2. O bioconservadorismo: proibir o melhoramento?
2.2 O problema dos contextos sociais injustos
Um sério problema do melhoramento biotecnológico, segundo bioconservadores, é que o melhoramento estará relacionado necessariamente a situações que reforçam injustiças. Por exemplo, situações em que a cor da pele ou a orientação sexual de um indivíduo são determinantes na opressão que o mesmo sofre em sociedades racistas ou homofóbicas seriam reforçadas, seja quando os pais
optassem por mudar tais características nos filhos, seja quando escolhessem tais características para os filhos. No contexto de injustiça, potencializarão a opressão, no primeiro caso, ou potencializarão que o filho seja vítima da opressão, no segundo. Pensemos nas situações de discriminação racial ou homofobia, tão presentes em países como o Brasil ou a Rússia, onde muitas pessoas com tal orientação sexual ou cor da pele sofrem violência ou preconceito. Tal contexto poderia influir na mentalidade dos pais a fim de que estes promovessem alteração genética da prole para reduzir a pressão social que o mesmo sofrerá, mas com isso, reforçam a dinâmica do preconceito.
Para Agar (2004), tal situação “acaba conspirando com o preconceito, piorando seus efeitos” e incorrendo que “concederá ao racismo e a homofobia uma eficácia sem precedentes.” Porém, se os pais escolhem que o filho tenha as características, como a homossexualidade, que os tornarão vítimas do preconceito, eles estariam prejudicando os filhos. Nesta segunda opção:
(...) se estamos a tratar de situações sociais atuais, vamos reconhecer que a homofobia ainda é comum em muitos lugares, apesar dos avanços na legislação anti-discriminação e melhorias em pelo menos algumas atitudes conscientes, as pessoas que se identificam como homossexuais são mais propensas a experimentar ostracismo social, assédio moral e agressão física. Como tal, a engenharia de um filho homossexual parece diminuir as opções de futuro de uma criança nesta sociedade.23 (GOERING, 2014, s/p, tradução nossa).
Levando em conta a situação acima, alguns pais poderão se sentir tentados a fazer o posto, favorecer geneticamente filhos de forma que estes sejam pareados com a parte mais homogênea e menos prejudicada de tal sociedade, heterossexuais e de pele mais clara. O mesmo ocorreria com pessoas que tivessem a possibilidade de se auto modificar a fim de que extirpassem de si certas características que poderiam trazer uma série de problemas de preconceitos sociais.
23“(..) if we attend to current social situations, we will recognize that homophobia is still common in
many quarters, despite advances in anti-discrimination legislation and improvements in at least some conscious attitudes, and people who identify as homosexual are more likely to experience social ostracism, bullying, and physical assault. As such, engineering a homosexual child might appear to decrease a child's future options in this society.”
A proposta que poderia ser dada para driblar tal problema, se aceitarmos que é de fato um problema, seria a de que modificações com objetivos estéticos ou com objetivos de modificações de orientação sexual ou racial poderiam ser proibidas por não serem de fato melhoramentos. Se a definição inicialmente estipulada de melhoramento humano biotecnológico for utilizada para o exame do presente problema – ver tópico 1.1 – fica claro que a prática do melhoramento em nada se compromete com alterações relacionadas a condições em contextos de preconceito e discriminação. O problema parece não se aplicar a questão do melhoramento humano biotecnológico, pois, não trata necessariamente de melhoramento como definido aqui de antemão, mas sim de modificações que seriam consideradas benéficas ou não mediante contextos deturpados nos quais cor de pele e orientação sexual fossem motivos bastante para haver algum tipo de exclusão ou de violência direta e indireta. (AGAR, 2004; GOERING 2014).
Outra faceta do problema dos contextos injustos é o suposto dano social que ocorreria pelo fato de que inicialmente apenas pessoas com um maior poder financeiro teriam acesso às tecnologias de melhoramento, ocasionando um aumento nas desigualdades sociais. Através da análise de Goering (2014) parece ser razoável afirmar que pessoas ricas possuem vantagens frente aos mais pobres e que as diferenças entre ricos e pobres seriam ainda maiores caso tecnologias de melhoramento humanos se tornassem disseminadas. As pessoas com mais condições financeiras teriam acesso às tecnologias de melhoramento, fazendo com que elas se tornassem, por exemplo, capazes de aprender mais rápido, guardar mais informações e terem uma saúde melhor, além de serem mais rápidos, fortes, inteligentes e com necessidade de dormir menos. Com isso os ricos teriam filhos mais poderosos e mais ricos ainda. As pessoas melhoradas conseguiriam ter melhores empregos e melhores condições de disputa no mercado de trabalho e em outras esferas da vida econômica e social, condições favoráveis ainda maiores do que já possuem hoje pelo fato de terem mais dinheiro que as pessoas pobres.
Todavia, tais tecnologias muitas das vezes não parecem diferir das vantagens que já são disponíveis para pessoas com melhores condições financeiras, com os melhores colégios, melhores cursos preparatórios para ingressar na universidade, escolas particulares de música e etc. (FOX 2007). Da mesma forma, pode-se comparar as intervenções genéticas com tecnologias como a matemática e a
agricultura, que inicialmente só estavam disponíveis para alguns e ainda assim é inegável que elas tenham tido uma grande importância para a humanidade. (BUCHANAN 2011apud GOERING 2014).
Outro gênero de saída apresentada por defensores das tecnologias de melhoramento seria apenas tornar as melhorias mais significativas disponíveis para todos, algo que se verá com mais força nas propostas de surgimento de uma sociedade transhumanista24 que teria como requisito básico a noção de ampla acessibilidade das pessoas a tecnologias de melhoramento, tanto para que todos tivessem certa igualdade, quanto para que um tipo de projeto transhumanista maior fosse efetivado (BOSTROM, 2005a; BUCHANAN 2011 apud GOERING 2014).
Pareada às propostas anteriores e em resposta ao problema, Green (2007) observa que na história da humanidade é perceptível que durante um período inicial algumas pessoas pagam o preço mais elevado pelas inovações e recebem o bônus de se beneficiar primeiro. Caso tais tecnologias demonstrem ser bem-sucedidas, os preços caem e elas se tornam mais acessíveis a toda a população. (apud GOERING, 2014), como ocorreu também com educação e saúde.