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CAPÍTULO I: Homilia segundo a Tradição e na perspectiva do Papa Francisco

1.2 Concepção e estrutura de homilia no magistério de Francisco

1.2.2 O processo de anúncio: exigência de parresía e testemunho

possa sentir (vivenciar mesmo) que é o próprio Cristo que, na homilia, comenta as Escrituras”141.

O terceiro princípio indicado por Francisco é a utilização de uma imagem. Ao utilizar este recurso se reforça ainda mais a ideia e o sentimento pensados pelo homiliasta com a finalidade de melhor estabelecer uma comunicação com a assembleia. Com relação a isto,

as imagens ajudam a apreciar e acolher a mensagem que se quer transmitir.

Uma imagem fascinante faz com que se sinta a mensagem como algo familiar, próximo, possível, relacionado com a própria vida. Uma imagem apropriada pode levar a saborear a mensagem que se quer transmitir, desperta um desejo e motiva a vontade na direção do Evangelho142.

A imagem permite que mesmo os mais simples se sintam atraídos a escutar aquilo que o pregador se propõe a comunicar. Imagens são um excelente recurso metodológico para que o conteúdo torne-se melhor explicitado. Entretanto, é preciso cuidar para que não se confunda simplicidade com clareza, dado que são duas coisas diferentes. Pode-se empregar uma linguagem muito simples, mas deixar pouco clara a pregação143.

Toda a proposta de Francisco tem em vista que os pregadores se preparem melhor para a realização das homilias, que são uma grande oportunidade de anúncio do Evangelho.

Entretanto, é preciso levar em conta que todo discurso requer também testemunho, afinal, não basta que um discurso bem elaborado chegue aos ouvintes de maneira estruturada, é preciso que as palavras sejam confirmadas pelo testemunho daquele que prega e também pela mudança de vida de seus ouvintes, provando assim sua eficácia.

areia, permanecer na pura ideia e degenerar em intimismos e gnosticismos que não dão fruto, que esterilizam o seu dinamismo.”144 Pela própria força da Palavra este anúncio precisa acontecer de modo contínuo, mexendo com as estruturas, possibilitando uma permanente renovação eclesial.

De olhos bem abertos e com os ouvidos atentos ao que Senhor mesmo nos revela, tanto fiéis quanto pastores vivenciam um ininterrupto processo de renovação no Espírito. Aquele que

“renova todas as coisas” (cf. (Ap 21,5b) capacita a Igreja a buscar sempre novas respostas aos desafios do tempo presente. Esse processo é fundamental, como já alertava o Documento de Aparecida:

A Igreja não pode prescindir do contexto histórico onde vivem seus membros.

Sua vida acontece em contextos socioculturais bem concretos. Essas transformações sociais e culturais representam naturalmente novos desafios para a Igreja e sua missão de construir o Reino de Deus. Daí nasce, na fidelidade ao Espírito Santo que a conduz, a necessidade de uma renovação eclesial que implica reformas espirituais, pastorais e institucionais145.

O conteúdo central do anúncio cristão é sempre o mesmo, Jesus Cristo. Porém, ao longo dos séculos se modificaram as formas deste anúncio, pois, sempre novas eram também as exigências de cada tempo. Assim, a Igreja buscou sempre dar respostas aos desafios que surgiam sendo fiel aos ensinamentos de seu Senhor. Na Palavra de Deus encontra sua referência maior, a fonte na qual se reabastece e renova de maneira perene, encontrando forças para dar cumprimento à missão.

Com efeito, “a Igreja precisa sempre de novo escutar e propor esta Palavra, seja na pregação, na liturgia, na catequese, na leitura orante da Bíblia, seja em outras formas”146. Fundamentada e iluminada pela Palavra, a Igreja será capaz de realizar de modo seguro o anúncio do Evangelho, pois, não será anunciadora de si mesma, de seus esquemas ou mesmo ideologias do tempo presente.

Como afirmou o Papa: “A Igreja, que é discípula missionária, tem necessidade de crescer na sua interpretação da Palavra revelada e na sua compreensão da verdade”.147 Disso decorre um anúncio que se torna cativante aos homens e mulheres situados num tempo e lugar próprios. Afinal, a Igreja se atualiza e cresce na interpretação da Palavra quando descobre novas

144 FRANCISCO. EG, n.233.

145 DAp, n.367.

146 HUMMES, Cláudio. Grandes metas do Papa Francisco, p.75.

147 FRANCISCO. EG, n.40.

respostas nesta fonte que é a Palavra, rompendo corajosamente com estruturas cômodas preestabelecidas.

Entretanto, para além de uma homilia que se fundamenta na própria Palavra de Deus, que esteja situada no contexto histórico, que seja desenvolvida como possibilidade de encontro e diálogo do povo com seu Senhor, faz-se necessário que o pregador possa realizá-la com parresía. Em outras palavras, o homiliasta precisa ser alguém capaz de anunciar com liberdade e verdade.

Este termo grego “parresía” (παρρησία), diz respeito a um modo de linguagem muito utilizado na arte da retórica. O mesmo é um importante recurso desde o período greco-romano, quando era utilizado na tentativa de expressar a autenticidade do discurso. Com efeito, o método de “linguagem franca” foi muito utilizado por oradores, filósofos, pensadores posteriores ao cristianismo. Mas, também junto ao cristianismo encontram-se referências, por exemplo, em Paulo – exímio orador de linguagem franca148.

Quando se observa atentamente o modo de anunciar paulino, percebe-se que a força da Palavra não estava somente no fato de que o apóstolo discorria sobre os mais diversos temas, conforme as necessidades que surgiam nas comunidades cristãs nascentes. Havia também uma formação que o capacitava para falar bem, isto é, para que fosse um orador capaz de convencer aos ouvintes.

Entretanto, ele mesmo afirmou à comunidade de Corinto: “não usei palavras eloquentes nem sabedoria humana para lhes apresentar o plano secreto de Deus. Pois decidi que, enquanto estivesse com vocês, me esqueceria de tudo exceto de Jesus Cristo” (2 Cor 2,1-2). Por vezes, Paulo afirma que abriu mão dos recursos humanos para falar das coisas divinas, deixou de lado a técnica da oratória para que em sua missão sobressaísse a graça.

Todavia, o uso do recurso parresiástico se fez presente na vida de Paulo desde sua conversão ao cristianismo; conforme atesta o relato dos Atos dos Apóstolos, Barnabé levou Paulo consigo a Jerusalém, apresentou-lhe aos apóstolos e dele testemunhou “como no caminho ele vira ao Senhor e lhe falara, e como em Damasco falara ousadamente [com parresía] no nome de Jesus” (Atos 9,27).

Com tal narrativa vê-se que em Paulo a experiência com o Ressuscitado impeliu ao anúncio do Evangelho. O bom êxito da pregação em Damasco é fruto não só da oratória de Paulo, mas de um encontro que transformou sua vida. “Paulo foi transformado não por um

148 Cf. PAIVA, Túlio Felipe. A parresía paulina e suas perspectivas: uma análise bíblico-teológica a partir de Ef 6,18-20. 2018. 90 f.. Dissertação (Mestrado em Teologia) - Programa de Estudos Pós-Graduados em Teologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018. p.17

pensamento, mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, do encontro”.149

A partir deste fato, o outrora perseguidor dos cristãos passou a testemunha da fé cristã.

Essa experiência marcou profundamente sua história se tornou propulsora de uma vida nova, um jeito novo de crer e anunciar a fé.

Pode-se dizer, sem hesitação, que há um Paulo antes e outro após a conversão.

Isso não significa, entretanto, que o “novo Paulo” tenha desconsiderado totalmente as capacidades adquiridas anteriormente, mas este se utilizará, a partir do ocorrido, de suas aptidões antes apreendidas. Porém agora numa nova dinâmica, isto é, na dinâmica do Evangelho de Jesus Cristo150.

Com efeito, pelo testemunho de uma vida nova na qual abraçou Cristo inteiramente, chegando mesmo a dizer “já não sou eu quem vivo, mas Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20), Paulo tornou sua pregação repleta de autoridade. Noutras palavras, o apóstolo dos gentios assumiu um novo modo de viver, não apenas adotou um novo conteúdo em sua pregação. Justamente por isso se tornou capaz de convencer e atrair a muitos à fé cristã.

De fato, à luz do exemplo de Paulo pode-se intuir como uma pregação parresiástica desdobra-se também em testemunho. Estes dois elementos (parresía e testemunho) estão atrelados, de tal modo que, no que diz respeito ao anúncio do Evangelho, podemos afirmar que este não se restringe às técnicas de pregação, ou ainda, à capacidade de bons pregadores que comuniquem teorias acerca da fé.

O fato é que o anúncio da Boa Nova ocorre com maior eficácia quando acompanhado do testemunho de vida. Há um o reconhecimento da autoridade daquele que faz convergir palavras e atos. Percebe-se com isso que o pregador não apenas tenta convencer os ouvintes;

antes, ele mesmo está convencido, pois, vive aquilo que anuncia.

A seguir veremos como a reflexão de Foucault acerca dos termos parresía, retórica e lisonja contribui na compreensão acerca dos modos como pode se realizar uma pregação.

Compreendendo tais conceitos veremos posteriormente como é mister ao pregador cristão anunciar a verdade não movido por interesses escusos (lisonja) ou mesmo pautado exclusivamente na força da técnica (retórica).

149 BENTO XVI. A Conversão de São Paulo (Catequese), 2018, p.366 (Coleção Ratzinger)

150 PAIVA, Túlio Felipe. A parresía paulina e suas perspectivas, p.17

1.2.3 Contribuição de Foucault na análise da coragem da verdade (parresía) e sua relação

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