Na região metropolitana da Baixada Santista desenvolvem-se atividades portuárias, industriais e turísticas. Com vocações tão antagônicas, sobretudo sob a ótica ambientalista, faz-se necessário estabelecer planos de ação que as tornem compatíveis e harmônicas, de modo a não “engessar” o desenvolvimento local. Atingida por alto índice de desemprego após a modernização do porto e pelas transformações ocorridas no parque industrial de Cubatão, a Baixada Santista carece de um plano de combate à pobreza, com o reaquecimento da economia. O processo de regionalização ajusta-se a essa necessidade urgente de retomada do crescimento. Atualmente, o porto de Santos aguarda regulamentos que permitam sua regionalização, processo que transferirá parte de seu controle administrativo (hoje extremamente centralizado nas mãos da União), para o Estado de São Paulo e municípios que estão dentro da área do porto organizado, como Santos, Cubatão e Guarujá. A regionalização também terá papel importante na consolidação da Agência Metropolitana da Baixada Santista – AGEM, entidade autárquica vinculada à Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos, que existe desde 1998, pela Lei Complementar nº 853/98, e que conta em sua formação com nove municípios vizinhos da região (Santos, Cubatão, Guarujá, Bertioga, São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe), permitindo sua participação na gestão e planejamento econômico e territorial do porto. A administração co-participada induz ao desenvolvimento e geração de empregos locais e facilita a adoção de mecanismos de controle sobre os impactos ambientais por parte dos diretamente interessados. Segundo o relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1988: 51): “... a imposição do interesse comum é muitas vezes prejudicada porque as áreas de jurisdição política não coincidem com as áreas de impacto”. O Estatuto da Cidade tem como diretriz evitar ou corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente. Para Araújo (2003), essa diretriz aplica-se não só ao Município, mas também ao território sob sua área de influência, o que respalda que o estabelecido pelo art. 2º do Estatuto vale também para a gestão metropolitana e regional. Conforme artigo publicado no jornal “A Tribuna” de Santos, de 05/07/2005, a bandeira da regionalização do Porto de Santos volta à cena, depois de relegada a segundo plano por motivos políticos e econômicos. Segundo os prefeitos das cidades da região, o grande impasse nesse processo é o enorme passivo econômico da Codesp, que tem muitas dívidas relacionadas a antigas ações judiciais, oriundas principalmente de processos trabalhistas. O conflito consiste em decidir quem pagará essa conta, pois as prefeituras consideram que trata-se de uma dívida da União. Trata-se de uma negociação complexa, pois o cais santista é estratégico dentro da economia nacional, com sua movimentação em 2004 perto de 68 milhões de toneladas, registrando US$ 26,90 bilhões, equivalente a 27,9% do total nacional. Contudo, é preciso ressaltar que a descentralização não significa eximir o Estado do cumprimento das atividades de sua competência. Considera-se inclusive ultrapassada, a visão negativista que marcou o comportamento dos órgãos estaduais ligados ao meio ambiente bloqueando atividades com potencial de impacto ambiental. O posicionamento atual é descobrir atividades e empreendimentos que podem ser bem sucedidos dentro de condições ambientais específicas. A atuação do Estado passa a ser mais propositiva, pois auxilia a comunidade a encontrar alternativas econômicas que assegurem a preservação ambiental, mas que também garantam a geração de emprego e renda (Assis, 1998). Congregando os esforços do estado, dos municípios, da iniciativa privada e dos cidadãos, surgem inúmeras alternativas concretas de ação. Pode-se pensar a partir da construção de uma Agenda 21 local (para cada município envolvido), bem como um Plano de Desenvolvimento Sustentável Regional. O envolvimento da comunidade na definição das diretrizes a fará lutar para que estas se concretizem, garantindo a consolidação do processo. CAPÍTULO 7. O IMPACTO AMBIENTAL DAS ATIVIDADES PORTUÁRIAS. Em geral, os estuários que possuem atividades portuárias recebem esgotos, efluentes industriais, resíduos de toda a espécie, que contaminam as águas, os peixes e todos os seres aquáticos. Na cidade de Santos, esta poluição das águas compromete o seu principal atrativo turístico, ou seja, as praias limpas e em boas condições de balneabilidade. Tal situação exige o monitoramento e controle da degradação ambiental. A atividade econômica portuária também perde competitividade diante dos outros portos do mundo, que ao se modernizarem e crescerem de modo sustentado, agregaram valor aos serviços oferecidos. São inúmeros os impactos gerados pelas atividades portuárias: o esgoto e o lixo, gerados pelos navios, terminais e armazéns; transporte e armazenamento de produtos químicos (enxofre, barrilha, nafta); o vazamento de óleo ocasionado por acidentes ampliados ou durante o abastecimento dos navios; a poluição sonora, do ar, das águas, do solo, dos manguezais; a constante necessidade de dragagem para manutenção da profundidade do cais; o despejo da água de lastro (necessária para estabilizar a embarcação), que pode conter agentes patogênicos e organismos estranhos ao ecossistema local; os problemas gerados pelas atividades retroportuárias (como os terminais de contêineres, e conseqüentemente, a intensificação do tráfego local), que comprometem a relação espacial porto-cidade; a atração de pombos e ratos, espalhando zoonoses, não só na zona portuária mas por toda a região próxima. Segundo Sérgio Pompéia, doutor em Biologia e ex-coordenador do grupo de meio ambiente da Câmara Paulista do Setor Portuário, em recente palestra proferida na Universidade Católica de Santos, UNISANTOS, estes são os principais programas de gestão ambiental nas atividades portuárias, de acordo com as características do porto e da região, capazes de mitigar os efeitos impactantes sobre o meio ambiente: • Gerenciamento de riscos ambientais (incluindo planos de emergência e contingência). • Coleta e destinação de resíduos sólidos e portuários. • Controle de efluentes líquidos e gasosos (incluindo esgotos). • Controle da erosão e assoreamento (incluindo a destinação final do material dragado). • Conservação dos recursos naturais. • Monitoramento ambiental. • Treinamento, capacitação e educação ambiental. O palestrante avaliou a importância deste último item, devido à enorme dificuldade de se encontrar técnicos especializados em gestão ambiental portuária, reconhecendo a necessidade urgente de investimentos em recursos humanos, através de cursos de capacitação profissional em todos os níveis, favorecendo inclusive um processo de trabalho multidisciplinar. Pompéia finaliza, descrevendo as principais medidas que visam a gestão ambiental nos portos organizados: • Criação de uma estrutura de gerenciamento ambiental junto à administração portuária. Afirma ele que cada atividade (e todas elas), dentro do porto, precisa ser pensada sob a ótica da prevenção e sob a ótica ambiental. • Levantamento dos passivos ambientais. • Regularização do licenciamento ambiental. • Incorporação da vertente ambiental nos Planos Diretores de Zoneamento (PDZ); compatibilização entre PDZ, Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) e Planos Diretores Municipais. • Estabelecer normas e procedimentos internos para minimização dos impactos ambientais provocados pela atividade portuária. • Citar mecanismos de acompanhamento da gestão ambiental pelo Conselho de Autoridade Portuária (CAP). Experiências atuais demonstram, no entanto, a eficácia na execução dos planos de gestão participativa, quando bem desenvolvidos, com a parceria de governos e sociedade civil organizada. Destaca-se, também, as possibilidades de transformar atividades poluidoras em “oportunidades de negócios”, como é o caso, por exemplo, da reciclagem de lixo e resíduos. No documento MARIA FERNANDA BRITTO NEVES SANTOS E O PLANEJAMENTO AMBIENTAL DO ESPAÇO PORTUÁRIO: DESAFIOS NA GESTÃO DE UM PORTO SUSTENTÁVEL. (páginas 101-106)