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O Processo Identitário do Professor: Adesão, Ação,

1. REVISÃO TEÓRICA E BIBLIOGRÁFICA

1.3. O Processo Identitário do Professor: Adesão, Ação,

Optei por iniciar esta incursão teórica pelo, talvez, conceito mais caro a esta pesquisa. Trata-se mais de uma perspectiva (no mais elementar significado desse termo) que um conceito propriamente dito. Em dois escritos distintos, António Nóvoa discursa sobre o processo identitário que constitui a jornada da vida dos professores. Primeiramente, na intervenção oral proferida em 1991, intitulada Diz-me como ensinas e dir-te-ei quem és. E vice-versa, no Congresso da Associação dos Professores de Matemática na cidade de Porto, Portugal, Nóvoa adota uma perspectiva muito peculiar, e que dá alicerce a uma parcela significativa do presente trabalho. Esta intervenção oral, em suas ideias e conceitos fundamentais, foi posteriormente publicada em 1995 como capítulo do livro “A pesquisa em Educação e as transformações do Conhecimento”, sob a organização de Ivani Fazenda22

, com o mesmo título. No texto, o autor afirma que o processo identitário do professor enquanto pessoa e profissional (indissociavelmente) é formado por três elementos (os três A‟s): a Adesão a princípios, a Ação pedagógica, e sua Autoconsciência. Sendo esse processo cíclico, ininterrupto e perene por toda a vida docente, há uma inseparabilidade também entre a dimensão pessoal e a dimensão pedagógica. Apegando-se a essa ideia, o autor conclui ser “possível desvendar o universo da pessoa através da análise de sua acção pedagógica” (NÓVOA, 1995, p. 33). Antes de aprofundar-me nas definições e desdobramentos do conceito dos três A‟s, é importante refletir sobre essas características apontadas por Nóvoa quanto à natureza do processo identitário do professor. Estas expressões (cíclico, ininterrupto e perene) são contribuições minhas, e têm a finalidade de condensar as explicações do autor no texto citado. Inicialmente, com o auxílio da visão poética do escritor português Carlos Oliveira, Nóvoa lembra do sentido de incompletude e, ao mesmo

21 “Narrative inquiry is one means of capturing the dynamics, tensions, and complexities of lives lived in and through music by individuals and groups, children and adults. Like teaching, stories, music, music making, and other lived experiences can be equally ephemeral, unless we take on the challenge to “write it up,” to turn these experiences into “community property.”

22 FAZENDA, Ivani Catarina Arantes (Org.). A pesquisa em educação e as transformações do

tempo, de circularidade do dia e da noite, no intuito de caracterizar o princípio do processo sobre o qual se está refletindo: ele é cíclico pois repete-se dia após dia nas ações cotidianas do professor 23 . Lembra também daquilo que eclode da circularidade dos dias que se enfileiram numa vida, um movimento “sinusoidal”, nas palavras do autor. Dessa forma, o processo identitário do professor é ininterrupto, na medida em que só atinge (porém sem nunca atingir de fato), o patamar identitário através do tempo. E também através do tempo, torna-se perene, pois acompanha o professor por toda sua vida.

Em um escrito imediatamente posterior à palestra citada, o autor resgata o mesmo aparato conceitual dos elementos constitutivos do processo identitário do professor, desta vez, de maneira mais detalhada. Relaciono aqui os pontos fundamentais da Adesão, da Ação e da Autoconsciência, segundo António Nóvoa (NÓVOA, 1992):

Adesão: consiste naquilo que o professor carrega como seus ideais e princípios no que tange, principalmente, ao exercício da docência, mas não de maneira exclusiva. São estes ideais, princípios éticos e pedagógicos que norteiam as tomadas de decisão e os planejamentos que concernem ao profissional. Como elemento intrínseco de constituição enquanto sujeito, o posicionamento do professor frente aos mais variados temas e situações tem total influência no fenômeno educativo sobre o qual age. É preciso, portanto, considerar essa(s) adesão(ões) como componente analisada neste estudo.

Ação: enquanto elemento constitutivo no processo identitário do professor, representa sua atuação profissional cotidiana, o conjunto completo de suas realizações inseridas em um determinado contexto social, histórico, geográfico. As ações acabam por moldar-se nas exigências das situações e das necessidades da profissão docente; em decorrência do desalinhamento natural entre o que projetamos/acreditamos e o que encontramos em nosso dia-a-dia, essa ação agrega novas vivências e novas experiências ao processo.

Autoconsciência: “porque em última análise tudo se decide no processo de reflexão que o professor leva a cabo sobre a sua própria acção” (NÓVOA, 1992, p. 16). Relacionado diretamente com o conceito de experiência cunhado por Josso (2010 – Experiências de vida e formação), o processo constante de balanço entre o

23 Nas palavras de Aristóteles, em Ética a Nicômaco: “Somos o que fazemos todos os dias. A excelência, portanto, não é ação, mas um hábito”.

que se leva consigo como valores e conhecimento e o que se vivencia no plano cotidiano leva-nos a uma autoconsciência (ou tomada de consciência, segundo Josso) de nossa inserção no cenário educacional e em nosso contexto de atuação.

Tal aparato conceitual está intimamente relacionado ao objetivo principal desta pesquisa. A partir das narrativas dos colaboradores aqui entrevistados, os elementos acima mencionados estão presentes como lentes através das quais os dados são vistos e analisados. Não apenas como categorias, os três A's discutidos por Nóvoa que constituem o processo identitário do professor figuram aqui como, também, parte de um paradigma maior, que insere a constituição identitária do sujeito como um processo contínuo, um “vir-a-ser” constante, que tem a si mesmo como resultado. Parafraseando Josso (2014), “da formação do sujeito… ao sujeito da formação”.

Num salto no tempo de mais de 10 anos, Marie-Christine Josso (JOSSO, 2007) traz um posicionamento acerca da ideia de identidade, ao relacioná-la ao seu entendimento do que chama de existencialidade. A autora advoga que o conceito de identidade é, na verdade, a ponta do iceberg de uma ideia maior, entendida como existencialidade. Josso entende que a identidade é uma categoria evolutiva (JOSSO, 2007, p. 416), que se constitui de expressões de nossa existencialidade, e que uma representação convencional do que seria uma identidade não mais se aplica nos dias de hoje, devido a certas constatações que impedem uma solidificação deste conceito numa limitação simplista, e acrescenta que

[...] a questão da identidade deve ser concebida como processo permanente de identificação ou de diferenciação, de definição de si mesmo, através da nossa identidade evolutiva, um dos sinais emergentes de fatores socioculturais visíveis da existencialidade. (JOSSO, 2007, p. 416)

No mesmo artigo, Josso defende que a sociologia e a antropologia consideram uma identidade estática, rotulada, que evidencia parâmetros de classe e pertença, e “não dão conta de como [...] as individualidades se arranjam para reorganizar suas pertenças e seus comportamentos, seus valores e seus posicionamentos sociais e culturais” (JOSSO, 2007, p. 418-419). Para a Psicologia, “a questão da identidade é abordada pelo viés da imagem de si mesmo e, de uma maneira mais indireta, pelos componentes de um Eu, variáveis segundo as escolas” (JOSSO, 2007, p. 419). Termina essa discussão afirmando que

há ainda um certo paradoxo em querer falar da identidade no sentido genérico e não ser capaz de fazê-lo senão por intermédio de aspectos, tais como: identidade psicológica, identidade social, identidade cultural, identidade política, identidade econômica. Assim sendo, a existencialidade acaba por desaparecer do campo reflexivo sobre o humano, precisamente porque essa dimensão do ser não é passível de fragmentação. (JOSSO, 2007, p. 420)

Apesar do distanciamento cronológico entre as publicações, percebe-se uma proximidade bastante acentuada entre ambos os autores, no que tange o posicionamento frente ao conceito de identidade. Embora exista um entendimento comum de que a identidade do professor não é um elemento estático, delimitado, único, a ênfase de ambas perspectivas é sutilmente diferente: enquanto Nóvoa concentra-se na compreensão do processo identitário como o centro do debate, propondo um aparato conceitual que o explique processualmente, Josso busca um entendimento mais profundo das diferentes dimensões de nosso ser (ser-no- mundo), que consistem em nossa existencialidade.