4.1 As Reformas Educacionais: A Trama Neoliberal na América Latina
4.1.2 O problema educacional brasileiro: o olhar do MST
O debate educacional nunca foi tão valorizado como nos últimos tempos no Brasil. Desde a vitória de Fernando Henrique Cardoso na eleição presidencial de 1994, a proposta de mudança ou modernização assumiu a pauta das políticas educacionais. A crise na educação é identificada com a falta de eficiência das instituições escolares; assim, é preciso adequá-las a uma série de exigências do mundo atual.
Dessa forma, a palavra de ordem é reformar. Os neoliberais entendem que esta reforma passa pelo pressuposto da transferência da educação da esfera de direito para a do mercado. Apenas dessa maneira se alcançaria a eficácia e produtividade necessárias no setor.
Toda esta vontade política na educação se apresenta num enorme pacote de medidas que incluem reestruturação das escolas, legislação, municipalização e programas de capacitação de professores, entre outras propostas. No entanto, no que diz respeito ao cotidiano da escola real pouco se altera, pois
A qualidade do que é ensinado também tem a ver com a repetência e com a desistência: como não sair de uma escola onde a realidade, com sua cruz e sua luz, não entra? Como curtir a aventura da leitura de livros que falam de um outro mundo, distante e estranho? Que não lê sabe menos, e nossas elites querem isso mesmo: no máximo, aquele mínimo de adestramento técnico. Nada de desafios e questionamentos. Quem está desinformado é mais facilmente explorado. (GENTILI; ALENCAR, 2003, p. 61)
Assim, a crise na educação se perpetua e se afirma como forma de exclusão social, resultado direto da aplicação das propostas neoliberais. Quando o aluno não se reconhece nesta escola, a própria instituição conseguiu criar mecanismos de expulsão automática de parte da população.
É nesse contexto que podemos entender as propostas educacionais dos sem- terra no Brasil. Dentre os diversos movimentos sociais que mais impacto político têm tido, o MST se destaca como referência na resistência ao neoliberalismo que se impôs ao Brasil nos últimos anos. É a partir da análise dessa realidade educacional que surge a cobrança do Movimento pelo atendimento das demandas do povo do campo.
No começo os sem-terra acreditavam que se organizar para lutar por escola era apenas mais uma de suas lutas por direitos sociais; direitos de que estavam sendo excluídos pela sua condição de trabalhador sem (a) terra. Mas logo foram percebendo que se tratava de algo mais complexo. Primeiro porque havia (como há até hoje) muitas famílias trabalhadoras do campo e da cidade que também não têm acesso a este direito. Segundo, e igualmente grave, se deram conta de que somente teriam lugar na escola se buscassem transformá-la. (CALDART, 2000, p. 45)
Dessa forma, a análise da realidade foi proporcionando ao MST uma tomada de consciência da importância e da situação da educação nacional. Era preciso assumir a tarefa de organizar, articular e produzir uma proposta pedagógica para a especificidade vivida pelo povo do campo.
Em 1994, iniciou-se uma pesquisa em assentamentos e acampamentos do MST que demonstrou índices alarmantes no âmbito educacional. O índice de analfabetismo era de 29%. Em relação às crianças, apenas 1,6% acabavam o ensino fundamental, e o pior: 20% das crianças e 70% dos adultos nem tinham acesso à escola (UNESP, 1995). Assim, as dimensões da luta por educação que havia começado na segunda metade da década de 80, com a formação do Setor de Educação, ampliou-se, com o objetivo de superar a situação de exclusão e de criar
uma escola que atenda à população do campo. Essa é uma importante análise crítica que o Movimento faz da escola: ela se distancia do campo em suas práticas e propostas pedagógicas, não dialoga com o sem-terra.
Foram descobrindo, aos poucos, que as escolas tradicionais não têm lugar para sujeitos como os sem-terra, assim como não costuma ter lugar para outros sujeitos do campo, ou porque sua estrutura formal não permite o seu ingresso, ou porque sua pedagogia desrespeita ou desconhece sua realidade, seus saberes, sua forma de aprender e de ensinar. (CALDART, 2000, p. 45)
A crítica a escola oficial dirige-se, antes de tudo, ao seu formato tradicional e à sua estrutura rígida, que não permite o acesso, e o que é mais grave, a permanência dos alunos no seu interior. A escola, que deveria ser um local privilegiado da luta pelas conquistas por direitos, de democratização do conhecimento e surgimento de novas práticas sociais, acaba despolitizada e afastando qualquer possibilidade de mudança social.
A idéia de uma educação do campo, como já apresentado, tem sua origem na compreensão que a situação efetiva das famílias do campo piorou devido, entre outros fatores, à “ausência de políticas públicas que garantam o direito à educação e escola para os camponeses/trabalhadores do campo” (CALDART, 2004, p. 18).
Assim, constatado o problema educacional, parte-se para a decisão sobre a ação para intervir nesse cenário e conquistar os direitos sociais. Para Pablo Gentili, “a luta contra o monopólio do conhecimento constitui um momento central na possibilidade de conquista dos direitos” (1998, p. 122).
Desse modo é que se desenham os primeiros passos para a luta do povo do campo por políticas que garantam o seu direito à educação e uma educação que seja no e do campo. No: o povo tem direito a ser educado no lugar onde vive. Do: o povo tem direito a uma educação pensada desde o seu lugar e com participação, vinculada à sua cultura e às suas necessidades humanas e sociais (CALDART, 2004, pp. 25-6).
A educação do campo passa a ser um item fundamental na construção desta escola que busca a formação plena do ser humano. O projeto se materializa na coleção de livros intitulada Por uma Educação do Campo, em que os integrantes e os chamados amigos do MST analisam a educação e elaboram propostas para a superação da situação atual da educação. “A nossa luta é no campo das políticas
públicas, porque esta é a única maneira de universalizarmos o acesso de todo o povo à educação” (CALDART, 2002, p. 27).
Analisando a gênese deste projeto, percebemos que ocorreu uma ampliação da compreensão do problema educacional brasileiro, o que ocasionou uma redefinição dos princípios educacionais do MST. No início, os pontos essenciais da proposta na área da educação eram: preparação das crianças para o trabalho rural, capacitação da criança para a cooperação, construir uma escola que fosse um lugar de reflexão e qualificação do trabalho produtivo; enfim, propostas que tinham uma visão essencialmente política.
Paulatinamente, a análise da educação passou a ser realizada com mais profundidade e a leitura da realidade educacional brasileira se ampliou. Dessa forma, acirrou-se a cobrança e a exigência de que a escola atenda às demandas do campo.
A constatação de que a situação da educação brasileira é perversa e de que as instituições escolares, em sua estrutura rígida e tradicional, negam aos alunos o direito de permanecer em seu interior trouxe a necessidade de uma atuação contundente do Movimento. A luta pela escola passou a ser, então, uma importante bandeira do movimento: ocupar as escolas e transformá-las, assim como se luta pela terra.
4.2 Educação e Movimentos Sociais: Educação para Além da