmonização com os conhecimentos da Revelação. Assim como Platão e Aristóteles tinham definido os graus do conhecimento e a ruptura entre os conhecimentos inferiores e os mais altos, alcançados pela intuição intelectual, os filósofos cristãos, judeus e muçulmanos colocaram mais um degrau na escada do conhecimento proposta por Platão e Aristóteles: certos conhecimentos de mistérios divinos que só podiam ser alcançados por uma revelação divina.

Veremos no próximo item que, no final desse longo período da Filosofia Medieval, rupturas na Escolástica e nas instituições da sociedade medieval levaram ao desenvolvimento de novas reflexões, nas quais a razão procurou ficar cada vez mais autônoma em relação à revelação. Nessa passagem entre a Idade Média e a Idade Moderna, uma corrente de pensamento na própria Escolástica foi se tornando cada vez mais numerosa: o nominalismo, que propunha a separação entre filosofia e teologia ou entre razão e revelação. Começaram a surgir alguns elementos de uma ciência nova, independente daquela de Aristóteles; além disso, o poder papal sobre o Imperador e sobre os diferentes Estados começou a ser questionado, o que acabou por resultar na Reforma Protestante e na criação de outros movimentos religiosos desvinculados da Igreja Católica Romana. Essas mudanças na Educação e na Política levaram ao declínio do feudalismo, ao desenvolvimento do capitalismo mercantil, ao desenvolvimento dos Estados independentes39, ao enfraquecimento da nobreza e ao fortalecimento da burguesia.

Nesse contexto novo, de “liberdade” intelectual, floresceram vários grupos místicos de vida comunitária que desvalorizavam a teologia em favor da experiência mística e da contemplação. Houve a revalorização da observação da natureza, sem a necessária mediação da ciência medieval ― seja na direção de uma relação nos moldes daquela “panteísta” da Grécia Antiga e da Roma Antiga, com todas as suas divindades, seja na direção de uma

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Suscitando uma ampla reflexão sobre os fundamentos desses novos Estados, de modo que apareceram as teorias políticas modernas de Maquiavel, Hobbes e Locke.

tentativa da compreensão de seus mecanismos e de sua utilização pelo homem. Voltaremos a tratar desses temas nos dois próximos capítulos.

Os filósofos modernos passaram então a se perguntar: “Como é possível o conhecimento da verdade?” Se a verdade está no intelecto infinito de Deus e escondida de nossa razão finita, como essa razão finita pode, nos estritos limites de suas possibilidades, chegar a um saber verdadeiro? Ao recusarem o poder que era atribuído às autoridades das igrejas sobre as verdades que podiam ser alcançadas pela razão, estabelecendo uma distinção clara entre os conhecimentos de razão e os conhecimentos de revelação (como veremos, por exemplo, com Bacon, Descartes, Galileu e Newton), o problema da justificação de como os conhecimentos de razão são possíveis tornou-se central na filosofia, e os filósofos modernos começaram a examinar novamente a capacidade humana de conhecer. Como veremos (capítulos 1.4 e 2.1), os filósofos que iniciaram essa reflexão que colocou a teoria do conhecimento como anterior a todas as outras foram Francis Bacon e René Descartes, partindo de premissas bem distintas quanto à forma de delimitar a verdade do conhecimento racional como um campo