6. A matriz tipográfica Abc
6.1 O processo de desenho
Após a pesquisa desenvolvida, foi possível dar início ao desenho da ma-triz tipográfica. Primeiramente, parâmetros estruturais foram definidos, como a inclinação que as letras seguiriam, se seriam utilizadas letras mais próximas às de imprensa ou mais próximas às cursivas, se possuiriam ou não terminais de ligação e qual seria a proporção entre o corpo da letra e as ascendentes e des-cendentes.
O próximo passo foi a construção da grelha com a inclinação que as letras seguiriam para poder começar os esboços. O ângulo escolhido para a matriz foi o de 60º (Figura 16), o que a difere do itálico que utiliza a inclinação de 45º, e a torna mais fácil para as crianças que estão a aprender a escrever, por não pos-suir um ângulo tão inclinado e por não ser obrigatoriamente perpendicular à
pá-gina. Diz-se, ainda, que a escrita angular deixou de ser utilizada por estar cau-sando problemas de postura nos alunos, o que não chegou a ser confirmado, e que pode facilmente ser refutado quando adentramos uma sala de aula e obser-vamos os alunos que aprenderam a escrita direita com falta de postura. Tendo esse mito da postura caído por terra, a matriz Abc optou pelo regresso à letra angular pois, além da escrita inclinada tender a conferir mais agilidade, ela tam-bém permite um movimento mais fluido e relaxado da mão.
Figura 16. Ângulo de desenho das letras abc.
A partir de então, e com diversos alfabetos de referência, o desenho das letras da matriz Abc começou a ser feito e a gradualmente ser aperfeiçoado para alcançar o objetivo proposto (Figura 17). A fim de facilitar a aprendizagem, me-morização e melhor treinar o movimento da mão, as ascendentes e descenden-tes das letras foram definidas para serem amplas, possuindo a mesma altura de x21, tornando o corpo da letra em 3 vezes a altura de x (Figura 18).
Figura 17. Exemplo de página de esboço das letras.
21 Definição no Glossário.
Figura 18. Corpo da letra.
A princípio, todas as letras minúsculas foram feitas a mão, e posterior-mente, vetorizadas, somente depois disso as maiúsculas foram desenhadas. Du-rante o processo de vetorização, as letras foram otimizadas para melhor atender ao movimento de traçado, por exemplo, todos os terminais se tornaram arredon-dados, as curvas foram suavizadas, a largura das letras foi padronizada, e vários testes de impressão foram feitos, em tamanhos grandes e pequenos para asse-gurar a legibilidade das letras (Figura 19 e 20).
Figura 19. Exemplo da vetorização em seu início (a esquerda), após alterações (ao centro) e para comparação das letras sobrepostas (a direita).
Figura 20. Impressões para avaliação da legibilidade e ajustes visuais.
As letras maiúsculas do alfabeto se mostraram como sendo um desafio ainda maior que as minúsculas, pois praticamente não possuem formatos que se repitam em outras letras, tornando o desenho de cada uma único. O primeiro esboço das letras maiúsculas foi assustador, para mais, não existem muitas re-ferências de letras maiúsculas inclinadas que não sejam predominantemente ca-ligráficas, o que tornou o trabalho ainda mais árduo, porém muito mais gratifi-cante quando as letras começaram a surgir com fluidez de traçado e com formas simplificadas, como haviam sido pensadas.
Além da inclinação das letras da matriz ser um dos fatores diferenciais, todas elas foram concebidas para serem traçadas de uma só vez (Figura 21), ou tirando o lápis do papel o menor número de vezes possível, o que permite menos pausas e maior continuidade na escrita. Essa característica também foi pensada desde o início da sua concepção, fazendo com que o trabalho de design fosse mais minucioso, detalhado, e consequentemente, duro. Uma vez que a criança tenha memorizado o movimento e a forma da letra, a fluidez e a agilidade serão consequências naturais.
Figura 21. Direção de traçado das letras abc.
A abc é uma letra inovadora em vários sentidos, além dos já citados, ela é uma versão híbrida, porém equilibrada, das letras cursivas e das letras de im-prensa. Foi planejada para que as maiúsculas se assemelhassem às letras de imprensa, contanto que continuassem com a fluidez da escrita à mão. Já as mi-núsculas foram desenhadas para que o traçado fosse simples, direto e contínuo, e para que uma letra funcionasse tanto isoladamente quanto em conjunto, nas palavras, permanecendo com o mesmo desenho. (Figura 22)
Figura 22. A matriz tipográfica abc.
Essa característica se deve ao fato das letras possuírem terminais de co-nexão já embutidos (Figura 23), os famosos “bracinhos” e “perninhas” na educa-ção infantil, construídos com um espaçamento natural, garantindo a fluidez da escrita e do movimento, e não sendo necessário serem posteriormente acres-centados quando ensinarem a juntar letras para formar palavras. Tal fator é ex-tremamente benéfico quando se aprende a escrever, de acordo com Sassoon,
“It is usually accepted that when children start to join letters their writing looks less neat until they become practised in their joins.” (Sassoon, 1990b, p. 12), o que, em teoria, não acontecerá no modelo abc, visto que não haveria adição de nenhum fator extra no traçado das letras e a única diferenciação do traçado de letras individuais para a junção de sílabas será o espaçamento utilizado.
Figura 23. Terminais de conexão que fazem parte do desenho da letra.
Esteticamente, a fonte é formada por uma junção de características do passado e do presente, aliando beleza e praticidade, para melhor se adaptar ao futuro, às necessidades das crianças hoje e dos adultos amanhã. Mais do que um modelo-guia para o papel, a matriz abc pretende estar presente no mundo digital infantil e educativo, sendo aliada das crianças, dos pais e dos educadores em todo o período de aprendizagem da escrita, possibilitando, não só uma base adequada, mas também um meio para o desenvolvimento que não seja imposi-tivo, e sim construtivo. Afinal, como Sassoon (1983, p.8) tão bem afirmou: “To break away from a model is to make progress, and a sign of maturity, not rebel-lion.”