4.2 O FUTURO PARA OS DOCES: A FENADOCE
5.1 UMA CASA PARA O MUSEU
5.1.3 O Processo de tombamento
O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1977, em conjunto com as outras duas casas vizinhas que ocupam a mesma quadra e que se identificam pelos números 06 e 02, respectivamente, pertencentes ao Barão de São Luiz e Barão de Butuí.
A arquiteta Ana Meira (2016) ressalta que o tombamento destas casas foi precursor no sentido de reconhecer a arquitetura do ecletismo, mas a referência maior no processo de tombamento delas é como paisagem urbana e não como elemento artístico. Segundo ela, a solicitação que originou o processo foi
encaminhada pelo prefeito municipal Ary Rodrigues Alcântara, em 1974 (Meira, 2008), por meio de um telegrama, no qual se diz preocupado com a manutenção do "conjunto renascentista".
A população deste município de Pelotas, Rio Grande do Sul, mostra-se preocupada diante da iminente demolição de um prédio localizado na Praça Cel Pedro Osório NR2, que, segundo parecer técnico IVO forma com dois outros prédios o maior conjunto arquitetônico renascentista puro do país. Por este motivo, entidades representativas do comércio, da indústria e da vida cultural do município valem-se de minha intercessão para solicitar que sejam tomadas medidas acauteladoras de modo a evitar a demolição do prédio, que está por iniciar-se a qualquer momento. Aguardo resposta tranquilizadora. Atenciosamente, Ary Alcântara- Prefeito
Segundo a historiadora Maria Cecília Fonseca (2005), o tombamento deste conjunto de casas alcançou expressão nacional por ser um dos primeiros exemplares de estilo eclético a ser tombado no Brasil. Até então, conforme esclarece a autora, esse estilo era considerado de menor importância entre os bens da nação. Quando valorizado, em décadas anteriores a 1970, devia-se ao seu valor histórico, e não artístico. Como exemplo, podemos citar o caso do Teatro Sete de Abril, tombado em 1972, tendo em vista o seu valor histórico, apesar de estar registrado nos livros das Belas Artes e Histórico. A justificativa do seu tombamento foi a sua história como marco da cultura no extremo sul do país.
Lucio Costa, um dos principais intelectuais que pautou o pensamento preservacionista no Brasil, não reconhecia, no ecletismo, um período da história da arte. Ao contrário, considerava-o um hiato nessa história, não inscrito na legítima evolução da arquitetura. Assim, destituído de valor estilístico, justificaram-se pedidos de demolição de edifícios ecléticos, que se traduzem, hoje, em exemplos, como o do prédio do Ministério da Agricultura no Rio de Janeiro. Fonseca explica que:
Do ponto de vista estético, os arquitetos modernistas consideravam que, no estilo eclético, o funcional e o decorativo estavam dissociados, o que fez com que considerassem este estilo, assim como o neocolonial, ‘não- arquitetura’. Do ponto de vista ideológico, as construções em estilo eclético eram consideradas, transposições acríticas de influências europeias, modismo das elites que aqui tentavam reproduzir o velho mundo. (FONSECA, 2005, p.189)
A década de 1970 é, segundo Fonseca (2005), o momento de reorganização da forma de encaminhamento dos pedidos de tombamento: o que antes era realizado essencialmente por técnicos do SPHAN, passou a ser feito pelas
comunidades, por políticos, por organizações civis e por outros, motivados por interesses que variaram caso a caso. Na ocasião, Pelotas não possuía uma lei de proteção ao seu patrimônio cultural. O casario eclético do entorno da praça refletia esse fato. A casa de número 02 estava na iminência de ser derrubada. O prédio havia sido comprado pela Associação dos Profissionais Liberais Universitários do Brasil – Aplub –, com o objetivo de construir, no terreno, um edifício moderno.
Irajá Andara Rodrigues, prefeito no período de 1977 a 1982, escreveu um livro sobre a sua administração da cidade. Nesse, contou que a situação para a preservação da casa 02 era muito difícil. Não se conseguia estabelecer negociação com os proprietários:
Tivemos de ir às últimas consequências: fizemos a desapropriação do mesmo e o entregamos ao professor Adail Bento Costa, para que o restaurasse e com ele assumimos o compromisso de que para ali iriam as peças de um valioso acervo histórico e artístico de sua propriedade. (RODRIGUES, 2012, p. 48)
Segundo o ex-prefeito, a fim de proteger o conjunto, além da desapropriação da casa 02, a Prefeitura alugou as outras duas casas e, nelas, instalou órgãos da administração municipal. O laudo técnico para solicitar o tombamento do conjunto, segundo Schlee (2008), foi realizado pelo artista pelotense Adail Bento Costa, que liderou a campanha pela conservação das casas e embasou o processo nas diretrizes do Decreto-Lei 25/37, que definia o que era patrimônio cultural brasileiro.
No laudo técnico e parecer sobre os três monumentos preservados, o prof. Adail Bento Costa propôs a restauração da Casa 2 e sua transformação no Museu de Pelotas, a manutenção da Casa 6 como residência e a recuperação da nº 8 (então de propriedade privada). (SCHLEE, 2008, p.6)
Ainda segundo Irajá Rodrigues (2012), o centro de Pelotas possuía muitos casarões que atestavam a riqueza política e cultural do município no passado. Na visão dele, para ser considerado patrimônio, o imóvel tinha de ter sido residência de um vulto histórico ou ter sido palco de algum fato histórico de relevância.Sob tais aspectos, as três casas haviam sido residência de personagens políticos da cidade, no século XIX, integrantes das principais famílias charqueadoras do período: Antunes Maciel e Moreira. No entanto, o tombamento das casas não foi baseado no
seu valor histórico, referido nos vultos ou fatos memoráveis para a história nacional, conforme vigia na legislação, mas, sim, pelo seu valor artístico.
Segundo Ana Meira (2008), a Seção de Arte do SPHAN rejeitou o tombamento do conjunto de casas da Praça Coronel Pedro Osório por haver uma discrepância estilística entre as três casas, salientando que a importância do conjunto se restringia à história da cidade. Conforme a autora, o parecer é limitado, baseou-se, apenas, em fotografias, não entendeu a complexidade dos fatos apresentados pela comunidade, e em detalhes estéticos da fachada que não mostravam, como, por exemplo, os detalhes internos da casa 08, que, para ela, é a mais importante do conjunto.
Se é difícil incluir o conjunto na categoria de valor que faça jus a tombamento federal, o prédio de número 6, por suas proporções, elegância e refinamento, deve ser tombado como exemplar erudito de arquitetura residencial da 2ª metade do séc. XIX.
O Conselho Consultivo do SPHAN não acatou o parecer da Seção e aprovou o tombamento das três casas. Para Fonseca (2005), este tombamento só foi possível devido à mobilização da comunidade local que sensibilizou os técnicos do SPHAN.