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3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.3 O PROCESSO DE ADOECIMENTO CRÔNICO DE ADULTOS

É essencial uma reflexão da condição humana a fim de compreender a experiência do adoecimento (SAFRA, 2007). Nesse contexto, pela corporeidade14 o homem faz do mundo a extensão de sua experiência, transforma-o em ligações familiares carregadas de sentimentos e de valores coerentes, disponíveis à ação e permeáveis à compreensão (LE BRETON, 2011).

Uma das questões fundamentais acerca da saúde e do adoecimento é a percepção de que o ser humano tem um corpo vivo, mas um corpo vivo lúcido. Isso significa que, embora possam existir algumas transformações funcionais da sua corporeidade, o ser humano, juntamente com seu adoecimento e a dor que pode vir a sentir em seu corpo, tem a possibilidade de se posicionar de maneira a poder saber da sua dor (SAFRA, 2007).

Experimentar a dor, o sofrimento, saber deles, ter uma clareza que lhes dê um caráter peculiar e também à saúde e à experiência de estar vivo empresta ao ser humano a consciência da sua precariedade desde o nascimento. A constatação da precariedade chega pela instabilidade do corpo, pela necessidade fundamental que o ser humano tem, possivelmente, de ser cuidado. Isso é conhecido como uma das facetas extraordinárias da condição humana (SAFRA, 2007).

Sabe-se que o esforço no reconhecimento das desigualdades do adoecer humano em grandeza populacional surgiu no final do século XVIII e no início do XIX, tornando-se potente instrumento de construções societárias ou sociedades modernas. Normas socionaturais do adoecimento foram buscadas no intuito de se conhecer e dominar as condições de vida e saúde dos seres humanos. Da mesma forma buscou-se arquitetar a ilusão de uma sociedade saudável de modo pleno mediante os meios racionais (AYRES, 2011).

Todas as alterações fisiológicas decorrentes do processo de adoecimento levam o indivíduo a uma condição crônica de saúde com a qual terá de aprender a conviver. Tal condição traz consigo certos fatores estressantes, como o tempo prolongado de tratamento e as mudanças no estilo de vida e no meio social, o que

14 A partir das lógicas corporais e da condição humana (LE BRETON, 2011).

altera o modo de viver desse indivíduo e das pessoas que convivem com ele (RIBEIRO; MANTOVANI, 2001).

Desde que Parsons publicou, em 1951, seu modelo original do papel do doente, numerosos desafios têm surgido. Como exemplo, a determinação da enfermidade e a designação do papel do enfermo estão longe de ser simples. Os doentes podem lutar por anos em sua busca da validação de um diagnóstico oficial.

Recentemente, estudos têm salientado outras facetas da designação do papel de enfermo. Primeiramente, há o fenômeno de doenças e sintomas contestados, nos quais provedores e outros rejeitam as afirmações dos indivíduos de estarem genuinamente enfermos. O modelo de Parsons envolveu deveres e privilégios especificamente: a pessoa enferma deve reconhecer que não está bem, deve também buscar ajuda competente dos profissionais de saúde e aderir ao tratamento (RIER, 2010).

Ainda segundo o modelo, os enfermos são liberados de suas obrigações normais para com a família, comunidade, trabalho, entre outros e são também eximidos de culpa por ficarem doentes. Esse modelo auxiliou a estabelecer os termos de discussão ao longo de uma geração (RIER, 2010).

Contrariamente ao modelo parsoniano, Charmaz e Rosenfeld (2010) afirmam que as pessoas com enfermidades crônicas devem aprender a viver com suas condições enquanto mantêm seu emprego e suas obrigações familiares.

Gerenciar uma condição contínua e frequentemente deteriorada passa a ser prioridade, e a recuperação não pode ser presumida. Desta forma, em razão da terapêutica de rotina e manejo da enfermidade ocorrer em casa mais do que na clínica, os doentes e familiares tornam-se participantes ativos do tratamento. Na verdade, os profissionais de saúde devem confiar nos pacientes e familiares para informar o planejamento da terapêutica e também consultá-los acerca dos resultados em cuidados de saúde. Assim, o relacionamento do papel do profissional de saúde/doente muda para uma parceria que se sustenta em esforços mútuos para manejar a enfermidade.

Na maioria das vezes, os indivíduos doentes tentam transformar seus desejos em intenções, propósitos e ações. Assim, eles são motivados a realizar identidades futuras e, algumas vezes, são forçados a reconhecer as atuais.

Contudo, de modo implícito, as mudanças formam os objetivos de identidade. De fato, esses indivíduos integram novos eventos corporais em suas vidas e em seus

autoconceitos − considerados como uma organização de atributos, sentimentos, valores e características por meio dos quais os indivíduos se definem − mediante a luta com a enfermidade (CHARMAZ, 1995).

No entanto, até que os indivíduos definam as mudanças como crônicas e experienciem seus efeitos diariamente, buscam a recuperação e pode manter a enfermidade, portanto, seus corpos às margens de seus autoconceitos. De modo subsequente, as mudanças continuam a objetivá-los e a se distanciar deles. Não somente seus corpos tornam-se objetos a reparar, como também são locais para fazê-lo (CHARMAZ, 1995).

A situação difere para os indivíduos que já lutaram com suas estranhezas corporais ou mudanças psicológicas, agora redefinidas e legitimadas com sintomas físicos genuínos. O alívio do diagnóstico inicial se transforma na experiência de adotar a designação do médico e de definir o que isso significa para eles, que podem se tornar consciente do estado de saúde e se dar conta de seus sintomas, os quais se adaptam ao diagnóstico. Como exemplo, o hipertenso fica por muito tempo assintomático e quando tem um desconforto físico e emocional, procura seu clínico e recebe o diagnóstico de hipertensão (CHARMAZ, 1995, grifo nosso).

Nesse contexto, por meio de luta e rendição, os indivíduos enfermos paradoxalmente crescem mais resolutos, pois mesmo sofrendo perdas corporais, ganham a si próprios, acreditam em sua força interior à medida que seus corpos sofram. Assim, transcendem seus corpos à proporção que se rendem ao controle apresentando possibilidades para resolução de problemas e renovação da vida (CHARMAZ, 1995).

Ao responder à doença crônica, conforme Charmaz (1995), os indivíduos constantemente testam os significados ligados à sua situação alterada contra a realidade da experiência diária. É uma situação de risco, porque não podem ter certeza de que suas próprias percepções em desenvolvimento e definição da situação são compartilhadas por outros, quer seja no cenário informal ou nas interações com profissionais. Recorrer à ajuda pode resultar em dependência indesejada, e apelos por compaixão correm o risco de rejeição. Somente o passar do tempo e tentativa e erro podem fornecer orientações para a natureza dos riscos envolvidos em se viver com uma condição em particular, embora o grau de imprevisibilidade sempre permaneça.

Em um dos seus estudos, Charmaz e Rosenfeld (2010) entrevistaram indivíduos cronicamente enfermos. Estes tinham modificado e normalizado suas vidas para acomodar os sintomas, que mencionavam outras razões, tais como estresse ou envelhecimento para explica-los, antes de saber o diagnóstico da doença crônica.

A partir das considerações feitas, o desafio para o doente hipertenso é modificar sua vida de modo a suportar seu plano de tratamento. A tomada de decisão de controlar a pressão arterial é o fator crítico do indivíduo, o qual procede à modificação do estilo de vida e ao controle da pressão arterial. A decisão real para mudar vem entre o preparo e a ação (WOODS; FROELICHER; MOTZER, 2005).

Enfim, o hipertenso possui elementos próprios para dar ressignificação à sua vida, buscando forças, vigor e expertise para seus próprios cuidados em saúde, pois os doentes são constituídos de sequências temporais de adoecer, podendo evidenciar limites identificáveis durante a trilha que percorre, diariamente, até sua morte.

Grounded Theory can give you a way of learning and a path to knowledge and

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Kathy Charmaz, 2012