6 ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO DO LÍDER IDEAL
6.2 O PROCESSO DE IDENTIFICAÇÃO DO LÍDER IDEAL
Para Freud, as primeiras identificações do sujeito são com seus pais, aqueles que exerceram a função de cuidadores durante a primeira infância. Lacan vai um pouco além ao detalhar que a forma como o sujeito lida com as suas emoções têm relação com as marcas deixadas pela função materna e a forma como lida com a lei, com a função paterna. Neste sentido, ao perguntar aos gestores quem são os líderes que os inspiram como líder, pôde-se identificar as figuras icônicas ou parentais que habitam o imaginário dos entrevistados e que fazem alusão às representações de líder do cenário atual das organizações.
A entrevistada Ametista mencionou a alemã Ângela Merkel como liderança feminina que a inspira. Explicou que possui ascendência italiana, com parentes residentes na Itália, o que a faz acompanhar a trajetória dos feitos da chanceler.
Relatou que admira como Ângela Merkel conduz a política de forma austera e reforça que ela, mesmo nos momentos em que foi criticada, manteve-se bem ‘firme’.
Descreveu a chanceler como pragmática, focada, decidida e que lidera pelo exemplo.
A forma como Ângela Merkel faz a gestão dos recursos é outro ponto que Amestista
ressalta a sua grande admiração: “[...] procura gastar conforme o orçamento e não incita o endividamento”.
Na descrição feita por Ametista sobre a chanceler pôde-se observar quais são as características que considera importantes na gestão e na liderança. Mais uma vez, destaca-se o aspecto econômico, área de sua graduação, imperante como Ametista vê o mundo: “gastar conforme o orçamento”, “pragmática”, “focada”, “não incita o endividamento”. Durante a entrevista, Ametista comentou que ela é uma pessoa decidida, que termina aquilo que começa a fazer e descreveu a sua mãe como uma
“mulher forte e decida”, professora do ensino fundamental. Em relação ao seu pai, a única menção foi que ele é bem inteligente. Também discorreu sobre uma menina de 20 anos que está preparando para ser a sua sucessora:
Tem uma menina de 20 anos que trabalha no administrativo da empresa, que daqui uns 6 anos, quando ela tiver mais maturidade, ela tem o perfil para assumir uma liderança. Estou formando-a para o futuro, quem sabe para assumir o meu lugar quando eu me aposentar, rsrrsrs. Ela tem uma presença muito forte, é muito comprometida! Ela tem a minha determinação. É muito ansiosa. O problema é que ela ainda não tem tato para conversar com a equipe, não sabe chamar a atenção. Precisa aprender a dosar o jeito como fala com as pessoas. É uma líder em formação.
As características descritas por Ametista de Ângela Merkel, sua mãe e da funcionária de 20 anos de idade são as mesmas com as quais ela se autoidentifica:
“decidida”, “focada”, “determinada”, “comprometida”. Liderança, para Ametista, está vinculada a uma “presença forte”, que remete à sua mãe. Os significantes que lhe inspiram como líder remetem a ações pragmáticas, e todos acabam girando em torno de um único significado: o foco na ação. Para Ametista, Ângela Merkel é a idealização de líder e a menina é a projeção para substituí-la no futuro.
Entre os nomes de personalidades de visibilidade mundial ditos como líderes que inspiram, estavam: Barack Obama, Luís Inácio Lula da Silva, Adolf Hitler, Jack Welch, Ran Charan, Tony Hsieh, Ângela Merkel, Papa Francisco e Jesus Cristo.
Para Citrino, o líder deve sair do pedestal e servir, sendo os seus exemplos de líder Jesus Cristo e, atualmente, o Papa Francisco: “Penso em Jesus, líder servidor, maior líder que existiu, ele queria realmente servir! Nos dias atuais, o Papa Francisco”.
Já Sodalita citou líderes que, conforme a sua interpretação, não fizeram “coisas boas”
para todos, mas que isso não tira o mérito de “grandes líderes” que foram: o ex-presidente Lula e Adolf Hitler:
Nem sempre o líder é o lado bom da vida. O Lula é um exemplo de líder, não que eu tenha votado nele. Eu nunca votei nele. Ele consegue atrair multidões.
Ele é o exemplo de que se você tem carisma, confia em você e tem uma boa autoestima, a chance de você se sobressair é muito grande. Eu falo isso como psicóloga. O Lula consegue envolver as pessoas no seu discurso, e, mesmo que essa pessoa seja bem esclarecida ela consegue ser envolvida no discurso dele. Ele sabe usar o carisma a favor dele, as pessoas acham que as provas dos crimes que ele cometeu são falsas, tudo por causa do jeito que ele fala. Tanto Lula quanto Hitler focaram nos objetivos deles e atingiram o que queriam. Hitler também foi um grande líder, que usou o seu carisma e dom de persuadir para coisas ruins. Não pode negar, uma coisa é você não gostar do que eles fizeram, mas que eles realmente atingiram os objetivos deles, eles atingiram. (ENTREVISTADA SODALITA, 2019).
Na fala da entrevistada Sodalita, o discurso da liderança carismática é o que sobressai como a representação das ações dos líderes que a inspiram. Ao longo da entrevista, a entrevistada relembrava a sua área de formação, a psicologia, como forma de mostrar um suposto saber sobre o comportamento dos líderes e dos seguidores no que se referia à importância de se ter autoestima, acreditar em si, confiar no seu talento, atitudes fortemente reconhecidas nos exemplos citados. Ao referenciar o ex-presidente Lula e Hitler, igualou os dois quanto ao carisma, à persuasão, à autoestima e à capacidade de mobilizar as massas em prol de seus objetivos. Os líderes inspiradores de Sodalita são representados por figuras que evocaram admiração dos seus seguidores e os mobilizaram a seu favor. Outro paradigma rompido na fala de Sodalita é de o líder governar para as pessoas, nos casos mencionados e como ela se expressou, os líderes referenciados governaram usando as pessoas para atingir objetivos pessoais.
A entrevistada Morganite tem como inspiração de líder Barack Obama, o presidente da empresa em que trabalha e o ex-chefe, por considerar os três pessoas humildes, transparentes, que apresentam comunicação assertiva, que demonstram preocupação com as pessoas e ao mesmo tempo olham resultados. Ao responder como os liderados a descrevem, ela respondeu:
Ah, eles me descrevem... Hum! Que eu sou aberta, transparente, tranquila, atrasada com os e-mails... rsrsrs. Sou muito participativa, ajudo a resolver problemas e sou preocupada com a carreira de cada um. Pergunto: onde você quer chegar? Acho muito importante olhar aonde a pessoa quer chegar.
Dou feedback e sofro em dar alguns feedbacks, porque as vezes você quer dar um reconhecimento, mas, tem limitações organizacionais.
(ENTREVISTADA MORGANITE, 2019).
A preocupação com as pessoas vista como uma característica forte dos líderes inspiradores, e é um traço que Morganite reforça em sua fala: “aberta”, “[...] sou preocupada com a carreira de cada um, pergunto: onde você quer chegar? Acho muito importante olhar aonde a pessoa quer chegar”, “você quer dar um reconhecimento”.
A partir destas referências, percebe-se que como a Morganite se autoidentifica converge com a forma como ela identifica os líderes que a inspiram. Na fala de Morganite a “liderança ideal” está representada no relacionamento com a equipe, embasado no propósito individual e na comunicação dialógica para se alcançar os resultados organizacionais.
Antigos chefes foram citados por outras quatro entrevistadas. Por exemplo, Cornalina citou uma gestora de RH que ela teve e em segundo lugar a sua mãe:
“considero as duas, pessoas à frente do seu tempo, nunca se acomodaram, sempre buscaram mais, pensam fora da caixa”. Na fala de Cornalina, o perfil de líder ideal está mais voltado à inovação. A entrevistada Ágata descreveu detalhadamente a gestora com quem trabalhou e que até hoje é seu exemplo de líder:
Tem uma líder que eu trabalhei com ela que me inspira, minha antiga gerente de RH. Exemplo de mulher, garra, postura, gestão da equipe. A equipe baba por ela. Assertividade, capacidade de dizer não no momento correto. Não tinha problema de dizer não independentemente do nível. Ela conversava com o presidente. Ela sabia a hora certa de levar ou não levar para o presidente. Ela dizia: hoje não é o bom momento! Ah, a sensibilidade que ela tinha, era demais, dificilmente os projetos dela não eram aprovados. Ela tinha essa sensibilidade. (ENTREVISTADA ÁGATA, 2019).
Para a entrevistada Ágata, as habilidades de comunicação não se limitam apenas ao líder com a sua equipe, mas, também, com os outros níveis da hierarquia.
O saber a hora de falar e como falar, que refere-se a capacidade de persuasão, é indiretamente evidenciada na fala de Ágata, como a capacidade que gera adesão, visto a figura de linguagem utilizada por Ágata “a equipe baba por ela”. Na continuidade da entrevista, ela exprimiu que a mãe tem um tipo de liderança diferente da ex-gestora: “minha mãe é totalmente sincera, se você não estudar, você vai ser caixa de mercado, vai ser manicure, sempre usou de autoridade”. Para Ágata a liderança autoritária não é uma forma de atuação “saudável” visto que teve “pais autoritários”. Como contraponto, discorreu como a gestora educava os filhos:
A minha líder tinha dois filhos. Ela tem dois meninos, um é muito tecnológico e outro era preguiçoso. Ela só dava recursos e colocava a cenoura para eles
seguirem. Ela dava incentivos para o preguiçoso. Falava: você só vai no intercâmbio se tirar nota y, x, z. (ENTREVISTADA ÁGATA, 2019).
A liderança da mãe remete à Ágata o líder autoritário, que age pela ameaça e não pelo incentivo. O discurso da mãe, segundo a entrevistada, era pautado em ameaças e consequências, muito comum no jeito de educar das gerações mais antigas. Ágata, transparece em suas falas, o desejo em subverter o modo de atuar da mãe e para isso, inspira-se no da ex-gestora. Porém, queixa-se que ainda não consegue entregar os resultados esperados pela organização como a sua ex-gestora fazia. Relatou que a equipe confunde um pouco a “parceria” que ela tenta estabelecer com permissividade:
Na minha casa meus pais é que mandavam e ponto! Para você conseguir que eles mudassem, era quase que impossível. Eu sou muito contrária dessa forma de exemplos autocráticos: Por que tem que ser assim, porque eu quero!
Eu vejo alguns chefes que eu tive que são assim. Os liderados também sofrem. Eu não atuo como autoridade, eu tento liderar pela parceria. Às vezes eu não tenho entrega. Pergunto quando vocês conseguem me entregar? Está tudo alinhado, chega no dia não tem entrega. Nas primeiras vezes, “eu queria morrer”. Por que você não fez? A pessoa justifica: você não tinha pedido para eu te avisar. Aí eu falo: vamos realinhar os comportamentos. Você tem que entregar e se você tiver algum problema de atraso, você terá que realinhar com a área. Eu ainda não achei uma receita em como ter mais assertividade na minha gestão. Eu não gosto de esfolar o time. Minha área é muito estressante, fazer muita coisa ao mesmo tempo, sempre busco em manter um clima leve e que eles queiram entregar. (ENTREVISTADA, ÁGATA, 2019)
As metáforas utilizadas por Ágata, “receita” e “esfolar”, são comuns ao discurso da liderança, que tende a prescrever comportamentos, fórmulas de sucesso e são avessos a assumir que exigem da equipe a mais do que podem entregar. Assim, o sentido expresso no termo “esfolar” é sempre velado no discurso, mas, operacionalizado na prática.
Os pais foram mencionados por vários entrevistados. Jade falou de seu pai como a quarta pessoa que a inspira como líder, dentre nomes como Ran Charan, Jack Welch, e o seu ex-chefe que atualmente é vice-presidente de uma rede de moda feminina e lingerie de amplitude nacional:
E o meu pai, figura forte nos valores morais que me guiam. Prega justiça, retidão, clareza. Meu pai diz: Vamos fazer o que é correto para todos, o justo!
Minha mãe é contadora, o acolhimento dela é que me inspira. O que me inspira nos outros nomes, é a inteligência, são extremamente inteligentes como agem, inovadores e não se conformam facilmente. (ENTREVISTADA JADE, 2019).
A entrevistada Sodalita também falou com muito esmero de seu pai:
Não existe mais patrão como meu pai, homem íntegro e muito bondoso. Era daquele patrão que a casa do funcionário destelhava e ele dava o dinheiro para consertar, sem mesmo pedir a nota do conserto. Ele tinha uma metalúrgica com 50 funcionários e sempre tratou as pessoas com respeito.
Minha mãe era do lar, mas sempre manteve as coisas sob controle para meu pai poder trabalhar e ajudava ele com a parte administrativa. Os dois formavam uma boa dupla. E eu aprendi isso com eles, os funcionários quando têm algum problema pessoal, eu procuro escutar e ver como eu posso ajudar, dentro das minhas possibilidades. As pessoas hoje se abatem muito com os problemas pessoais. Terminam um relacionamento e não conseguem lidar com a perda, faltam no trabalho e adoecem. (ENTREVISTADA SODALITA, 2019).
A figura paterna para Jade e Sodalita representa a justiça, “o fazer o certo para todos”, seja pela lei ou ajudando os outros. A figura materna em ambos os casos, fica no lugar de suporte, de acolhimento, de base para a ação. Sodalita, há 15 anos como gerente de RH na mesma organização, retratou que tenta ser esse “colo”, no sentido de escutar e compreender os funcionários que apresentam problemas não apenas no trabalho, mas também em sua vida pessoal. Relatou o caso que teve que ir ao estacionamento da empresa ajudar um funcionário a sair do carro, porque ele estava tendo um ataque de pânico e não conseguia se mover.
Entre as personalidades mencionadas como líderes inspiradores, há uma heterogeneidade de discursos e sentidos que estes representam, Barack Obama e Luís Inácio da Silva: sentido político, sentido econômico, sentido das minorias, sentido da mudança, sentido social; Adolf Hitler: sentido político, sentido perverso, sentido narcisista, sentido paranoico, sentido nazista; Jesus Cristo e Papa Francisco: sentido religioso, sentido altruísta, sentido das minorias, sentido espiritualista, sentido da liderança servidora; Tony Hsieh: sentido do empreendedor, sentido do CEO, sentido da liderança por propósito, sentido da felicidade, sentido biográfico; Ran Charan e Jack Welch: sentido da inovação, sentido da gestão, sentido do CEO, sentido do líder ideal, sentido do sucesso, sentido do culto à excelência. Ângela Merkel foi a única mulher citada entre as ‘personalidades’ e tal fato pode ser devido ao fato de as mulheres terem menos oportunidades para atuarem como líderes e os preconceitos que permeiam a liderança feminina. A chanceler representa o sentido político, o sentido econômico e o sentido da liderança feminina.
Os citados Barack Obama, ex-presidente Lula, Adolf Hitler, Papa Francisco e Ângela Merkel representam figuras políticas que exercem ou exerceram poder sobre as massas nos últimos 100 anos. São reconhecidos pelo seu carisma, dom de persuadir e conhecidos mundialmente por seus legados no poder. Ran Charan, Jack Welch e Tony Hsieh são reconhecidos no mundo dos negócios, tornando-se célebres especialmente pela publicação de livros e, atualmente, prestando consultoria à CEOs e organizações. Em suma, a figura do líder ideal para os entrevistados é representada por personalidades portadoras de notoriedade nas suas áreas de atuação e importantes espaços sociais (política e religião). As personalidades mencionadas, estão todas, de certo modo, envoltos no discurso político ou no discurso do mundo dos negócios, com visibilidade mundial.
Por meio da identificação com outros líderes, foi possível analisar como os gestores de RH identificam-se com supostos traços de personalidades destes, com as figuras parentais e com as pessoas que fizeram parte do seu convívio. Ao relatarem os sujeitos que os inspiram como líder, pôde-se identificar como os entrevistados avaliam os líderes “ideais” e que critérios consideram mais significativos. As palavras escolhidas para descrever os líderes inspiradores aludem às crenças e aos significados que cada um carrega e endossa em seu discurso, o qual constitui o discurso (abstrato) e é constituído pelas ideologias imperantes, assunto dos próximos tópicos.