CAPÍTULO 1 – PASSOS INICIAIS
1.3 O problema e a problemática
Como comentado na breve introdução, ao participar de todo esse processo de mudança em que o inglês assume o papel de língua mundial, está o(a) pesquisador(a), principalmente aquele(a) que se interessa em divulgar a sua pesquisa em periódicos internacionais, sob “crescente pressão para publicar suas pesquisas em inglês” (CURRY; LILLIS, 2015, p. 6). Para as autoras, essa situação é problemática, por duas razões:
Primeira: os cientistas que estão fora do contexto de inglês como língua dominante enfrentam problemas de equidade na pesquisa nos locais de publicação, particularmente nos periódicos de pesquisas internacionais de alto nível. Ao mesmo tempo são pressionados a publicarem em inglês (como principal critério para promoção e financiamento da pesquisa), são desiguais os meios para fazê-la, incluindo dinheiro para viagens de conferências e colaboração de pesquisa, biblioteca e outros recursos, e tempo para escrever em inglês. Segunda, mesmo sendo pesquisadores multilíngues, as condições materiais podem dificultar a sua publicação em inglês e a pesquisa global sofrer por não receber seus resultados de pesquisa, descobertas e metodologias. O resultado pode ser uma emergente monocultura acadêmica15 (CURRY; LILLIS, 2015, p. 6).
Sendo assim, faz-se necessário ouvir o que os(as) estudantes pesquisadores(as) em educação e ensino de Ciências pensam sobre essa situação, considerando que: 1) o inglês é uma língua franca da ciência (ORTIZ, 2004, p. 13); 2) o ensino de língua estrangeira no Brasil não favorece a aprendizagem de línguas adicionais na escola regular, sendo uma conquista mais individual; 3) o(a) pesquisador(a) deve atentar para o fenômeno da internacionalização, levando em consideração o uso privilegiado da língua inglesa na comunicação científica, no sentido de
15 No original: First, scholars outside of English-dominant contexts face issues of equity in their access to
publishing venues, particularly high-status English-medium research journals. While such scholars experience increasing pressure to publish in English (as a major criterion for promotion and research grants), they often have uneven access to the means to do so, including monies for conference travel and research collaboration, library and other resources, and time to write in English Second, even as multilingual scholars’ material conditions may hinder their English publishing, the global research community suffers from not receiving their research findings, insights, and methodologies. The result may be the emergence of […] an “academic monoculture.”
adquirir proficiência linguística na língua para produzir em inglês, se quiser ou precisar, mas, também, ampliar a sua capacidade de produção linguística em línguas não anglófonas, fortalecendo a perspectiva do multilinguismo; 4) o(a) cientista, quer queira ou não, é cobrado(a) a fazer uso da língua inglesa, principalmente em função dos projetos de internacionalização dos programas de pós-graduação stricto sensu; 5) o inglês da ciência não é tão aberto à diversidade linguística 6) o pesquisador em ensino de Ciências geralmente atua diretamente na formação de novos(as) pesquisadores(as); 7) é necessário compreender esse fenômeno cultural, político, econômico, linguístico para o fortalecimento da divulgação da pesquisa científica em ensino de Ciências em nível internacional.
1.4. Justificativa
O(a) pesquisador(a) que sabe a importância da sua pesquisa e tem interesse de fazê-la ultrapassar as fronteiras internacionais ou é incentivado a participar dos programas internacionais de fomento à pesquisa não consegue ignorar o inglês como uma língua da ciência. Além disso, na comunicação oral não acadêmica, o uso do inglês como língua franca permite um olhar mais sensível aos World English(es), às variações linguísticas de falantes de outras línguas e povos, buscando adequá-las ao contexto comunicativo, priorizando a inteligibilidade na interlocução e contemplando os instrumentos da oralidade (repetições, gestos etc.). Todavia, o inglês do registro científico não é muito aberto a essas adequações, exige rigorosidade metódica geralmente conforme as regras da escrita normativa do pesquisador nativo, o que deixa em desvantagem o pesquisador não anglófono. Neste sentido, Ortiz (2008, p. 96) afirma:
Alguns autores sublinham que a competência linguística dos pesquisadores é desigual. O inglês é utilizado tanto para a pesquisa quanto para a comunicação oral e escrita. Quando se trata de textos os não nativos possuem uma desvantagem considerável em relação aos que o dominam como primeira língua.
Essa desvantagem fortalece a hegemonia da língua inglesa no campo da pesquisa e põe em debate a questão do local de produção e da observação dos efeitos dominantes no jeito de gerar conhecimento, particularmente com a ascensão da classificação de publicações cada vez mais rígidas, modeladas por instituições e revistas norte-americanas (CHANLAT, 2014). Assim, urge refletirmos sobre a relação clara e estreita entre a capacidade de se produzir e publicar textos científicos em línguas estrangeiras e a nossa produtividade científica, assim como nossa visibilidade como produtores científicos e colaboradores em instâncias globais. Com a transformação da produção científica em agente direto de acumulação capitalista sob a
forma de conhecimento e de patentes, quaisquer empecilhos que venham interferir na capacidade de produzir e divulgar os avanços da ciência podem trazer consequências graves, considerando-se o modelo atual de capitalismo, em que a produção intelectual e tecnocientífica vai rapidamente tornando-se o lastro de um mercado outrora calcado sobre os dividendos da produção de bens materiais (RIGHI, 2011, p. 32).
Essa pesquisa também se justifica pela oportunidade de os(as) estudantes pesquisadores em educação/ensino de Ciências expressarem as suas inquietações quanto aos desafios que envolvem a pesquisa nessa área e as implicações dela decorrentes, principalmente envolvendo a preterição das pesquisas que não são publicadas em inglês, que acabam ignoradas e não citadas tanto por acadêmicos anglófonos, já que muitos não publicam em outras línguas e dão preferência a pesquisadores americanos ou britânicos, quanto pelos não-anglófonos, como nós, principalmente pela falta de domínio da língua. É certo que o nosso posicionamento não deve ser de conformidade ou de subalternidade. É razoável que possamos adquirir proficiência linguística em inglês até mesmo para que possamos usar a língua do opressor e proferir discursos contra hegemônicos. É também pertinente abranger outras línguas estrangeiras nessa discussão e redimensionar o papel das línguas adicionais, acentuando a sua importância para o desenvolvimento científico e priorizando-as como um passaporte fundamental para comunidades científicas internacionais.
Todas essas questões ainda são pouco discutidas no contexto acadêmico e carecem de uma reflexão crítica. Dessa maneira, acredito ser de suma importância investigar como o(a) estudante pesquisador(a) em educação e ensino de Ciências enxerga a sua pesquisa, o seu papel de pesquisador(a) e a sua atuação na formação de pesquisadores(as) frente ao uso predominante do inglês na internacionalização da ciência em tempos de globalização.