CAPÍTULO III: Os africanos livres em São Pedro de Alcântara
3.4 O processo de emancipação dos africanos livres
Em meados da década de 1860 foram elaboradas outras listas dos negros e
negras dos aldeamentos da bacia do rio Tibagi em virtude do processo de emancipação
dos africanos livres. Naquele momento a diferenciação entre escravos e africanos livres
tornou-se necessária e a documentação é rica neste sentido. Aqui retomo a discussão
sobre a condição dos africanos livres em São Pedro de Alcântara e também no
aldeamento São Jerônimo. Na seção supra, a partir das listas da década de 1850 e de
outros documentos, identificou-se que os africanos livres foram inseridos nos
aldeamentos mais próximos à condição de escravos pertencentes à nação do que à
condição de livres. O desconhecimento ou mesmo o desprezo da situação específica em
que se encontravam os africanos livre nas listas acima analisadas é sintomático desta
inserção indistinta que os aproximava aos escravos da nação que também integravam os
negros e negras dos aldeamentos. A documentação analisada nesta seção revela a
dificuldade para distinguir africanos livres e escravos nos aldeamentos da bacia do
Tibagi – aspecto que ratifica a inserção indistinta identificada acima – mas também
aponta um horizonte em parte distanciado da condição de escravos para os africanos
livres frente ao processo de emancipação.
Em junho de 1864 frei Timotheo de Castelnuovo definiu a “Relação dos
africanos da Nação que existem em São Pedro de Alcântara”.
322322
Relação enviada por frei Timotheo de Castelnuovo à presidência da província do Paraná, 1864. DEAP,
ap. 187, vol. 12, pp. 221-22.
Nesta lista constam dez
negros definidos como “escravos” – oito homens e duas mulheres. A maioria destas
pessoas se encontrava com mais de 50 anos e era proveniente do continente africano.
Seis homens eram solteiros, os outros dois e as duas mulheres eram casados. Sobre a
procedência destas pessoas descritas como escravos, o missionário afirmou que “vieram
do Rio de Janeiro de diversas repartições, e da Fábrica de Ferro de Ipanema; por
intermédio do Exmo. Sr. Barão de Antonina, e não existem nestas colônias documentos,
a exceção dos que vieram do Arsenal da Marinha.”
323Nesta mesma listagem, outras quinze pessoas foram definidas como “livres”. Em
comparação aos escravos acima referidos, três aspectos saltam aos olhos: as idades, os
estados civis e as procedências. Entre os listados como livres, todos tinham entre 24 e
33 anos de idade e apenas quatro homens eram solteiros; as demais pessoas o foram
como casadas. Com relação às procedências, observa-se a seguinte descrição de frei
Timotheo de Castelnuovo: “vieram diretamente (sic) do litoral onde foram aprisionados;
alguns deles têm suas papeletas que provam serem africanos livres.”
324
Ainda na mesma listagem, o missionário relacionou cinco homens em situação
desconhecida: “vieram da Fábrica de Ferro, porém não há documento de suas
condições”.
Também estão
relacionadas nesta lista doze pessoas definidas como “menores”. Com idades variando
entre um e nove anos, todas foram descritas, como era de se esperar, como crioulas e
como solteiras.
325
Em outra oportunidade, na lista elaborada em março 1865, o missionário
relacionou – além destes cinco homens – outros quatro também em situação duvidosa.
Estes tinham mais de 50 anos e eram africanos.
326O rastreamento destes quatro homens
nas outras listagens mostrou-se profícuo. Na lista anteriormente comentada, de junho de
1864, os mesmos foram descritos como “escravos”. Na de março de 1865 o foram como
em situação duvidosa. Mas na relação de 1866, na qual frei Timotheo de Castelnuovo
relacionou os “africanos livres e escravos nacionais entrados e saídos do aldeamento
São Pedro de Alcântara, como consta dos respectivos assentos”, três deles – além de
outros quatro que já em 1864 foram definidos como em situação duvidosa – contaram
com a descrição “emancipados”.
327Diferentemente da indistinção entre escravos e africanos livres verificada
durante a década de 1850, no processo de emancipação da década de 1860 observa-se o
esforço de frei Timotheo em identificar e diferenciar escravos e africanos livres. Muitas
pessoas que na década de 1850 foram descritas como escravas passaram a ser africanas
323
Idem.
324Idem.
325Idem.
326Relação enviada por frei Timotheo de Castelnuovo à presidência da província do Paraná, 1865. DEAP,
ap. 203, vol. 07, pp. 276-77.
327
Relação enviada por frei Timotheo de Castelnuovo à presidência da província do Paraná, 1866. DEAP,
ap. 231, vol. 03, pp. 219-21.
livres na década seguinte, enquanto outras permaneceram na condição de escravos da
nação. No entanto, o que mais chama a atenção aqui é que negros e negras definidos
como escravos também nas listas de 1864 e 1865 acabaram por ser enviados à capital da
província como africanos livres e receberam cartas de emancipação. Neste sentido é
reveladora a observação de frei Timotheo de Castelnuovo na listagem de janeiro de
1866 a respeito dos negros que ainda se encontravam nos aldeamentos: “Os existentes
que se acham em São Pedro e em São Jerônimo são os escravos nacionais que vieram
do Arsenal da Marinha: dos quais tenho solicitado a emancipação; tanto mais que já
foram dos mesmos emancipados dois.”
328Tratam-se de casos em que escravos da nação foram beneficiados pelo processo
de emancipação e considerados como africanos livres. E não foram casos isolados. No
aldeamento de São Jerônimo, o diretor Joaquim Francisco Lopes e seu ajudante John
Henrique Elliot elaboraram duas listagens para o processo de emancipação. Na lista de
março de 1865 foram listados os “africanos livres residentes no aldeamento São
Jerônimo que vão se apresentar ao Exmo. Sr. Presidente da Província para lhes passar
suas cartas de emancipação.”
E aqui devemos considerar que nesta mesma
listagem já encontravam-se, no mínimo, três emancipados que menos de dois anos antes
tinham sido definidos como escravos e outros três que anteriormente estavam em
situação duvidosa.
329
Nesta figuram apenas dez homens, entre 25 e 62 anos
de idade, todos de nações africanas. Três dos quais eram casados “com escrava do
Estado”; os demais eram solteiros. Na outra lista de São Jerônimo, de dezembro de
1865, Joaquim Francisco Lopes foi mais específico e listou os africanos livres, seus
filhos e os “escravos da Nação” do aldeamento.
330328
Idem.
329Relação enviada por John Henrique Elliot à presidência da província do Paraná, 1865. DEAP, ap. 203,
vol. 07, pp. 276-77.
330
Relação enviada por Joaquim Francisco Lopes à presidência da província do Paraná, 1865. DEAP, ap.
219, vol. 23, pp. 170-71.
Ao todo quinze pessoas foram
definidas como africanas livres: nove dos dez homens listados em março daquele ano,
suas esposas e filhos. Os três homens que em março foram descritos como casados
“com escrava do Estado”, em dezembro tiveram suas esposas, todas crioulas, descritas
como africanas livres e emancipadas. O africano livre Manoel teve ainda seus dois
filhos, um com 07 e outro com 09 anos de idade, descritos como africanos livres
emancipados. No entanto, de acordo com a listagem de dezembro de 1865, cinco
pessoas não tiveram a mesma sorte e permaneceram na condição de escravos da nação.
Não foi possível na presente pesquisa adentrar os motivos pelos quais
determinados escravos da nação foram beneficiados pelo processo de emancipação e se
converteram em africanos livres, enquanto outros permaneceram como propriedade do
Estado. No caso das esposas de São Jerônimo é possível que tal conversão tenha sido
motivada justamente pelos laços matrimoniais tecidos com africanos livres. De qualquer
forma, estamos diante de situações em que escravos pertencentes à nação foram
emancipados como se fossem africanos livres. Estes ex-escravos puderam também
vislumbrar as possibilidades abertas aos emancipados a partir do decreto de 1864.
Na documentação levantada encontram-se também as listas elaboradas pela
Secretaria de Polícia do Paraná relativas aos africanos livres emancipados na província.
Estes documentos exigiam dos emancipados a declaração do local em que iriam residir
e o tipo de atividade que almejavam exercer. São informações sucintas mas que revelam
indícios sobre as possibilidades vislumbradas pelos africanos livres no momento em que
receberam suas cartas de emancipação. Em abril de 1865, 28 pessoas foram
emancipadas em Curitiba.
331Dentre estas, sete pessoas eram do aldeamento São
Jerônimo, uma era da capital e as demais, vinte ao todo, eram de São Pedro de
Alcântara. Entre os provenientes deste último, dez pessoas declararam que ficariam em
Curitiba, cinco que residiriam em Castro e as outras cinco que voltariam ao aldeamento.
Muitas destas pessoas, de ambos os aldeamentos, receberam naquela oportunidade a
guarda de seus filhos e em suas declarações afirmaram que residiriam com seus
respectivos cônjuges. Este é o caso de Cairo e Eugênia, provenientes de São Pedro de
Alcântara, que receberam a guarda de seus quatro filhos menores e declararam que
regressariam ao aldeamento. O casal Pantaleão e Edvirgem, também de São Pedro de
Alcântara, declarou que iria residir em Castro. Já os casais Thomé e Rita, Paulo e Inês e
Januário e Viridiana, todos do mesmo aldeamento, receberam a guarda de seus filhos e
declararam que residiriam em Curitiba.
332Estas foram as opções, relativas ao local de residência, vislumbradas pelos
emancipados de São Pedro de Alcântara: permanecer na capital provincial, dirigir-se à
cidade de Castro ou regressar ao aldeamento. Entre os sete africanos livres provenientes
de São Jerônimo observam-se opções semelhantes: três homens afirmaram que ficariam
“nesta capital afim de tomar ocupação”, outros dois homens declararam que iriam
331
Relação da Secretaria de Polícia da Província do Paraná, abril de 1865. DEAP, ap. 205, vol. 09, pp.
164-67.
332
residir em Castro e as outras duas pessoas, desta vez um homem e uma mulher,
declararam que voltariam a São Jerônimo “afim de empregar-se”.
333Os africanos livres do aldeamento Santo Inácio e da colônia Tereza também
receberam suas cartas emancipatórias na Secretaria de Polícia da Província. Em julho de
1865, quinze africanos livres do referido aldeamento dirigiram-se à capital. Mais uma
vez as informações são lacunares e restringem-se a indicar o local para o qual os
emancipados almejavam seguir e a atividade que visavam exercer. Entre as quinze
pessoas encontravam-se doze homens e três mulheres. Apenas Alexandre e Américo,
ambos solteiros e de nação “Mina”, declararam “ficar nesta capital a fim de tomar
ocupação mediante salário.” Outras sete pessoas – entre as quais Sancho, Crispim e o
casal Marco e Dionísia, esta última a única crioula da lista – declararam que voltariam
ao aldeamento Santo Inácio também visando trabalho assalariado. O casal Samuel e
Feliciana recebeu sua filha menor Florinda e declarou que seguiria “para o Jataí a fim de
tomar ocupação.” Por fim, as quatro pessoas restantes declararam que iriam para São
Pedro de Alcântara também buscando trabalho assalariado. Entre estas se encontrava
Rogério, solteiro de nação “Angola”.
334
Entre os seis africanos livres provenientes da colônia Tereza, também
emancipados em julho de 1865, quatro declararam que ficariam “nesta capital a fim de
tomar ocupação mediante salário”, enquanto que Francisco declarou que voltaria à dita
colônia e Ambrósio que seguiria “para a Corte.”
335
As opções declaradas não variavam muito – permanecer em Curitiba, dirigir-se a
Castro e regressar aos aldeamentos ou à colônia Tereza, com a exceção de Ambrósio
que vislumbrava seguir à Corte imperial. Neste sentido vale destacar que todos os
negros descritos como de nação “Mina” declararam que residiriam em Curitiba e
buscariam trabalho assalariado; nenhum mina afirmou que regressaria aos aldeamentos.
Por outro lado, parte expressiva dos emancipados declarou que retornaria aos
aldeamentos. Particularmente com relação a estes, é plausível que tal retorno estivesse
relacionado à busca por uma estabilidade relativa diante do desenraizamento que
acompanhou o tráfico atlântico e também, no caso dos africanos livres, das incertezas e
333
Idem.
334Relação da Secretaria de Polícia da Província do Paraná, julho de 1865. DEAP, ap. 0209, vol. 13, pp.
274-75. Marcos casado com Gabriela e Marcos casado com Dionísia compõem um dos raros casos de
homônimos entre os negros da bacia do rio Tibagi. Aqui as suas esposas, bem como o qualificativo
“ferreiro” atribuído ao marido de Dionísia, evitaram qualquer confusão. Nos demais casos de homônimos
há sempre um complemento que diferencia os nomes.
335