CAPÍTULO 2: O PROCESSO DE PRODUÇÃO
2.1. O processo de valorização
§ 79- A capacidade de trabalho é o trabalho subjetivo oposto ao trabalho objetivo, que é o dinheiro como capital, mas ela não só se defronta com o capital, pois é também o valor-de- uso do capital. Como “faculdade (Fähigkeit)”, “capacidade (Vermögen)”, o trabalho existe na “corporeidade” do trabalhador como “mera possibilidade” de atividade que põe valor diante do capital. Assim, o trabalho é o “não-ser do valor”, seu “ser não-objetivado”, “ide- al”, “mera forma abstrata” frente ao valor objetivado. Ele vem-a-ser valor que se põe efeti- vamente apenas em contato com o capital, que ativa o seu valor-de-uso (G., p. 205; trad., v. 1, p. 238). O trabalho é o próprio valor-de-uso da força de trabalho. Ao pô-la em atividade efetivamente, o capital transforma-a em “actu, força de trabalho ativa, o que antes era ape- nas potentia”1 (K., I, p. 192; C., I 1, p. 142).
§ 80- O consumo da força de trabalho se efetiva em um processo, que é processo de produ- ção de mercadorias e mais-valia. Esse processo, considerado qualitativamente, é processo de trabalho, que em seus momentos mais simples e abstratos, independentemente de qual- quer forma social determinada, é “atividade orientada a um fim para produção de valor-de- uso”, isto é, “apropriação do natural para carências humanas” (ibidem, p. 198; ibidem, p. 146). Os momentos mais simples do processo de trabalho são: a atividade orientada a um fim, o trabalho; o objeto de trabalho, isto é, a matéria-prima depois de ter experimentado uma modificação mediada pelo trabalho; e o meio de trabalho, ou seja, “uma coisa ou um complexo de coisas que o trabalhador coloca entre si e o objeto de trabalho e que lhe serve como condutor de sua atividade sobre esse objeto” (ibidem, pp. 193-4; ibidem, p. 143). Ao fim do processo de trabalho, efetuado mediante o meio e o objeto de trabalho, transforma o
1 “Se o sujeito e o objeto existem duplamente como pólos de tensão é porque o sujeito põe a coisa como obje-
to e instrumento de trabalho, e a coisa repõe o sujeito como atuante”. GIANNOTTI, J. A. O ardil do trabalho. Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 4, abr./ jun. 1973. Disponível em: <http://www.cebrap.org.br>. Acesso em: 14 mai. 2007. p. 57.
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objeto, saindo um resultado que “no início desse mesmo já estava aí-presente na represen- tação (Vorstellung) do trabalhador, portanto já idealmente”2 (K., I, p. 193; C., I 1, pp. 142-
3). Esse processo se extingue no produto (ibidem, p. 195; ibidem, p. 144). Assim como o produto final, os meios e os objetos de trabalho são valores-de-uso, mas esses são consumi- dos produtivamente, ou seja, eles se distinguem do consumo individual por serem consumi- dos como meios de vida do trabalho, da força de trabalho ativa, enquanto o produto final é meio de vida do indivíduo vivo3 (K., I, p. 198; C., I 1, p. 146). O que determina se um va-
lor-de-uso aparece como matéria-prima, meio de trabalho ou produto é a função que esses ocupam no processo de trabalho (ibidem, p. 197; ibidem, p. 145).
§ 81- O processo de consumo da força de trabalho pelo capitalista tem dois “fenômenos peculiares”. Primeiro, o trabalhador trabalha sob o comando do capitalista a quem pertence seu trabalho e não quer que ele desperdice seus meios de produção. Segundo, o produto do trabalho é propriedade do capitalista, e não do produtor direto, o trabalhador, pois a partir do momento em que o trabalhador entra no processo de trabalho, o valor-de-uso da força de trabalho, o trabalho, pertence ao capitalista. Do ponto de vista do capitalista, o processo de trabalho é apenas consumo de mercadoria, em que ele precisou acrescentar meios de produ- ção, ou seja, é “um processo entre coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem”, inclusive o produto desse processo (ibidem, pp. 199-200; ibidem, p. 147).
2 O trabalhador “utiliza as propriedades mecânicas, físicas, químicas das coisas para deixá-las atuar como
meios de poder sobre outras coisas, conforme seu objetivo” (K., I, p. 194; C., I 1, p. 143). Giannotti explica porque Marx cita em nota o adendo ao § 209 da Lógica do Conceito, da Ciência da Lógica da Enciclopédia de Hegel, que tem como assunto a teleologia. Ele afirma: “No texto de Marx o trabalho ocupa o lugar da razão. O trabalho é poderoso na medida do seu ardil [List]. A introdução do meio-termo entre a atividade do sujeito e a resistência e as fintas do objeto permite ampliar de maneira insuspeitada a potência do trabalhador, que passa a ter parte da natureza a sua disposição” (1973, p. 21). Cf. HEGEL, G. W. F. Enzyklopädie der philo- sophischen Wissenschaften im Grundrisse (1830). Erster Teil: Die Wissenschaft der Logik mit den mündli- chen Zusätzen. Werke in zwanzig Bänden. Edição de E. Moldenhauer e K. M. Michel. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1986. v. 8. p. 365.
3 Giannotti identifica nessa distinção entre consumo produtivo e individual como Marx concebe a individuali-
dade: “Em vez de partir de um sujeito-substrato, cujo existir seria dado pela deiscência de sua propriedade, Marx chega ao indivíduo como resumo e reunião (Zusammenfassung) de determinações inerentes ao momen- to do ciclo. No processo de trabalho a individualização passa por três etapas: objeto, instrumento e produto, o trabalho constituindo a negatividade formadora. Daí as individualidades serem geradas pelas respectivas posi- ções no processo” (1973, p. 34).
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§ 82- Esse produto é um valor-de-uso, mas não é ele o objetivo imediato da produção. Os valores-de-uso são produzidos, primeiro, apenas na medida em que eles apresentam “de- terminada massa de tempo de trabalho solidificado”, sejam “substrato material, portadores do valor-de-troca”; e, segundo, apenas na medida em que o valor da mercadoria produzida seja maior que os valores adiantados, ou seja, o capitalista quer “produzir não só valor-de- uso, mas uma mercadoria, não só valor-de-uso, mas valor e não só valor, mas também mais-valia” (ibidem, pp. 201 e 304; ibidem, pp. 148 e 150). Daí porque, da unidade da pró- pria mercadoria entre valor-de-uso e valor, o processo de produção tem de ser unidade do “processo de trabalho” e do “processo de formação do valor” (ibidem, p. 201; ibidem, p. 148).
§ 83- Ao realizar o valor-de-troca da força de trabalho, o trabalhador aliena o seu valor-de- uso e não pode obter um sem se desfazer do outro, o qual passa a pertencer ao capitalista. Para o capitalista, a propriedade útil do trabalho era a condição necessária para despender trabalho em forma útil e criar valor, mas o decisivo foi o valor-de-uso específico da merca- doria força de trabalho, o fato de ser fonte de valor e mais-valor. O valor-de-uso e o valor da força de trabalho são duas grandezas distintas, daí segue que: “O fato de que meia jorna- da seja necessária para mantê-lo vivo durante 24 horas não impede o trabalhador, de modo algum, de trabalhar uma jornada inteira” (ibidem, pp. 207-8; ibidem, pp. 152-3). O capita- lista apenas procede segundo as “leis eternas do intercâmbio de mercadorias”, pois pagou o valor de uma jornada de trabalho, pertencendo-lhe seu valor-de-uso durante esse período. A circunstância de o valor-de-troca da força de trabalho ser menor que o valor que cria em sua utilização é uma “grande sorte para o comprador, mas, de modo algum, uma injustiça con- tra o vendedor” (ibidem, p. 208; ibidem, p. 153). “Todas as condições do problema são re- solvidas e a lei do intercâmbio de mercadorias de modo nenhum é violada. Foi trocado e- quivalente por equivalente” (ibidem, p. 209; ibidem, p. 153).
§ 84- A transformação do dinheiro em capital procede na esfera da circulação, que se tor- nou apenas a mediação que condiciona a compra da força de trabalho no mercado e conduz à esfera da produção (ibidem, p. 209; ibidem, p. 153). Considerando só a determinação qua-
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litativa do processo de produção, ele é “processo de trabalho”. Como “fonte de valor”, em sua determinação quantitativa o processo de produção é “processo de formação do valor”. Prolongando-se o processo de formação do valor além do ponto, em que o valor da força de trabalho pago pelo capital é substituído pelo equivalente dinheiro, torna-se “processo de
valorização”. Temos então que: o processo de produção, como unidade do processo de tra-
balho e do processo de formação do valor, é processo de produção de mercadorias, no en- tanto não se trata só de produzir valor, mas também mais-valia, e, por isso, como unidade do processo de trabalho e do processo de valorização, o processo de produção é “processo
de produção capitalista”, “forma capitalista da produção de mercadorias” (ibidem, p. 209;
ibidem, pp. 154-5).
§ 85- Assim, o capital é não só dinheiro, existindo como uma “substância particular” exclu- siva ao lado de outras substâncias do valor-de-troca, mas sim ele se conserva em todas as substâncias, sendo, desse modo, o “valor-de-troca de cada forma e o ser-aí do trabalho ob- jetivado sua determinação ideal”. Por isso, para se relacionar com o trabalho subjetivo não- objetivado, o capital tem que se colocar em processo. Só assim, o capital existe também como trabalho. Ele é, portanto, “o processo dessa diferenciação e suspensão (Aufhebung) dele mesmo, em que o capital vem-a-ser processo mesmo. O trabalho é o fermento que é lançado dentro; ele só o traz para fermentação”. Nessa relação com o trabalho subjetivo, o capital aparece como “ser-aí passivo” em referência à “atividade que forma (formende)”, mas, com isso, ele subsiste como objetividade já elaborada e na subjetividade do trabalho, como forma a ser suspensa, a ser objetivada no material do capital (G., pp. 205-6; trad., v. 1, pp. 238-9). No seu processo de produção, o capital se diferencia do trabalho e aparece na determinidade material, mas ele mesmo procede como simplesmente processo, que de si mesmo se diferencia e se suspende4 (G., p. 210; trad., v. 1, p. 243).
4 É essencialmente essa processualidade o que diferencia o conceito marxiano de capital das concepções da
Economia Política clássica e de toda Ciência Econômica contemporânea: “Assim, o processo de produção do capital não aparece como processo de produção do capital, mas sim como simplesmente processo, e, na dife- rença com o trabalho, o capital aparece só na determinidade material da matéria-prima e do instrumento de trabalho. É este lado – que é não só uma abstração arbitrária, mas sim uma abstração que procede dentro do processo mesmo – que os economistas fixam para apresentar o capital como um elemento necessário de todo processo de produção. Naturalmente, eles só fazem isso porque se esquecem de prestar atenção em seu com-
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