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O Processamento Cognitivo do Texto Jornalístico

3) Função Ideacional da Linguagem: o discurso contribui para a construção de

3.4 O Processamento Cognitivo do Texto Jornalístico

Os discursos, assim como a própria organização dos indivíduos, não são igualitários. Alguns discursos circulam em sociedade com mais força, representam o poder dos grupos que o produzem, legitimam fatos sociais. Os gêneros aos quais esses discursos estão vinculados são fatores determinantes na constituição deste poder legitimador (conforme discutimos no capítulo anterior). Sendo assim, os textos jornalísticos são importantes manifestações das relações sociais e ideológicas que constituem o discurso da imprensa, organizando-o em estruturas esquemáticas que norteiam o processamento de compreensão das informações por ele veiculado. A relevância do estudo desses textos está na sua importância social, pois o jornal é um importante veículo de comunicação de massa, responsável pela legitimação e controle do poder dos grupos dominantes (Van Dijk, 1997a; 1997b; 1985).

Além das considerações teóricas sobre a seqüência organizacional do texto jornalístico e os fatores sócio-cognitivos de processamento deste texto, pretendemos também analisar quais os assuntos tratados nos diferentes espaços textuais (tais como

sumário, título, lead e sublead) do gênero notícia. Observar o funcionamento discursivo dessa organização textual serve às nossas considerações sobre a formação da opinião pública, a partir dos efeitos de sentido produzidos por esse gênero. De acordo com o conceito de ‘estrutura de relevância’, a ordem semântica do texto jornalístico não é determinada pela seqüência dos fatos, mas pelo o que o repórter toma como mais importante (ou mais interessante).

Essa organização textual tem como principal objetivo possibilitar ao leitor o conhecimento da notícia logo no primeiro parágrafo. Sob a perspectiva jornalística, esta é a ‘fórmula’ da linguagem objetiva, que orienta a atividade do leitor (e assim agiliza a sua leitura) ao responder no lead e no sublead às seguintes perguntas: o quê?, quem?, onde?, como?, por quê? A partir da nossa fundamentação teórica, defendemos que o critério de relevância adotado pelo jornalismo para definir o que será tratado nos diferentes espaços textuais é, na verdade, uma sutil estratégia argumentativa, com forte efeito persuasivo na construção da opinião pública.

Partindo para uma análise sociocognitiva e das “formações sócio-discursivas” (Bronckart, 1999:37), é possível levantar questões bem mais complexas sobre a seqüência organizacional da notícia (o que também ocorre em outros gêneros jornalísticos, tal qual a reportagem) do que uma simples ‘opção pela objetividade’. Basta levar em conta os efeitos de construção de sentido que essa organização textual produz. Sendo assim, no caso do texto jornalístico, os conceitos de macro e superestruturas (Van Dijk, 1992) mostram-se como aspectos relevantes na discussão sobre a responsabilidade social do discurso da imprensa.

A perspectiva de organização dos textos em macro e superestruturas já recebeu algumas críticas dos teóricos da Lingüística Textual e da Análise do Discurso. Conforme discutimos anteriormente, Fairclough (2001) é um dos que se nega a adotar esse conceito, pois o considera “universalista”. O principal questionamento é que, ao definir as realizações textuais em modelos tão rígidos, os conceitos de macro e superestruturas engessariam as diversas possibilidades de construção de textos. Sem desconsiderar essas críticas, entendemos que, no caso dos textos jornalísticos, a seqüência organizacional segue orientações bastante definidas, constituindo o que os manuais conceituam como ‘redação jornalística’. Essas orientações são seguidas, basicamente, por todos os veículos, com raras exceções, sendo estas tomadas como formas ‘alternativas’ de jornalismo. Daí, acharmos pertinente a discussão sobre esses dois níveis de organização textual. O que é importante ressaltar é que não tomamos como irrelevante as interferências sociais, históricas e cognitivas nesse processo de organização textual.

Os conceitos de macro e superestruturas no texto jornalístico foram bastante aprofundados por Van Dijk (1985, 1992). As macroestruturas fazem parte do nível mais elevado do texto e são de ordem semântica. É nesse nível que estão descritos os tópicos ou os temas abordados. Já as superestruturas são basicamente as estruturas globais, ou os esquemas, que caracterizam os diferentes tipos de texto e são de ordem estrutural ou de forma.

Os tópicos ou temas que compõem a macroestrutura textual são resultados de processos cognitivos. Eles orientam a compreensão do texto, o que será tomado como mais importante no processo de leitura, e como as relevâncias serão armazenadas na memória dos leitores. Já o título, enquanto macroposição, é um importante instrumento

no processo de indução da compreensão de leitura do texto jornalístico, uma categoria situada no nível da macroestrutura com posição fixa em artigos noticiosos e reportagens. Essa posição lhe dá um destaque e o torna um fator de enquadre dos tópicos centrais abordados pelos gêneros do domínio jornalístico.

Ao realizar uma análise textual a partir dessa perspectiva da seqüência organizacional, é importante ressaltar que as dimensões sociais de um discurso interagem com as dimensões cognitivas. Segundo Van Dijk (1997a:8), “o modelo cognitivo deverá dar conta do fato de que o discurso, e, conseqüentemente, o processo de compreensão do discurso são processos funcionais dentro do contexto social”.

Ainda na perspectiva sociocognitiva, podemos afirmar que a compreensão do texto se dá através de um processo estratégico no qual uma representação mental na memória é construída a partir do discurso, usando informações externas e internas, com o objetivo de interpretar (entender) o discurso (Van Dijk,1992; Koch, 2002). Nas palavras de Van Dijk (1992:170), “processamento estratégico significa dizer que os usuários da língua realizam passos interpretativos finalisticamente orientados, efetivos, eficientes, flexíveis, em vários níveis simultaneamente”.

O poder discursivo da elite é uma forma sutil e indireta de domínio social. Com acesso preferencial e controle dos espaços discursivos dos jornais, são as idéias das elites que fomentam informações e compõem os textos jornalísticos. Ou ainda, são essas idéias que têm espaço preferencial nos títulos, leads e subleads, sendo tomados pelos jornalistas como ‘fatos relevantes’ principalmente as opiniões dos grupos poderosos. Esses pontos já foram levantados na introdução deste trabalho, sendo as nossas hipóteses de pesquisa.

Entretanto, faz-se necessário ressaltá-los aqui para melhor clarificar a importância discursiva da análise da seqüência organizacional do texto jornalístico.

Se considerarmos que os textos são compreendidos pelos leitores através de um processo cognitivo estratégico, e esses textos têm relevância na formação e manutenção dos modelos que compõem a memória, poderemos entender um pouco do sistema sutil de criação de consenso e hegemonia do qual trata Van Dijk (1997b:19): “a hegemonia do discurso dos grupos das elites faz com que as pessoas ajam como se esse discurso fosse o natural, normal, ou simplesmente um consenso”.

Com um maior detalhamento da seqüência organizacional do texto jornalístico, poderemos relacionar mais claramente as considerações sobre os aspectos cognitivos de processamento textual descritos no item 3.4. Isso porque defendemos que esse esquema de texto é resultante de organizações sociais e serve como instrumento de manutenção de poder entre as instituições estabelecidas.

O esquema textual da notícia proposto por Van Dijk (1985) é um dos estudos mais sistemáticos sobre esse gênero. Após analisar 250 jornais, coletados em 100 países, dos quais 700 artigos foram submetidos à análise, o autor reuniu uma consistente base de dados para elaborar a seguinte afirmação: “as formas estruturais e os sentidos globais dentro do texto jornalístico não são arbitrários, mas resultados de hábitos sociais e profissionais de jornalistas em ambientes institucionais, de um lado, e uma condição importante para o processamento cognitivo eficaz de um texto noticioso, tanto por jornalistas como por leitores, de outro” (1992:123).

De acordo com os estudos de Van Dijk (1985, 1992), são essas as principais categorias que compõem uma matéria: sumário, onde estão reunidos o título e o lead

(subtítulos, fotos e legendas servem de apoio para esta categoria, que expressa as macroproposições da notícia); eventos e conseqüências constituem a categoria episódio (é importante ressaltar que a categoria reações verbais, incluída na categoria conseqüências, é o espaço para as citações das pessoas entrevistadas); o evento principal, onde é descrita a notícia propriamente dita; e os comentários, onde o jornalista tem espaço para as suas conclusões, especulações ou expectativas sobre o fato noticiado. Outras categorias foram sistematizadas pelo autor no modelo esquemático do texto jornalístico. Entretanto, para a realização deste trabalho, iremos nos concentrar nas principais citadas acima, sendo estas as de uso mais freqüente na redação da notícia.

Para melhor identificação das categorias descritas, observemos agora como estas se realizam a partir de exemplos de texto jornalísticos:

Exemplo 8:

Categoria Sumário

Título: Famílias são despejadas de terreno em Abreu e Lima

Lead: A Justiça determinou ontem o despejo de 380 famílias de sem-teto acampadas desde o dia 19 de agosto, num terreno pertencente à Agência de Desenvolvimento de Pernambuco (AD/Diper), em Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife. A juíza da 1ª Vara Cível da comarca do município, Annamaria Farias Barbosa, acatou o pedido de reintegração de posse feito pela empresa Parmalat, que recebeu uma concessão do Governo do Estado para explorar a área de 13,7 hectares localizada no distrito industrial para implantar uma fábrica de laticínios. Revoltados com ordem de desocupação, os invasores realizaram, no fim da manhã, um protesto em frente ao Palácio do Campo das Princesas, onde exigiram a doação de um novo terreno para a construção de casas populares. (JC: 07/09/01)

A organização dessa categoria é um dos mecanismos mais eficazes da seqüência da notícia para estabelecer os valores de relevância no texto. No título, ao utilizar uma estrutura sintática passiva para descrever o despejo das famílias, o jornalista minimiza o efeito de violência do ato. A decisão da justiça, entretanto, é colocada no lead com o

respaldo da noção de propriedade (num terreno pertencente à Agência de Desenvolvimento de Pernambuco (AD/Diper), em Abreu e Lima) e do apoio governamental à causa (que recebeu uma concessão do Governo do Estado para explorar a área). Tais fatores justificariam a decisão judicial e, dispostos nessa organização textual, compõem um cenário desfavorável aos militantes do Movimento dos Sem-Teto.

Exemplo 9:

Categoria Episódio

Apesar de a manifestação ter transcorrido de forma pacífica, 93 policiais militares dos Batalhões de Choque e Cavalaria acompanharam todos os movimentos dos invasores. Depois do ato público, os sem-teto foram recebidos pela chefe-adjunta do gabinete do governador, Valéria Rangel. Eles vão se reunir na próxima segunda-feira, às 10h, com o presidente da AD/Diper, Kléber Dantas, para discutir uma forma de acomodar todas as famílias. (JC: 07/09/01)

Adotamos esse mesmo termo para uma das categorias de acesso identificadas em nossa análise. Na proposta de Van Dijk (1985), entretanto, o termo tem outra funcionalidade: é na categoria episódio onde estão dispostos os eventos e as conseqüências dos fatos narrados. De acordo com o autor, as conseqüências são, algumas vezes, mais importantes que o evento principal, considerando o seu valor informativo. E, o fato de elas não aparecem no início da matéria (seguindo os critérios de relevância já definidos), sugere uma intencionalidade discursiva em reduzir a importância desses acontecimentos. Analisando o texto que corresponde à categoria conseqüência (Depois do ato público, os sem-teto foram recebidos pela chefe-adjunta do gabinete do governador, Valéria Rangel. Eles vão se reunir na próxima segunda-feira, às 10h, com o presidente da AD/Diper, Kléber Dantas, para discutir uma forma de acomodar todas as famílias), encontramos uma informação relevante sobre os militantes da MTST. O fato de órgãos governamentais estarem envolvidos na acomodação destas famílias legitima, sob a perspectiva política, o

ato das ocupações. Esse fato, entretanto, só é citado no penúltimo parágrafo do texto, e sem grande ênfase.

Exemplo 10:

Categoria Comentários

O Governo se comprometeu a analisar a pauta de reivindicações e deve anunciar as contrapropostas em um mês. “A idéia da utilização do ICMS para financiar a habitação é interessante. Entretanto, fica difícil atender ao pedido de construção de cinco mil casas apenas para eles”, afirmou o secretário de Planejamento, José Arlindo Soares. (JC: 07/09/01)

O desfecho da matéria é realizado apontando um ‘interesse’ do governo em resolver o problema. Entretanto, o último período do texto é uma declaração do secretário ponderando a viabilidade das reivindicações dos sem teto. Essa declaração (com respaldo de dados) se contrapõe à do militante do MTST, no parágrafo acima: (“Se eles não aceitarem esse pedido, nós vamos radicalizar”, anunciou o coordenador do MTST, reverendo Marcos Cosmo.) Enquanto o secretário “afirma”, apesar do interesse do governo, a inviabilidade da causa dos militantes, o líder do MTST “anuncia” atitudes de radicalização, prevalecendo o tom de ameaça e de desinteresse pelo diálogo. A disposição da declaração do secretário na última sentença da matéria, ou seja, a última informação que será retida, é um fator discursivo a mais na construção dos modelos que compõem a memória dos leitores.

Para finalizar este capítulo, gostaríamos de ressaltar que defendemos aqui, com base nos estudos de Bronckart (2002), Fairclough (2001), Van Dijk (1997a, 1997b, 1992, 1988, 1985) e Koch (2002), que textos resultam de atividades sociais, cognitivas e lingüísticas e se constituem em relações discursivas (Beaugrande apud Koch, 2002). A sua compreensão é resultante de um complexo processamento cognitivo que está

articulado tanto a experiências de membros de grupos, quanto a estes grupos, e geram os conhecimentos compartilhados em sociedade. Esse conhecimento social é fortemente influenciado por valores e ideologias das classes dominantes, detentoras de maior acesso aos espaços discursivos da sociedade. Para exemplificar essa relação de poder, utilizamos um gênero do domínio discursivo jornalístico (a notícia) como nosso objeto de nossa análise.

4. ‘A VOZ DO DONO E O DONO DA VOZ’: ANALISANDO O ACESSO