CAPÍTULO 2: ASSISTÊNCIA SOCIAL, GÊNERO E FORMAS DE DOMINAÇÃO DE
2.1 O processo de industrialização de Rio Grande
O processo de industrialização de Rio Grande ocorreu durante as últimas décadas do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. O comércio de charque fabricado em Rio Grande e Pelotas foram essenciais para a construção das bases econômicas necessárias para a introdução de indústrias na região (MARTINS, 2005).
Conforme LONER (2016) o desenvolvimento das charqueadas na região sul do Estado proporcionou a riqueza dos estanceiros e charqueadores da cidade de Pelotas, constituindo-se em Rio Grande o principal porto exportador destas mercadorias. A localização geográfica de Rio Grande, cidade portuária com acesso marítimo, facilitou a comercialização nacional e internacional do charque produzido em Pelotas e, consequentemente, se beneficiou com a produção pecuária produzida na região sul do estado. Assim como Martins aponta:
O avanço proporcionado pelas charqueadas na metade sul do Rio Grande do Sul estimulou a economia regional e urbana, pois, se em Pelotas localizava-se a feitura do charque, era por Rio Grande que este seria comercializado para o centro/norte do país e para a América Central (para alimentação de escravos) (2005, p. 5).
Diferente da região norte do Rio Grande do sul, que construiu suas primeiras fábricas a partir da acumulação de capital originada do comércio de produtos coloniais produzidos a partir da agricultura de minifúndios colonizados por imigrantes, a industrialização da região sul do estado tem ligação com a produção pecuária. E a partir do capital acumulado no comércio do charque, surgem os primeiros sistemas fabris em Rio Grande (RS) durante a República Velha (1889/1930), acompanhando o período de industrialização do Brasil.
Os latifúndios agropecuários do sul demandavam pouca mão de obra, formaram ocupações habitacionais dispersas, enquanto nos minifúndios havia maior concentração habitacional. A industrialização da região sul irá acarretar mudanças significativas no modo de vida de seus habitantes. A partir da concentração de trabalhadoras/es e fábricas no município de Rio Grande começam a se desenvolver ferrovias, saneamento básico, transporte público. Enfim, um centro urbano com a sua complexidade de elementos.
As mudanças sociais surgidas pelo processo de industrialização de Rio Grande estão presentes, também, na socialização de migrantes das regiões próximas com os imigrantes europeus. Criou-se no Brasil, após a abolição, um imaginário ideal de trabalhador: o imigrante. Na cidade de Rio Grande não foi diferente. Havia o posicionamento no sul do Brasil de incentivar a vinda de estrangeiros como mão de obra, sendo estes vistos como fonte do “progresso”. A imigração na cidade de Rio Grande sendo urbana consistia em: portugueses, alemães, espanhóis e orientais (LONER, 2016, p. 43).
LONER (2016) discorre que pela falta de estatísticas é difícil avaliar o número de estrangeiros operários nas fábricas de Rio Grande e Pelotas. Porém havia fábricas que importavam mão de obra estrangeira para compor o seu operariado, como: fábrica Poock de fumos, Ítalo-Brasileira e fábrica Rheingantz (sendo os mestres e contramestre em sua maioria de origem alemã).
Percebe-se a socialização entre diferentes nacionalidades na fábrica analisada nos relatos orais explorados. Ao chegar da Bélgica e ir procurar emprego na fábrica Rheingantz, o futuro contramestre Dario Camposilvan não sabia falar português. O gerente no período era o João Rheingantz e ao ver que Dario não falava a língua local tentou interagir com ele em alemão, porém sem sucesso. Na segunda tentativa, falou em francês e assim conseguiram conversar. Ao começar a trabalhar na Rheingantz, Dario comenta que se adaptou rápido, aprendendo a falar português com os próprios colegas: “Me adaptei. [...] A pessoa tá.... é obrigada a aprender, tá no meio, não é? [CAMPOSILVAN, 1981, p. 21].
Podemos dizer que o universo fabril possibilitou a coabitação e a interação de diversos valores, culturas, línguas e hábitos. Foi um local multicultural e de certa maneira formador de novos hábitos sociais e políticos. Sociais pelas mudanças advindas em morar no meio urbano e trabalhar em fábricas, transformando toda uma rotina de vida de trabalhadores que antes residiam em uma região com economia concentrada nas práticas de trabalho agropecuário. E político visto a importância do movimento operário na cidade de Rio Grande.
As indústrias na região sul do estado, Pelotas e Rio Grande, eram voltadas para a produção de bens de consumo não duráveis e semi-duráveis, como:
vestuário, gênero alimentícios, charutos, têxteis, entre outros. A matéria-prima era
fornecida pelas regiões rurais próximas, o que beneficiou a produção agrícola do próprio estado, assim como comenta PEREIRA e ARENDT:
Disto resultou, até meados dos anos 50, uma indústria de caráter
Importações regionais e pouca circulação dos produtos produzidos nas fábricas a nível nacional são características das indústrias de Rio Grande, uma industrialização dispersa pouco integrada à economia nacional. A falta de integração a nível nacional estava presente durante a República Velha como consequência dos limites do transporte terrestre do período, sendo o porto marítimo a principal locomoção das mercadorias. Baseada na economia de exportação, os sistemas fabris cresceram até 1929, quando a crise internacional influenciou no refluxo deste crescimento (MARTINS, 2005).
A fábrica Rheingantz, sendo a primeira empresa têxtil de Rio Grande, foi importante no processo de urbanização e contribuiu na inserção da cidade na divisão internacional do trabalho. Assim como comenta o contramestre Alípio Magalhães: “Para todos os mercados nacionais e também tive a satisfação de exportar para a Itália, Síria e Alemanha. Isso tudo durante meu período” (1981, p8).
A fábrica Rheingantz abastecia o comercio regional e internacional. MARTINS (2005) aponta que o crescimento dos sistemas fabris em Rio Grande ocorre até 1929:
Perdia a indústria gaúcha participação a nível nacional pelo fato de ser dependente de um setor primário que também perdia mercado, devido (p. 9 e 10).
Sendo assim, a comercialização pecuária na região sul foi de suma importância para o processo de industrialização, pois o acúmulo de capital provindos do comércio pecuário foi investido na construção de sistemas fabris em Rio Grande e Pelotas. E posteriormente, as indústrias, ao consumirem a matéria-prima da própria região, favoreceram a produção agropecuária do estado. E em meio a esse contexto é instalada a fábrica Rheingantz em Rio Grande.