CAPÍTULO 5 Os efeitos reais da desobediência:território de vida
5.1 Comunidade Massapê
5.1.3 O processo de retorno ao território tradicional: “um direito a existir”
O processo de retorno da comunidade do Massapê ao seu território está em pleno curso. Desencadearam essa viagem da volta131, no ano de 2010, a partir da denúncia pública –
Carta Denúncia do Povo Pankará − que suspendeu os trabalhos de levantamento fundiário do Incra. Esse retorno pode ser simbolizado por cinco processos: i) reinserção na organização sócio-política; ii) reabertura da escola; iii) abastecimento de água; iv) mutirões de limpeza da vila e reconstrução das casas. De forma resumida, podem ser apresentado assim:
i. As lideranças do Massapê passaram a integrar o GT da Funai, têm participado de todas as reuniões internas do povo, representando a comunidade no grupo de lideranças, como também nos encontros do Movimento Indígena, a exemplo da presença dos professores/as e lideranças do Massapê nos encontros da Comissão de Professores/as Indígenas de Pernambuco (Copipe), sendo este um importante espaço de mobilização e articulação do Movimento Indígena no Estado.
ii. Criação da escola indígena – o prédio da igreja foi reformado com recursos próprios da organização Pankará e está servindo como escola, pois o prédio escolar encontra-se completamente abandonado pela prefeitura, que não o cedeu para o funcionamento das turmas em 2011. Diante da impossibilidade criada pela prefeitura de
131 Faço alusão ao título da obra de João Pacheco de Oliveira que trata das emergências étnicas no Nordeste
Carnaubeira da Penha, a Organização de Educação Escolar Indígena Pankará (OIEEIP), reivindicou junto à Secretaria Estadual de Educação, a estadualização da escola do Massapê como Escola Indígena. A Seduc contratou três professoras e merendeiras que são as próprias pessoas do Massapê, da família de Seu Joel e de Seu Dió. São, ao todo, quatro turmas funcionando nos três turnos: seis alunos/as na Educação Infantil; 31 alunos/as do 1º ao 5º ano; 19 alunos/as de EJA. A OIEEIP informou que, administrativamente, a escola tem funcionado como uma extensão da escola da aldeia do Mingú, pois o trâmite para criação da escola do Massapê está em curso na diretoria de normatização da Seduc. Informa também que em 2011, teve merenda suficiente, material didático e não precisou transporte, porque todos/as alunos/as são da comunidade; que, em 2012, houve grande expectativa pelo aumento no número de matrículas, já que as famílias estão retornando aos poucos.
iii. Abastecimento de água – a organização de lideranças viabilizou, com recursos próprios, a melhoria do abastecimento para o Massapê. Antes dependiam de um açude nas redondezas, mas há pouca capacidade para prover as demandas com o retorno gradativo das famílias. Semelhante ao processo da aldeia Saquinho, cotizaram e construíram uma estrutura de encanamento que transporta água da aldeia João Lopes.
iv. Mutirões – todo mês elegem um dia para ir à vila central de casas do Massapê para fazer a capinagem e reconstruir as casas que foram destruídas. Primeiro, reformaram a igreja para funcionar a escola e consertaram a cisterna. O segundo feito foi a construção da casa de Seu Dioclécio. Em 2012, Seu Dió comemorou 82 anos de vida no Massapê junto com toda a sua família e o povo Pankará.
Cada um desses cinco processos resulta em várias outras ações mobilizadoras para garantir o retorno da comunidade. No projeto ético-epistêmico dos Pankará, garantir as condições desta comunidade fazer a viagem da volta, não se resume a uma ação de repovoamento. Mas significa restituir o direito de existir com plenitude e felicidade, retomar a vida, a história, a identidade, a honra, a justiça. Afirmar isso só é possível nas palavras dos próprios Pankará:
Como eu disse a você, a gente que partilhar tudo de bom para os filhos da Serra do Arapuá, então, o povo do Massapê, também teria que partilhar disso que a gente tinha e estava sendo privilegiado. Senão, não estavam todos os filhos da Serra do Arapuá, com todos os direitos garantidos. O povo do
Massapê foram muito perseguidos, e houve muito sofrimento (...) E aí a gente (....), aí quando a gente viu que estava tendo até mais do que a gente esperava, a gente (...) eles precisavam (...) não era justo (...) que a gente estivesse aqui no território, tendo privilégio e eles vivendo na periferia de Floresta e de Petrolândia, como negros, como marginais, com todo aquele preconceito e racismo. A gente só quis que eles pudessem voltar e perceber como aqui era bom, que aqui eles poderiam viver bem e sendo respeitados. Que, se eles viessem, a gente ia junto proteger e encontrar soluções como a gente vinha encontrando para todos os outros problemas. A gente disse: venham que a partir de agora vocês não serão mais tratados como foram num período aí atrás, e que nem foi tão longe, mas, é até presente. É com esse sentimento mesmo, de partilhar o que era bom, e que eles pudessem participar. É uma questão de justiça. Na medida em que a gente avançava, e conseguia conquistar, e conseguia ter retorno, a gente via que alguém não estava bem, e de todas as pessoas que nasceram aqui e viveram eles estavam mais à margem, nos riscos que a cidade traz. Porque eles não estavam na cidade sendo pessoas respeitadas, mas vulneráveis a mais violência, drogas, alcoolismo, e aqui eles seriam diferente. Lá, eles nunca seriam os donos de lá, vistos como os donos de lá, mas como aqueles que vieram para servir os brancos, e não estar alí de direito. A gente via, que eles só seriam as lideranças que são, se estivessem em seu território. Que esse território, faz sentido na vida deles, na existência deles nesse mundo. Daí, quando eles voltam a gente achou por bem, para eles se manterem, dar uma estrutura, e até para compensar o que os outros já tinham conquistado, a gente quis dar uma estrutura maior e poder estar dobrando o atendimento para eles, pela falta que eles tiveram de tanto, até do direito de existir” (Luciete, professora Pankará, 2013).
Os conteúdos presentes no depoimento de Luciete remetem à subjetividade dos sujeitos, é um diálogo que se estabelece desde o lugar de suas próprias verdades e realidades. São conteúdos de ordem moral, ética, política, afetiva, do devir pessoal e coletivo desse povo. É um conteúdo que interroga o mundo dominante, a violência, a injustiça, aliando as condições de libertação. Libertar, na perspectiva que teoriza Dussel (2012) e Fanon (2010). Enrique Dussel, analisando o movimento positivo do “princípio libertação” na Ética da Libertação (2012, p. 566), afirma,
libertar não é só quebrar as cadeias (o momento negativo descrito), mas “desenvolver” (libertar no sentido de dar possibilidade positiva) a vida humana ao exigir que as instituições, o sistema, abram novos horizontes que transcendam à mera reprodução como repetição de “o Mesmo” – e, simultaneamente, expressão e exclusão de vítimas. Ou é, diretamente, construir efetivamente a utopia possível, as estruturas ou instituições do sistema onde a vítima possa viver, e “viver bem” (que é a nova “ vida boa”); é tornar livre o escravo; é culminar o “processo” da libertação como ação que chega à liberdade efetiva do anteriormente oprimido. É um “libertar para” o novum, o êxito alcançado, a utopia realizada.
É difícil construir mais sentidos sobre os nomes que se podem dar a essa realidade histórica do Massapê. Como diz Fanon (2010), digamos com clareza que nenhuma fraseologia substitui o real. O que se pode aferir é sobre a construção de uma racionalidade “outra”, que dá forma aos valores e princípios que regem o Projeto de Futuro Pankará. Nas palavras de Leff (2002, p. 308), “ El ser ético se piensa, pero sobre todo se siente”. E esse sentir como um ato político e epistêmico é bem dito nas palavras de Fanon (2010, p.62),
assim o colonizado descobre que sua vida, sua respiração, os batimentos do seu coração são os mesmos que os do colono. Descobre que uma pele de colono não vale mais que uma pele de indígena. Isso significa que essa descoberta introduz um abalo essencial no mundo. Toda a segurança nova e revolucionária do colonizado decorre daí.
Voltar ao território do Massapê, significa, para essas famílias, desobedecer a uma ordem que está em vigor há 15 anos. Os mandantes continuam na região − exercendo funções políticas e econômicas. Os indígenas não possuem nenhuma proteção estatal, a segurança que está posta é no sentido expresso em Fanon, a segurança de retomar a humanidade e apoiar-se na força da organização social do seu povo. A Terra Indígena ainda está em processo de regularização, e pela complexidade do processo fundiário não há perspectivas para brevemente, estar resolvido esse ato jurídico. Das 96 famílias banidas, em torno de 40 já estão no território recriando suas condições objetivas de permanecer nele.