2.4 Processo Alta Qualidade Ambiental AQUA®
2.4.2 O processo de certificação
O primeiro passo para a certificação consiste em atender parâmetros dispostos pelos referenciais técnicos de certificação específicos para cada tipo de empreendimento, utilizados pelos agentes desde a decisão de realizá-lo até a sua entrega. Adaptado para a realidade brasileira tem-se: Edifícios do setor de serviços: escritórios e edifícios escolares, Edifícios do setor de serviços: renovação, Edifícios habitacionais e Bairros e loteamentos.
Segundo FCAV (2010), os referenciais técnicos são estruturados em duas partes, o Sistema de Gestão do Empreendimento (SGE) e a Qualidade Ambiental do Edifício (QAE), nas quais se avalia o empreendimento de maneiras complementares (Figura 6).
Figura 6: Interações entre SGE e QAE do AQUA.
Entende-se que a inserção do empreendimento no sítio envolve diversos intervenientes atuando em nome do empreendedor, por isso, o Sistema de Gestão do Empreendimento (SGE) assume a importante função de apresentar a estes intervenientes as exigências e os objetivos para que a edificação atinja o nível de desempenho almejado (perfil de QAE, abordado no item posterior). Consiste em organizar as atividades para o trabalho conjunto, para que se decidam pelas ações corretas nos momentos corretos, melhorando regularmente a eficácia do sistema (FCAV, 2010).
A busca pelo caminho da maior sustentabilidade (...) é um trabalho coletivo (em rede) onde todos devem fazer sua parte, e ao mesmo tempo incentivar os demais a fazê-lo. As decisões devem ser resultado de uma ação orquestrada com os demais projetistas, gerenciadores, consultores, fornecedores, executores e usuários, na medida em que esta escolha pode condicionar ações a serem efetivadas pelos demais (SICILIANO et al., 2007, p. 55 ).
Segundo Rodrigo e Cardoso (2010), a concepção do SGE sofreu forte influência das normas internacionais ISO da família NBR ISO 9000, em especial da NBR ISO 9001 (ISO, 2008a). O sistema diferencia-se por cobrar somente as funções e processos com relação direta ao empreendimento e as funções externas que se encontram em empresas fornecedoras contratadas, e não a empresa como um todo.
O SGE orienta as ações a serem tomadas nas fases de programa, concepção e realização e prevê a elaboração de documentos que facilitam a efetiva obtenção dos desempenhos ambientais de um empreendimento após sua entrega, visto que a fase de operação não faz parte do escopo. A documentação organiza-se em quatro estruturas (FCAV, 2010):
a. Comprometimento do empreendedor, no qual são descritos os elementos de análise solicitados para a definição do perfil ambiental do empreendimento e as exigências para formalizar tal comprometimento;
b. Implementação e funcionamento, no qual são descritas as exigências em termos de organização;
c. Gestão do empreendimento, no qual são descritas as exigências em termos de monitoramento e análises críticas dos processos, de avaliação da QAE e de correções e ações corretivas;
d. Aprendizagem, em que são descritas as exigências em termos de aprendizagem da experiência e de balanço do empreendimento.
O SGE dá ao empreendimento uma dimensão sistêmica. Ele reforça o papel do empreendedor e seu controle do empreendimento e incentiva a realização de estudos e projetos nas fases iniciais (análise do local do empreendimento, previsão de custos). A implementação do SGE demanda um certo investimento em tempo (sobretudo quando a cultura e as práticas do empreendedor não integrem estes aspectos), rigor e uma boa capacidade de reação. O SGE traz como resultado um empreendimento melhor gerenciado e com maiores chances de se alcançar os objetivos definidos (FCAV, 2010, p. 11).
A Qualidade Ambiental do Edifício (QAE), segundo instrumento da estrutura metodológica para certificação AQUA, tem a função de delinear o perfil de desempenho almejado para o empreendimento onde as características técnicas e arquitetônicas irão implantá-lo nas fases de programa, concepção e realização (FCAV, 2010).
No Processo AQUA, a QAE baseia-se nas normas internacionais ISO do grupo TC59 SC17 e nas normas europeias CEN do grupo TC350, que recomendam preocupações para as metodologias de avaliação da sustentabilidade. Além disso, o projeto Methodology Development towards a Label for Environmental, Social and Economic Buildings (LEnSE) da European Comission (EC) também estrutura uma lista de questões próprias e que foi a base de um estudo comparativo da United Nations Environment Programme Sustainable Building & Construction Initiative (UNEP SBCI) para a construção sustentável. Nesse contexto, o Processo HQE® obteve uma posição de grande valia em comparação a outras metodologias em uso no mercado mundial (LOWE; PONCE, 2010 apud RODRIGO; CARDOSO, 2010).
A proposta é caracterizar o perfil de desempenho do empreendimento a partir de 14 categorias de preocupações visando ao sítio e construção, à gestão, ao conforto e à saúde, pois são coerentes com o contexto sócio-econômico-ambiental do empreendimento, uma vez que não prescrevem soluções pré-concebidas (SH-CDHU, 2008). Conforme a Figura 7, as categorias enfatizam o gerenciamento dos impactos sobre o ambiente exterior e a criação de um espaço interior sadio e confortável.
Figura 7: 14 categorias Alta Qualidade Ambiental (AQUA).
Fonte: FCAV, 2010, p. 8.
No decorrer das fases, o perfil poderá ser ajustado às oportunidades e restrições que não puderam ser identificadas anteriormente. Porém, deve estar em conformidade com o perfil mínimo colocado, e o empreendedor se responsabiliza por tais alterações.
Para o lançamento das exigências do empreendimento, tanto quantitativas quanto qualitativas, em busca do controle dos impactos, FCAV (2010, p.94) coloca que cada categoria deve fazer relação aos objetivos destacados no Quadro 3:
Quadro 3: Objetivos para o controle dos impactos ambientais.
Objetivos para o controle dos impactos ambientais Preservar os recursos energia, matérias primas e água
Reduzir a poluição do ar, água e solo Reduzir resíduos
Reduzir incômodos de ruídos e odores Melhorar o conforto
Preservar a saúde
Fonte: Adaptado de FCAV, 2010, p. 94.
O nível de detalhe dessas exigências para cada categoria está associado diretamente ao nível de desempenho almejado pelo empreendedor (FCAV, 2010).
Com todas as ações organizadas, torna-se possível priorizar aquelas com maior retorno para o empreendimento. Ressalta-se que a definição, tanto do retorno ambiental, social e econômico da ação, deve ser feita pelo empreendedor juntamente com sua equipe, pois diferentes tipos de projetos e sistemas de construção implicam diferentes materiais, tecnologias e serviços frente aos impactos e aos respectivos custos das ações concretas. Fica a
critério do empreendedor ou da empresa a adequação dessa ferramenta à realidade de cada um de seus projetos e empreendimentos (CIC/FIEMG, 2008).
Por fim, a avaliação pelo Processo AQUA é realizada por auditorias presenciais pela Fundação Vanzolini - um organismo independente de terceira parte - que realiza uma avaliação presencial com o empreendedor. A emissão do certificado (Figura 8) ocorre (ARCOWEB, 2009):
1. Na fase de programa, em que se estabelece o programa de necessidades, o perfil de sustentabilidade com os níveis de desempenho que o edifício pronto deverá apresentar e o sistema de gestão do empreendimento, no intuito de viabilizar o controle total do projeto garantindo o alcance dos objetivos. O empreendedor realiza a autoavaliação observando a coerência e a viabilidade dos objetivos propostos e submete a documentação à Fundação Vanzolini, que verifica o atendimento às normas e emite o certificado para esta primeira fase do empreendimento.
2. Na fase de concepção, que consiste no desenvolvimento do projeto executivo apresentando os detalhes de como será o empreendimento e em acordo com o sistema de gestão escolhido para garantir o seu controle. Ocorre ainda uma autoavaliação mais aprofundada a fim de demonstrar como o projeto desenvolvido atenderá aos critérios propostos anteriormente nos objetivos da fase de concepção. A Fundação Vanzolini realiza a auditoria e, segundo a conformidade dos processos, concede-se o certificado da segunda fase.
3. Na terceira e última fase, a de realização do empreendimento, a obra feita segue de acordo com o sistema de gestão e com os projetos concretizando o perfil proposto. Novamente se realiza a autoavaliação, porém ao final da construção e, em seguida, passa pela última auditoria que verifica se o projeto implantado tem seus resultados conforme o perfil estipulado nas fases de programa e concepção. Estando de acordo com as condições, o certificado da terceira fase é emitido pela Fundação Vanzolini.
Figura 8: Exemplo de certificado AQUA – Loja Leroy Merlin de Niterói.
Fonte: Martins, 2009.