2.3 O mercado ilegal das drogas
2.3.1 O produtor-fornecedor
A fonte de comercialização das drogas, o produtor-fornecedor, é a parte mais complicada de se chegar, não somente pela organização em si, que é muito bem estruturada e possui uma dinâmica empresarial pouco explorada.
Além disso, essa estrutura de produtor-fornecedor não foi possível de ser encontrada no mercado ilegal das drogas da Grande Goiânia, ela se localiza numa dinâmica mais complexa do narcotráfico internacional que ajuda a entender a rota do tráfico até chegar às cidades pesquisadas.
Essa face do mercado ilegal das drogas movimenta centenas de milhões e milhares de toneladas todos os anos, e seus chefes, conhecidos como os
“barões” das drogas, quase sempre comandam os negócios sem ao menos estar diretamente envolvido. Eles coordenam grupos muito bem organizados com estruturas empresariais que tem grande renda no mercado ilegal, e, ao mesmo tempo, possuem empresas legais de fachada para lavarem o dinheiro do tráfico e, assim, constroem verdadeiros impérios financeiros à base da produção e comercialização de drogas.
76 Figura 5 – Rota do produtor-fornecedor do mercado ilegal das drogas da Grande Goiânia.
Fonte: Pesquisa Sujeitos do 33: um estudo sobre o mercado ilegal das drogas e homicídios na Grande Goiânia, 2014
Na figura 2 é possível perceber que cada uma das drogas possui uma rota de comercialização até chegar ao varejo do tráfico na Grande Goiânia. A principal produtora de pasta base é a Colômbia e a Bolívia que revendem para o Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, mas elas também podem ser adquiridas nesses outros dois Estados, justamente por ser fronteiriços, e
77 também do Paraguai que, por sua vez, recebe a pasta-base da Colômbia e da Bolívia. Em relação à rota da pasta base um dos entrevistados diz:
É o seguinte: eu pagava pra trazer. Pagava 300,00 da Bolívia para o Brasil. Do Mato Grosso até aqui pagava mais 1.000,00. Saia 1.300,00 de cada quilo. Mas, vinha tudo mexida a droga, chegava faltando.
Nesse meio não tem confiança em lugar nenhum. Meio assim que é perigoso. Eu já escapei da morte várias vezes. Igual eu ia lá na fronteira e tudo os Bolivianos eles não são confiáveis. Se você vai com dinheiro eles te tomam o dinheiro, se você vem com a droga eles te tomam a droga. Eu fazia o seguinte: eu ia lá sem nada, sem dinheiro e negociava com boliviano e vinha embora. Lá é perigoso mesmo. Pra ir com dinheiro e vim com drogas é do mesmo jeito. (Mulher, 33 anos)
O mais comum é que a pasta base seja refinada após ser vendida para pessoas do tráfico organizado ou do tráfico associado, ganhando assim dois mercados distintos, o do crack e o da cocaína. Outro fator problemático encontrado nessa relação de compra do produtor-fornecedor é a falta de segurança em adquirir a droga, apesar da certeza dos bons lucros ao comprar diretamente da fonte, corre-se o risco de ter o dinheiro ou a droga roubada, além da própria possibilidade de ser pego pela polícia no carregamento das substâncias ilícitas.
P – Vocês tinha contato com o cara do Paraguai lá né?! Mas vocês iam buscar ou ele trazia. Ah não você falou que tinha um aviãozinho R – É. Eles que traziam, era muito arriscado né, ai deixava mais pra eles. (Mulher, 20 anos)
Além disso, outra estratégia adotada é utilizar mulas que são contratados para irem a esses locais somente para fazer o transporte das drogas depois do negócio fechado.
78 Eu tava vendendo droga e comecei a ver que tava dando lucro. Ai eu descobri que maconha os cara tava buscando no Paraguai. Ai um cara falou assim “você vai lá buscar pra mim e tal”, ai eu fui e busquei. Ai eu comecei a buscar droga lá, Paraguai não, Campo Grande. Eu buscava a droga lá e eu vendia aqui em Goiânia. Buscava lá e revendia aqui em Goiânia. (Homem, 33 anos)
Da mesma forma, existem casos em que os próprios sujeitos do 33 negociam e compram as drogas e, no local em que as adquirem, contrata-se alguma pessoa, principalmente motoristas de ônibus ou caminhão, para fazer o translado das substâncias para o Brasil e, quando se chega a um local seguro, elas são entregues e o pagamento pelo serviço realizado.
Em relação à maconha, hoje o principal produtor-fornecedor do mercado goiano é o Paraguai que, além de produzir, também as adquirem, sobretudo, da Bolívia e do Peru. Paraguai também é o principal fornecedor de drogas sintéticas que normalmente tem as suas rotas de produção e distribuição vindas de países europeus.
P – E onde vocês buscavam a droga? O fornecedor?
R – É, só que o nosso fornecedor ele era do Paraguai, a gente não conhece ele não, era sempre por telefone, ai veio os aviãozinho que trazia a droga pra gente, a gente ia no lugar, buscava e ia pra casa P – E era o mesmo fornecedor de maconha e cocaína?
R – É o mesmo
P – E quantos que vocês compravam mais ou menos a quantidade?
R – Era 50, 150 quilos, nós trazia muito porque a gente distribuía pros meninos tudinho daqui de Trindade. (Mulher, 20 anos)
Na tentativa de evitar os riscos de sofrer qualquer tipo de roubo ou apreensão das drogas, alguns entrevistados que as adquirem diretamente da fonte preferem que elas sejam entregues em mãos, diminuindo os riscos de prejuízo e de serem pegos, mas, por outro lado, aumentam-se os preços das mercadorias pelo fato do risco passar a ser do produtor-fornecedor.
Os sujeitos do 33 que atuam no tráfico organizado são os principais clientes do produtor-fornecedor, mas, também, como veremos, os indivíduos do
79 tráfico associado e do tráfico atomizado realizam esse tipo de transação juntamente com a fonte de comercialização das drogas antecipando as relações de distribuição e, com isso, aumenta-se o lucros. Apesar da existência desses casos, eles são mais raros de serem encontrados.