CAPÍTULO III – UM ESTUDO DE CASO: O MUNICÍPIO DE SJP
MUNICIPAIS DE SJP, LEI 525/2004 E SUA LEI COMPLEMENTAR 02/2004: O DESCONTENTAMENTO MUNICIPAL
3.4.1. O problema nas mudanças das leis: a questão do enquadramento
Ao longo da história municipal, percebe-se que a aprovação da Lei 525/2004 tem gerado descontentamento entre os professores. A criação do cargo professor nível superior gerou inúmeras insatisfações entre a categoria, não pela criação do cargo em si, mas sim porque os profissionais que na época haviam concluído o nível superior ou até mesmo a pós-graduação não foram enquadrados, na atual lei, no nível mínimo que seria o inicial 40: passaram a ser níveis 21, 24, 25, 30 e daí por diante. Da mesma forma, uma minoria de professores foi enquadrada em níveis bem superiores, chegando até o nível 90.
Todavia, chegar ao entendimento de como isso aconteceu não foi tarefa fácil. Por mais que a legislação disciplinasse essa transição, entendê-la não foi tão simples, sendo necessárias conversas com servidores da Procuradoria Geral do município e advogado do SINSEP.
Nesse contexto, a abordagem é observada no que chamaremos de enquadramento. Entende-se por enquadramento como o processo de transição do professor de uma tabela de vencimento, disciplinada por uma lei de carreira, para outra tabela de vencimentos, disciplinada por outra lei de carreira. O que se percebe é que este enquadramento não foi realizado com critérios claros e objetivos que justifiquem estas variações de níveis e, em resumo, podemos dizer que não se respeitou o princípio da
isonomia, não se utilizou o critério de tempo e de formação, e o que foi feito foi a soma do vencimento mais os abonos e gratificações, que deu um valor X. Conforme o valor, foram enquadrados no nível da tabela que aquele valor representava.
O problema é que aqueles professores que já possuíam graduação ou especialização e não as incorporaram nos planos anteriores ficaram prejudicados, pois foram para a tabela atual, com vencimentos e níveis muito baixos. E aqueles que recebiam abonos e gratificações altas (chefias e educação especial, por exemplo) as incorporaram ao vencimento e consequentemente foram para níveis muito mais altos, gerando sérias disparidades salariais.
Verificando que SJP passou pela aprovação de quatro legislações de carreira, entende-se que os professores mais antigos passaram por quatro processos de enquadramentos, ou seja, transitaram por quatro tabelas salariais diferentes. Se a forma como este processo é realizado pode gerar prejuízos remuneratórios aos servidores, é essencial que os critérios precisem ser claros, objetivos e bem definidos, como, por exemplo, considerarem elementos como formação e tempo de serviço e não apenas a base remuneratória.
É o caso da transição da lei de 1998 para a lei de 2004. O enquadramento realizado gerou na rede muitas distorções salariais entre os professores e uma delas é o fato de professores novos ingressarem na rede com vencimento inicial superior (quase o dobro) ao de professores que atuam há dez, vinte anos na rede. Outro exemplo é que professores com nível superior foram enquadrados na nova lei como professores nível médio, modalidade normal38. Esta explicação se dá por meio do artigo 24 da Lei Complementar nº 03, de 27 de abril de 2004:
O servidor efetivo ativo do Quadro do Magistério, inclusive o constante da tabela de transição decorrente da lei anterior, será enquadrado no nível da tabela de vencimentos correspondente ao valor imediatamente superior à somatória de seu vencimento e do abono previsto em lei específica.
Para tentar corrigir a disparidade entre as carreiras, a lei ainda previa que para aqueles professores que foram enquadrados abaixo do nível 40 seria preciso apresentar para as progressões qualificadas três vezes o diploma de graduação, ou seja, na primeira progressão qualificada, que aconteceu no ano de 2006, o professor apresentaria o título
38 O novo professor nível superior, na atual lei, já ingressa na rede no nível inicial 40 da tabela salarial.
Ocorre que muitos professores há anos na rede já possuíam nível superior quando da implantação da nova lei e foram reenquadrados em níveis como o 24, 25, 26 e daí por diante, bem abaixo do inicial e enquanto cargos extintos. Tal situação fez com que os professores novos ingressassem na rede recebendo quase o dobro do que recebiam os professores antigos.
de graduação e caminharia três níveis na carreira, depois de dois anos apresentaria novamente o título de graduação e progrediria mais nove níveis de carreira e por último, passados mais dois anos, apresentaria novamente o título de graduação, galgando cinco níveis. Somente então, passados mais dois anos, poderia apresentar os títulos de especialização ou mestrado.
No entanto, esse mecanismo atrasou mais ainda a carreira dos professores antigos de rede, pois, contando o tempo, em 2010 havia professores apresentando o título de graduação, sem contar aqueles que não aguentaram e se aposentaram sem incluir a graduação na sua carreira.
Outra situação prejudicial aos professores com ingressos anteriores a 2004 é que o art. 25 dispõe que os antigos professores DA e DB39 (como eram denominados na Lei nº 16 de 1998) teriam de concluir, até a data de 30 de junho de 2008, o curso superior com o intuito de progredirem na tabela. Os professores que concluíssem o curso após esta data não poderiam mais participar das progressões qualificadas, que acontecem por meio da titulação, inviabilizando a progressão para alguns professores no ano de 2008, inclusive indicando no art. 291, parágrafo único, que “não concluindo o referido curso no prazo acima mencionado, o professor ficará estagnado na Tabela de Vencimentos onde for enquadrado” (SJP, 2004). Muitos professores da rede cursaram a graduação e alguns tiveram dificuldade em receber o diploma até o prazo estabelecido e estão realmente com suas carreiras estagnadas.
A partir dos dados encontrados no Portal da Transparência da Prefeitura Municipal de SJP, referentes ao de 2012, onde constam o nome do servidor e o nível da tabela salarial em que se encontra, foi possível construir um panorama dos professores que de certa forma tiveram prejuízos no processo de enquadramento da lei de 1998 para a de 2004, entendendo como prejuízo a não utilização dos critérios de tempo e formação para o enquadramento
Para este cálculo, entendemos que os professores não enquadrados corretamente ainda são os denominados Professor DA e Professor DB, nomenclatura utilizada pela lei de 1998. Somam-se então 864 profissionais que de alguma forma têm hoje prejuízos em suas carreiras.
39 DA – Nível inicial formação nível médio. DB – segundo nível da carreira. Licenciatura curta.
GRÁFICO 5 – ENQUADRAMENTO DOS PROFESSORES EM SJP: LEI DE 1998 PARA A LEI DE 2004
FONTE: PORTAL DA TRANSPARÊNCIA SJP (2012). ELABORADO PELA AUTORA
O Gráfico 5 demonstra que temos um total significativo de professores que ainda sofrem algum tipo de prejuízo nas suas carreiras. Desde o ano de implantação da nova lei, o pleito da categoria é a revisão deste enquadramento, ou seja, a realização do reenquadramento, levando em consideração titulações e tempo de serviço, para que a disparidade remuneratória entre os professores ao menos diminua. Esta situação será melhor verificada na análise das carreiras das professoras Silmara e Schirlei, que estão entre as professoras DA e DB. Numa primeira leitura, o caso destas professoras citadas parece estar relacionado ao fato de na época do enquadramento das leis, não possuírem o diploma de graduação reconhecido, porém o gráfico a cima demonstra que a demanda de um novo reenquadramento é para quase a metade da rede.
Anterior a 2012, a situação dos professores DA e DB era mais grave, pois se encontravam ainda nos níveis 21, 24, 25 e sucessivamente, e muitos já haviam concluído graduação e especialização. Com a pressão do sindicato municipal em maio de 2012, aprovou-se a Lei nº 70, de 4 abril de 2012, onde todos os professores que estavam abaixo do nível inicial foram reenquadrados no nível 40. Tal ação corrigiu grandes distorções, porém, não resolveu o problema de muitos profissionais, inclusive aqueles que estão às vésperas da aposentadoria e ainda encontram-se no nível inicial 40.
Frente a este contexto, pode-se afirmar que a forma como as transições de uma legislação para outra (enquadramento) pode se constituir num mecanismo que não valoriza o professor. Para que a valorização de fato aconteça, é necessário um bom
864
786
214 0
Professores DA e DB
Professores ingressos a partir da Lei 525\2004
Professores supostamente enquadrados
planejamento e muito debate com a categoria, no sentido de que estes critérios sejam bem definidos e absorvam os elementos de uma carreira que esse professor já fez no município. Para que a proposta de melhoria não se torne, no decorrer do tempo, um encaminhamento de desvalorização do professor.
Como no caso de SJP, não é apenas um vencimento menor que afeta a percepção da valorização na rede, mas a condição de trabalhar há mais tempo na rede, ter a mesma formação e estar muito abaixo na tabela salarial daqueles que recém ingressam representa o não reconhecimento profissional também.
CAPÍTULO IV – O ESTUDO DE CASO: A CONSTRUÇÃO DAS