2 AS IMAGENS DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA
2.1 A Ciência como objeto de estudo
2.2.2 O processo tecnológico
Antes de iniciar este texto, faço um questionamento: por que refletir sobre o processo tecnológico numa pesquisa que trata do ensino de Química num enfoque CTS-PC?
Tecnologia no desenvolvimento de toda uma sociedade se nossa idéia sobre ela não estiver clara, bem embasada e de acordo com o que se admite numa postura epistemológica CTS no ensino de Ciências.
Em segundo plano, porém, não menos importante, vale ressaltar que as tecnologias são, aparentemente, muito mais presentes na vida das pessoas do que a própria Ciência ou suas implicações. Esta lhes parece muito mais ligada à pesquisas, laboratórios, do que à suas vidas.
Portanto, compreender o processo tecnológico de modo contextualizado e as transformações decorrentes de seus avanços é fundamental aos alunos e professores para o desenvolvimento de um trabalho com enfoque CTS-PC. É inegável que o processo tecnológico tem sofrido mudanças ao longo do tempo. A maneira de entender como essas mudanças ocorrem tem tido interpretações diferentes.
Tradicionalmente, a mudança tecnológica está ligada ao conceito de invenção. De acordo com esse entendimento, a evolução ocorreria apenas com as grandes invenções, que seriam os marcos da história, e os atores dessa história seriam indivíduos geniais, os inventores. Os mesmos moldes do que acontece na Ciência, onde há descobridores individuais, interpretação heróica para os avanços científicos.
No entanto, uma interpretação que pretenda ser mais do que simples anedotas não pode se basear na idéia subjetiva de invenção. A adaptação às necessidades materiais de cada contexto histórico parece um modo mais ajustado de interpretar as transformações tecnológicas.
Nesse sentido, ao considerar as adaptações ao ambiente e ao momento histórico é preciso levar em conta o contexto social e a natureza. Esses dois elementos aliados àqueles habituais (a empresa, a investigação, o Estado e a economia) podem definir melhor o que chamamos de complexo ou sistema tecnológico. A empresa é o cenário onde se utilizam as tecnologias, a investigação é a fonte da inovação tecnológica, os Estados são os responsáveis por programas de inovação e desenvolvimento (I+D), e a economia é a base financeira para a inovação tecnológica. Neste contexto, a sociedade não deve ser entendida somente como receptora, ou o destinatário da atividade tecnológica, visto que, atualmente, já tem se organizado na reivindicação por sua participação nas decisões e
desenvolvimentos que envolvem Tecnologia. A natureza já não pode mais figurar como fonte de recursos para a atividade tecnológica, é necessário um equilíbrio entre esta e a conservação do meio natural.
Assim, uma aula de qualquer disciplina científica que tenha como premissa esse entendimento de Tecnologia e da atividade tecnológica é um campo fértil para o desenrolar de discussões e críticas mais globais sobre C&T. Discussões que, certamente, estarão permeadas de valores sociais.
O valor que a sociedade atribui à Tecnologia e as relações entre ambas são assuntos ainda controversos. Ainda se acredita que o desenvolvimento da Tecnologia é isento de fatores sociais, tal como o desenvolvimento científico é visto. Porém, a mudança social é dependente desse desenvolvimento tecnológico, de forma que as conseqüências sociais da Tecnologia são percebidas como inevitáveis. A partir dessa percepção há duas posturas radicais frente à Tecnologia que precisam ser esclarecidas: a tecnofobia e a tecnofilia. A tecnofobia é caracterizada como o rechaço a tudo que provém da Tecnologia, por ser entendido como perigo potencial. A tecnofilia é a aceitação como boa de toda e qualquer novidade tecnológica.
Estes modos de encarar a Tecnologia e o seu desenvolvimento podem ser considerados como pertencentes a um contexto social determinante, que é suscetível de valoração pela sociedade.
A discussão desses valores – e daquilo que os sustenta – deve conduzir os jovens a uma maior conscientização de seus papéis de cidadãos e cidadãs, passando a reivindicar a participação pública nas decisões sobre o desenvolvimento tecnológico e contribuindo para que a sociedade se torne democraticamente responsável por esse desenvolvimento também.
A participação pública na avaliação do desenvolvimento tecnológico é bastante recente. A avaliação clássica da Tecnologia constitui-se apenas da valoração de custos, benefícios e impactos de tecnologias já desenvolvidas, e é feita normalmente pelos especialistas. Vem instalando-se, embora de modo muito lento, um novo modelo de avaliação construtiva das tecnologias, onde leigos e especialistas avaliam o processo tecnológico em si, e não apenas o seu produto final. Isso democratiza e torna os “avaliadores” socialmente responsáveis pelas decisões que orientam o processo. (Gordillo et al, 2001)
A educação científica e tecnológica pode ter um papel muito importante para tornar realidade essa avaliação participativa das tecnologias. O enfoque CTS educacional contribui com novas maneiras de se estabelecer relações entre as ciências e os artefatos tecnológicos, juntamente com suas implicações no meio social e ambiental.
2.3 E agora?
Até aqui falamos sobre Ciência e Tecnologia, suas imagens, seus processos e sua história. Porém, não esclareci a concepção que eu, professora e pesquisadora, tenho sobre C e T. Para mim, a Ciência é um campo de estudo que é fortemente influenciado por fatores econômicos, políticos e sociais. A Ciência se encarrega de fazer pesquisas que tragam benefícios à sociedade, mas como é uma atividade feita por humanos, está impregnada de interesses e valores comuns aos humanos. Portanto, considerá-la neutra pode ser um grande erro. Nenhuma definição de Ciência será completa. A Ciência ensinada nas escolas tem uma gama de conceitos teóricos e explicações que foram historicamente construídas. Que são importantes e até fundamentais para compreender muitos fatos e fenômenos. Mas que, isolados do momento histórico, social e político restringem o conhecimento que podem gerar.
A Tecnologia anda lado a lado com a Ciência. Em alguns momentos a precede e em outros a complementa em seu trabalho. A Tecnologia entendida não somente como a técnica ou a produção de artefatos e máquinas, mas como aquilo que possibilita o conhecimento, o seu desenvolvimento e aplicação. Assim como a Ciência, a Tecnologia está imersa numa sociedade repleta de valores e, por conseguinte, é por eles influenciada.
No ensino de Ciências com enfoque CTS precisamos de uma imagem de Ciência e Tecnologia que possa trazer à tona a dimensão social do desenvolvimento científico-tecnológico, entendido como um produto resultante de fatores culturais, políticos e econômicos. Nesse sentido, concordo com Bazzo, 1998, quando diz
É preciso que possamos retirar a ciência e a tecnologia de seus pedestais inabaláveis da investigação desinteressada da verdade e dos resultados generosos para o progresso humano. (p.114)
Pensando assim, alguns questionamentos pertinentes a esta pesquisa precisam ser esclarecidos: O que da Ciência e da Tecnologia interessa para que o estudante de ensino médio compreenda as relações entre CTS?
Primeiramente, parece ser necessário apontar o caráter provisório da C&T. Não é possível trabalhar num enfoque CTS se considerarmos a Ciência e a Tecnologia como definitivas e fechadas em si. Outro aspecto importante diz respeito à questão da valoração que faz parte de ambas. Nem Ciência, nem Tecnologia, existem isentas de valores. Os valores são atribuídos pelas pessoas e, portanto, a sociedade é um marco essencial para o entendimento mais amplo das questões tecnocientíficas. Estas considerações estarão presentes no desenvolvimento deste projeto de pesquisa.