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Antonio Gramsci deixou uma grande contribuição que diz respeito ao papel dos intelectuais no processo da formação de uma nova moral e cultura. Sua tese está diretamente desenvolvida no seu conceito de hegemonia, compreendido como direção moral e direção política de uma classe quando toma o poder (ou não) sobre as classes concorrentes e aliadas.

É nessa direção, que Gramsci discute o papel do intelectual como o que faz as relações entre as diferentes classes sociais possibilitando uma visão de mundo mais unitária e homogênea. Nessa ótica, ele destaca que todas as classes sociais possuem seus intelectuais, ou seja, todo grupo social que possui função no mundo da produção, empresários, trabalhadores, produzem os próprios intelectuais para darem maior homogeneidade e consciência da importância da função desta classe. Essa é uma ação hegemônica, tendo em vista tratar-se de um processo que expressa a consciência e os valores organizados praticamente por significados específicos e dominantes, num processo social vivido de maneira contraditória, incompleta e até muitas vezes difusa. Comprende-se, portanto, que a hegemonia de um grupo social equivale à cultura que esse grupo conseguiu generalizar para outros segmentos sociais.

Nesta perspectiva, é possível a apropriação da concepção de que o professor pode ser um intelectual orgânico e que, do confronto entre suas bases teóricas e sua prática, pode emergir uma consciência de classe onde ele vai contribuir para a construção de uma nova sociedade cujas bases se oponham aos paradigmas dominantes na sociedade capitalista. Seria a apropriação do pensamento gramsciano para a educação, especialmente para o professor.

Apesar de não ser nova no meio acadêmico, contudo, sempre muito apropriada para pensar o papel ou a função do professor.

O pressuposto de que o intelectual não é uma pessoa “iluminada”, acima dos outros, leva Gramsci a formular um conceito revolucionário uma vez que o pensador não reconhece como legítima a diferenciação entre trabalho intelectual e trabalho manual. Reafirma, sim, que essa diferença corroborou para legitimar a desigualdade social nas sociedades capitalistas uma vez que o capitalismo construiu a ideologia de que ao trabalhador intelectual cabem privilégios impensáveis e, para a classe trabalhadora, confinada, quase sempre, resta apenas a tarefa de realizar trabalhos manuais.

Desprezando, pois, as convencionais categorias para identificar o intelectual, Gramsci (1988) adota como critério o lugar e a função que ele ocupa no conjunto das relações sociais, para diferenciar os intelectuais dos não intelectuais. Assim, o autor explica que, embora as relações de produção sejam necessárias e independentes da vontade humana, é também, a tomada de consciência dessa necessidade e a vontade de transformar as estruturas econômicas que caracterizam o intelectual.

Mas, o conceito de intelectual de Gramsci provém de sua práxis, não está deslocado, portanto, das suas condições de existência, sobretudo do seu momento histórico e da conjuntura em que sua reflexão ocorre.Foi na sua própria vivência que Gramsci, dialeticamente, construiu o conceito de intelectual orgânico, exercitando sua capacidade intelectual, atrelando-a ao movimento do sentir, compreender e do saber para transformar os explorados em senhores do seu destino, de suas vidas. Da experiência, Gramsci compreendeu a possibilidade de ser o intelectual mais do que o pensador ou teórico que “receita” fórmulas para outros executarem. O intelectual orgânico é o que faz acontecer, aquele que consegue traduzir idéias em ações.

Por intelectuais, em Gramsci (2000, p.201), deve-se entender não somente essas camadas sociais, tradicionalmente chamadas de intelectuais, mas em geral todos os indivíduos que exercem, na sociedade, funções de organização em sentido amplo: seja no plano da produção, da cultura ou da administração pública.

O conceito bem se aplica ao professor, quando este se coloca como um dos elementos centrais no processo ensino aprendizagem, tornando-se, por

decisão ou por contingências de ordens várias, atuante e identificado com sua realidade, defendendo valores e não interesses individuais. “Orgânicos” são, pois, os intelectuais que fazem parte de um organismo vivo e em expansão. Por isso, estão, ao mesmo tempo, conectados ao mundo do trabalho, às organizações políticas e culturais mais avançadas que o seu grupo social desenvolve para dirigir a sociedade numa perspectiva de manutenção ou de mudanças; é na ação, efetivamente, que se dá o trabalho intelectual e é esta ação que impulsiona e transforma o intelectual em orgânico.

Sob essa ótica, compreende-se, então, que os intelectuais não são autônomos e, tampouco, independentes. Segundo Coutinho (1981, p.218) eles são: “instrumentos para o exercício da hegemonia social e governo político”. Daí o trabalho que empreende ao traduzir o consenso das massas em orientação social. Nesse sentido,

Formam-se assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; se formam em conexão com todos os grupos sociais, mas, sobretudo, em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante. (GRAMSCI, 2006, p.18)

O intelectual orgânico visa homogeneizar a concepção de mundo da classe à qual está organicamente ligado; ele não é o reflexo desta classe e sim desempenha o papel de tornar mais homogênea a concepção desta classe. A função homogeneizadora, no caso, é feita de duas formas pelo intelectual orgânico: em nível do saber e em nível de difusão, para explicar e difundir a concepção de mundo de sua classe. “É principalmente pelas funções econômicas, política e social que exerce que o intelectual provocará uma maior homogeneização da consciência da classe à qual está organicamente ligado.” (GRAMSCI, apud PIOTTE, 1995, p.21)

Ao ampliar a ação do intelectual, esse Gramsci o recoloca junto de uma classe, ligando-o a ela e diferenciando-o apenas em função das tarefas que irá exercer. Neste sentido, o trabalho intelectual não existe por si só, torna-se uma função que se exerce no dia-a-dia, na organização, na difusão de idéias e na ação.

Em síntese, a atuação do intelectual orgânico pode ser delimitada de duas maneiras: (tomando-se como referência a sociedade capitalista). Na primeira, estará a serviço da classe hegemônica que dá sustentação ao

capitalismo – à burguesia – ou, na segunda maneira, estará a serviço da luta pela superação do capitalismo, numa posição contra-hegemônica.

Nessa ótica, é no processo de organização das classes subalternas, na correlação de forças com as classes dominantes, que os intelectuais devem colocar-se nas lutas a serviço das classes para operarem transformação social. Para tanto, é necessário que se compreenda que todos os homens são intelectuais, ainda que não seja facultado a todos, na sociedade, o papel de intelectuais. Percebemos que Gramsci utiliza a noção de intelectual referindo-se à categoria profissional, apesar de para ele não haver possibilidade de afirmar a existência de não-intelectuais. Cada sujeito tem uma concepção de mundo e, no trabalho, pode contribuir para manter ou transformar as relações sociais.

Ainda que não se encontre, nos textos de Gramsci, a referência ao professor/educador como um intelectual orgânico, por analogia se pode depreender a existência deste, pois falar de intelectuais é falar também de hegemonia que implica falar em educação/escola – aparelho privado de hegemonia, ao lado de outras formas organizativas da sociedade civil – e, conseqüentemente, do papel do professor.

Convém, contudo, ressaltar que, para discutir o papel do professor como intelectual, por meio do pensamento de Gramsci, deve-se aclarar o conceito de hegemonia desse autor. Neste sentido, a hegemonia, para Gramsci, é um processo social de consciência e valores organizados pela classe dominante. É um processo construído, contudo, de maneira contraditória.

O contraditório explica-se porque a hegemonia é idêntica à cultura, mas é algo mais que a cultura porque inclui, necessariamente, uma distribuição específica de poder, de hierarquia e de influência. Depreende-se que esta não é assumida passivamente e, tampouco, implica, apenas, consenso. Contrariamente, pressupõe também violência e coerção, está sujeita à luta, à confrontação. Não é um sistema fechado, uma vez que das contradições pode haver contra- hegemonia. Por conseguinte, a concepção de hegemonia tem base na ontologia dialética.

Assim concebida, a hegemonia está sempre na tensão instituído- instituinte. A dialética responde perfeitamente à compreensão de hegemonia do autor e consubstancia a concepção de que, embora a educação seja

determinada, historicamente, pelas classes dominantes, há a possibilidade de superação da hegemonia dominante pelos movimentos contra-hegemônicos.

A escola e o professor teriam, nesse caso, um papel importante, sobretudo o professor, como agente de conservação ou superação do sistema, pode estar a serviço da burguesia ou do proletariado. Notadamente, “[...] a transformação das estruturas sociais exige conflitos objetivos, necessários, mas exige igualmente a consciência e a vontade de resolver estes conflitos. Sem o intelectual não há transformação. [...] Nesse sentido, o conhecimento é poder.” (GRAMSCI, apud PIOTTE, 2006, p.23)

No ponto de vista de Gramsci, a escola encontra-se no quadro das relações hegemônicas e, constitui-se em um espaço de disputa e de contradição. Nesse aspecto, ela é um local de difusão de ideologias e contra-ideologias e funciona como um lugar, tanto de dominação e reprodução, quanto de contradição, conflito e superação, provocando um processo dialético dual, o que o leva a pensar em oposições e em circularidades. O professor, por sua vez, pode desempenhar um papel importante para conservar os valores da classe dominante ou negar tais valores e práticas, por meio de uma tomada de consciência do seu papel político-social.

Para Gramsci, o processo hegemônico vincula o ato pedagógico ao político e estes, isolados, não concretizam, de forma plena, o estado hegemônico. Contudo, o estágio de reconhecimento do seu papel e de sua atuação responsável como tal não seria a condição, por si mesma, que o colocaria como um intelectual orgânico, mas e, sobretudo, perceber-se como pertencente a uma classe, desalienar-se do princípio da ideologia dominante e se reconhecer como parte da classe trabalhadora seriam as condições básicas para o professor ser o intelectual orgânico na concepção gramsciana.

Ao ressignificar, portanto, o novo intelectual, o autor está inferindo que esse se distingue pela especialização técnica, pelo trabalho coletivo, pela disciplina no trabalho, pelo fato de ser responsável pelo nexo: teoria-prática.

Nessa perspectiva, a organicidade dos intelectuais pode ser medida pela maior ou menor conexão nas funções superestruturais ou da sociedade civil e seus organismos de hegemonia ou da sociedade política. Os intelectuais, ao exercerem as funções da hegemonia e do governo político, em nome das classes dominadas, têm a função de unificar os conceitos para criação de uma nova

cultura, que não se reduz apenas à formação de uma vontade coletiva, capaz de adquirir o poder do Estado, mas também significa a possibilidade de construção e difusão de uma nova concepção de mundo e de comportamento.

O pensamento de Gramsci é muito amplo e poderia ser explicado sob diversos aspectos, uma vez que como teórico ele redimensiona o valor da escola como campo de conscientização do processo social contraditório, de superação de valores e de mudança da história, via o professor que, havendo tomado consciência do seu papel histórico e social, de agente de luta – tenha se transformado em um intelectual orgânico a serviço dos interesses das camadas menos favorecidas, impulsionando-as para a formação de uma nova ordem social mais democrática e justa.

Nesse sentido, a ação dos intelectuais no meio das massas deve ser uma relação pedagógica, deve estar voltada para a tentativa de elevar as consciências, do senso comum à consciência filosófica, por meio de um processo de reforma intelectual e moral, reforma esta que caminha junto com a economia e a política.

A preocupação de Gramsci gira em torno da igual formação a que todos deveriam ter acesso. Para ele, a elevação cultural das massas, para adequá-las à modernização e ao crescimento das forças produtivas da sociedade capitalista, tem repercussões contraditórias: o acesso a determinados códigos dominantes do qual a alfabetização é o primeiro passo, o conhecimento de direitos e deveres e a capacidade de exigi-los pode educar também para a transformação da ordem e não apenas para o conformismo e a adesão. Reside nestas concepções sobre a escola e o conseqüente papel da educação a nossa inferência sobre o professor como um intelectual orgânico no sentido, tanto da adesão a um projeto de mudanças como a um projeto conservador, tomando-se sempre como ponto de partida as sociedades capitalistas.

Notadamente, o aspecto considerado mais importante de sua obra é a relação entre a sua concepção de educação e a análise que fez sobre a formação e a função dos intelectuais num papel orgânico no seio do bloco histórico.

Em específico, quando se discute e se tenta compreender um projeto como o Projeto Escola Ativa, parte-se da concepção de que o professor e os demais profissionais que atuam no Projeto podem ser analisados a partir da

categoria gramsciana do intelectual orgânico, uma vez que o professor em qualquer situação e independente de sua opção é um intelectual.

3 O ESCOLA ATIVA NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS EDUCACIONAIS DO