3. AS AMBIVALÊNCIAS DE MARX E A TEORIA MONETÁRIA DO VALOR
3.2. O processo de troca entre dinheiro e forma-dinheiro
O item anterior apresentou como a análise da mercadoria é atravessada por dois níveis de abstração conceitual. Marx inicialmente aborda a relação de troca entre mercadorias, tendo como resultado a objetividade-valor e sua substância social. A fantasmagoria daí resultante é então estudada a partir da relação de valor entre mercadorias, momento em que opera a forma-valor. Como destacado, o principal intuito da apresentação dialética dessas categorias fundamentais da crítica da economia política é demonstrar como o valor não só não pode existir independentemente ou fora de sua forma de manifestação, como esta mesma – no caso, por exemplo, da forma-equivalente – oculta a relação social subjacente, fazendo emergir a percepção de que uma propriedade social, o valor, que só existe dentro de uma relação, a troca de mercadorias, seria uma propriedade natural da mercadoria em si. Como se sabe, o dinheiro
107 Ora, a “consideração” do valor das mercadorias na produção é justamente expressão do fetichismo, e não locus da crítica à financeirização.
é justamente a forma de manifestação necessária dessa relação de valor, o que implica a fundamental tese de sua não-neutralidade. No entanto, antes de abordar essa questão é importante atentar para mais algumas dificuldades importantes que se apresentam no texto marxiano, e que estão intimamente associadas a dois déficits: de um lado, a derivação do dinheiro a partir de dois níveis distintos de abstração e, do outro, a limitação da análise categorial do dinheiro por sua manifestação histórica.
(a) A derivação do dinheiro
Uma primeira dificuldade decorre da comparação entre as versões da análise da forma-valor, notadamente no que diz respeito ao dinheiro. Em Para a crítica da economia política e na primeira edição de O Capital, a forma-dinheiro não é desenvolvida a partir da análise da forma-valor, mas surge como resultado do processo de troca, um nível de abstração distinto daqueles – a relação de troca e a relação de valor entre mercadorias – tratados no primeiro capítulo do Livro I. Essa alteração ocorre pela primeira vez no anexo à primeira edição. Por isso, no texto da segunda edição – que incorpora inúmeras partes do referido anexo – Marx acrescenta a seguinte passagem:
Cabe, aqui, realizar o que jamais foi tentado pela economia burguesa, a saber, provar a gênese da forma-dinheiro, portanto, seguir de perto o desenvolvimento da expressão do valor contida na relação de valor das mercadorias, desde sua forma mais simples e opaca até a ofuscante forma-dinheiro. Com isso, desaparece, ao mesmo tempo, o enigma do dinheiro (MEGA, II. 6, p. 81 – sublinhado meu) [MEW, 23, p. 62] {MARX, 2013a, p.
125}108.
A derivação do dinheiro aparece aqui como objetivo da apresentação da análise da forma-valor. É verdade que na primeira edição de O Capital há uma nota de rodapé interessante, em que Marx diz que a forma simples de valor “é, como Hegel diria, o dinheiro em si mesmo”
(MEGA, II. 5, p. 28). Mas o que chama a atenção na comparação entre as duas edições alemãs é que na edição de 1867 há uma quarta forma-valor no primeiro capítulo do Livro I, e não a forma-dinheiro. Essa “forma IV” deriva da possibilidade de que cada mercadoria atue como equivalente geral, algo já destacado em Para a crítica da economia política:
108 “Gênese” aqui deve ser compreendida como “formação” [Entstehung]: “ele [Marx – CMB] não está preocupado com o desenvolvimento histórico do dinheiro (nem mesmo em um sentido completamente abstrato), mas com uma reconstrução conceitual da conexão entre a ‘forma simples de valor’ (uma mercadoria expressando seu valor através de outra mercadoria) e a ‘forma de dinheiro’ (HEINRICH, 2018, p. 55).
Como um valor de troca, no entanto, cada mercadoria é tanto a mercadoria exclusiva que serve de medida comum dos valores de troca de todas as outras mercadorias, a qual, por outro lado, é apenas uma das muitas mercadorias no círculo total do qual cada outra mercadoria representa diretamente seu valor de troca (MEGA, II. 2, p. 118) [MEW, 13, p. 26-27] {MARX, 2008, p. 68}.
Essa possibilidade cria uma empasse na apresentação categorial. Por isso mesmo, no primeiro capítulo da primeira edição de O Capital Marx se refere a essa situação paradoxal do seguinte modo:
Mas se cada mercadoria compara sua própria forma natural com todas as outras mercadorias como forma de equivalente geral, então todas as mercadorias excluem todas da forma de equivalente geral, e assim se excluem da representação socialmente válida de seus valores (MEGA, II. 5, p. 43).
Note-se que é exatamente assim que termina a análise da forma-valor na edição de 1867.
Ora, uma vez que na segunda edição é acrescentada a forma-dinheiro – e excluída a forma IV –, há aqui “uma quebra com a apresentação dialética da forma-valor” (HEINRICH, 2017, p.
227 – destaque no original). Veja-se: na primeira edição, a sucessão das formas de valor decorre das deficiências conceituais da forma anterior. No entanto, ao adicionar a forma-dinheiro após a forma de equivalente geral, há somente uma relação de continuidade entre essas posições109. Na segunda edição de O Capital, o próprio Marx salienta que a forma-dinheiro (a “nova” forma IV):
[N]ão se diferencia em nada da forma III (...). O progresso consiste apenas em que agora, por meio do hábito social, a forma da permutabilidade direta e geral ou a forma de equivalente universal amalgamou-se definitivamente à forma natural específica da mercadoria ouro (MEGA, II. 6, p. 101 – sublinhado meu) [MEW, 23, p. 84] {MARX, 2013a, p. 145}.
Aqui é importante atentar que a forma IV “não se diferencia em nada da forma III”. Mas não só, já que imediatamente após Marx diz que a passagem de uma forma para a outra agora está relacionada ao “hábito social”. Antes mesmo da análise da forma de valor universal (forma III), Marx já havia destacado a seguinte situação:
De fato, se alguém troca seu linho por muitas outras mercadorias e, com isso, expressa seu valor numa série de outras mercadorias, os muitos outros
109 Ainda que o aprofundamento dessas questões ultrapasse os limites da presente pesquisa, deve-se destacar que o tema da “redução da dialética” ganhou notoriedade após a tese de Gerhard Göhler acerca da “dialética reduzida”
presente em O Capital, quando comparada com a “dialética enfática” que estrutura Para a crítica da economia política (GÖHLER, 1980, p. 160).
possuidores de mercadorias também têm necessariamente de trocar suas mercadorias pelo linho e, desse modo, expressar os valores de suas diferentes mercadorias na mesma terceira mercadoria: o linho (MEGA, II. 6, p. 96 – sublinhado meu) [MEW, 23, p. 79] {MARX, 2013a, p. 140}.
Nessas passagens é possível observar a presença simultânea de dois níveis distintos de abstração, um referente à análise formal, outro à ação dos indivíduos que atuam no campo dessas determinações (HEINRICH, 2017, p. 227, n. 50). Mas essa simultaneidade também parece se resolver de um modo específico, uma vez que o “progresso” subjacente à posição da forma-dinheiro – em que pese a análise da forma-valor se desenvolver no âmbito da “relação de valor” – depende do “hábito social”. Note-se, no mais, que a passagem acima citada não se encontra no primeiro capítulo da primeira edição, mas apenas no anexo que contém a versão popularizada da forma-valor (MEGA, II. 5, pp. 642-643). Mais interessante ainda: no mesmo anexo também se encontra outra passagem – posteriormente excluída da segunda edição – em que Marx procura esclarecer a polaridade entre forma de valor relativa e forma equivalente com o seguinte raciocínio:
Consideremos a troca entre o produtor de linho A e o produtor de casacos B.
Antes de chegarem a acordo, A diz: 20 jardas de linho valem 2 camadas (20 jardas de linho = 2 camadas). Mas B responde: 1 camada vale 22 metros de linho (1 camada = 22 metros de linho). Finalmente, depois de terem pechinchado durante muito tempo, concordam: A diz: 20 jardas de linho valem 1 casaco, e o B diz: um casaco vale 20 metros de linho. Aqui ambos, o linho e o casaco, estão ao mesmo tempo na forma de valor relativo e na forma de equivalente. Mas, note-se bem, para duas pessoas diferentes e em duas expressões diferentes de valor, que simplesmente ocorrem ao mesmo tempo.
Para A o seu linho está na forma de valor relativo – pois para ele a iniciativa procede da sua mercadoria – e a mercadoria da outra pessoa, o casaco, está na forma equivalente. Inversamente do ponto de vista de B. Uma mesma mercadoria nunca possui, mesmo neste caso, as duas formas ao mesmo tempo na mesma expressão de valor (MEGA, II. 5, p. 628 – destaque no original;
sublinhado meu).
Apesar do exemplo ter como objetivo realçar as dificuldades da análise da forma-valor quando o dinheiro ainda não foi apresentado – em carta a Engels (27 de junho de 1867) em que discorria sobre a estrutura do anexo à primeira edição, Marx escreve que “isto sobre a forma-dinheiro ocorre apenas por uma questão de contexto” (MEW, 31, p. 316 – destaque meu) –, aqui se percebe a referida mescla entre diferentes níveis de análise, de tal modo que a forma-valor parece depender do “acordo” entre demandas subjetivas. No entanto, e isso é fundamental, a diferença entre esses diferentes níveis de abstração já era indicada em Para a crítica da
economia política. Após o estudo – ainda que preliminar, quando comparado com O Capital – da forma-valor das mercadorias, Marx salientava:
Até agora, as mercadorias têm sido consideradas a partir de um duplo ponto de vista, como valor de uso e como valor de troca, cada vez unilateralmente.
Como mercadoria, no entanto, ela é diretamente uma unidade de valor de uso e valor de troca; ao mesmo tempo, ela é uma mercadoria apenas em relação às outras mercadorias. A relação efetiva das mercadorias entre si é o seu processo de troca. É neste processo social que os indivíduos independentes entram, mas entram nele somente como proprietários de mercadorias; a sua existência mútua entre si é a existência das suas mercadorias, e assim, de fato, eles aparecem apenas como portadores conscientes do processo de troca (MEGA, II. 2, p. 119 – destaque no original; sublinhado meu) [MEW, 13, p.
28] {MARX, 2008, p. 70}.
Veja-se: “a relação efetiva das mercadorias entre si é o seu processo de troca”, caracterizado como um “processo social”. O que significa que essa efetividade não pode ser apresentada no âmbito da relação de valor entre mercadorias110. Por isso Marx volta a essa questão logo após, para então dizer:
Embora as mercadorias individuais originalmente parecessem ser do ponto de vista do valor de uso uma coisa autônoma, por outro lado, elas eram consideradas, desde o início, como valores de troca em relação a todos as outras mercadorias. Essa relação, no entanto, era apenas teórica, pensada. Ela só é ativada em um processo de troca (MEGA, II. 2, p. 121 – sublinhado meu) [MEW, 13, p. 29] {MARX, 2008, p. 72}.
Tanto a “relação de troca” como a “relação de valor” entre mercadorias são relações
“pensadas”, “teóricas”, no preciso sentido de uma construção categorial cuja apresentação encontrará seu limite na própria efetivação dessa relação. Trata-se de uma demarcação fundamental presente na primeira edição de O Capital. No último parágrafo do primeiro capítulo – trecho que será excluído na segunda edição –, Marx faz uma consideração metodologicamente importante:
A mercadoria é uma unidade direta de valor de uso e valor de troca, ou seja, dois opostos. Trata-se, portanto, de uma contradição direta. Esta contradição deve desenvolver-se assim que ela não seja analiticamente considerada, como era anteriormente o caso, ou do ponto de vista do valor de uso, ou do ponto de vista do valor de troca, mas como um todo que está efetivamente relacionado com outras mercadorias. Mas a efetiva relação das mercadorias entre si é o seu
110 Aqui é necessário destacar que em Para a crítica da economia política não há uma clara delimitação entre relação de troca [Austauschverhältnis] e relação de valor [Wertverhältnis] entre mercadorias.
processo de troca (MEGA, II. 5, p. 51 – destaque no original; sublinhado meu).
Há aqui uma clara delimitação acerca do nível de abstração do segundo capítulo do Livro I, de modo a amalgamar a análise do dinheiro ao processo de troca. Consequentemente, a inserção ainda no primeiro capítulo da forma-dinheiro logo após a forma de equivalente universal por motivos de “hábito social” não só faz com que Marx mude para um nível de abstração completamente diferente, como implica o atravessamento da apresentação dialética por dois níveis distintos de análise. Como destaca Heinrich, “ao invés de argumentar com o desenvolvimento conceitual das formas, ele argumenta com o ‘hábito social’, ou seja, em última instância, com as ações dos proprietários de mercadorias” (HEINRICH, 2017, p. 227). Com isso, o próprio Marx apaga a distinção entre a análise da forma-valor da mercadoria – em que se articulam tanto a relação de troca como a relação de valor – e a análise do processo de troca.
Ora, essas referências são fundamentais para a compreensão do preciso objeto teórico da investigação marxiana no primeiro capítulo de O Capital. Trata-se da análise da “mercadoria como tal” (HEINRICH, 2017, p. 229), o que não significa considerar a mercadoria antes do processo de troca. Uma vez mais vale a pena destacar a importância dessa questão. Como assinala Heinrich,
[O] primeiro e segundo capítulos não tratam de uma sequência temporal, mas de diferentes níveis de investigação. Embora a ‘mercadoria como tal’ deva também ser considerada na relação de troca (mercadoria sem troca não é uma mercadoria, mas meramente um produto), ela não está no processo de troca efetivo. A este respeito, trata-se inicialmente apenas da mercadoria ‘pensada’.
Também na apresentação das várias formas de valor, Marx não se refere à troca efetiva, mas apenas às mercadorias enquanto tais. Marx mostra que o valor da mercadoria não pode aparecer sobre si mesmo, que ele precisa, portanto, de sua própria forma objetiva para aparecer. A forma geral de valor é a forma de aparecimento adequada ao valor, ou seja, a forma em que o valor da mercadoria só existe realmente como valor. No entanto, aqui ainda se trata das determinações teóricas da mercadoria enquanto tal e não do seu efetivo processo de troca (HEINRICH, 2017, p. 230 – destaques no original;
sublinhado meu).
Assim, a análise das mercadorias diz respeito à sua relação “pensada”, momento em que operam as determinações formais, algo muito diferente da análise do processo de troca, momento em que a relação efetiva das mercadorias não se dá pela forma-valor, mas pelos proprietários das mercadorias. Por isso, é importante perceber que o segundo capítulo não é
uma continuação da análise da forma-valor (HEINRICH, 2017, p. 230)111, mas uma apresentação da estrutura lógica do “problema da ação dos possuidores de mercadorias que devem trocar suas mercadorias” (HEINRICH, 2017, p. 231), isto é, da ação não em termos de racionalidade subjetiva, mas de sua adequação às determinações formais postas pela análise da forma-valor no primeiro capítulo do Livro I. Desse modo, o que está em pauta no segundo capítulo – tal como aparece na primeira edição de O Capital – é uma espécie de “elementos estruturais para uma teoria da ação social” que trará como principal consequência a emergência do dinheiro como algo necessário à ação dos indivíduos112. Contrariamente ao anexo da primeira edição e à segunda edição, no texto da primeira edição o dinheiro é “derivado” pela primeira vez da ação – em conformidade com as leis do mundo das mercadorias113 – dos proprietários de mercadorias, e não da forma-valor. Daí a passagem, já no segundo capítulo:
Em sua perplexidade, nossos possuidores de mercadorias pensam como Fausto. Era no início a ação. Por isso, eles já agiram antes mesmo de terem pensado (...). Esse é o resultado da análise da mercadoria. Mas somente o fato social pode fazer de uma mercadoria determinada um equivalente universal.
A ação social de todas as outras mercadorias exclui uma mercadoria determinada, na qual todas elas expressam universalmente seu valor. Assim, a forma natural dessa mercadoria se converte em forma de equivalente socialmente válida. Ser equivalente universal torna-se, por meio do processo social, a função especificamente social da mercadoria excluída. E assim ela se torna – dinheiro (MEGA, II. 5, p. 53 – destaques no original; sublinhado meu)114.
111 Isso traz consequências significativas para a identidade entre forma-jurídica e forma-mercadoria, tal como apresentado por Pachukanis: “Marx aponta a condição fundamental, arraigada na própria economia, da existência da forma jurídica, a saber, a unificação das condições de trabalho de acordo com o princípio da troca de equivalentes, ou seja, ele desvela o nexo interno profundo da forma-jurídica e da forma da mercadoria”
(PACHUKANIS, 2017, p. 85 – destaque meu). Como se sabe, um dos principais trunfos da análise pachukaniana é tido justamente pela sua “adequação metodológica”: “podemos dizer que a concepção de Pachukanis corresponde inteiramente às reflexões que Marx desenvolve, sobretudo nos Grundrisse e em O Capital, a propósito do lugar central que ocupa a análise da forma para compreender as relações sociais capitalistas” (NAVES, 2008, p. 48 – destaque no original). Ainda que a discussão detalhada sobre essa temática só seja apresentada no quinto capítulo, note-se desde já que tanto em Pachukanis como na literatura marxista não se encontram análises aprofundadas acerca dos diferentes níveis de abstração – nos termos aqui desenvolvidos – que estruturam a crítica da economia política.
112 Aqui se manifesta uma vez mais a ruptura de Marx com todo e qualquer individualismo metodológico. Ainda que na segunda edição o próprio Marx dificulte a distinção entre “forma” e “ação”, a análise desta a partir da crítica da economia política já a concebe pelos condicionamentos sociais postos pela “estrutura social” apresentada na análise da forma-valor.
113 Ou seja, “as pessoas envolvidas na troca são ‘livres’ em sua atividade, mas como proprietários de mercadorias devem seguir as ‘leis da natureza das mercadorias’” (HEINRICH, 2018, p. 61).
114 A mesma passagem é incorporada na segunda edição (MEGA, II.6, p. 115) [MEW, 23, p. 101] {MARX, 2013a, p. 161}, convivendo com a “primeira” derivação do dinheiro a partir da “forma-dinheiro” ainda no primeiro capítulo.
Veja-se: o dinheiro não é posto pela racionalidade dos indivíduos, já que eles agiram antes de terem pensado, manifestando uma vez mais a ruptura com o campo científico da economia política clássica, em que o “sentido econômico” é analisado a partir da ação motivada dos indivíduos (HEINRICH, 2017, p. 231). Mas não só, uma vez que aqui também se percebe como o limite da apresentação dialética das categorias abre espaço para análises empíricas acerca do “movimento efetivo” da sociedade capitalista, desta vez sem qualquer confusão entre níveis de abstração.
De todo modo, “derivar” o dinheiro no plano da ação dos proprietários de mercadorias condicionada pelas determinações formais – a “ação social” apontada por Marx na última citação – revela-se como algo decisivo para a compreensão da sociabilidade capitalista, já que o dinheiro confronta os proprietários de mercadorias como um pré-requisito de suas ações. Isso significa que a forma de manifestação necessária do valor – o dinheiro – não parece ser fruto de qualquer relação social. Mas não só, pois este modo de aparecer enseja a representação de que a ação dos indivíduos é “livre” e determinada apenas pela racionalidade subjetiva. Tal como destacado por Marx, “o movimento mediador desaparece em seu próprio resultado e não deixa qualquer rastro” (MEGA, II. 6, p. 121) [MEW, 23, p. 107] {MARX, 2013a, p. 167}. Por isso é importante atentar para as consequências decorrentes do desenvolvimento categorial que caracteriza o início da crítica da economia política. Se o dinheiro é posto a partir da “relação de valor” entre mercadorias, isto é, no âmbito da forma-valor (conforme no anexo à primeira edição e na segunda edição de O Capital), corre-se o risco de se perder de vista a própria mediação conceitual entre a estrutura social e a ação dos portadores de mercadorias. Assim,
[S]e a análise começa por considerar a atividade e a consciência dos proprietários de mercadorias, então o contexto social que precisa ser explicado foi tomado como algo pressuposto. Esta é a razão pela qual foi necessário para Marx distinguir entre as determinações formais da mercadoria e a ação dos proprietários de mercadorias, e inicialmente descrever as determinações da forma como tal, uma vez que elas são as pré-condições dadas para a ação e reflexão dos proprietários de mercadorias – que então continuamente reproduzem essas condições através de sua própria ação (HEINRICH, 2018, p. 61 – destaque no original; sublinhado meu).
Ora, essas questões são fundamentais não apenas para uma teoria da sociedade, mas sobretudo para a análise do peculiar encantamento que informa sua reprodução sócio-jurídica.
Se a análise da relação de troca entre mercadorias faz emergir o caráter fantasmagórico da objetividade valor, e se a análise da relação de valor entre mercadorias permite a compreensão das relações de contrariedade subsequentes, naturalizando a forma-equivalente, a posição do
dinheiro no âmbito do “processo de troca” revela o aprofundamento desse processo de naturalização, adensando-se assim o caráter fetichista da sociabilização capitalista que apresenta o dinheiro como um simples meio prático que meramente auxiliaria os indivíduos a alcançarem seus fins115.
(b) O dinheiro e sua manifestação histórica
Uma vez destacada a relação entre dinheiro, forma-valor e níveis de abstração, cumpre atentar para uma segunda questão acerca da posição do dinheiro no âmbito da crítica da economia política, a rigor, uma segunda dificuldade. Trata-se de uma premissa particularmente importante encontrada em O Capital, qual seja, a fundamentação do sistema monetário em uma mercadoria que seria dinheiro [Geldware]: “a dificuldade não está em compreender o que é mercadoria, mas em descobrir como, por que e por quais meios a mercadoria é dinheiro”
(MEGA, II. 6, p. 120) [MEW, 23, p. 107] {MARX, 2013a, p. 167}. Ora, diante da queda de Bretton Woods, que pôs fim ao ouro como lastro do dólar, isto é, fazendo com que o sistema monetário não dependesse mais de uma mercadoria, o que fazer com a premissa acima destacada? Seria possível encontrar outra fundamentação para o sistema monetário que não seja pressupondo uma mercadoria-dinheiro como base de seu desenvolvimento conceitual? Aqui é interessante notar como no Urtext encontra-se uma delimitação acerca da fundamentação do dinheiro:
O processo de produção burguesa apreende primeiro a circulação do metal como um órgão tradicional acabado, que se transforma gradualmente, mas que retém sempre a sua construção básica. A questão, portanto, do porquê o ouro e a prata servem como material do dinheiro ao invés de outras mercadorias, vai além dos limites do sistema burguês (MEGA, II. 2, p. 39 – sublinhado meu).
Diferentemente do argumento sustentado em O Capital, nesse momento Marx explicitamente se move pela narrativa dos “limites” do sistema burguês. Ora, não parece ser trivial que o dinheiro deva ser uma mercadoria X, e não Y, algo que Marx procurou destrinchar ao longo dos anos. Ainda que a partir da segunda edição de O Capital se encontre a referida
115 Isso significa que o dinheiro não é apenas um mediador, um meio de pagamento, como geralmente colocado pelas teorias liberais, ainda que essa compreensão também possa ser encontrada em autores marxistas como Sweezy, Mandel e Meek (HEINRICH, 2017, p. 242). Como se vê, não é mera coincidência que esses autores partam da leitura historicista de O Capital, em que a forma-valor e seus respectivos níveis de análise são exasperados como pré-história do capitalismo.
identificação entre dinheiro e mercadoria, é importante notar um registro distinto dessa questão tanto em Para a crítica da economia política como na primeira edição de O Capital. A diferença na abordagem está relacionada a uma determinação formal importante para a teoria monetária do valor e posteriormente abandonada por Marx, qual seja, a sugestiva “forma genérica” [Gattungsform]. Em se tratando do texto de 1859, em particular no que se refere à análise do dinheiro, Marx sustenta:
Contrariamente às mercadorias que apenas representam a existência independente do valor de troca, o trabalho social geral, a riqueza abstrata, o ouro é a existência material da riqueza abstrata (...). O ouro é a riqueza universal como indivíduo (MEGA, II. 2, p. 188 – destaque no original;
sublinhado meu) [MEW, 13, p. 102-103] {MARX, 2008, p. 162-163}116.
Se o “ouro é a riqueza universal como indivíduo”, então o dinheiro não é apenas um termo genérico abstrato, mas também – isto é, ao mesmo tempo – a materialização da riqueza abstrata, um elemento concreto que está no mesmo plano das mercadorias individuais. Trata-se, assim, de um universal que efetivamente também é individual, algo que Marx havia captado na primeira edição alemã de O Capital – em uma passagem igualmente excluída das edições posteriores – com a sugestiva analogia:
Na forma III, que é a segunda forma invertida e que está, portanto, contida nela, a tela aparece, pelo contrário, como a forma genérica [Gattungsform] do equivalente para todas as outras mercadorias. É como se ao lado e além dos leões, tigres, lebres e todos os animais efetivamente reais, que agrupados constituem as diferentes raças, espécies, subespécies, famílias etc. do reino animal, existisse também o animal, a encarnação individual de todo o reino animal. Tal indivíduo que compreende em si mesmo todas as espécies efetivamente existentes da mesma coisa é um universal, como o animal, Deus e assim por diante (MEGA, II. 5, p. 37 – destaques no original; sublinhado meu).
Essa “forma genérica” é sem dúvida uma abstração real, cujo sentido permite uma melhor compreensão da problemática assertiva de que o dinheiro deve ser uma mercadoria.
Ora, esse “animal” não necessita ser, por exemplo, o leão, ou o tigre. O que está em jogo não é a identidade entre o gênero e as espécies, mas que aquele exista ao lado destes. Ou seja, há a
116 [NT – CMB] Na tradução de Florestan Fernandes para a Editora Expressão Popular é alterado o sentido de que o ouro é a “riqueza universal como indivíduo” [der allgemeine Reichtum als Individuum], já que a edição brasileira apresenta a mesma frase como “o ouro é a riqueza universal individualizada” (MARX, 2008, p. 163). Não se trata aqui de um processo de individualização, mas de uma universalidade que é simultaneamente singularidade.