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Diferentemente do que estamos acostumados a entender, para Iser (1996, v.1), os termos ficção e realidade não são vistos de modo dicotômico, mas como termos da comunicação. A ficção deixa de ser vista como extremidade oposta à realidade, para comunicar algo sobre a realidade, organizando-a de modo que ela possa se tornar comunicável, por isso não se confunde com o que organiza. Como a teoria de Iser se funda num modelo histórico-funcional do texto, no sentido de analisar suas estruturas meta-historicamente válidas e a função de tais estruturas no sujeito, o argumento principal de uma teoria do efeito estaria localizado no centro de dois pontos de cruzamento. Um deles estaria no encontro entre texto e realidade: como o primeiro organiza a segunda, tornando-a comunicável, ao passo que o outro ponto de

cruzamento seria entre texto e leitor — como o texto regula a apreensão do mundo imaginado nele contido no receptor. A análise da interseção entre os dois pontos de encontro revelaria a função da literatura enquanto conector entre o sujeito e a realidade.

Iser (1996, v.1) explora a dimensão pragmática do texto, utilizando-se do termo pragmática conforme proposto por Morris8: a relação entre os signos do texto e o interpretante. Como esta trata do uso dos signos, as dimensões da sintaxe (relação de signos entre si) e da semântica (a relação dos signos com os objetos) são obviamente consideradas.

O teórico alemão parte do modelo dos Atos da Fala (de Austin) para fazer uma distinção inicial entre os textos pragmáticos e os de ficção. Entendendo o ato da fala como unidade comunicativa que organiza os signos e estabelece as condições para a comunicação com o receptor, as enunciações verbais são articuladas a situações. O referido modelo oferece, portanto, os pressupostos heurísticos para uma investigação envolvendo as estruturas comunicativas do texto. Para tanto, Iser situa os distintos tipos de textos — pragmáticos e de ficção — no âmbito das enunciações performativas em contraposição às constatativas. Deste modo, nos textos pragmáticos há o conhecimento mútuo dos parceiros (o que caracteriza a situação dos atos pragmáticos da fala), sendo o ato de desfazer os conteúdos contingenciais deste conhecimento seu estímulo e meta; nos textos de ficção, por sua vez, a relação texto- leitor é assimétrica e os estímulos são partes com indeterminação semântica. Tais estímulos, por isso, incitam o leitor dos textos ficcionais a criar uma situação com condições para compreensão do texto. Assim, se nos textos pragmáticos as situações contextuais encontram- se contidas no mundo prévio e histórico, nos textos ficcionais, por seu turno, tais situações estão contidas nos próprios textos, tornando-os, por conseguinte, textos auto-reflexivos. O caráter auto-reflexivo dos textos ficcionais dá condições ao receptor de produzir, através da organização dos símbolos textuais em sua imaginação, o objeto estético.

Considerando os três postulados apresentados por Austin para o êxito da ação performativa, a saber, as convenções comuns entre falante e receptor, os procedimentos aceitos por ambos e a disposição de participar na ação verbal, Iser diferencia os elementos do texto da seguinte forma: o repertório (como as convenções), as estratégias (como os procedimentos aceitos) e a realização (como a participação do leitor).

O repertório do texto consistiria no conjunto formado por aqueles elementos que escapolem à imanência do texto. Ele é apresentado quando o texto revela algo previamente familiar, não somente relacionado a textos de outras épocas, mas também a normas sociais e

8 MORRIS, Charles. Writings on the General Theory of Signs. In: Approaches to Semiotics 16, The Hague, 1971, p. 46.

históricas e ao contexto histórico-cultural, no sentido mais abrangente. As normas, todavia, não são copiadas de seu contexto original, porém selecionadas e surgidas no texto de forma reduzida, assumindo novas relações sem perderem totalmente as originais. O repertório apresenta, deste modo, o traço inicialmente comum entre texto e leitor, possibilitando uma comunicação. O valor estético aparece aqui como qualidade negativa, uma vez que ele está contido na organização de uma realidade extratextual, modificando-lhe o que é familiar. Assim não é possível captá-lo ou descrevê-lo. Desta maneira, o repertório do texto deve guiar a tarefa do leitor individual: formar a partir dos segmentos uma nova e coerente combinação não formulada no próprio texto. A nova combinação resultaria num sistema de equivalência, que ao ser atualizado pelo leitor se constituiria no objeto estético.

Às estratégias textuais, contudo, caberia organizar a seleção dos elementos do repertório no texto, delimitando as possíveis combinações de elementos necessários para a produção do sistema de equivalência, do mesmo modo, organizariam a comunicação entre o sistema de equivalência e o leitor que deverá atualizá-lo. Se as estratégias textuais organizam o material e as condições de comunicação, então elas não podem ser confundidas nem com a representação e nem com os efeitos do texto (ISER, 1996, v.1).

Considerando a função de organizar a comunicação entre o sistema de equivalência e o leitor, as estratégias textuais podem ser subdivididas em dois tipos: a) as que possibilitam ao leitor à apreensão do texto e b) aquelas que orientam as atividades de compreensão do texto. Cada um destes tipos, se subdivide em duas formas de agir.

Ao primeiro tipo relacionaríamos o primeiro plano (elementos do repertório do texto) e o segundo plano (contexto original, elemento do saber do receptor). Para que os elementos do texto sejam agora apreendidos em sua nova contextualização (primeiro plano) seria necessário conhecer os contextos originais aos quais estavam inicialmente inseridos (segundo plano). Esta contraposição de planos guarda semelhança com o modelo da psicologia da Gestalt de figura e fundo. Iser (1996, v.1, p. 177), porém, estabelece as devidas diferenças: “figura e fundo se estruturam em face de dados da percepção”, enquanto as relações entre primeiro e segundo planos constituem-se a partir das seleções contidas nos textos ficcionais; figura e fundo são intercambiáveis, revelando mudança de experiência, nos textos ficcionais as mudanças de perspectivas são governadas por uma estrutura. E por fim, figura e fundo permitem apenas a descrição de uma mudança, ao passo que “na relação entre primeiro e segundo planos não se esgota em chamar a atenção quer para o elemento selecionado, quer para sua referência”.

Ao segundo tipo de estratégias textuais, aquelas destinadas à orientação das atividades de compreensão, caberá a combinação e a organização dos elementos selecionados de forma que possam ser compreendidos. Se compreender é fruto da combinação, combinar é sintetizar os elementos selecionados. Compreender, portanto, seria para o leitor a efetivação da síntese dos pontos de vista sob os quais os elementos selecionados do repertório se manifestam. São quatro as perspectivas através das quais os elementos são selecionados: a perspectiva do narrador, a perspectiva dos personagens, a perspectiva da ação ou enredo e a perspectiva da ficção do leitor. Tais perspectivas possuem pontos de interseção originados da indeterminação semântica, os lugares vazios. Nenhuma das perspectivas por si própria fornece o ponto de vista que o leitor deverá assumir. Ele, o leitor, deverá reunir esta multiplicidade de perspectivas num ponto de vista intencionado. A perspectividade interna do texto possui uma estrutura que coordena e regula suas diversas perspectivas, trata-se da estrutura de tema e horizonte. O tema refere-se à perspectiva adotada pelo leitor como centro de sua atenção e o horizonte é a perspectiva anteriormente tomada como tema resistente na memória do leitor.

Se essa estrutura revela as posições perspectivísticas perante o horizonte das outras, então a mudança das coordenações sempre produz pontos de vista, que se revelam como condições centrais para a síntese das perspectivas do texto. Se a relacionabilidade das perspectivas do texto é regulada dessa forma, o leitor não é mais livre para imaginar qualquer coisa; ao contrário, a mediação produzida por essa estrutura reduz bastante a arbitrariedade da compreensão do texto (ISER, 1996, v.1, p. 182).

A mudança de perspectivas efetivada através da estrutura de tema e horizonte permite ao leitor imaginar o que nelas era excluído. Neste contexto, à medida que o leitor retém sua atenção numa determinada perspectiva transformando-a em tema, a perspectiva anteriormente tomada mantém-se em sua mente enquanto horizonte. Ao retornar à perspectiva agora tida como horizonte, transformando-a mais uma vez em tema, pretendendo uma síntese dos pontos de vista, o leitor deparar-se-á com um novo horizonte marcado pelas influências da leitura anterior.

Cada segmento assim tematizado, de acordo com Iser (1996, v.1, p. 183), possui significação através das relações recíprocas desenvolvidas no texto. As redes de relações possibilitam a construção do objeto estético, através de mudanças recíprocas em posições dadas é possível constituí-lo, de modo que “o objeto estético transcende tudo que é determinado no texto”. Para Iser (1993b), o objeto estético é objeto por assumir uma gestalt durante o processo de construção de coerência e é estético por ser produzido pelo leitor assumindo a implicitude, assim ele é fruto da ideação e não pode ser perfilado a qualquer

outro objeto do mundo empírico. Poderia ser simplesmente uma experiência, como inicialmente sempre será, ou pode assumir um nível de produção considerado sentido.

Cabe-nos explicitar, a seguir, como as capacidades de apreensão e de processamento do leitor são ativadas pelo texto, através de suas estruturas textuais.