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2 – O problema do conhecimento 

No documento Portal Luz Espírita (páginas 127-130)

Já  vimos,  nos  capítulos  anteriores,  que  o  problema  do  conhecimento  se  apresenta  como  um  processo  histórico,  que  se  desenvolve  através  de  fases  sucessivas,  precisamente  definidas.  O  que  dissemos  da  tradição  filosófica  reafirma  essa tese. Ao estudar os horizontes culturais, vimos que o conhecimento positivo só

se  tornou  possível  com  a  superação  das  fases  anímica,  mítica  e  religiosa,  no  momento em que as ciências começaram a desenvolver­se. 

Kardec  explica,  no  capítulo  primeiro  de A  GÊNESE,  que  o  Espiritismo  só  poderia  aparecer  depois  do  desenvolvimento  das  ciências.  Que  diríamos  disso,  ao  lembrar  que  as  ciências,  segundo  vimos  acima,  deram  origem  ao  materialismo?  A  Filosofia  Espírita  é  dialética:  explica  a  realidade  através  das  suas  próprias  contradições.  O  aparecimento  das  ciências  e  seu  desenvolvimento  colocaram  o  homem  diante  da  realidade  objetiva.  Essa  realidade  afugentou  os  fantasmas  da  superstição, mas ao mesmo tempo facilitou a compreensão do fenômeno mediúnico.  Se, por um lado, as pessoas mais apegadas ao plano físico negaram a existência de  vida além da matéria, por outro lado, as pessoas mais desapegadas foram capazes de  interpretar  a  mediunidade  de  maneira  racional.  A  consequência  apresentou­se  de  maneira  dupla:  surgiu  o  materialismo,  mas  surgiu  também  o  espiritualismo  científico. 

O  Espiritismo  se  apresenta,  assim,  como  um  processo  gnoseológico  especial,  ou  seja,  como  uma  forma  especial  do  processo  do  conhecimento.  Superadas  as  fases  anteriores  da  evolução,  o  homem  se  torna  apto  a  captar  a  realidade de maneira mais intensa. Desapareceram os embaraços da superstição, e o  campo  visual  do  homem  se  tomou  mais  claro  e  mais  amplo.  Liberto  do  temor  de  Deus  e  do  Diabo,  o  homem  se  reconhece  a  si  mesmo  como  uma  inteligência  autônoma, atuante na matéria. Ao reconhecer isso, percebe que a dualidade espírito­  matéria, anteriormente percebida de maneira confusa, esclarece­se. 

A inteligência humana é um poder atuante, que supera também  o mistério  da morte. O desenvolvimento e o treinamento da razão através da Idade Média, e a  consequente eclosão do racionalismo na Renascença, liberto da ganga das emoções  primitivas  e  das  elaborações  teológicas  do  misticismo,  conferem  ao  homem  a  maturidade suficiente para enfrentar a realidade como ela é. Os fenômenos anímicos  e  mediúnicos  do  passado  podem  agora  ser  examinados  de  maneira  racional.  A  captação da realidade já não é mais emocional. As categorias da razão definiram­se  e aguçaram­se, permitindo uma captação direta do “aqui” e do “agora” existenciais,  sem  a  mescla  das  sensações  confusas  e  das  emoções  turbilhonantes  do  passado.  A  razão,  dominando  o  caos  das  sensações  e  das  emoções,  equaciona  de  novo  a  realidade psicofísica: põe o psiquismo humano e a realidade exterior sobre a mesa,  para uma avaliação direta. Surge, em consequência dessa nova forma de captação e  de julgamento do real, uma nova concepção do mundo. Essa concepção é ao mesmo  tempo  crítica  e  genética.  Do  ponto  de  vista  crítico,  ela  julga  o  passado,  a  antiga  concepção  e  a  antiga  posição  do  homem  diante  do  mundo.  Do  ponto  de  vista  genético, ela constrói uma nova concepção e uma nova posição. Lembrando ainda a  lei dos três Estados, de Augusto Comte, poderemos dizer que a nova concepção se  apresenta  como  uma  síntese  da  oposição  dialética  entre  o  “estado  teológico”  e  o

“estado positivo”. Por isso mesmo é que a dualidade de consequências, a que acima  nos referimos, teria fatalmente de ocorrer. 

Ao sair do “estado teológico” e entrar no "estado positivo", o homem tinha  fatalmente  de  elaborar  a  sua  concepção  positiva  do  mundo,  ou  seja,  a  concepção  materialista.  No  mesmo  instante,  porém,  esta  concepção  surgia  como  oposição  à  concepção  teológica.  O  processo  dialético  se  completa  na  síntese  espírita:  a  concepção  espírita  do  mundo  reúne  o  misticismo  teológico  e  o  cientificismo  positivo. Daí a sua natureza de espiritualismo­científico. Julgar o mundo é avaliá­lo.  A concepção  espírita equivale, portanto, a uma reavaliação do mundo. Diante dela,  os  antigos  valores  estão  peremptos,  superados.  Também  para  a  concepção  materialista,  os  antigos  valores  tinham  perecido.  O  materialismo  substituíra  os  valores espirituais e morais pelos valores utilitários. Mas o Espiritismo reformula os  dois campos e modifica a posição de ambos. Os valores espirituais são reconduzidos  ao  primado  do  espírito,  mas  os  valores  morais  e  materiais não  são  desprezados  ou  subestimados, como na antiga Mística. 

Há  um  novo  critério  valorativo:  a  lei  de  evolução.  Este  critério  substitui,  por  um  processo  de  síntese  dialética,  os  dois  critérios  que  anteriormente  se  opunham:  o  salvacionista  e  o  pragmático.  A  salvação  não  está  mais  na  fuga  ao  utilitário, mas no bom uso do utilitário, em favor da evolução. A axiologia espírita  não é antropológica. Sua escala de valores não funciona em relação ao homem, mas  à realidade universal. É o que vemos, por exemplo, nesta afirmação de Kardec, em  seu comentário ao item 236 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS: “Nada existe de inútil na  Natureza; cada coisa tem a sua finalidade, a sua destinação”. As coisas valem, não  em referência aos interesses passageiros do homem, mas em referência ao processo  cósmico  de  evolução,  dentro  do  qual  o  homem  se  encontra  como  uma  forma  passageira do Espírito. Este é imortal, e por isso mesmo sabe que as circunstâncias  não  podem  determinar  uma  escala  real  de  valores.  O  próprio  homem  vale  pelo  quanto evolui, e não pelo que é ou pelo que aparenta ser, num dado momento. Essa  nova axiologia tem suas consequências no plano da cosmologia e da cosmogonia. 

Na  cosmologia,  Kardec  afirma:  “Todas  as  leis  da  Natureza  são  leis  divinas”. (cap. I de O LIVRO DOS ESPÍRITOS) A estrutura de leis naturais do cosmos  não  se  restringe  ao  plano  físico,  porque  é  uma  estrutura  global,  que  abrange,  segundo os termos da moderna ontologia do objeto, todas as regiões ontológicas. A  cosmologia espírita é íntegra, e não dualista. É um todo, em que não há sobrenatural  e  natural,  pois  o  cosmos  é  um  processo  único.  Na  cosmogonia  é  que  vai  surgir  o  dualismo, porque o cosmos aparece como criação. 

Temos então a dualidade Criador e Criatura. Mas essa dualidade, mesmo no  plano cosmogônico, que pertence à religião espírita, explica­se como causa e efeito,  numa espécie de polaridade, que, segundo advertem os Espíritos, nossa inteligência  atual não consegue apreender em sua verdadeira natureza. Não obstante, a evolução

nos assegura, desde já, que a compreensão se tornará possível no futuro, pois é dado  ao homem saber, na proporção em que ele cresce espiritualmente. Chegamos assim a  um  aspecto  da  teoria  espírita  do  conhecimento  que  é  de  fundamental  importância,  porque  resolve  naturalmente  o  velho  problema  filosófico  dos  limites  do  saber,  e  resolve até mesmo  o impasse a que, nesse terreno, chegou o pensamento kantiano.  Para a Filosofia Espírita, não há zonas interditas ao conhecimento humano. O saber  metafísico é tão possível quanto o racional. A própria razão transcende os limites de  suas categorias, na proporção em que novas experiências lhe vão sendo acessíveis. O  homem é um processo, e na proporção em que se desenvolve, supera­se a si mesmo,  superando as suas limitações. A interdição às zonas superiores do conhecimento não  decorre de nenhuma determinação misteriosa, e nem mesmo de qualquer espécie de  incapacidade, mas apenas da falta de crescimento, de desenvolvimento, de evolução  e maturação do homem. 

O  problema  das  origens  é,  por  enquanto,  de  ordem  religiosa,  ou  como  Kardec prefere dizer: moral. Deus criou o mundo, mas como e por que, ainda não o  podemos  saber.  O  que  sabemos,  sem  dúvida  possível,  é  que  o  mundo  existe  e  nós  existimos nele. A Filosofia Espírita parte dessa realidade existencial, para investigar  as  suas  dimensões,  que  não  se  restringem  ao  simples  existir,  mas  se  ampliam  no  evoluir, no vir­a­ser. O que sabemos é que o homem, como todas as coisas, evolui, e  que o destino do homem é transcender­se a si mesmo. 

No documento Portal Luz Espírita (páginas 127-130)

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