1. INTRODUÇÃO
3.3 Procedimento de coleta de dados
3.3.3 O processo grupal em Orientação Profissional
Para Pichon-Rivière (1994) cada pessoa possui experiências, conhecimentos e afetos únicos com os quais ela pensa e age, porém é no trabalho em grupo que tais experiências podem adquirir unidade e crescimento, interagindo em uma comunicação criadora. O grupo se constitui um espaço para ensinar e aprender, uma aprendizagem em espiral dialética e de troca entre os integrantes. Nesse processo, o papel do coordenador é agir como um “co-pensor”, ou seja, o papel de criar, manter e fomentar a comunicação no grupo. Neste estudo, além da coordenação em grupo operativo ter sido realizada com base no referencial teórico- metodológico de Pichon-Rivière, técnicas auxiliares foram utilizadas com o objetivo de facilitar a discussão e a introdução de assuntos importantes para que os integrantes pudessem gradativamente construir seus caminhos em direção à escolha profissional.
Alguns encontros do Grupo A e do Grupo B foram planejados de maneira similar, entretanto à medida em que cada grupo se desenvolveu, as demandas nortearam o planejamento das atividades a fim de responder ao emergente grupal, conforme referencial teórico-metodológico. O Grupo A e o Grupo B foram planejados para ocorrer em doze encontros incluindo duas entrevistas individuais.
A coordenação dos grupos foi realizada pela pesquisadora que contou com a colaboração de duas observadoras, uma em cada grupo. Os papéis da coordenadora e das observadoras foram desempenhados segundo o ECRO de Pichon-Rivière. As observadoras silentes registravam as falas, o comportamento não verbal dos integrantes e as intervenções da coordenadora. Os registros de observação embasaram a análise qualitativa do processo grupal e subsidiaram o planejamento das sessões subseqüentes. Os encontros foram realizados no Serviço de Orientação Profissional (SOP / CPA / FFCLRP-USP), em salas apropriadas ao atendimento.
No início do processo grupal foi aplicado o QIP, sendo os próximos encontros planejados a partir das necessidades dos adolescentes, apontadas nos registros dos instrumentos, das técnicas e das atividades planejadas com conteúdos específicos da Orientação Profissional ou de integração grupal. A EMEP e o QIP novamente foram aplicados no último encontro para se avaliar todo o processo de Orientação Profissional e o desenvolvimento da escolha profissional do adolescente. A seguir, o planejamento detalhado de cada grupo é explicitado.
Planejamento dos encontros do Grupo A
No início do Grupo A foi aplicada a técnica de apresentação individual em que os adolescentes com uma folha de papel em branco e várias canetas e lápis coloridos desenharam livremente algo que cada um gosta de realizar ou que revela alguma característica de si. O objetivo dessa técnica é facilitar a apresentação e promover o conhecimento entre os integrantes, objetivando a mútua representação interna, ou seja, a formação dos vínculos entre os integrantes. A seguir em subgrupos foi aplicada a Técnica do Cartaz (MÜLLER, 1988, SOARES-LUCCHIARI, 1993). Essa técnica expressiva consiste na colagem de figuras e palavras de revistas/ jornais e desenhos livres, objetivando verificar as expectativas dos integrantes em relação ao grupo de Orientação Profissional. A atividade prosseguiu com um grupo de discussão no qual cada subgrupo apresentou o cartaz elaborado, explicitando as expectativas e as dúvidas. No encerramento foram esclarecidas questões referentes ao processo de atendimento e informado sobre o contrato de trabalho, estabelecendo o enquadre de funcionamento do grupo.
No segundo encontro o Questionário de Informação Profissional (QIP) foi aplicado e em seguida aplicado à Técnica do Cine Adolescente (SOARES-LUCCHIARI, 1993) Nessa técnica cada integrante escolhe o personagem de algum filme de que tenha gostado e em duplas conversam sobre os motivos da escolha por determinado personagem e em que se identificam com ele. O objetivo desta técnica é tornar os membros do grupo conhecidos e levantar interesses profissionais através da identificação com os personagens dos filmes. Ela promove também o autoconhecimento, que nesta fase inicial do grupo é útil para desenvolver a afiliação (pertença) no grupo. A atividade encerra-se e o Grupo Operativo começa para permitir a elaboração das questões levantadas. Ao final foi entregue uma lista de sites da internet para pesquisarem os cursos e profissões de interesse.
No terceiro encontro foi aplicada a Técnica de Role-playing do papel profissional com o objetivo de “trabalhar em nível corporal a vivência do papel profissional e permitir uma tomada de consciência do que o jovem sabe e do que não sabe sobre as profissões. Sensibilizar para as sensações de ver-se no papel” (MAHL; SOARES; OLIVEIRA NETO, 2005, p.126). O coordenador inicia a atividade, arremessando uma almofada a um integrante e diz aleatoriamente o nome de uma profissão. A seguir, esse integrante pega a almofada e se imagina no papel daquele profissional, apresenta-se ao grupo dizendo quem é, o que faz, onde, trabalha, há quanto tempo e depois os demais integrantes fazem perguntas sobre a profissão, mercado de trabalho etc. Ao terminarem os questionamentos, o integrante
arremessa a almofada para outro integrante do grupo e diz o nome de uma profissão, a atividade se repete até o último integrante.
No quarto encontro, como aquecimento, foi desenvolvida a Técnica do Bombom, (LEVENFUS, 2002), que possibilita pensar em critérios de escolha sem experimentação. Em sub-grupos é realizada a leitura do livreto “Conversa na Cozinha: escolha da carreira” (MELO-SILVA; PEREIRA, 2002) com o objetivo de trabalhar as variáveis que influenciam na escolha da carreira. A Técnica do Bombom e a leitura do Livreto fornecem o conteúdo que é disparador temático para o Grupo Operativo. Ao final do encontro são propostas duas atividades como tarefa para casa. A primeira atividade objetiva o autoconhecimento, trata-se de um questionário com três perguntas: “(1) Quem sou eu? (2) Como os outros me vêem? E (3) Como eu gostaria de ser?”, de autoria desconhecida. E, a segunda atividade “A História do meu nome” é proposta, a fim de envolver a participação dos pais, consiste em verificar como foi a escolha do nome de cada um, com o intuito de levantar as expectativas prévias dos pais em relação aos filhos e promover um conhecimento da história de vida de cada um. Além de poder promover o diálogo entre pais e filhos sobre questões de escolha.
No quinto encontro há a apresentação de quatro integrantes sobre suas pesquisas na internet, as profissões escolhidas foram: Direito, História, Economia e Jornalismo. Os integrantes descreveram as atividades realizadas em casa e em subgrupos leram o Texto “Detetive de si mesmo” (DIAS, 2002). No Grupo Operativo os integrantes discutiram as dúvidas suscitadas no dia. A atividade proposta para casa foi a confecção da ARGEVOC (árvore genealógica profissional de MÜLLER, 1988) ou Genoprofissiograma (SOARES- LUCCHIARI, 1997). A construção da árvore genealógica das profissões dos familiares tem o objetivo de promover o conhecimento das influências familiares e as expectativas em torno da escolha da profissão.
O jovem, inserido numa família com seu dinamismo próprio, escolhe uma profissão muitas vezes sem conhecer as influências recebidas do meio familiar. A genealogia – a rede de relações formadas em cada família que inclui os avós, bisavós, tios, primos – está presente de uma maneira ou de outra nas diferentes escolhas realizadas na vida, em especial na profissão a seguir (MAHL; SOARES; OLIVEIRA NETO, 2005, p.107).
No sexto encontro, sob a liderança da coordenadora, dois subgrupos foram organizados a fim de aplicar o Teste de Fotos de Profissões (BBT): método projetivo para a clarificação da inclinação profissional, de ACHTNICH (1991), nas versões brasileiras: masculina (JACQUEMIN, 2000) e feminina (JACQUEMIN et. al., 2006). O BBT-Br é
publicado e comercializado no Brasil pelo Centro Editor de Testes e Pesquisas em Psicologia. A aplicação foi coletiva, porém cada participante utilizou um conjunto de fotos individualmente. Ao mesmo tempo, coordenado pela observadora, o outro subgrupo realizou a atividade Critérios para a escolha profissional (NEIVA, 2003a), publicado e comercializado pela Vetor Editora. Essa tarefa permite ao adolescente definir alguns critérios que podem auxiliá-lo na escolha profissional, sendo que os critérios contidos no jogo são: ambiente de trabalho, objetos/ conteúdos de trabalho, atividades de trabalho, rotina de trabalho e retornos do trabalho. Como atividade extra grupo sugeriu-se pesquisar as profissões selecionadas e registradas na atividade Realidade Profissional, segunda parte dos Critérios (NEIVA, 2003a), objetivando promover a discussão e a reflexão sobre os critérios de cada participante e as relações dos mesmos com as carreiras escolhidas. Tal como no encontro anterior, no sétimo encontro, os subgrupos tiveram as atividades invertidas, em um subgrupo foram aplicados o Teste BBT e os demais integrantes realizaram a atividade Critérios para a
escolha profissional e para casa foi solicitada a mesma tarefa.
No oitavo encontro os integrantes discutiram inicialmente sobre a tarefa que realizaram em casa, ou seja, a pesquisa sobre a atividade Realidade Profissional (NEIVA, 2003a), e alguns integrantes trouxeram a apresentação de profissões, como: Relações Internacionais, Fisioterapia, Engenharia Elétrica e Administração. Em Grupo Operativo, fizeram reflexões sobre os resultados do BBT-Br, ou seja, sobre a estrutura de inclinação profissional de cada um dos integrantes.
Na continuação, o nono encontro foi dedicado às entrevistas individuais, que foram agendadas no mesmo dia e nos respectivos horários da realização dos grupos, por serem os de maior disponibilidade para todos os participantes. O objetivo dessas entrevistas foi de focalizar a escolha de cada integrante, levantar possibilidades e dificuldades, como de questões pessoais, familiares, financeiras etc, esclarecer dúvidas, enfim dedicar um espaço a cada participante para refletir sobre suas especificidades. A partir dessas entrevistas a equipe pode programar os últimos encontros baseados nas necessidades observadas.
Alguns integrantes apresentaram as profissões: Enfermagem, Medicina, Biologia, Turismo, no início do décimo encontro. Depois em subgrupos leram textos informativos sobre: o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o Sistema de Cotas Universitárias, Programa Universidade para todos (ProUni) e o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES). E em Grupo Operativo discutiram e refletiram sobre esses temas.
O encerramento em grupo foi realizado no décimo primeiro encontro, logo de início respondendo a EMEP e ao QIP. Em seguida, os integrantes apresentaram as profissões:
Arquitetura, Geografia e Educação Física. Os integrantes foram subgrupados para a leitura dos textos: “Profissão, no rumo da vida” (DIAS, 2002) e “O Brasil desempregado” (MATTOSO, 1999). Em grupo, cada subgrupo apresentou o seu texto oralmente e discutiu os temas de maior interesse. Para encerrar o grupo foi realizada uma técnica de relaxamento na qual cada um se imaginava daqui a 10 anos em um dia de trabalho e a técnica do Aeroporto (SOARES-LUCCHIARI, 1997), em que cada um se imagina encontrando com um colega do grupo num aeroporto. O objetivo dessa técnica é: “Trabalhar a separação do grupo e os sentimentos que despertam. Propiciar a expressão de fantasias em relação ao afastamento do grupo e a resolução de seu problema de escolha” (SOARES-LUCCHIARI, 1997, p.67). Em seguida cada um livremente conta ao grupo o que pensou. O grupo é encerrado e as entrevistas de encerramento do processo são agendadas individualmente para a semana subseqüente.
Planejamento dos encontros do Grupo B
O Grupo B, como o Grupo A teve como técnica de apresentação individual a realização de um desenho livre sobre as atividades que cada integrante gosta de realizar e depois a Técnica do Cartaz (MÜLLER, 1988, SOARES-LUCCHIARI, 1993) realizada em sub-grupos, com a colagem de fotos de revistas, jornais e a utilização de desenhos livres. A atividade foi encerrada com o grupo de discussão, no qual cada sub-grupo apresentou o cartaz e os participantes trocaram suas impressões. Ao final do encontro foram tratados os assuntos relativos ao processo de atendimento e ao contrato de trabalho, sendo as dúvidas esclarecidas.
No segundo encontro foram aplicados: o Questionário de Informação Profissional (QIP) e a técnica do Cine Adolescente (SOARES-LUCCHIARI, 1993). O Grupo Operativo encerrou as atividades com a discussão dos assuntos do dia. Ao final do encontro uma lista de sites da internet foi disponibilizada com o objetivo de pesquisarem os cursos e profissões de interesse.
Com a Técnica do barbante deu-se o início ao terceiro encontro. Utilizando um barbante o primeiro integrante fala algo de si (algo de que gosta, que faz bem) segura um pedaço da linha e joga o barbante ao outro e assim sucessivamente até o último integrante, formando uma trama de linhas, o último integrante retorna o barbante para o integrante que jogou para ele até a trama se desfazer gradativamente. Nesse momento cada um tenta repetir o que cada integrante falou de si e joga o barbante, fazendo o caminho inverso. O objetivo desta técnica é propiciar um maior conhecimento entre si, de fortalecer o vínculo do grupo e
facilitar a comunicação entre eles. Em sub-grupo os participantes lêem o Texto “Detetive de si mesmo” (DIAS, 2002) e no Grupo Operativo discutem e elaboraram as dúvidas suscitadas no dia. Como atividades para casa, foi solicitada a ARGEVOC (MÜLLER, 1988) ou Genoprofissiograma (SOARES-LUCCHIARI, 1997), ou seja, a construção da árvore genealógica da família informando o nome, idade, profissão e interesses de cada familiar. E a segunda atividade para com os pais investigarem “A História do meu nome”.
O quarto encontro começa com as apresentações de dois integrantes que realizaram uma pesquisa na internet sobre a profissão de Artes Cênicas. Os integrantes relatam sobre as tarefas propostas para casa (“A Historia do meu nome” e o ARGEVOC /Genoprofissiograma). Estes temas são os disparadores temáticos do Grupo Operativo que finaliza com a confecção individual de cada integrante de uma “Carta aos pais” (SILVA; VENTURINI; MELO-SILVA, 2005). A atividade proposta para casa é que respondam às três questões: (1) Quem sou eu? (2) Como os outros me vêem? (3) Como eu gostaria de ser? Com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre si mesmo.
O quinto encontro no Grupo B começou com a apresentação de quatro integrantes que pesquisaram sobre as profissões: Biologia, Química, Ciências Sociais e Economia. Para então realizarem a Técnica das frases para completar (BOHOSLAVSKY, 1991), adaptada por (SOARES-LUCCHIARI, 1997), com o objetivo de auxiliar o orientando sobre a possibilidade de escolha, além de levantar importantes questões a serem refletidas. Foi proposto que em casa refletissem sobre a atividade e completassem as frases com mais informações.
O Grupo B no sexto encontro procedeu às apresentações de duas profissões: Veterinária e Agronomia. Após a realização da atividade Critérios para a escolha profissional (NEIVA, 2003a), o grupo refletiu sobre a realização da tarefa. Para casa foi sugerida a atividade Realidade Profissional (NEIVA, 2003a).
O Teste BBT foi realizado no sétimo encontro em todo o grupo, a aplicação foi coletiva, porém cada participante utilizou um conjunto de fotos individualmente. No encontro seguinte, o oitavo, houve inicialmente a discussão das tarefas realizadas em casa de pesquisa sobre as profissões escolhidas na atividade Realidade Profissional (NEIVA, 2003) e alguns integrantes trouxeram a apresentação das profissões: Direito, Pedagogia e Administração. Em grupo operativo trabalharam com a estrutura de inclinação do BBT através dos oito fatores e das diversas profissões de interesse.
O nono encontro foi dedicado às entrevistas individuais, agendadas no mesmo dia e nos respectivos horários da realização dos grupos, por serem os de maior disponibilidade para
todos os participantes. Essas entrevistas nortearam algumas modificações que ocorreram nos próximos encontros.
O encerramento do Grupo B foi realizado no décimo encontro, sendo que inicialmente responderam à EMEP e depois ao QIP. À medida que terminavam, liam o texto: “Profissão, no rumo da vida” (DIAS, 2002) e “O Brasil desempregado” (MATTOSO, 1999). Em grupo discutiram os temas abordados nos referidos textos. Para encerrar o grupo foi realizada uma técnica de relaxamento na qual cada um se imaginava daqui a 10 anos em um dia de trabalho e a técnica do Aeroporto (SOARES-LUCCHIARI, 1993), em que cada um se imagina encontrando com um colega do grupo num aeroporto. Em seguida cada um livremente conta ao grupo o que pensou. O grupo é finalizado e as entrevistas de encerramento são agendadas individualmente para a semana subseqüente. A Tabela 3 mostra a síntese das atividades desenvolvidas em cada grupo.
Tabela 3 - Síntese dos temas desenvolvidos no Grupo A e no Grupo B. TEMAS
SESSÃO
GRUPO A GRUPO B
1ª Apresentação e expectativas Apresentação e expectativas
2ª QIP/ Conhecer o grupo/
autoconhecimento Tarefa- lista de sites
QIP/ Conhecer o grupo/ autoconhecimento
Tarefa- lista de sites 3ª Sensibilização para a busca de
informações profissionais
Conhecer o grupo/ autoconhecimento Tarefa- influências familiares
4ª Influências na escolha profissional Tarefa- autoconhecimento
Influências na escolha profissional Tarefa- autoconhecimento
5ª Autoconhecimento Tarefa- influências familiares
Autoconhecimento 6ª Teste BBT-Br / atividade Critérios
Tarefa- pesquisa informação profissional
Atividade Critérios
Tarefa- pesquisa informação profissional
7ª Teste BBT-Br / atividade Critérios
Tarefa- pesquisa informação profissional
Teste BBT-Br
8ª Informações profissionais
Tarefa- pesquisa informação profissional
Informações profissionais
9ª Entrevistas individuais Entrevistas individuais 10ª Informações profissionais Encerramento- EMEP/ QIP 11ª Encerramento- EMEP/ QIP Entrevistas individuais 12ª Entrevistas individuais