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O problema em se explicar apropriadamente relações de causalidade

2.2 INQUIETAÇÃO CIENTÍFICA ANTE A NOÇÃO DE CAUSALIDADE

2.2.2 O problema em se explicar apropriadamente relações de causalidade

Modelos artificiais, como o representado no Gráfico 1, são facilmente inteligíveis. Contudo, caso o padrão apresente aspectos cíclicos, com picos e vales que se repetem, a exemplo do Gráfico 2, a determinação da relação de causa e feito estará comprometida, pois não se pode afirmar com precisão o que ocorreu primeiro (e que, portanto, teria características de causa), ante a impossibilidade de regredir as séries, em situações reais, ao momento zero (isto é, ao período de fato primordial). Em tais situações, qualquer ponto na linha horizontal (temporal) que seja assumido como primordial terá características de causa, ainda que isso não corresponda à realidade.

Gráfico 2. Séries temporais em que, desconhecendo-se o ponto primordial de início dos eventos, não é possível determinar a relação de causa e efeito.

Fonte: dados primários aleatórios gerados pelo autor, via computador, apenas para exemplificação.

Além disso, observa-se que a utilização de períodos anuais para a determinação da causalidade é, quanto ao objeto de pesquisa deste trabalho (e, provavelmente, quanto à maior parte de quaisquer outros objetos de pesquisa), imprecisa, pois ignora o fato de que a energia é utilizada, para qualquer efeito prático relevante, imediatamente após disponibilizada (isto é, não fica estocada), o que faz com que eventos ocorridos no mesmo ano sejam tomados como simultâneos. Da mesma forma ocorreria, embora em graus de imprecisão diversos, se fossem utilizados meses ou mesmo dias como períodos, devendo-se considerar, ainda, questões artificiais externas, como a atribuição do momento dos eventos para fins contábeis, o que acaba por refletir na composição das séries de dados, podendo indicar, por exemplo, momentos de produção que não correspondem à realidade, a qual, como se vê, é muito mais complexa do que a abstração matemática (ou, no caso, estatística) que dela se faz. A única maneira viável de se obter, incontroversamente, uma relação (preponderante) de causalidade seria por meio da medição, tão individualizada quanto possível, de cada utilização de energia e do respectivo resultado produtivo que advém dessa utilização, e, na sequência, da utilização de energia induzida pelo resultado produtivo.

Afastando-se do cálculo tal forma de mensuração, há ainda uma maneira cientificamente possível de se saber com exatidão o que de fato ocorreu primeiro. Para isso seria necessário socorrer-se à já mencionada segunda lei da termodinâmica, a qual define a irreversibilidade (e, portanto, num sentido importante, a direcionalidade) dos eventos em um sistema, sendo, por tal característica, uma forma de medida de tudo o que acontece.

-1,5

-1

-0,5

0

0,5

1

1,5

Série X

Série Y

[…] →

Contudo, embora a energia possa ser pensada, em um senso prático, como uma causa importante de tudo, em um senso instrumental, ou agencial, ela não causa nada; ela se limita a

obrigar que todos os acontecimentos evoluam de forma a reduzir a capacidade, disponível no

sistema, de realizar trabalho11 (ADAMS, 2005, p. 750), conforme os conceitos de entropia, exergia e anergia12.

Pelo exposto, observa-se que a segunda lei ignora a causalidade estrita, fazendo com que a distinção entre causa e efeito não tenha qualquer significado no sistema fechado das leis primárias da física; para se chegar a essa distinção de modo significativo, faz-se necessária a introdução de considerações de vontade ou de probabilidade que são estranhas ao sistema (EDDINGTON, 1929, p. 296) – isto é, deve-se introduzir vieses que são distintamente humanos. Não por acaso o filósofo Immanuel Kant (1996, p. xxxv) chamou a causalidade, juntamente com o espaço e o tempo, de sintético a priori, isto é, uma ideia que trazemos para a nossa experiência de fenômenos e que confere, às explicações causais, esses mesmos vieses.

Como dificultador adicional, a complexidade do mundo real, com um sem-número de variáveis intervenientes, com graus de influência diversos no tempo e entre si, afeta, entre outras coisas, o lapso temporal entre causa e efeito. Isto é, as variáveis fazem com que o lapso não possa ser precisamente definido, pois conferem uma elasticidade, também variável, ao elo entre causa e efeito, e isso também não pode ser superado, pois a superação implicaria causa e efeito ligados por algo perfeitamente rígido (algo que também não é fisicamente possível) ou – e isto também é absolutamente impossível – que a informação fosse transmitida a uma velocidade superior à da luz (EDDINGTON, 1929, p. 295).

Na prática, uma vez que os períodos utilizados são relativamente amplos (por exemplo, meses ou anos), a estatística utilizada à análise pode indicar, conforme se afirmou, a simultaneidade de eventos que não são, de fato, simultâneos, o que prejudica ainda mais a determinação de causa e efeito. Por exemplo, caso os períodos sejam anuais, eventos que

11 Além disso, convém ponderar que a verificação pretendida dependeria de medições da entropia do sistema em

dois ou mais pontos distintos da linha temporal (o evento que apresentar maior entropia será mais recente), algo que, no mundo complexo e real, também está longe de ser exequível, mesmo porque não é sequer possível isolar apropriadamente o sistema em que seriam feitas as medições. Cf. EDDINGTON, A. S. The nature of the physical world. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1929. p. 129).

12 A entropia é um dos conceitos básicos da termodinâmica e também representa uma medida de energia e de

degradação dos recursos, sendo amplamente utilizada em quase todas as ciências, da termodinâmica pura à aplicada, da teoria da informação à tecnologia da transmissão, da ecologia à economia. Cf. BIANCIARDI, Carlo; ULGIATI, Sergio. Entropy. In: CLEVELAND, Cutler J. (Ed.). Encyclopedia of Energy. Volume 2. Amsterdam: Elsevier, 2005, p. 460. De modo prático, pode-se dizer que a energia, incluindo a equivalente massa-energia, é uma quantidade conservada, porém constituída de exergia (fração capaz de realizar trabalho) e anergia (não disponível para o mesmo fim) cf. KÜMMEL, Reiner. The Second Law of Economics. Energy, Entropy, and the Origins of Wealth. New York, NY: Springer, 2011, p. 37, 114, 175.

tenham acontecido no mesmo ano serão tidos como simultâneos, algo que pode estar muito longe da realidade, pois um pode ter ocorrido em janeiro e, assim, ter sido causa de outro, ocorrido em junho.

Em tal cenário, o que resta a ser feito, não importando a complexidade do método estatístico utilizado, é tão somente observar, tão acuradamente quanto possível, a existência de propriedades que possuem interesse do ponto de vista filosófico, pois referentes a fenômenos que: (1) são vividamente reconhecidos pela consciência; (2) são igualmente validados pela faculdade de raciocínio humano, a qual indicaria as situações nas quais uma reversão do sentido entre X e Y tornaria o mundo externo sem sentido (EDDINGTON, 1929, p. 69). Ou seja, no fim das contas, serão essas propriedades que indicarão o sentido, a partir de dois ou mais eventos, daquilo que Eddington (1929, p. 69) denominou “seta do tempo”, a qual também foi brevemente referida na subseção sobre as fontes de energia.

Em outras palavras, o sentido da seta, de causa a efeito, pode até ser determinado por regras estatísticas e/ou matemáticas, mas a sua importância como um fato regente “fazendo sentido do mundo” só pode ser deduzida em premissas teleológicas que não são, de fato, perfeitamente conversíveis na matemática dura que acabará por compor sistemas cartesianos de previsão (EDDINGTON, 1929, p. 339), tais quais o método proposto por Granger.

E, ainda que tal conversão fosse possível, haveria muito pouco conhecimento sobre a causalidade, a menos que se reconhecessem relações entre propriedades – em particular, a dependência que algumas propriedades têm em relação a outras, o que, se levado em consideração nos cálculos, afastaria o problema dos eventos que, em períodos dilatados, são tidos como simultâneos. Isso significa que juízos hipotéticos também parecem necessários – julgamentos como “se um fósforo for riscado, então ele irá acender”, “se o metal for deixado na água, então ele vai enferrujar”, e assim por diante (KANT, 1996, p. xli). Kant argumenta que a própria capacidade de se fazer julgamentos hipotéticos requer o conceito de causa e efeito. A alegação do filósofo prussiano não é a de que a propriedade mencionada na antecedente (a parte “se”) é a causa da propriedade mencionada na consequente (a parte “então”), mas sim que algum conhecimento causal é necessário para suportar qualquer alegação de que certo tipo de propriedade está ligado a outro (KANT, 1996, p. xli).

É nessa conjunção de fatores que está, parece, o motivo de as estatísticas apresentarem resultados tão conflitantes entre si, ainda que formuladas para um mesmo fenômeno e com um mesmo objetivo. Há uma imprecisão inerente ao estabelecimento de premissas básicas e uma absoluta impossibilidade de se lidar com todas as variáveis envolvidas, ao que se acrescenta a subjetividade do raciocínio humano, com seu natural efeito (indesejado) sobre o objeto

pesquisado, o que é previsto no próprio princípio da incerteza e amplamente reconhecido, como hermenêutica, nas ciências sociais (ARENDT, 1961, p. 48-49).

Contudo, a utilização das ferramentas disponíveis, ainda que limitadas e precárias, parece ser melhor do que nada (embora isso também seja inevitavelmente um raciocínio humano…) ou, talvez mais apropriadamente, seja melhor utilizá-las do que simplesmente “achar”. Trata-se, de certa forma, de contrariar Wittgenstein (2008, p. 112, p. 131), para o qual “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”

Com base em tais considerações serão realizados, a despeito das mencionadas limitações, testes estatísticos formais com vistas à indicação de correlação e determinação entre diversas variáveis: IDH, utilização per capita de energia primária (UEP pc), utilização per

capita de energia elétrica (UEE pc), Renda Nacional Bruta per capita (RNB pc), Produto

Interno Bruto per capita (PIB pc) e intensidade energética (IE). Nesses testes também serão indicados os valores referentes às direções da causalidade, nos quais se evidenciará um caráter vacilante, suscetível de múltiplas interpretações, algo que parece característico das mencionadas limitações em se determinar tais direções causais.