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CAPÍTULO 2: O caminho da roça: a revitalização do interior fluminense

2.2 O processo de metropolização e a desruralização

A concentração de população e de recursos na cidade do Rio de Janeiro é explicada tanto pela sua conformação histórica (por abrigar a Capital da Colônia e do Império como Distrito Federal, e posteriormente, cidade/estado Guanabara), como pela importância que assume o estado ao sediar uma série de empresas públicas criadas no período marcado pela intensa industrialização e urbanização do país nos anos de 1940 a 1970.

Entre 1763 a 1960 a cidade do Rio de Janeiro ocupou a posição de capital do país. Mas ao perder a função de capital federal para Brasília, em 1960, a cidade do Rio de Janeiro, em vez de ser incorporada ao Estado do Rio de Janeiro, transformou-se ela mesma em um estado - o estado da Guanabara.

Um estado de um só município e uma só cidade. Somente em 1975, com a fusão entre os estados da Guanabara e do Rio de Janeiro e, a transferência da então capital deste último, da cidade de Niterói para a cidade do Rio de Janeiro, se estabelece a configuração territorial e administrativa que o estado apresenta nos dias atuais.

Por raízes históricas, a cidade do Rio de Janeiro exerceu um papel de principal polo econômico da região. Na época da província, a cidade do Rio de Janeiro já exercia uma centralidade dada a sua função militar na defesa do território e a sua função comercial, sobretudo pela presença do porto da Baía da Guanabara, por onde escoava a produção da província. Mais tarde, com a vinda da Família Real, a cidade passa a se destacar pela função político- administrativa. Essas atividades portuárias, comerciais, financeiras, manufatureira39 e de administração pública atraíram grandes fluxos migratórios, além de possibilitar a melhoria da infraestrutura urbana, e a intensa concentração de uma malha de serviços que atendia a nova urbanização territorial. Essa constituição histórica ajuda a explicar a sua transformação no principal núcleo industrial do país durante um século inteiro, dado a sua forte dependência das ações do governo central (Oliveira, 2003; Silva, 2004).

Para se ter uma ideia da importância da cidade do Rio de Janeiro na produção industrial do país, no Censo Industrial de 1907 o antigo Distrito Federal, a atual cidade do Rio, concentrava cerca de 30% da produção industrial e empregava cerca de 24% do total do operariado do país. Destacavam-se também os estados de São Paulo, com 16% da produção do país, Rio Grande do Sul (7%) e Minas Gerais (4%). As indústrias predominantes nesse período eram as dos setores de alimentação, têxtil, vestuário e produtos químicos (Simonsen, 1939 apud Oliveira, 2003). Além disso, a cidade já era a maior do país em 1900 e possuía um dos 15 maiores portos do mundo (Levy, 1988 apud Oliveira, 2003).

39 Segundo Silva (2004) até os anos de 1850 a atividade manufatureira fluminense era muito

Segundo Oliveira (op. cit.), com a queda do preço do café, no mercado internacional no final do século XIX, concomitantemente com a expansão do processo de urbanização e crescimento industrial do estado de São Paulo verifica-se uma redução do ritmo de crescimento industrial no Rio de Janeiro. A partir de 1910 o estado de São Paulo passou a ser o epicentro da economia e da indústria nacional.40

Para Cano (1998) uma das explicações para essa perda relativa da hegemonia industrial fluminense para São Paulo foi que este, já nos anos de 1920, havia orientado a sua produção para os setores mais novos e tecnologicamente mais adiantados. E a partir do processo de substituição de importação iniciado em 1929, quando se encerra a etapa da economia agro- exportadora, as ações do governo central passam a ser fortemente direcionadas à produção de bens intermediários e de capital, o que mais uma vez, ajuda a explicar o maior dinamismo da produção industrial em São Paulo de acordo com Melo e Contreras (1988).

Os caminhos percorridos pela industrialização fluminense estiveram à esteira da economia cafeeira e do capital gerado na produção de cana-de- açúcar. Os investimentos industriais até então realizados fora do núcleo metropolitano se desenvolveram ao longo dos eixos viários que ligam a cidade do Rio de Janeiro a São Paulo (BR 116- Sul Rodoviária Presidente Dutra e BR 101 Sul- Rodovia Rio-Santos), e o estado de Minas Gerais (BR 040- Rio-Juiz de Fora). Essas rodovias seguiram a trilha do café, saíam do planalto fluminense em direção ao oeste paulista e à zona da mata mineira. Por outro lado, houve um pólo de industrialização beneficiado pela agroindústria sucro-alcooleira que se consolidou com a implantação da estrada de ferro ligando a cidade de Campos à cidade do Rio de Janeiro em meados do século XIX. Como o Estado inicialmente possuía uma fraca rede de cidades isso acabou gerando uma grande concentração da população, das atividades e dos recursos na cidade do Rio de Janeiro (Oliveira, 2003).

40 Em 1940 o estado de São Paulo era responsável por 38,2% da produção industrial do país,

enquanto o estado do Rio de Janeiro participava com cerca de 4,1%. Em 1970, esses índices passaram para 55,9% e 7,4%, respectivamente (Motta, 2001 apud, Oliveira, 2003).

Contradições e disparidades regionais estão, portanto, associadas a dois processos - o de metropolização e o de “desruralização”- que, por sua vez, estão fortemente ligados à expansão do capital industrial e do capital imobiliário ao longo do século passado. Ou seja, enquanto o capital industrial foi responsável pelo impulso inicial do processo de metropolização, o capital imobiliário foi o principal agente de subordinação do capital agrário no interior do estado (Alentejano, 2003; 2005). Ocorrem, assim, a perda da hegemonia do capital agrário e mercantil no início do século XX, a decadência da oligarquia cafeeira e a ascensão da burguesia industrial, marcando o início da desruralização do estado e o desenvolvimento da metropolização.

Cabe acrescentar que segundo Oliveira (op. cit.), após a crise da economia cafeeira, toda a industrialização que se constituiu com base nesse capital no território fluminense não se sustentou, com exceção da siderurgia e metalurgia implementadas no município de Barra Mansa na região do Médio Paraíba. O destaque aqui foi a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em 1942, que teve sua dinâmica atrelada a um novo modelo de desenvolvimento ditada pelos investimentos estatais. Aliás, essa vai ser uma marca importante na trajetória industrial do estado do Rio de Janeiro nas próximas décadas, que passou a concentrar uma série de empresas estatais. Essas empresas se concentravam principalmente no setor de infraestrutura básica (energia e transportes), e atuavam no seio de um modelo de crescimento, que apresentava forte complementaridade entre os investimentos estatais, multinacional (com destaque para a indústria metal mecânica), e de capital privado nacional. Este último esteve mais orientado para os setores de distribuição e fornecedores para as grandes empresas multinacionais (como, por exemplo, a indústria de autopeças).

Assim, mesmo perdendo a sua hegemonia industrial desde a década de 1920 para São Paulo, é no período compreendido entre os anos de 1940 e 1964 que o impulso à industrialização se consolida no estado do Rio, com a instalação de diversas empresas de economia mista nos anos de 1940. Dentre estas destacam-se: o Instituto de Resseguros do Brasil; Cia. do Vale do Rio Doce; Cia.

Nacional de Álcalis (em Arraial do Cabo) e Fábrica Nacional de Motores (em Duque de Caxias). Houve também uma série de investimentos públicos nos setores de metal-mecânica, bens intermediários, minerais não-metálicos, químico-farmaceútico e construção civil dinamizada por grandes obras, estradas e habitação.

Na década de 1950, a economia fluminense se beneficia com a retomada do crescimento da economia brasileira, com a criação de importantes empresas estatais no seu território, localizadas principalmente na cidade do Rio de Janeiro, como a Petrobrás, Eletrobrás, BNDES, Furnas, entre outras. No bojo do Plano de Metas (1956-1961) a economia fluminense também se beneficiou com a dinamização da construção naval, modernização da indústria têxtil e construção da refinaria de Duque de Caxias.

No período marcado pelo estado desenvolvimentista na década de 1970, sob a égide do governo militar, observa-se a subordinação das políticas de investimentos no âmbito local pelos investimentos estabelecidos como prioridades nacionais para atender os setores produtores, com destaque para os de bens intermediários, energéticos, metalúrgica e petroquímica. Também se destacaram nesse período os investimentos no processo de urbanização, como expansão de rodovias ligadas aos interesses da indústria automobilística, e expansão da construção civil, associadas aos programas habitacionais e de saneamento básico. Assim, o setor secundário fluminense foi, em larga escala, constituído pelo capital público (Araújo Filho, 1994).

No âmbito do II PND (1974-1979) os investimentos foram dinamizados a partir dos setores de bens de capital, insumos básicos e produção de energias priorizadas nesse plano. Entre os investimentos direcionados ao estado do Rio de Janeiro neste período pode-se citar as obras de expansão da CSN, a instalação da Usina Termonuclear em Angra dos Reis (na BR 101 Sul), as obras de ampliação da Refinaria de Duque de Caxias (na BR 040) e reaquecimento da construção naval, entre outros. Portanto, até a década de 1980, a economia fluminense respondeu às alterações no ritmo de acumulação da economia brasileira, e mesmo perdendo participação na renda nacional, houve uma

aceleração da sua expansão durante a etapa pesada da industrialização do país.

Torna-se importante frisar que nesse período (1956-1980), as principais perdas da economia fluminense resultaram da transferência da capital federal para Brasília e da crescente consolidação de São Paulo como centro financeiro, além de epicentro industrial, contribuindo assim para o seu esvaziamento econômico regional (Silva, 2004).

Portanto, foram os investimentos públicos os elementos estruturadores dessa industrialização, direcionados, segundo Oliveira (op. cit.), principalmente para os eixos viários já estabelecidos, não estimulando assim a criação de novos núcleos produtivos e/ou centros urbanos para além desses eixos viários. Isso ocasionou uma baixa densidade industrial no interior. Para se ter uma idéia dessa concentração, os Censos Industriais do IBGE para os anos de 1975 a 1985 mostram que a indústria de transformação correspondia a cerca de 88% da participação no valor da transformação industrial do estado, sendo que deste a cidade do Rio de Janeiro era responsável por 61,9% em 1975, caindo para 57,42% em 1985. Em segundo lugar destacava-se o município de Duque de Caxias, com os índices de 9,03% e 10,91% respectivamente, e em terceiro o município de Volta Redonda, com os índices de 7,24 e 7,39% respectivamente (Oliveira, 2003).41

E, justamente, por ter uma forte dependência dos investimentos públicos, com a formação de um capital industrial fortemente baseada nas empresas estatais, que a crise dos anos de 1980 vai repercutir severamente na economia industrial fluminense, revelando a sua face de vulnerabilidade diante desses investimentos.

Cabe também ressaltar que essa marcha industrial segue em grandes linhas com o adensamento populacional, ou seja, foram as regiões que concentraram as atividades industriais que apresentaram as maiores taxas de

41 Cabe ainda mencionar que a cidade do Rio de Janeiro além de concentrar boa parte dos

investimentos públicos federais, contar com grandes empresas públicas de infra-estrutura produtiva, concentrou também uma importante infra-estrutura técnico-científica com a presença de várias empresas, instituições e universidades públicas.

crescimento demográfico. Como exemplo, temos um aumento de 209% da população residente nos municípios que compreendem a região metropolitana no período de 1940 e 1970, e neste mesmo período, a cidade do Rio de Janeiro teve sua população aumentada em torno de 141% (tabela 3).

Tabela 3: População Residente e Taxa de Crescimento, segundo as Regiões de Governo- Rio de Janeiro - 1940/1970.

Regiões de Governo População residente e Taxa de Crescimento

1940 1970 Crescimento 1940/1970 (%)

Estado 3 611 998 8 994 802 149

Cidade do Rio de Janeiro 1.764.141 4.251.918 141 Região metropolitana 2 231 527 6 891 521 209 Região noroeste fluminense 305 066 245 561 -20

Região norte fluminense 344 053 471 038 37

Região serrana 285 646 467 159 64

Região das baixadas

litorâneas 136 387 238 725 75

Região do médio Paraíba 159 496 446 835 180

Região centro-sul fluminense 121 567 177 753 46 Região da Baía da Ilha

Grande 28 256 56 210 99

Fonte: IBGE; Censos Demográficos.

Ao observar esse crescimento demográfico na região metropolitana do estado, percebe-se que o inverso ocorre no meio rural. Entre os anos de 1964 a 1980 houve um avanço da desruralização, traduzida pela redução da população rural do estado, em todas as regiões, e pelo intenso esvaziamento econômico e político no meio rural fluminense. Mais adiante este ponto será retomado.

Os anos 1980 marcam uma certa regressão dos processos que dominaram os períodos anteriores. Com o fim do milagre brasileiro e da “crise da dívida externa” há uma perda da importância dos setores que eram os eixos condutores do intenso processo de crescimento/industrialização vivenciados nos anos anteriores.

Ocorre uma forte ruptura no padrão de crescimento na economia fluminense, com o esgotamento desse modelo calcado nos financiamentos e

demandas governamentais.42 Para se ter uma ideia, na década de 1980 o PIB nacional cresceu a uma reduzida taxa média anual de 2,2%, mas a do Rio foi ainda pior (0,27%), caindo sua participação no PIB nacional, de 13,2% para 12,3% (Silva, 2004). A recuperação da economia industrial fluminense só se dá a partir da década de 1990 com outra formatação, marcada por novos setores e investimentos não mais concentrados na região metropolitana e nem tão dependentes dos recursos estatais.

Portanto, esse esvaziamento econômico fluminense só pode ser entendido a partir do padrão de crescimento da economia nacional, concentrado espacialmente no estado de São Paulo, e das especificidades estruturais da economia do Rio de Janeiro que, de certo modo, não estimularam a criação de maiores ‘encadeamentos dinâmicos’ nos setores produtivos. Somado a isso, o estado também sofreu com os resquícios de um processo político com a convivência com dois governos. Mesmo com a fusão dos estados do Rio de Janeiro com o da Guanabara em 1975, a unificação oficial do território não foi capaz de unir os interesses das classes dominantes e dirigentes daquela época para uma gestão do território fluminense como um todo. Somente a partir de 1982, com as eleições livres, segundo Oliveira (op. cit.), foi possível eleger um candidato que iniciou uma gestão de políticas públicas orientada também para o interior, reduzindo assim a centralidade dos investimentos estatais no núcleo metropolitano.

O ritmo da urbanização no estado sofre uma retração e, paralelamente, ocorre um início de desconcentração espacial da produção industrial. Ao comparar os dois últimos censos demográficos (1991 e 2000), constata-se que o crescimento demográfico do Estado neste período ficou abaixo da média nacional, e a cidade do Rio de Janeiro teve crescimento bem inferior- 0,74% ao ano. Esse baixo crescimento demográfico do Estado é apontado por alguns autores com um melhor desempenho do interior (Melo & Marques, 2005; Alentejano, 2005).

42 Um dos setores que mais sentiu a crise nesse período no estado foi o naval que sofreu forte

2.3. A reestruturação produtiva recente: desconcentração espacial e