Já vimos, nos capítulos anteriores, que o problema do conhecimento se apresenta como um processo histórico, que se desenvolve através de fases sucessivas, precisamente definidas. O que dissemos da tradição filosófica reafirma essa tese. Ao estudar os horizontes culturais, vimos que o conhecimento positivo só
se tornou possível com a superação das fases anímica, mítica e religiosa, no momento em que as ciências começaram a desenvolverse.
Kardec explica, no capítulo primeiro de A GÊNESE, que o Espiritismo só poderia aparecer depois do desenvolvimento das ciências. Que diríamos disso, ao lembrar que as ciências, segundo vimos acima, deram origem ao materialismo? A Filosofia Espírita é dialética: explica a realidade através das suas próprias contradições. O aparecimento das ciências e seu desenvolvimento colocaram o homem diante da realidade objetiva. Essa realidade afugentou os fantasmas da superstição, mas ao mesmo tempo facilitou a compreensão do fenômeno mediúnico. Se, por um lado, as pessoas mais apegadas ao plano físico negaram a existência de vida além da matéria, por outro lado, as pessoas mais desapegadas foram capazes de interpretar a mediunidade de maneira racional. A consequência apresentouse de maneira dupla: surgiu o materialismo, mas surgiu também o espiritualismo científico.
O Espiritismo se apresenta, assim, como um processo gnoseológico especial, ou seja, como uma forma especial do processo do conhecimento. Superadas as fases anteriores da evolução, o homem se torna apto a captar a realidade de maneira mais intensa. Desapareceram os embaraços da superstição, e o campo visual do homem se tomou mais claro e mais amplo. Liberto do temor de Deus e do Diabo, o homem se reconhece a si mesmo como uma inteligência autônoma, atuante na matéria. Ao reconhecer isso, percebe que a dualidade espírito matéria, anteriormente percebida de maneira confusa, esclarecese.
A inteligência humana é um poder atuante, que supera também o mistério da morte. O desenvolvimento e o treinamento da razão através da Idade Média, e a consequente eclosão do racionalismo na Renascença, liberto da ganga das emoções primitivas e das elaborações teológicas do misticismo, conferem ao homem a maturidade suficiente para enfrentar a realidade como ela é. Os fenômenos anímicos e mediúnicos do passado podem agora ser examinados de maneira racional. A captação da realidade já não é mais emocional. As categorias da razão definiramse e aguçaramse, permitindo uma captação direta do “aqui” e do “agora” existenciais, sem a mescla das sensações confusas e das emoções turbilhonantes do passado. A razão, dominando o caos das sensações e das emoções, equaciona de novo a realidade psicofísica: põe o psiquismo humano e a realidade exterior sobre a mesa, para uma avaliação direta. Surge, em consequência dessa nova forma de captação e de julgamento do real, uma nova concepção do mundo. Essa concepção é ao mesmo tempo crítica e genética. Do ponto de vista crítico, ela julga o passado, a antiga concepção e a antiga posição do homem diante do mundo. Do ponto de vista genético, ela constrói uma nova concepção e uma nova posição. Lembrando ainda a lei dos três Estados, de Augusto Comte, poderemos dizer que a nova concepção se apresenta como uma síntese da oposição dialética entre o “estado teológico” e o
“estado positivo”. Por isso mesmo é que a dualidade de consequências, a que acima nos referimos, teria fatalmente de ocorrer.
Ao sair do “estado teológico” e entrar no "estado positivo", o homem tinha fatalmente de elaborar a sua concepção positiva do mundo, ou seja, a concepção materialista. No mesmo instante, porém, esta concepção surgia como oposição à concepção teológica. O processo dialético se completa na síntese espírita: a concepção espírita do mundo reúne o misticismo teológico e o cientificismo positivo. Daí a sua natureza de espiritualismocientífico. Julgar o mundo é avaliálo. A concepção espírita equivale, portanto, a uma reavaliação do mundo. Diante dela, os antigos valores estão peremptos, superados. Também para a concepção materialista, os antigos valores tinham perecido. O materialismo substituíra os valores espirituais e morais pelos valores utilitários. Mas o Espiritismo reformula os dois campos e modifica a posição de ambos. Os valores espirituais são reconduzidos ao primado do espírito, mas os valores morais e materiais não são desprezados ou subestimados, como na antiga Mística.
Há um novo critério valorativo: a lei de evolução. Este critério substitui, por um processo de síntese dialética, os dois critérios que anteriormente se opunham: o salvacionista e o pragmático. A salvação não está mais na fuga ao utilitário, mas no bom uso do utilitário, em favor da evolução. A axiologia espírita não é antropológica. Sua escala de valores não funciona em relação ao homem, mas à realidade universal. É o que vemos, por exemplo, nesta afirmação de Kardec, em seu comentário ao item 236 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS: “Nada existe de inútil na Natureza; cada coisa tem a sua finalidade, a sua destinação”. As coisas valem, não em referência aos interesses passageiros do homem, mas em referência ao processo cósmico de evolução, dentro do qual o homem se encontra como uma forma passageira do Espírito. Este é imortal, e por isso mesmo sabe que as circunstâncias não podem determinar uma escala real de valores. O próprio homem vale pelo quanto evolui, e não pelo que é ou pelo que aparenta ser, num dado momento. Essa nova axiologia tem suas consequências no plano da cosmologia e da cosmogonia.
Na cosmologia, Kardec afirma: “Todas as leis da Natureza são leis divinas”. (cap. I de O LIVRO DOS ESPÍRITOS) A estrutura de leis naturais do cosmos não se restringe ao plano físico, porque é uma estrutura global, que abrange, segundo os termos da moderna ontologia do objeto, todas as regiões ontológicas. A cosmologia espírita é íntegra, e não dualista. É um todo, em que não há sobrenatural e natural, pois o cosmos é um processo único. Na cosmogonia é que vai surgir o dualismo, porque o cosmos aparece como criação.
Temos então a dualidade Criador e Criatura. Mas essa dualidade, mesmo no plano cosmogônico, que pertence à religião espírita, explicase como causa e efeito, numa espécie de polaridade, que, segundo advertem os Espíritos, nossa inteligência atual não consegue apreender em sua verdadeira natureza. Não obstante, a evolução
nos assegura, desde já, que a compreensão se tornará possível no futuro, pois é dado ao homem saber, na proporção em que ele cresce espiritualmente. Chegamos assim a um aspecto da teoria espírita do conhecimento que é de fundamental importância, porque resolve naturalmente o velho problema filosófico dos limites do saber, e resolve até mesmo o impasse a que, nesse terreno, chegou o pensamento kantiano. Para a Filosofia Espírita, não há zonas interditas ao conhecimento humano. O saber metafísico é tão possível quanto o racional. A própria razão transcende os limites de suas categorias, na proporção em que novas experiências lhe vão sendo acessíveis. O homem é um processo, e na proporção em que se desenvolve, superase a si mesmo, superando as suas limitações. A interdição às zonas superiores do conhecimento não decorre de nenhuma determinação misteriosa, e nem mesmo de qualquer espécie de incapacidade, mas apenas da falta de crescimento, de desenvolvimento, de evolução e maturação do homem.
O problema das origens é, por enquanto, de ordem religiosa, ou como Kardec prefere dizer: moral. Deus criou o mundo, mas como e por que, ainda não o podemos saber. O que sabemos, sem dúvida possível, é que o mundo existe e nós existimos nele. A Filosofia Espírita parte dessa realidade existencial, para investigar as suas dimensões, que não se restringem ao simples existir, mas se ampliam no evoluir, no viraser. O que sabemos é que o homem, como todas as coisas, evolui, e que o destino do homem é transcenderse a si mesmo.