Cena IV – O curso que eles não sabiam que existia
4. Estudo de Caso
4.5 História do curso
4.6.5 O Problema dos Estilos
Nas próximas três seções nós iremos problematizar as três grandes dificuldades enfrentadas pelo ensino de Canto Popular, que foram identificados na introdução deste trabalho. A heterogeneidade de estilos, o dom, e a reduzida referência bibliográfica.
Primeiramente vamos abordar o “problema” do caráter múltiplo e plural da música popular, que tanto dificulta a sistematização do gênero.
Através da indústria fonográfica é possível levantar um grande histórico de muitos períodos desde o inicio das gravações mecânicas, as gravações da casa Edson. É possível estudar todo esse percurso até hoje. É um gênero que se consolidou e que vem se transformando e que é alicerce para obra de compositores e cantores importantíssimos para a historia da nossa canção da MP
67 Notar que “consumir” não significa adquirir produtos mediante compra. Este uso é apenas metafórico. O sentido
de dicionário da palavra é “destruir”.
68 Percebemos que também este conflito possui um equivalente oposto. Numa perspectiva capitalista o que o “artista”
quer passa a ser ganhar dinheiro, e este se sentirá tolhido pelo dever, que passa a ser fazer música classificada como boa.
brasileira urbana. Bom, o Brasil é um pais imenso, todo mundo já sabe, é um pais com muitos paises dentro dele, mas também temos uma unidade, mesmo assim eu não sei se seria possível um curso de graduação contemplar todas as manifestações musicais populares que ocorrem no Brasil. Porque a gente tem manifestações muito definidas, muito claras em mercados fonográficos locais. Por exemplo, você entra numa loja de disco em Porto Alegre você leva um susto. Eu levei um susto pelo menos, com a vastidão de música regional que existe ali e esta inserido no mercado fonográficos e que são músicos que tem uma característica especifica daquele povo daquele lugar, você vai pra Bahia a mesma coisa, se você vai pro Maranhão a mesma coisa. A gente tem um leque muito grande de gêneros e estilos. Eu acredito que o ideal fosse chegar a um ponto que a gente pudesse ter professores já com pesquisa desenvolvidas e trabalhos artísticos que contemplassem cada um desses focos. Porque e verdadeira impossível você dedicar uma vida estudar tudo isso sozinho, uma vida só é muito pouco.
DG
Regina Machado Isto que adjetivamos de problema é também um dos fatores que tornam este assunto tão interessante. A vastidão de padrões sonoros, parâmetros estéticos, conteúdos semióticos, com múltiplos níveis de enraizamento na sociedade, tem o potencial de colocar aluno e professor em terrenos totalmente dissemelhantes.
A postura relacionada a isso também está regulada por duas forças conflitantes. De um lado um discurso de total abertura, de aceitação, de curiosidade científica e valorização da diversidade. Do outro o reconhecimento que o perfil artístico pessoal daquele que ensina (carregado de preferências e referências) existe e influencia fortemente seu ensino.
A preocupação do grupo que fundou o grupo era de abertura a todos os estilos e gêneros de música popular
DG Ricardo Goldemberg A academia deve abordar todos os gêneros possíveis. E deixar essa questão a cada artista. Cada artista vai ter uma particular linguagem que ele vai se expressar melhor. Se nos vamos tentar fazer um curso que valorize as capacidades e qualidades dos alunos e felizmente eles são variados. A universidade tem que estar aberta as correntes.
A primeira grande dificuldade enfrentada ao começarmos o curso de música popular foi não se ter muita clareza do perfil do aluno. Então muitos de nós tínhamos experiência com aulas particulares. Eu tinha, outros também tinham, mas mesmo assim a gente nunca sabia o que vinha então a gente tinha um programa que era um media tirada através das experiências de cada um relatada o que tinha sido então foi se montando o curso levando em conta esse tipo de exigência.
DG Hilton Jorge Valente “Gogô” Eu priorizo, antes de mais nada, que o aluno percorra um estudo sobre a canção popular urbana brasileira. Porque esse gênero foi escolhido? Por vários motivos. Primeiro motivo mais importante é porque esse é o gênero que eu estudo, eu executo como artista
DG
Regina Machado O referencial maior foi o jazz americano, mais precisamente a canção norte americana, e aquela música popular do Brasil, notadamente o moderno samba e samba canção foram os dois gêneros adotados inicialmente no curso de músicapopular. Depois acompanhado a grande diversificação da sigla MPB ela é muito ampla hoje. Abordamos vários estilos.
DG Hilton Jorge Valente “Gogô” O repertório de música popular brasileira mudou muito. Não vou dizer que os outros gêneros.... os outros gêneros eram olhados assim com certa carga de preconceito, eu nunca olhei assim com muita igualdade a jovem guarda. Como nunca olhei com mesmo prazer que eu olho a bossa nova e o samba tradicional. Nunca vi a tropicália com esses olhos. Não posso desconhecê-la, mas a minha preferência pessoal sempre vai recorrer mais pra Tom Jobim, ao invés de Caetano Veloso.
DG Hilton Jorge Valente “Gogô” Como forma de enfrentar esta dificuldade pedagógica, de acomodar a multiplicidade, um dos entrevistados sintetizou uma sugestão. Trata-se de uma abordagem que chamaremos de “porta de entrada”, que propõe o ensino aprofundado em uma gama “bem escolhida” de estilos típicos que servirão de porta de entrada a conhecimento de conceitos fundamentais da música universal. Ou seja: a partir de uma aquisição direcionada de linguagens diversificadas, o aluno pode ir dando capilaridade ao seu estudo por si tendo a vantagem que conhecimentos básicos adquiridos em
um estilo são úteis nos outros. O paradigma associado aglomera os estilos em categorias genéricas (típicas), cada uma com uma estrutura interna de sub-estilos próprios. Estas categorias, por mais que sejam especializadas, são relacionadas entre si numa super-estrutura de semelhanças como numa grande rede. Tais conexões entre categorias expressam os muitos conhecimentos que são transferíveis de um estilo para outro.
Existem certos fatores, certos parâmetros, certos elementos que são comuns a maioria dos estilos, e aparecem em maior ou menor proporção, harmonia, ritmo. Melodia, né, e alguns instrumentos que são tradicionais e são usados. Para você aprender improvisação certo estilo ou aprender um gênero ou uma gama de estilos, você pode aprender primeiro um estilo como porta de entrada. Você aprende varias coisas, aprende a lidar com elementos daquele estilo de forma aprofundada quando passa pra outro fica mais fácil. Se aprender improvisação na música erudita, por exemplo, você vai ter mais facilidade de improvisar em música popular,
DG Rafael dos Santos A gente vai ter uma abordagem técnica vocal similar num baião, num maracatu, no xote, no samba, na bossa, no bolero, na valsa, no rock, você vai ter certas semelhanças de abordagem técnica.
DG
Regina Machado