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Capítulo 2: O conceito de trabalho em Marx

2.2 O Processo de trabalho

Esta seção pretende apresentar a descrição do processo de trabalho feita por Marx no quinto capítulo de O Capital, atentando para o conceito de trabalho exposto pelo autor e em que medida esse processo de trabalho se distancia daquele observado entre os antigos.

Uma primeira consideração concerne ao fato de o processo de trabalho ser considerado inicialmente “independente de qualquer forma social determinada”

(MARX, 1988, p. 142). Marx (1988) argumenta que a “natureza geral” do processo de trabalho enquanto produção de valores de uso independe de uma forma de gestão específica da produção (por exemplo, a capitalista).

Giannotti (1983) atenta para a forma como o processo de trabalho aparece, no capítulo V de O Capital, enquanto abstração que apenas se concretiza quando inserida em um modo de produção específico. Nas condições capitalistas, por exemplo, a

“utilização da força de trabalho é o próprio trabalho” (MARX, 1988, p. 142). Em outras palavras, o processo de trabalho apenas se efetiva em um contexto de mercantilização da força de trabalho14.

A despeito do processo de trabalho ser uma construção abstrata, a análise de seus “momentos essenciais” é imprescindível para entender em que medida o processo permite uma ligação direta entre homem e natureza (GIANNOTTI, 1983, p. 85).

Expressando esta ligação, Marx (1988) coloca que o homem direciona sua ação no

14 A força de trabalho se apresenta como mercadoria apenas quando seu detentor a coloca à venda no mercado. Para que a força de trabalho se torne mercadoria dois requisitos são fundamentais: i) o trabalhador deve ser livre, senhor da sua força de trabalho; ii) o trabalhador deve optar por vender sua força de trabalho, uma vez não detentor de outras mercadorias passíveis de venda. O dono dos meios de produção, dessa forma, apenas encontra trabalhadores livres no mercado em condições sociais específicas – dentro do modo de produção capitalista. (MARX, 1988, p. 136)

sentido de apoderar-se dos produtos oferecidos pela natureza – tomando consciência de suas forças físicas e as exercitando – e utilizá-los proveitosamente para sua vida, desenvolvendo potências da natureza até então adormecidas.

Marx (1988), para definir o conceito de trabalho, não trata das “primeiras formas instintivas de trabalho” e considera o trabalho em uma configuração exclusivamente humana. Existe uma diferença crucial entre o trabalho humano e o animal:

“Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera.” (MARX, 1988, p. 142)

Giannotti (1983) reitera que a anteposição ideal do objeto não é apenas uma construção psicológica. Antes de iniciar o processo de trabalho o homem constrói no plano das ideias o objeto a ser produzido, durante a produção age de maneira orientada no intuito de “adequar o resultado ao início pressuposto”, obtendo, ao final do processo, um produto que permaneceu em sua imaginação desde o princípio (GIANNOTTI, 1983, p. 86). O trabalhador tanto transforma a natureza quanto subordina sua vontade a um fim conhecido pelo trabalhador e determinante do modo de seu fazer. (MARX, 1988, p.

143). O trabalho constitui, então, uma ação teleológica.

Giannotti (1983) coloca a necessidade de compreender a natureza ontológica de um processo cujo resultado emerge da subordinação de um sistema mecânico a um fim.

Para tanto é indispensável a definição dos elementos simples do processo de trabalho: a atividade orientada ou o próprio trabalho, seu objeto e seus meios (MARX, 1988, p.

143).

Para Marx (1988, p. 143) a terra constitui o “objeto geral do trabalho humano”

ao ser “fonte original de víveres e meios já prontos de subsistência”. Para uma parte dos objetos o papel do trabalho consiste apenas desprendê-los da paisagem natural – a pesca do peixe, a extração da madeira virgem, entre outros exemplos. Entretanto, quando o objeto foi transformado por um trabalho anterior consiste em matéria-prima para o atual processo de trabalho.

O início do processo de trabalho consiste, então, na “extração da coisa de seu contexto mecânico, na sua colocação como ponto de partida de um novo ciclo”

(GIANNOTTI, 1983, p. 86). Giannotti (1983) salienta que, para constituir o ponto de

partida do processo de trabalho, o objeto deve possuir características que possibilitem a realização deste trabalho – características essas que determinam o modo de agir do trabalhador. Ainda de acordo com o autor a “coisa”, enquanto parte de um ambiente natural no qual não há interferência humana, adquire dimensões específicas quando inserida no ciclo do trabalho. Há uma espécie de “cristalização da coisa em objeto humanizado” (Giannotti, 1983, p. 87), que é evidenciada quando analisamos o instrumento de trabalho.

Os meios de trabalho, segundo Marx (1988), tem o papel de mediar o desempenho do trabalho sobre o objeto. Como completa Giannotti (1983), o instrumento de trabalho consiste em um elemento capaz de canalizar a atividade orientada, possibilitando que um fim determinado seja impresso no objeto a ser trabalhado. Marx (1988) mostra que a introdução do instrumento no ciclo do trabalho amplia em larga escala a potência do trabalhador, que passa a dispor das propriedades físicas e químicas dos elementos naturais enquanto meio de poder sobre o objeto a ser trabalhado, diminuindo a resistência deste. No limite, o trabalhador se apropria de uma parte da natureza como instrumento de trabalho e a transforma no prolongamento de seu próprio corpo. “Assim, mesmo o natural se torna órgão de sua atividade, um órgão que ele acrescenta a seus próprios órgãos corporais, prolongando sua figura natural”

(MARX, 1988, p. 143). Entretanto, ressalta Giannotti (1983, p. 88), ao mesmo tempo que o instrumento de trabalho incorpora a força da natureza ao organismo humano e expande a capacidade do trabalhador, limita a habilidade dos membros à execução de movimentos específicos.

Giannotti (1983) explicita a importância do instrumento no processo de trabalho ao utilizar o exemplo da pedra. Supondo que a pedra enquanto instrumento de trabalho tem a finalidade de percutir um instrumento, ela direciona o trabalho a um fim determinado – percutir. A pedra, entretanto, carrega múltiplas potencialidades naturais e pode assumir funções que não percutir. Assim, a utilização da pedra como instrumento de trabalho que possibilita a percussão, coloca de lado todas as outras potencialidades naturais da pedra. O instrumento de trabalho constitui, então, “o ponto de encontro entre a finalidade do trabalho e o determinismo da natureza, o lugar de sua determinação recíproca” (GIANNOTTI, 1983, p. 88). Em outras palavras, o instrumento tanto conduz

o trabalho a um fim determinado, quanto determina na natureza a parte a ser aproveitada no processo de trabalho tomado em sua totalidade.

Ainda sobre os meios, Marx (1988) coloca que quando o processo de trabalho apresenta algum grau de desenvolvimento exige instrumentos trabalhados previamente.

As ferramentas, desenvolvidas pelo trabalho humano, utilizadas na produção são indicadores do nível de desenvolvimento da força de trabalho e da situação social na qual se trabalha, sendo capazes de distinguir épocas econômicas.

Para Marx (1988), meios e instrumentos de trabalho constituem os meios de produção. Ainda que pareça paradoxal o peixe que ainda não foi pescado – enquanto objeto de trabalho – ser visto como meio de produção, não se descobriu uma maneira de pescar em águas nas quais não há peixes (MARX, 1988, p. 144).

A combinação dos meios de produção e da atividade orientada (ou trabalho) no processo de trabalho, segundo Marx (1988), coincide no produto. Através dos instrumentos de trabalho o homem promove uma transformação no objeto que se almeja desde o início do processo de trabalho, culminando na produção de um valor de uso. O produto enquanto valor de uso resulta do amoldamento da “matéria natural” de acordo com as carências humanas. O produto constitui, portanto, a objetivação do trabalho: “O que ao lado do trabalhador aparecia na forma de mobilidade, aparece agora como propriedade imóvel na forma do ser, do lado do produto. Ele fiou e o produto é um fio”

(MARX, 1988, p. 144).

De acordo com Marx (1988), quando o processo descrito acima é tomado sob o enfoque do produto, o trabalho é trabalho produtivo. Marx (1988) coloca que na indústria (com exceção da extrativa) e na agricultura (excluindo o caso de desbravamento de terras virgens) o objeto a ser trabalhado é matéria-prima. No tocante aos instrumentos de trabalho, a grande maioria deles apresenta indícios de trabalho prévio. Dessa forma, o produto resultante de um processo de trabalho pode figurar como meio de produção em outro processo. O mesmo valor de uso que é produto neste processo pode constituir tanto a matéria-prima como o instrumento naquele.

Um valor de uso constitui objeto, meio ou produto de acordo com sua função determinada no processo de trabalho, com a posição que nele ocupa. Quando a posição é alterada, altera-se também a determinação das funções (MARX, 1988, p. 145). Nas palavras de Giannotti (1983, p. 91):

“O que determina o mesmo [papel ocupado pela coisa natural no processo de trabalho], o caráter de valor de uso de cada um dos momentos, é apenas sua função para o carecimento humano, que ilumina o sentido geral da produção pré-mercante: a utilidade do objeto recebendo o trabalho, a do instrumento que o conduz e a do produto dirigindo-se de imediato ao consumo individual.”

Para Marx (1988), quando o produto passa a figurar como meio de produção em outro processo de trabalho perde sua qualidade de produto. O produto, ao se tornar meio de produção, importa ao novo processo de trabalho apenas enquanto valor de uso. No âmbito deste novo processo de trabalho não interessa se o meio de produção é resultado de trabalho passado – desde que os defeitos decorrentes do trabalho anterior não se mostrem visíveis, permitindo a perfeita manifestação do valor de uso. “No produto bem elaborado, extinguiu-se a aquisição de suas propriedades úteis” (MARX, 1988, p. 146).

Em contrapartida, Marx (1988) reitera que a inserção do produto em um novo processo de trabalho possibilita o contato com o trabalho vivo e apenas assim as propriedades úteis do produto de trabalho passado podem ser conservadas. Um grão é cultivado e depois moído; na passagem para o segundo ato um novo trabalho (a moedura) é desempenhado sobre a matéria-prima (grão de trigo), conservando o trabalho preexistente nela (o cultivo) e impedindo que este seja perdido ou destruído pelas forças naturais. A conservação como citada acima depende de condições determinadas, o que não altera o caráter do trabalho de conservar e cristalizar trabalho prévio e de estabelecer “entre o homem e a natureza brutos o intermediário constituído por sistemas de forças domadas, abrindo dessa maneira o intervalo em que se localizam as forças produtivas” (GIANNOTTI, 1983, p. 92).

A conservação do trabalho no processo de trabalho se torna mais clara na medida em que o consumo produtivo é analisado. O trabalho gasta os meios de produção (objeto e instrumento) na geração do produto e, dessa forma, o processo de trabalho é processo de consumo. Quando, no processo de trabalho, os produtos são consumidos “como meios de subsistência do indivíduo vivo” e os meios de produção são consumidos “como meio de subsistência do trabalho, da força ativa do indivíduo”, observa-se um consumo produtivo. Na medida em que os meios de produção são frutos de trabalho anterior, estes se apresentam sob a forma de produto e o trabalho passa a consumir produtos para criar produtos (MARX, 1988, p. 146).

O consumo produtivo dos meios de produção, entretanto, não se confunde com o consumo individual. Como ressalta Giannotti (1988), no consumo individual o produto é apropriado pelo consumidor e integrado ao seu organismo; o produto perde a sua identidade enquanto produto e há “subjetivação da coisa”. Entretanto, no caso do consumo produtivo dos meios de produção, o produto constitui a objetivação do trabalho, o ponto de chegada do processo produtivo.

Durante o processo de trabalho, segundo Giannotti (1983) o instrumento é aplicado ao objeto para extrair um valor de uso pretendido desde o começo do processo.

Entretanto, a ação descrita acima não acontece sem uma ínfima destruição dos meios de trabalho – o objeto é retirado de seu ciclo natural e o instrumento é desgastado. O instrumento extrai o objeto de seu ciclo natural e estampa nele uma forma artificial. Esta forma artificial, entretanto, é conservada apenas enquanto participa do processo de trabalho como meio de produção.

Giannotti (1973) salienta que o resultado do processo de trabalho enquanto valor de uso pode tanto desaparecer no consumo individual quanto ser retomado e conservado por meio do consumo produtivo. Para entender em que medida o produto do processo de trabalho pode pertencer a uma das formas de consumo, o exemplo tecido por Giannotti (1983, p. 97) é elucidativo. O algodão enquanto matéria-prima é fiado e depois tecido. Considerando que a única potencialidade do algodão é vir a ser fio, o algodão existe em função desta potencialidade. Ao ser fiado o algodão transforma-se na potencialidade (fio) em vista da qual existia e encontra o alcance para o qual estava determinado. Entretanto, enquanto momento do processo de trabalho, o fio pode ser usado tanto para o consumo individual quanto para o produtivo. Ao ser consumido para empinar uma pipa, o fio apenas participa da repetição processo em termos estritamente naturais, é gasto e extinto na esfera do consumo individual. Ao ser tecido, entretanto, o fio entra novamente na esfera do consumo produtivo, conservando a determinação anterior. Uma nova fronteira aparece ao processo de trabalho e um novo produto é obtido, produto este que adentra uma das esferas de consumo e assim sucessivamente.

Um objeto, transitório e finito enquanto inserido no ciclo natural, pode ser utilizado de forma produtiva por apresentar potências capazes de suprir um carecimento determinado (vir a ser um valor de uso) no início do processo de trabalho. É o que Giannotti (1983) chama de antepresença do produto em forma de carecimento. O

trabalho, sob esse prisma, tem o papel de extrair das propriedades físicas do objeto, mediante a existência de uma potência desejada, a possibilidade de vir a constituir o valor de uso esperado. Ao ser inserido no processo de trabalho o objeto adquire uma nova forma, forma esta que viabiliza a transformação da potência em uma potência de novo tipo. “A forma do fio dá ao algodão a possibilidade de vir a ser tecido”

(GIANNOTTI, 1983, p. 98).

Giannotti (1983) reitera que a condição prévia para a realização do processo de trabalho constitui o resultado deste processo, ou seja, a antepresença do uso enquanto carecimento fica evidente no valor de uso. Entretanto, a antepresença do uso apenas fundamenta a aparição do objeto, do instrumento ou do produto (valores de uso), na medida em que esses estão relacionados dentro de um processo, enquanto são postos em movimento. A partir dessas considerações, Giannotti (1983) coloca que é possível assinalar o terreno que delimita o trabalho: “Deslocando o trabalho para o universo do processo, retirando-o da esfera da emersão e do surgimento da coisa para situá-lo na circularidade da interiorização e da exteriorização, Marx faz dele práxis ao invés de poíesis”.

Neste ponto cabe mencionar a discussão feita por Giannotti (1983) do esquema técnico entre os antigos, para entender em que medida um trabalho é poíesis.

Giannotti (1983) apresenta a concepção aristotélica do esquema técnico.

Aristóteles trata do artesão esculpindo a estátua para entender a relação entre matéria e forma enquanto paradigma que permite o entendimento até mesmo das produções naturais. Ainda nesse exemplo as quatro causas aristotélicas são elucidadas. Entender o lugar central da causa no pensamento aristotélico é imprescindível para delimitar uma noção de esquema técnico na Grécia Antiga.

Para Aristóteles, a causa não constitui uma variável independente. Em outras palavras, as diferentes causas formam uma unidade que se efetiva em torno da poiésis (produção, ostentação de uma coisa exterior). Definir produção (poiésis) para Aristóteles é um passo essencial. A produção artificial se dá em duas etapas – a etapa mental e a etapa da realização exterior. A etapa mental comanda a produção na medida em que, para que determinado resultado seja alcançado, a pessoa que executa a tarefa tem em mente o resultado final que deseja alcançar. O médico, para curar um doente, deve ter antes no espírito a ideia de saúde e só depois passar a realizar aquilo que

garantirá essa saúde. Na etapa da realização exterior ou processo de execução, entretanto, o médico inicia pelas fricções necessárias para garantir, ao final do processo, a saúde do paciente (GIANNOTTI, 1983, p. 81).

Apesar da importância dada à forma – “A medicina e a arte de construir são a forma da saúde e da casa”, Aristóteles não deixa de buscar uma causa motriz que constitua o motor do processo produtivo. A causa motriz, segundo Aristóteles, consiste em uma potência, um inacabamento atuante, um modo de carecimento (GIANNOTTI, 1983, p. 82). No entanto, essa potência de poder ser isto ou aquilo é indefinida, em outras palavras, a carência da coisa é indeterminada. Nesse ponto o artífice se faz de grande importância: o espaço aberto pela potência indefinida do objeto permite que o artífice imprima-lhe uma forma artificial de acordo com os seus carecimentos.

Partindo dessas considerações, Giannotti (1983) salienta a importância de investigar o que acontece com o produto artificial após o processo produtivo, concluindo que a concepção de Aristóteles do processo de trabalho é feita em seu sentido mais simples. Em outras palavras, a produção é encarada como o agrupamento de atos individuais isolados e a questão da manutenção do produto nem é colocada.

A conclusão de Giannotti (1983) acerca do esquema técnico entre os gregos antigos corrobora com a argumentação feita no capítulo anterior. A produção é poiésis na medida em que não existe uma apreensão da produção enquanto produção em geral na Grécia Antiga. Os atos produtivos (fabricação) não estão interligados e se desdobram em função do serviço prestado a consumidores com necessidades específicas e distintas.

O trabalho não constitui um elo entre os homens, definindo, pelo contrário, as especialidades que os diferenciam.

A questão da manutenção do produto não é discutida no esquema técnico antigo, uma vez que a utilização do produto é mais importante que seu processo de fabricação entre os gregos. Isso implica em um processo de trabalho que se extingue na esfera do consumo individual e em um produto que não é visto como trabalho cristalizado. A capacidade do trabalho de cristalizar trabalho anterior não é levada em conta – a atividade de fabricação artesanal está a serviço do carecimento individual na medida em que busca produzir obras tão perfeitas quanto possível para o consumo imediato do usuário.

Conclusão

Foram apresentados neste estudo os aspectos gerais do trabalho na Grécia Antiga e a concepção de Marx acerca do trabalho. Atentamos, no primeiro capítulo, para a definição do que o homem apreende por trabalho, para o papel das atividades consideradas trabalho na sociedade e para o processo de fabricação artesanal. Após delinear alguns aspectos gerais do trabalho e apresentar as controvérsias acerca da sua valorização, atentamos para o fato de que uma análise do papel do trabalho na sociedade requer um estudo mais aprofundado das atividades que realmente são consideradas trabalho.

Em um contexto de análise do relacionamento do trabalho com a natureza, algumas diferenças essenciais entre as atividades manuais agrícolas e artesanais são delimitadas. Partindo desta análise, conclui-se que o lavrar a terra não é considerado trabalho entre os gregos, estando bastante próximo de uma conduta religiosa que permite o contato com os deuses. Da discussão dos ofícios no interior da cidade, em contrapartida, apreendemos que os exercícios relacionados com a política não constituem atividades profissionais, uma vez que compõem uma esfera superior às atividades puramente econômicas. O comércio e a guerra consistem em meios de aquisição, não constituindo ocupações profissionais. O primeiro meio de aquisição é considerado indigno e um escândalo do ponto de vista moral, enquanto o segundo é considerado um meio de aquisição justo e que pressupõe uma conduta também religiosa.

O trabalho fica, portanto, restrito às profissões artesanais, definidas por sua especialização e por um caráter de serviço. Este caráter de serviço fica evidente quando consideramos o processo de fabricação e a divisão das tarefas, que tem por finalidade satisfazer as necessidades do usuário, suprir suas carências. O artesão não apreende seu trabalho enquanto trabalho geral, não entende o trabalho enquanto categoria que agrupa toda sorte de ofícios, uma vez que define sua tarefa em relação ao objeto demandado pelo consumidor. Não percebe no produto de seu trabalho a manifestação de um esforço humano comum que cria valor social; o percebe, pelo contrário, enquanto forma de satisfazer a necessidade do usuário. Socialmente o artesão não desempenha papel de produtor, uma vez que se encontra em uma relação de dependência na qual todas suas forças físicas, instrumentos materiais e técnica estão submetidos ao usuário.

O segundo capítulo, que trata da concepção de Marx acerca do trabalho, contribui bastante para entender os aspectos da produção (ou fabricação) na Grécia Antiga. A primeira seção permite delinear a mudança na relação do homem com a natureza quando o trabalho é estranhado. O contexto no qual o trabalho está alienado do trabalho é importante para determinar em que medida o homem está estranhado do

O segundo capítulo, que trata da concepção de Marx acerca do trabalho, contribui bastante para entender os aspectos da produção (ou fabricação) na Grécia Antiga. A primeira seção permite delinear a mudança na relação do homem com a natureza quando o trabalho é estranhado. O contexto no qual o trabalho está alienado do trabalho é importante para determinar em que medida o homem está estranhado do