CAPÍTULO 2 – A PERCEPÇÃO E A AVALIAÇÃO AMBIENTAL, E A COR
2.2 O processo de percepção ambiental e suas etapas
Percepção ambiental é o termo usado para denominar o processo de interação entre o ambiente e a pessoa, seja esta, um adulto ou uma criança. Trata-se de um processo de avaliação de um ambiente, por parte do seu usuário e se constitui no seguimento de etapas de um evento único, denominado processo de percepção ambiental. Envolve etapas e profundidades diferentes, e, inclui as atividades concretas de percepção e cognição.
Diferentes teorias e abordagens se ocuparam do estudo desse processo, buscando esclarecer onde se dá o fim de uma etapa de atividade e a seguinte começa, e, em que parte do processo total, uma atividade engloba a outra. Entretanto, não há um consenso sobre essa questão. Desse modo, encontram-se diferentes abordagens sobre o assunto.
Para Rapoport (1978) o processo de percepção ambiental se constitui em uma ação contínua, formada por três etapas, com fases consecutivas, que se repetem. Essas etapas envolvem as atividades de: percepção, compreensão e avaliação, que permitem transformar a informação inicial sobre o ambiente e reiniciar o percurso novamente (RAPOPORT, 1978, pp.46-47).
Arnheim (1998) a seu turno, descreveu o processo de percepção ambiental como um evento complexo e chamou a atenção para o fato de que num sentido mais amplo, estão envolvidos nesse processo: i) a coleta de informação sobre o ambiente; ii) a armazenagem, o processamento, a representação interna, a perceptual e a cognitiva da informação; iii) e, o juízo, as decisões e as escolhas feitas com base na informação representada. Defendeu o uso do termo cognição ambiental, devido ao continnum inseparável das atividades mentais aí envolvidas (ARNHEIM, 1998, p. 13). Na revisão da literatura se verificou variações na denominação do processo de
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interação entre o ambiente e o indivíduo, todavia, há uma tendência dos autores em adotar o termo processo de percepção ambiental, o qual também é adotado nesta dissertação.
Como se pode observar, no processo de percepção ambiental existem duas etapas principais: a percepção e a cognição. Para Weber (1995), mesmo que fenomenologicamente paralelas e inter-relacionadas entre si, funcionalmente, são independentes, podendo ser avaliadas isoladamente como poderá se observar nos próximos itens.
2.2.1 A PERCEPÇÃO
A percepção é compreendida como uma atividade sensório-motora do organismo. Constitui-se numa ação através da qual a imagem mental de um fenômeno ou objeto é adquirida, através das informações do ambiente, no qual o observador está inserido. A atividade de percepção está relacionada a uma experiência imediata, que depende dos estímulos dos sentidos e resulta da sensibilização dos atributos morfológicos que os elementos ambientais provocam no observador. Essa atividade independe de operações cognitivas internas, tais como: memória, reconhecimento e imaginação (WEBER, 1995, pp. 51-77).
Pesquisas reconheceram que a atividade de percepção ambiental engloba a coleta de informação em relação ao ambiente. Apesar disso, estudos apontam que a percepção pode ser compreendida de duas maneiras: 1) a que leva em conta, somente a experiência perceptiva e que ocorre através dos cinco sentidos básicos - visão, audição, tato, olfato e paladar; 2) e a que envolve, além dos sentidos básicos, alguns elementos da cognição, tal como na Teoria Ecológica, de Gibson (1966).
Segundo Weber (1995), os princípios biológicos inatos são parte da base dos processos fisiológicos que originam, no que lhe concerne, uma ordem perceptiva. No entanto, para Gibson (1986) o indivíduo tende a perceber o que está procurando, ou seja, tem a tendência de perceber o que busca. Isso remete a alguns dos princípios da Teoria da Gestalt, como, por exemplo, o princípio da figura-fundo, no qual um ou outro elemento é percebido – a figura ou o fundo (WERTHEIMER, 1938).
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2.2.2 A COGNIÇÃO
A cognição não envolve, necessariamente, um comportamento imediato, nem precisa estar diretamente ligada ao que ocorre no espaço visto no momento presente como a percepção, pois, ela implica na associação de atributos e significados oriundos da experiência, dos valores e da cultura que o indivíduo carrega em si (OKAMOTO, 1996; LAY E REIS, 2006). Conforme Piaget (1969), a atividade de cognição é um processo mental de construção de sentido, cumulativo, formado através da experiência cotidiana. Serve de complemento à atividade de percepção, quando esta é entendida apenas como sensorial. A atividade de cognição dá sentido e valor às experiências perceptivas, que se dão pelas sensações, formando assim, uma imagem ambiental no rol de conhecimentos do indivíduo.
Segundo Weber (1995), a cognição é entendida como uma etapa em que o que foi percebido na etapa de percepção adquire um valor, quer dizer, um lugar e uma função no repertório da pessoa. Nessa etapa, o objeto ou fenômeno torna-se uma imagem significativa, inevitavelmente, atrelada ao pensamento, à memória e ao reconhecimento de algo. A associação entre esses elementos sensoriais e mentais gera expectativas em relação ao ambiente, manifestadas em comportamentos e atitudes por parte dos indivíduos usuários de um determinado local. A cognição se ocupa da organização da informação recebida através da percepção, em esquemas cognitivos de significado.
A cognição ambiental relaciona-se à memória e ao aprendizado, que se dá por meio da armazenagem, organização, reconstrução e chamamento de imagens dos atributos ambientais, no momento indisponíveis no ambiente. A totalidade desse processo é básica para que os indivíduos sejam capazes de adaptar seus comportamentos a um ambiente específico, ou adaptar um ambiente específico às suas necessidades (LAY; REIS, 2006; p.23). A atividade cognitiva necessita de processos mentais utilizados para categorizar e entender o objeto ou fenômeno, baseando-se em comparações entre e com padrões mentais, que possuem informações visuais, semânticas, comportamentais e linguísticas.
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2.2.3 TEORIAS QUE APOIAM O ENTENDIMENTO DO PROCESSO DE PERCEPÇÃO AMBIENTAL
Duas teorias podem ser citadas para servir de apoio ao entendimento do processo de percepção ambiental, a Teoria da Gestalt, de Kofka (1975), Köhler (1968) e Wertheimer et al. (1968) e Teoria Ecológica, de Gibson (1986), ambas enfatizando o processo perceptivo.
Segundo a Teoria da Gestalt, os indivíduos tendem a organizar os estímulos ambientais, em padrões visuais para simplificá-los e torná-los coerentes. Esses autores formularam regras de organização visual: proximidade, simetria, continuidade, similaridade, fechamento e área, entre outros, regidos pela “boa forma”. Estudos comprovaram que o estímulo sensorial incentiva a visão do cérebro, por meio das propriedades fisionômicas e estruturais do mesmo, dando origem à percepção (LANG, 1987).
Os adeptos dessa teoria dedicaram-se também ao estudo da cor. Esses estudos apontaram que a capacidade de síntese visual está ligada à capacidade de visão das cores, as quais influenciam a percepção de padrões visuais formais (DEFERELDT et al. 2004), o que se leva em conta nesta pesquisa. Pressupõe-se que o efeito figura-fundo no uso da cor, nos ambientes hospitalares, pode influenciar positivamente a percepção ambiental, concorrendo para o próprio estímulo ambiental relacionado à estética, à funcionalidade, à orientação, à legibilidade e à informação adequada sobre o local.
Para a Teoria Ecológica, o ambiente considerado é tridimensional e inclui, no processo de percepção outras características visíveis nos objetos, denominadas affordances. Affordances seriam oportunidades que o ambiente ou objeto oferece ao indivíduo, bem como as diversas formas de como esse indivíduo pode percebê-lo e usá-lo. Há uma seletividade da percepção, em que cada indivíduo, orientado por um esquema mental antecipatório, filtra automaticamente os dados de forma seletiva e pessoal. A experiência anterior pode mudar o que é percebido, e com isso, modifica a avaliação ambiental. Os mesmos affordances – oportunidades - podem ser percebidos por diferentes pessoas, ou seja, as avaliações ambientais podem (ou não) ser compartilhadas por integrantes de um mesmo grupo, cultura e dentro de ambientes similares.
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dizer que as percepções dos indivíduos envolvem a integração das atividades de percepção, cognição e avaliação. Visto dessa maneira, estar no ambiente hospitalar tende a ser percebido como estressante pelos usuários desse ambiente e a configuração ambiental pode reduzir esse efeito.
O processo é atrelado aos estímulos presentes no local e a percepção não é apenas sensorial e direta. A percepção inclui também a interpretação e o significado daquilo que é percebido num determinado ambiente. Nesse sentido, com base em Kohlsdorf (1995), os edifícios de saúde e seus ambientes, podem dar melhores ou piores respostas avaliativas, às expectativas de seus usuários, de acordo com as diferentes características arquitetônicas e cromáticas presentes nos seus espaços físicos.
2.2.4 O PROCESSO DE PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO ÂMBITO DESTA PESQUISA
Observa-se que a diferença crucial entre as atividades de percepção e cognição reside no fato de que a primeira, se refere à apreciação do mundo externo como estímulo imediato, melhor dizendo, captado visualmente no momento da observação. Enquanto que a segunda, relaciona-se ao chamamento de imagens mentais, que não estão presentes no ambiente físico no momento da observação (LAY e REIS, 2006, p. 23).
Para fins desta pesquisa adota-se que as duas atividades – percepção e cognição – se constituem em um evento único e simultâneo: o processo de percepção ambiental, contudo, por uma questão analítica, opta-se pela separação entre essas atividades, com base em Weber (WEBER, 1995, p.63). Ainda assim, leva-se em consideração de que é por meio da interação entre a percepção e a cognição que o indivíduo forma a imagem mental do ambiente, baseada na imagem real observada. Essa imagem mental que se forma, tem um significado subjetivo e varia ou não de acordo com os observadores ou grupos de observadores, uma vez que, se atrela às experiências com o espaço, que podem ser individuais ou compartilhadas. Assim, a imagem que um grupo forma de um ambiente pode ser avaliada como positiva ou negativa, de acordo com suas interpretações (GOLLEDGE; STIMSON, 1997, p. 191). A compreensão de como ocorre o processo de percepção ambiental é importante no âmbito desta pesquisa, pois, permite investigar sobre a formação de
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julgamento e avaliação ambiental, com base nas características: (i) formais, responsáveis pela experiência sensorial e (ii) simbólicas ou avaliativas, responsáveis pela experiência cognitiva, consideradas como categorias de análise neste estudo.
2.3 AVALIAÇÃO AMBIENTAL: CONCEITOS E ASPECTOS IMPORTANTES
Uma vez que esta pesquisa se insere na área de estudo ambiente- comportamento, a qual investiga as inter-relações entre as características físico espaciais do ambiente e as respostas comportamentais dos usuários (Figura 2.1), para uma melhor compreensão da mesma, julga-se importante o esclarecimento de conceitos e aspectos adotados no presente estudo ligados e relativos a essa área do conhecimento.
Características Físico-Espaciais do Ambiente (Imagem Avaliativa)
Respostas Comportamentais dos Usuários (Desempenho Ambiental)
Figura 2.1: Relações estudadas na área ambiente-comportamento.
Dessa maneira, as características físico-espaciais dos ambientes são analisadas por meio da imagem avaliativa dos usuários sobre os ambientes hospitalares de atendimento infantil, em relação ao seu uso cromático atual. Enquanto que as respostas comportamentais são investigadas através do desempenho ambiental desses locais, como espaços humanizados, no intuito de se analisar a sua qualidade ambiental ligada às cores.
2.3.1 IMAGEM AVALIATIVA
A imagem avaliativa é o resultado do somatório das respostas estéticas dos usuários em relação ao ambiente, aliadas aos significados associados a ele (Figura 2.2). No âmbito desta investigação, se trata das relações e dos impactos entre ambos os componentes da imagem avaliativa, e, são considerados: (i) as respostas estéticas