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O professor como praticante de teletandem

No documento MICHELI GOMES DE SOUZA (páginas 87-93)

CAPÍTULO III: ANÁLISE DOS DADOS

3.1 O professor como praticante de teletandem

O primeiro contato dos participantes com a prática de teletandem, ou seja, os 16 encontros que realizaram com um parceiro uruguaio (a) por meio de uma interação virtual mediada por uma ferramenta de comunicação audiovisual, foram representados por eles como momentos de experimentação e de descobertas de diferentes sensações proporcionadas pelo contexto e pela parceria estabelecida.

Neste primeiro tópico analiso sete excertos temáticos que revelam aspectos das experiências como praticantes de teletandem dos participantes PrP1 Rosemeire, PrP1 Cristina, PrP2 Roberto, PrP1 Ariane, PrP1 Luana e PrP2 Márcia. O primeiro excerto, traz a percepção de PrP1 Rosemeire sobre o contexto teletandem.

ET1: “interagindo em tempo real dentro da minha casa ela na casa dela (+) ela me mostrando coisas do cotidiano dela que eu nunca imaginava que eu pudesse aprender a não ser se eu fosse pro Uruguai e vivesse ali por um período de tempo (+) até um dia eu falei eu me sinto como se eu estivesse

dentro da casa dela falando com ela sentada no sofá da sala eu me sinto

assim muitas vezes (+) então assim (+) é o cotidiano o real ali dentro da comunicação” (PrP1 Rosemeire, Transcrição E3)

PrP1 Rosemeire relata a “sensação de real” da interação de teletandem, exemplificando que, em relação à interagente uruguaia, se sente como se estivesse “dentro da casa dela, falando com ela sentada no sofá da sala”. Um tipo de interação como essa pode indicar que alguns dos aparatos tecnológicos que medeiam a interação (webcam, tela do computador, etc) podem ter sido naturalizados na interação e não foram percebidos como mediadores da mesma, ou seja, o fator dominante na interação é representado como “eu e minha parceira”, sendo a tecnologia, a distância geográfica e temporal aparentemente quase esquecidas durante a comunicação.

A percepção do contexto, tal qual PrP1 Rosemeire descreve, dialoga com o conceito de presença, descrito por Lombard e Ditton (1997 apud VASSALLO, 2009, p. 96) como “[...] a ilusão perceptiva de não mediação [...]”, o qual Vassallo (2009) aplica ao contexto teletandem para analisar como a relação comunicativa ocorre nesse contexto. Essa ilusão perceptiva de não mediação, evidencia-se na interação de PrP1 Rosemeire, de acordo com o que observamos no ET1, pela forma como a participante representa a mediação da tecnologia na interação. Essa experiência relaciona-se ao posicionamento de Mantovani e Riva (1999, apud VASSALLO, 2009) de que a presença “física” em um ambiente, ou seja, o “estar” e compartilhar um mesmo espaço físico, pode não ser necessariamente mais “real” ou verdadeira que uma relação a distância, ou de telepresença, como no caso do teletandem.

Segundo VASSALLO (2009, p. 99), o conceito de presença abrange os conceitos de telepresença, referente à “percepção de um ambiente ou simulado, mediada por recursos tecnológicos” e presença social, entendido pela autora como a percepção de estar com o outro. Os elementos comuns referentes a estes dois conceitos, segundo Khalifa e Shen (2004, apud VASSALLO, 2009), são a vividez, interatividade e velocidade. O primeiro diz respeito à riqueza de representação do ambiente proveniente, no caso do teletandem, dos recursos audiovisuais que possibilitam um detalhamento de informações espaciais e sensoriais do ambiente. O elemento interatividade é bastante caracterizado pela dinamicidade da

comunicação e a velocidade diz respeito à rapidez ou à sincronicidade da interação. Essa dinamicidade foi percebida por PrP1 Cristina, conforme seu relato a seguir:

ET2: “totalmente diferente porque pelo menos no meu teletandem parece

que a gente está mesmo como o Leandro falou (+) num bate-papo (+)

compartilhando informações (+) eu pergunto ela pergunta e a gente fala o que é semelhante o que é diferente e aí a gente fala a não mas aqui então lá (+) e parece que não é ensinar” (PrP1 Cristina, Transcrição E3)

PrP1 Cristina descreve, em relação à sua percepção da interação, sua sensação de estar participando de um bate-papo semelhante a uma conversa rotineira bastante próxima de um diálogo presencial com um amigo. No entanto, esse diálogo tem seus fins pedagógicos, o que parece surpreender PrP1 Cristina pois, segundo ela, “parece que não é ensinar”. A surpresa demonstrada pela participante está na sua compreensão da dinâmica comunicativa do teletandem que, ao possibilitar um espaço de “compartilhamento de informações”, constrói então a aprendizagem, sem necessariamente ter uma relação direta com o ensino. Nesse caso, o ensino está embutido no processo comunicativo entre os pares e, em alguns momentos, mais explícito, como no caso do feedback, criando assim uma diferente sensação de aprendizagem nos interagentes. Essa nova relação com o aprender causa certo estranhamento em PrP1 Cristina, que a coloca frente a uma nova realidade em que o ensino passa a não representar e a não ocorrer apenas a partir da prática mais tradicional (aula frontal) da sala de aula de línguas.

Por outro lado, outros três participantes representam de outra forma essa relação comunicativa no teletandem, dando destaque para a dinâmica de troca de papéis entre os interagentes. Iniciemos com a afirmação de PrP2 Roberto sobre a percepção de seu papel como par mais competente durante a comunicação em teletandem:

ET3: “quando estou no papel de par mais competente, ainda estou como

professor e tenho quase que as mesmas preocupações que tenho em sala de

aula: Será que estou sendo claro? Meus exemplos são suficientes?” (PrP2 Roberto, Fórum a tecnologia e a formação em serviço I)

Conforme PrP2 Roberto, sua experiência foi marcada pela preocupação de ensinar ao parceiro e garantir seu aprendizado. Nesse sentido, podemos entender que o mesmo não se

desvencilha de seu papel de professor e se coloca em uma situação de “preocupação”, por achar que a aprendizagem de seu parceiro depende de sua atuação como par mais competente, atuação esta relacionada ao seu papel de professor em sala de aula. Tal vivência do contexto teletandem diferencia-se da proposta de Brammerts (2002) para parcerias de aprendizagem em tandem, segundo a qual é o parceiro menos competente quem deve preocupar-se com a própria aprendizagem e buscar construir na relação com o parceiro mais competente as condições necessárias para o seu desenvolvimento. Ainda sobre a dinâmica de troca de papéis no teletandem, PrP1 Ariane afirma que:

ET4: “mesmo desempenhando o papel de aprendiz, não nos despimos

totalmente do papel de professor” (PrP1 Ariane, Fórum a tecnologia e a

formação em serviço I)

Nesse caso, PrP1 Ariane relata uma vivência ainda mais conflituosa, pois mesmo como aprendiz, ou seja, no momento da comunicação em que utiliza o espanhol com o auxílio da interagente uruguaia, ela não se desvencilha de sua posição de professora. Essa experiência, representada por meio do verbo “despir-se”, remete a uma situação de insegurança, ou seja, ao sair do papel de professora, a participante pode temer o enfrentamento de uma situação nova e embaraçosa. Dessa forma, o relato de PrP1 Ariane pode indicar uma relação de poder, no sentido de que, como professora, a interagente pode buscar maior controle e segurança durante a comunicação com o par mais competente. Diferentemente de PrP1 Ariane, PrP1 Luana demonstra-se culpada ao sentir que exerce demais o papel de ser a responsável pela interação, não em termos da interação em si, mas do estabelecimento dos acordos que sustentam a parceria,

ET5: “as vezes me sinto um pouco culpada porque parece que sempre as

iniciativas de conduzir o tandem de acordar os horários parece que partem de mim as vezes eu sinto a minha parceira um pouco esperando que eu

tome a iniciativa mas também eu entendo que parece muito ocupada né tem muitos afazeres e o nosso horário ta combinado assim de sábado a noite” (PrP1 Luana, Transcrição E1)

A colocação de PrP1 Luana demonstra o seu grande compromisso com a parceria, mas ao mesmo tempo, um desconforto por ser levada, por uma possível omissão da parceira, a ter demasiada iniciativa no que se refere ao estabelecimento dos acordos na parceria. PrP2 Márcia, voltando-se para interação, aponta para um equilíbrio na relação,

ET6: “As vezes me sinto aluna as vezes professora. Não me preocupo muito com isso e no final percebo que para os dois lados é produtivo.” (PrP2 Márcia, Fórum A tecnologia e a formação em serviço I)

A fala de PrP2 Márcia mostra que a mesma divide-se na interação entre o papel de professora e de aluna. No entanto, esse posicionamento nos remete muito mais a um contexto de sala de aula, de uma interação unilateral de “transmissão de conhecimento” entre professor e aluno do que a caracterização esperada de uma interação em teletandem, na qual, supostamente, os papéis de professor e de aluno dão lugar aos papéis de aprendizes, que se revezam no exercício de par mais competente e menos competente, sem que isso implique uma relação por demais focada no ensino, tal qual descrevemos anteriormente.

PrP1 Rosemeire relata uma dificuldade na prática de teletandem em relação aos temas escolhidos por sua parceira para serem trabalhados durante as interações.

ET7: “no meu caso não eram os problemas tecnológicos mas muitas vezes de incompatibilidade do assunto (+) as vezes a minha parceira me propõe

um assunto do qual eu não tenho intimidade” (PrP1 Rosemeire,

Transcrição E3)

Temos aqui uma situação de aprendizagem que não é necessariamente um problema, conforme apresentado por PrP1 Rosemeire, mas uma possibilidade para a negociação entre os pares. Embora seja comum, entre praticantes de teletandem, relatos de dificuldades com a incompatibilidade de temas ou a falta de assunto durante uma interação, parece que é justamente nesses momentos que os pares podem desenvolver a habilidade, na língua-alvo ou em sua língua materna, de negociarem os objetivos e direcionamentos da parceria.

Garcia (2010), baseando-se em Putnam e Roloff (1992), afirma que sob uma perspectiva interacionista de aquisição da linguagem, a língua deve ser utilizada para cumprir

uma tarefa. Assim, a negociação, como processo por meio do qual os interagentes discutem o andamento das interações, o alcance de seus objetivos, as formas como podem colaborar um com o outro é propícia para o uso da língua, para gerar os reajustes necessários à parceria e para o engajamento dos interagentes na compreensão do que uma relação colaborativa de aprendizagem envolve.

A partir do que discutimos até o momento, podemos entender que o primeiro contato dos participantes com o contexto teletandem foi marcado por surpresas ao descobrirem as possibilidades interativas do meio, bem como iniciou um questionamento entre os participantes sobre seus papéis na interação, uma vez que a relação não é a convencional interação professor-aluno, mas entre parceiros de aprendizagem. Esta adequação ao papel de aprendiz, na interação de teletandem, parece ter ocorrido de forma natural para alguns participantes, mas foi um fator que gerou preocupação para aqueles que relacionaram o papel de interagente em teletandem ao papel de professor em sala de aula.

Como visualizamos nos dois primeiros excertos, nas falas de PrP1 Rosemeire e PrP1 Cristina, a percepção dessas participantes em relação à aprendizagem por meio da comunicação em teletandem foi marcada pela surpresa por se comunicarem de forma tão vívida, mesmo a distância e mesmo sendo mediadas pelo computador. Também verificamos a compreensão das mesmas sobre a possibilidade de aprendizagem sem que necessariamente exista uma relação de ensino, tal qual é praticado na sala de aula tradicional, mas que ocorre em processo de colaboração mútua, por meio do qual os interagentes oferecem andaimes (VYGOTSKY, 2007) para a aprendizagem um do outro. Já nos excertos seguintes, de PrP2 Roberto, PrP1 Ariane, PrP1 Luana e PrP1 Márcia, as questões levantadas por esses participantes refletem uma vivência aparentemente conflituosa, de diferentes formas, em relação ao lugar do ensino na interação de teletandem. A experiência desses participantes com o teletandem parece ter passado, inevitavelmente, pelo filtro de suas experiências presenciais, calcadas no ensino, de forma a legitimar esse novo contexto a partir destas mesmas experiências presenciais. Nos último excerto, PrP1 Rosemeire cita um problema com a incompatibilidade de temas ou assunto, revelando uma dificuldade em negociar os objetivos e desenvolvimento das interações.

Fechando este primeiro tema, as experiências descritas pelos participantes, chamaram a atenção para o modo pelo qual a prática de sala de aula refletiu-se nas suas percepções de

seus papéis como interagentes de teletandem e para como os participantes vivenciaram esse novo contexto de aprendizagem mediado por computador.

No documento MICHELI GOMES DE SOUZA (páginas 87-93)