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CAPÍTULO 4: A LIBERDADE DE EXPRESSÃO NOS JORNAIS BRASILEIROS: DA

4.3. O processo de ancoragem da liberdade de expressão

Em representações que reduzem a discussão sobre as liberdades de expressão, de imprensa e de iniciativa a estereótipos e simplificações conceituais, a grande imprensa vem ao longo de décadas, ancorando seu discurso e construindo errôneos modelos de interpretação sobre o assunto. Segundo Moscovici (1988), as representações sociais têm por objetivo tornar familiar aquilo que nos é desconhecido, isto é, categorizar, classificar e nomear fatos e ideias com as quais não tivemos contato anterior. Assim, lançamos mão de valores e teorias preexistentes e já conhecidas por nós para que possamos, de maneira mais fácil, compreender e manipular novos acontecimentos e ideias.

Para tal, de acordo com o autor, utilizamos dois mecanismos sócio-cognitivos: a ancoragem e a objetivação. Através da ancoragem trazemos o desconhecido para uma esfera

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de representações com as quais já temos familiaridade e assim o novo objeto ganha sentido e tornamos possível sua interpretação. Já objetivar é transformar o desconhecido em algo concreto, perceptível, quase físico. Comunicação e representação são, portanto, inseparáveis. É durante o processo comunicativo que os vários sujeitos da comunidade mesclam suas representações, formando-as e transformando-as em relações marcadas pelo conflito e por tensões. Aos poucos, ideias inicialmente estranhas tornam-se conhecidas e parte dos quadros coletivos de referência da sociedade.

Através dos processos de ancoragem e objetivação, a mídia constrói representações que se estabelecem como pontos de referência capazes de criar um conjunto de significados para além dos quadros iniciais de pensamento. Assim, os veículos de comunicação conferem ao objeto “liberdade de expressão” um novo quadro de referências que podem alterar nossa compreensão da realidade, orientando os temas que perpassam a questão em função de interesses específicos. Ao observar a maneira como os três jornais fazem alusão ao direito à liberdade de expressão, é possível categorizar essas representações em três modelos básicos: no primeiro a liberdade de expressão é tratada como se sinônimo da liberdade de imprensa, no segundo observa-se a equivalência desse direito ao da livre iniciativa empresarial e por último (e talvez mais frequente) a liberdade de expressão é condicionada à ausência de regulação e controle social.

93 Fonte: a autora, mediante pesquisa.

a) Liberdade de expressão representada como liberdade de imprensa - Trata-se da histórica confusão promovida pela mídia hegemônica entre os conceitos de liberdade de expressão e de imprensa. Implicitamente a mídia promove o deslocamento de um direito que é somente do cidadão para as empresas de comunicação e tratam as liberdades de expressão e de imprensa como equivalentes fossem.

Nas matérias que abordam o assunto, raramente os dois conceitos são apresentados como deveriam ser: a liberdade de expressão como o direito de cada pessoa e a de imprensa como o exercício de uma função pública. Muito pelo contrário: defende-se o direito dos grandes empresários gerirem o setor da comunicação da forma que bem lhes convier como sendo a única maneira de assegurar o direito da sociedade como um todo. No trecho abaixo, o diretor do Jornal do Brasil, José Antônio do Nascimento Brito promove a clássica equivalência entre os dois conceitos falando em livre manifestação na imprensa.

(01)

Em palestra no 6º Congresso Brasileiro e no 1º Congresso Latino-Americano de Jornais do Interior, ontem, em Gramado, o diretor-executivo do JORNAL DO BRASIL, José Antônio do Nascimento Brito, também presidente da Associação Nacional de Jornais, afirmou que "na Constituinte, o conceito de liberdade de expressão deve ser bem amplo; queremos liberdade de

Setor da comunicação prescinde de regulamentação jurídica e

controle social Ausência de limites ao

capital e mecanismos que impeçam o monopólio e a

propriedade cruzada Empresas como "voz do

cidadão". Veículos como tutores do direito à livre

expressão individual Ausência de regulação e controle social Liberdade comercial e empresarial Liberdade de Imprensa Liberdade de Expressão

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imprensa, e ponto final". Na sua opinião, todas as demais questões relativas ao direito à livre manifestação na imprensa "devem ser decididas por lei ordinária”. (JB, 07/11/1987)

Ora, sabemos que de forma alguma quando fala em livre manifestação na imprensa Nascimento Brito se refere à possibilidade de todos os cidadãos usarem a imprensa para expressar suas ideias democraticamente, mas sim reivindica um “trânsito” completamente livre para que o empresariado usufrua dos veículos da forma que acharem melhor. Outro exemplo pode ser visto no anúncio que a Associação Nacional de Jornais (ANJ) publicou por ocasião de seu aniversário de 30 anos (agosto de 2009). Nele, os jornais são colocados como “os olhos e os ouvidos de milhões de pessoas” (um deslocamento implícito do sujeito da liberdade de expressão do individuo para os órgãos de comunicação) e a imprensa como árdua e desinteressada defensora da liberdade de expressão.

b) Liberdade de expressão representada como liberdade comercial/empresarial - Dentro da mesma lógica que busca confundir o direito fundamental à expressão com o direito

Figura 1 – No anúncio publicado pela ANJ a imprensa é identificada como “olhos e ouvidos” da população e fiel depositária do direito de todos à liberdade de expressão. Fonte: Associação Nacional de Jornais, 2009.

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dos conglomerados comunicacionais atuarem sem limites políticos e financeiros, a grande mídia vem materializando e tentando forçar a aceitação social do que nomeou de "liberdade de expressão comercial".

Tratando tal termo como se jurídico fosse, o empresariado tenta esvaziar o real sentido da liberdade de expressão estabelecendo uma inexistente relação entre este direito e a ausência total de restrições econômicas à atividade midiática. É o caso dos dois trechos (o primeiro uma notícia, o segundo um editorial) em destaque nos quais a postura de condicionar o exercício da liberdade de expressão ao principio neoliberal do “mais mercado” fica bem clara.

(02)

A liberdade de imprensa, assegurada pela livre iniciativa e pela economia privada, foi defendida pelo presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), José António do Nascimento Brito, na reunião de ontem da subcomissão de Ciência, Tecnologia e Comunicação, da Assembleia Nacional Constituinte. — Entendemos que a Constituição do país deve estar livre das normas que, em nome da segurança do Estado e da moralidade pública, submetem a liberdade de expressão a limites e ressalvas — declarou o presidente da ANJ. (JB, 02/04/87)

(03)

A Constituinte agora é a oportunidade para que o Brasil – que já deu demonstração de que o capital estrangeiro é uma alavanca para a economia saltar uma etapa – consolidar a ideia de desenvolvimento e de democracia, e não para restringir a liberdade de iniciativa, que é a matriz dos cerceamentos políticos.

De que maneira pode ser social um regime que, em vez de acreditar na liberdade, recorre ao Estado como patrono do progresso e pai dos cidadãos? A sociedade não é uma parcela, mas o todo: do outro lado está o Estado, com sua burocracia e tudo que o serve. (JB, 05/06/87) Foi assim que se construíram os mitos da liberdade de expressão como proteção do indivíduo contra o Estado e da censura como intervenção que só nesse Estado tem origem. Esconde-se que, em um tempo onde os meios de comunicação de massa são expressão da liberdade de poucos, necessários são mecanismos não apenas de defesa da liberdade de imprensa, mas também da liberdade de todos perante a imprensa.

Ao tratar da noção liberal do que seria a liberdade, Guimarães e Amorim (2012) identificam o que chamam de “impasse do encarceramento”. Segundo os autores, a tradição argumentativa acabou creditando a gênese e o desenvolvimento da liberdade de expressão ao modelo liberal, o que terminou por circunscrever qualquer debate sobre a questão aos moldes da gramática liberalista. Assim,

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O argumento liberal sobre a liberdade de expressão é paradoxal: [ela] não se discute... fora dos marcos liberais! A fórmula propagandística que resulta deste antipluralismo e sectarismo genéticos é que toda proposta, argumento

ou legislação que contrarie os modos liberais de pensar a liberdade de expressão são imediatamente denunciados como contrários à própria liberdade de expressão. (GUIMARÃES e AMORIM, apud LIMA, 2012

(grifos do autor)).

A relação Estado/direito à livre expressão e a salvaguarda de tal liberdade como essencial para a promoção da cidadania são questões essenciais para a discussão do último ponto da categorização por nós proposta: o equívoco de relacionar liberdade de expressão à ausência de regulação e controle.

c) Liberdade de expressão representada como ausência de regulação ou controle social - No Brasil, a grande mídia tem obtido êxito na propagação do entendimento de que a liberdade de expressão está em uma permanente batalha contra a sanha regulatória de um Estado que está sempre à espreita aguardando a oportunidade de mergulhar o país novamente no obscurantismo da censura. Sempre tratado como tentativa de cercear a liberdade de expressão e de imprensa, qualquer debate em torno de propostas de regulamentação para o setor das comunicações é furiosamente atacado pelos grandes veículos e apresentado à opinião publica como ameaça à democracia.

Um exemplo dessa distorção é a agressiva campanha lançada pela Sky em 2012 contra a lei 12.485/2011. A operadora “recrutou” os atletas que por ela são patrocinados para ir a público questionar vários pontos da lei, principalmente os relativos às cotas de produção nacional e internacional.

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Com o slogan “O seu controle remoto agora está na mão da Ancine” a campanha classificou as normas aprovadas de incoerentes e inconstitucionais e convocou a população brasileira a se manifestar para se proteger de uma suposta interferência do governo no direito do consumidor e na liberdade de expressão.

A campanha foi alvo de repúdio de grande parte das entidades ligadas ao setor de áudio visual e levou a Apro (Associação Brasileira das Produtoras de Obras Audiovisuais) a entrar com pedido junto ao Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) solicitando a suspensão da campanha que a entidade classificou como sórdida e caluniosa. A ABPI-TV (Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão), também divulgou nota onde afirmava que “valendo-se de todos os expedientes regimentais protelatórios possíveis [...] a Sky virou as costas para o debate democrático para defender seus interesses e passou a investir em campanhas de desinformação do público"14.

Sobre a inversão promovida pela mídia, Lima (2012) comenta:

14

Disponível em http://abpitv.com.br/noticia/produtoras-de-cinema-e-audiovisuais-se-mobilizam- contra-campanha-da-sky

Figura 2 - Anúncio da campanha onde a Sky acusa a Ancine de desejar determinar o que o telespectador deve ou não assistir.

Fonte: site UOL http://propmark.uol.com.br/agencias/39686:conar- julgara-acao-da-apro-contra-campanha-da-sky

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Na verdade, trata-se de velha e conhecida tática. Escolhe-se um princípio sobre o qual existe amplo consenso e desloca-se para seu campo de significação a questão em disputa. Como em política, apoiar uma posição significa estar contra outra, é preciso identificar um adversário, no caso, os inimigos da liberdade de expressão, por extensão, aqueles que querem a censura.

E é assim que usando seu poder de agendar as discussões na esfera pública, os grandes veículos interditam qualquer debate que possa desfazer as noções errôneas sobre o que seria um Marco Regulatório. Propagando de maneira exaustiva a equação regulamentação = cesura, ela dissemina a ideia do Estado-tirano e apresenta a si mesma como única e grande defensora do direito do cidadão à livre expressão.

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