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A GRAMATIZAÇÃO DAS LÍNGUAS

1.4 O processo de legitimação da língua no Brasil

Orlandi (2002), sobre a relação entre Gramática, Filologia e Linguística, reflete sobre a gramática e o dicionário, a passagem da gramática para a linguística, a diferença entre o modo normativo e o científico, o expositivo e o histórico, bem como a passagem deste para a descrição, e também apresenta o que é próprio da linguística e a relação do conhecimento linguístico com o ensino.

Conforme Orlandi (ibidem), a Independência e a República têm grande importância no processo de gramatização e para os autores de gramáticas no século XX, estes já não são vistos apenas reprodutores de um saber linguístico português, mas interferem no processo de legitimidade social e nacional de nossa língua, ou seja, surge a posição-autor gramático brasileiro, que produz um conhecimento legítimo da língua.

Na metade do século XX, o Estado brasileiro já tem definidas as diferenças linguísticas com suas políticas em relação a Portugal, o que faz surgir um número considerável de gramáticas. Essa profusão de gramáticas desencadeará a intervenção do

governo com a publicação do decreto da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). Com esse decreto impõe-se uma homogeneidade terminológica, buscando apagar a materialidade da função-autor brasileira, de modo a cristalizar a gramática, isto é, de reduzi-la a uma nomenclatura fixa, submetendo o trabalho do gramático às normas do Estado.

Essa imposição da NGB dá prestigio científico à Linguística perante a Gramática, obtendo-se como resultado: de um lado, a gramática institucionaliza uma terminologia uniforme em conformidade com a língua nacional, oficial que serve como política de língua e, de outro lado, o linguista elabora uma metalinguagem com fins explícitos de reflexão, estabelecendo um olhar teórico em relação aos fatos da língua.

A autora (ibidem) apresenta fatos que marcaram a organização do saber como a Filologia e a Linguística, que tiveram papel preponderante na organização desse saber. No ensino universitário brasileiro, em São Paulo, a Linguística teve sua origem ligada à Filologia Românica, enquanto a Filologia Portuguesa acolhia os estudos de gramática da Língua Portuguesa. No relato do percurso histórico da Filologia Românica e da Filologia Portuguesa, a autora mostra que a Filologia desempenha um papel mediador e contraditório, no entanto, é ela que dá sustentação teórica para a inscrição da gramática da língua portuguesa nas disciplinas universitárias.

Orlandi (2002) deixa claro que, ao se considerar a gramática como instrumento linguístico, não se ressalta mais a simples utilização da gramática no ensino, não se fala mais de função da gramática, mas do funcionamento da produção de um saber sobre a língua na sua relação como o sujeito e a sociedade na história. E o linguista, ao falar sobre um saber científico, considera-o uma padronização da língua.

Ao tratar do tema preconceito, a autora (ibidem) diz que ele surge na hierarquização das funções, atribuições de valores e não nas regras e normas, tendo em vista que as sociedades com suas instituições são regidas por normas. Para a autora, na diferença entre uma unidade imaginária de língua e uma diversidade real entre os sujeitos de uma sociedade existe uma hierarquização pela maneira como as diferenças são significadas em um imaginário social.

A autora ainda tece comentários sobre a Faculdade (ensino superior) e os estudos secundários (ensino médio) e mostra a relação da universidade com o ensino de língua, em uma relação oscilante contínua, com imprecisão pedagógica que vai da erudição,

arte, capacidade de instrumentação da vida intelectual à valorização do espírito ou à normatização do uso social ou ainda da afirmação de uma nacionalidade, mencionando o equívoco que trabalha a relação com a língua e com o saber metalinguístico representado aqui pela relação contraditória entre Gramática, Filologia e Linguística.

Nessa direção, nos inserimos nessas discussões para pensar especificamente a instituição da norma, pela formulação das regras, nas condições de produção específicas da gramatização brasileira do português, da legitimação de uma língua diferente da língua de Portugal. Para os gramáticos brasileiros a norma é a mesma de Portugal ou é outra? Como a norma dessa língua, por essas regras, é legitimada e validada? Como a formulação da regra intervém nesse processo de legitimação?

Como se pôde ver neste trajeto histórico aqui desenvolvido, o processo de produção de gramáticas coloca em jogo a fixação da norma, pela formulação de regras, isso, de certo modo, vai produzir um imaginário de homogeneidade e de “completude” da língua, ou seja, a ilusão de que a gramática coincide com a língua.

Segundo Dias (2000 p. 21-22),

A gramática apresenta uma dimensão orgânica porque é um corpo de conhecimentos sobre a língua que aspira à completude. Ela abre mão do detalhamento e do aprofundamento específicos da abordagem linguística em benefício de uma visão integral da língua. No entanto, a elaboração de uma gramática se dá sob o eixo de uma perspectiva teórica definida. E é a partir dessa perspectiva teórica definida que se configura essa dimensão orgânica da gramática. Ela adquire uma visibilidade justamente pelo fato de produzir um suporte teórico definido, muitas vezes implícito, mas sempre buscando uma completude.

Nessa visão natural da gramática que aspira à completude da língua, encontramos os acréscimos que mostram exatamente a característica fundamental da linguagem, que é a incompletude.

1.5 Objeto de estudo: a formulação das regras e os acréscimos nas gramáticas