12.8 — ACÇÕES DE FISCALIZAÇÃO EM POSTOS DA GNR E ESQUADRAS DA PSP — RELATÓRIOS-SÍNTESE
2 — O PROCEDIMENTO DISCIPLINAR E O PROCESSO PENAL 26
A — A SUSPENSÃO DO PROCEDIMENTO
2 — O PROCEDIMENTO DISCIPLINAR E O PROCESSO PENAL 26
No nosso direito é pacificamente aceite a autonomia recíproca dos procedimentos penal e disciplinar.
É constante a posição do Supremo Tribunal Administrativo nesse sentido; poder-se-ia carregar num botão de base de dados e encher algumas folhas; por economia, ilustrá-la-emos com apenas dois exemplos, de que dão conta os extractos a seguir:
Ac. da Secção de 30.11.94, rec. n.º 32 888, publicado em Acórdãos Doutrinais (AD), n.º 401, pág. 544:
“Ora, tem sido jurisprudência uniforme deste STA (vide, por todos, os Acórdãos desta Secção de [...] ) em considerar que o procedimento disciplinar é independente do criminal, visto serem diferentes os fundamentos e fins das duas jurisdições, ou seja, o direito disciplinar não é “um minus” relativamente ao direito criminal, tendo antes a natureza de um “aliud”, por isso o procedimento disciplinar é independente do procedimento criminal instaurado pelos mesmos factos.
Na verdade, os mesmo factos podem servir de base a uma dupla penalização sem que daí haja violação do clássico princípio “non bis in idem” [...]” 27
Mais recentemente:
Ac. do Pleno da Secção, de 19.02.97, rec. n.º 30 356, em AD n.º 427, pág. 911:
“O procedimento disciplinar é pois independente e autónomo do procedimento criminal. Os valores, os princípios e os desideratos são diferentes como diferentes são a substância dos poderes em que se inserem, respectivamente meros ordenadores sociais ou de travejamento mestre de valores.” 28
Também o Tribunal Constitucional, naturalmente com menor frequência, mas com a mesma uniformidade, se pronunciou:
Ac. publicado em DR I Série-A, de 10.03.95:
“Na verdade, a Constituição consagrou uma evolução legislativa anterior, através da qual o direito disciplinador se autonomizou do direito penal”
“Assim a Constituição reconhece expressamente a autonomia do direito disciplinar, a sua diversidade institucional e a pluralidade de competência sancionatórias que o caracterizam / cf. os artigos 168.º, n. 1, alínea d), e 282.º, n.º 3, quanto ao direito disciplinar geral,...,e 271.º, n.º 1, quanto ao dos funcionários e agentes administrativos.” — folha 1310.
E, ainda, o ac. publicado no DR II Série, de 18.02.93.
3 — Se essa autonomia é uma verdade jurídica, pois que os órgãos encarregados de proclamar o direito que é o dizem, tal não significa que entre o procedimento disciplinar e o procedimento criminal não se entrecruzem imensos laços.
Esses laços podem ser recolhidos nos diversos compêndios: constitucional, penal, processual penal, disciplinar.
Para o que nos interessa, basta-nos uma observação ligeira do Estatuto Disciplinar dos Funcionários e Agentes da Administração Central, Regional e Local, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 24/84, de 16 de Janeiro (daqui em diante, ED) o qual contém um conjunto de
disposições reveladores das implicações do processo criminal no processo disciplinar. São significativas, as do:
Artigo 4.º, n.º 3 — incidência do processo criminal na prescrição do procedimento disciplinar;
Artigo 6.º — consequências de despacho de pronúncia na relação funcional; Artigo 7.º — efeitos da condenação em processo penal.
Estas disposições têm equivalentes nos artigos 55.º, n.º 3, 38.º e 39.º, respectivamente, do RDPSP.
É por causa deste cruzamento de laços que, em lugar de falarmos em independência, será mais apropriado falar-se em independência relativa 29, ou, utilizando a distinção jurídico política, em autonomia.
4 — Conhecedores deste entrelaçar, não ficará o observador totalmente surpreendido por uma regra como a que nos surge no artigo 37.º, n.º 3 do Regulamento Disciplinar da Polícia de Segurança Pública, aprovado pela Lei n.º 7/90, de 20 de Fevereiro, nem que tal previsão surja precisamente no mesmo artigo em que, mais enfaticamente que o próprio ED, se proclama a independência do procedimento disciplinar.
Convirá transcrever todo o preceito:
Artigo 37.º
Independência do procedimento disciplinar
1 — O procedimento disciplinar é independente do procedimento criminal.
2 — A absolvição ou condenação em processo-crime não impõe decisão em sentido idêntico no processo disciplinar, sem prejuízo dos efeitos que a legislação penal e processual penal prevê para as sentenças penais.
3 — Sempre que o repute conveniente, a autoridade com competência disciplinar para punir pode determinar a suspensão do procedimento até que se conclua processo criminal pendente.
O ED não contém expressamente norma igual ou similar à deste número 3 do artigo 37º. Nem o ED em vigor nem os ED precedentes — Decreto-Lei
n.º 191-D/79, de 25 de Junho, Decreto-lei n.º 32 659, de 9 de Fevereiro 1943.
5 — Nem por isso, porém, se pode dizer que tal norma é insólita no nosso ordenamento. Desde logo, não é inovadora no que respeita a anteriores regulamentos disciplinares da PSP. Assim, o regulamento aprovado pelo DL n.º 440/82, de 4.11, previa no
Artigo 40.º
Acção disciplinar e acção criminal
A acção disciplinar é exercida independentemente da criminal. Porém, quando o ilícito criminal de que resultou a acção disciplinar tenha sido participado ao tribunal competente para apuramento e aplicação das respectivas sanções penais, a decisão final do processo disciplinar poderá aguardar tal resultado.
Já o regulamento aprovado pelo decreto n.º 40 118, de 6 de Abril de 1955 (regulamento que estava em vigor à data da aprovação do actual, por represtinação face a declaração de inconstitucionalidade do de 82), não dispunha sobre a matéria, embora a expressão do artigo 50.º § único:“A acção disciplinar pode ser exercida independentemente do procedimento criminal”, ao permitir —“pode” — e não obrigar, fosse suficientemente plástica a facilitar a mesma
6 — E tal norma pode detectar-se noutros Estatutos. Assim:
Advogados – Estatuto da Ordem dos Advogados, aprovado pelo DL n.º 84/84, de 16 de Março:
Artigo 96.º
1 — A responsabilidade disciplinar é independente da responsabilidade criminal ou civil. 2 — Pode, porém, ser ordenada a suspensão de processo disciplinar até decisão a proferir em processo pré-judicial.
Polícia Judiciária – Regulamento disciplinar aprovado pelo Decreto-Lei n.º 196/94, de 21 de Julho:
Artigo 9.º
Autonomia da responsabilidade disciplinar
1 — A responsabilidade disciplinar é autónoma relativamente à responsabilidade penal. 2 — Sempre que se repute conveniente à correcta ponderação dos factos, o processo disciplinar pode ser suspenso até ao trânsito da decisão proferida em processo penal no qual esses mesmos factos sejam objecto de apreciação.
Esta versão do regulamento disciplinar da polícia judiciária é interessante já que este regulamento é recente e foi, nalguma parte, influenciado pelo RDPSP, conforme declarado no seu preâmbulo.
O mesmo tipo de normativo ocorre em 7 — Macau
Estatuto dos Trabalhadores da Administração Pública de Macau (ETAPM), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 87/89/M, de 21 de Dezembro:
Artigo 287.º
(Procedimento disciplinar e criminal) [...]
3 — O despacho de pronúncia em processo de querela, bem como o seu equivalente em processo correccional, sempre que for arguido algum funcionário ou agente e logo que transitem em julgado, devem ser comunicados ao serviço a que o funcionário ou agente pertence, a fim de ser instaurado procedimento disciplinar.
Artigo 328.º
(Início e termo da instrução) [...]
2 — Nos processos disciplinares instaurados nos termos do n.º 3 do artigo 287.º, o prazo para a sua ultimação e decisão final pode ser suspenso até que transite em julgado a sentença que vier a ser proferida pelo Tribunal, se assim o propuser o instrutor ou a entidade que o mandou instaurar e for autorizado por despacho do Governador.
Em França:
O decreto n.º 84-961, de 25 de Outubro de 1984, permite que o conselho de disciplina proponha a suspensão do procedimento disciplinar se estiver em curso processo penal 30;
Na Bélgica:
Para além da possibilidade de suspensão que é reconhecida em geral, há ou houve mesmo casos de suspensão obrigatória perante a pendência de processo penal, como no Estatuto Camu 31;
Na Alemanha:
Outrossim, aqui, o Regulamento Disciplinar dos Funcionários da Administração Federal faculta a suspensão com base em pendência de procedimento penal, embora, simultaneamente, preveja o prosseguimento quando os factos estejam esclarecidos, e também, expressamente, o direito do arguido apresentar em tribunal requerimento contra a suspensão 32: