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CAPÍTULO III O CONTEXTO: AS DIVERSAS FACES DAS MUDANÇAS

3.4 O PROFESSOR E A EDUCAÇÃO SUPERIOR PRIVADA

Se considerado os indicadores de acesso, a partir das bases disponibilizadas pelo INEP/MEC, é possível afirmar que a educação superior no Brasil vem mudando intensamente nas últimas décadas.

O catálogo de 2008 do INEP registra 2.468 Instituições de Ensino Superior. Dessas 258 públicas e 2.210 privadas. Essas instituições estavam oferecendo 27.991 cursos de graduação no ano de 2008 (7.268 públicos e 20.723 privados). O último senso escolar de 2006 publicado pelo INEP, como já mencionado no capítulo anterior, apontava para 316.882 mil professores nas Instituições de Ensino Superior no Brasil. No Distrito Federal este número, no mesmo período, era de 9.233 professores.

Para compreender o sentido dos números acima e, especialmente, o professor mergulhado neste universo, parece importante uma breve reflexão sobre o que se passou no ensino superior brasileiro nos últimos anos, mais precisamente nas últimas duas décadas, momento em que percebemos uma mudança intensa no quadro de oferta da educação superior.

Segundo Santos (2005), o cenário inicialmente vivido no Brasil, talvez com uma variação no período histórico, também pode ser percebido em vários outros locais do mundo. Um período inicial de expansão do mercado universitário e em seguida de transnacionalização deste mesmo mercado18. Em especial no caso brasileiro, percebe-se

18Em outros setores, também percebemos que certo monopólio do Estado sobrevive

este movimento apontado pelo autor, mas nota-se também nos últimos anos uma tentativa de retomada e até crescimento da universidade pública, em especial, através da intensificação do Programa de Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI.

A expansão do mercado nacional universitário, ainda segundo Santos (2005), acontece através de um duplo movimento: potencialização das fragilidades da universidade pública (em especial da pouca oferta de vagas) e ampliação sem regulamentação das Instituições de Ensino Superior (IES) privadas.

O processo de ampliação das IES privadas, ao longo das últimas duas décadas, foi sustentado, inicialmente, por meio do argumento da incapacidade da universidade pública de oferecer a ampliação de oferta que o país precisava. Reforçou este quadro a falta de investimento nas Universidades Públicas e a não abertura de novas vagas ou construção de novas universidades públicas.

E o processo de ausência de regulação do Estado foi justificado, em especial, pela aposta da capacidade de auto-regulação do mercado e da lei de oferta e procura baseado na qualidade do ensino que seria ofertado. O resultado desse processo foi a ampliação, com pouquíssima regulação, de cursos de nível superior no país.

O ensino superior não apenas produz para o mercado, mas passa ele próprio a se constituir num grande mercado (SANTOS, 2005). Isso significa, por vezes, tratar cada curso superior como um grande negócio, que deve produzir sua sustentabilidade (centralmente sustentabilidade financeira). O que implica ações de gestão que transformam, em certa medida, diretores (as) de curso em gerentes, professores em vendedores preocupados com o processo de fidelização de seus clientes (estudantes). E transformam, não raramente, estudantes em acionistas.

inclusive com o discurso de democratização e diversificação. Logo depois percebemos novamente a construção de um processo de monopólio, mas desta vez privado. Este “movimento pendular” entre público e privado pode ser percebido no caso das telecomunicações, por exemplo.

A questão é que a relação atual entre conhecimento e organização do trabalho, como já verificamos anteriormente, redimensiona a importância do conhecimento colocando-o com um peso mais relevante no processo de produção, ao mesmo tempo, passa a tratá-lo como uma mercadoria com tudo que isso pode implicar.

No caso da expansão do ensino superior no Distrito Federal, por exemplo, segundo os dados do INEP podemos observar um aumento de 576% no número de IES no período entre 1995 a 2006. Em 1995 tínhamos 13 Instituições e em 2006 tínhamos 75 IES.

Já nos últimos anos, o que se percebe, ao menos como uma tendência, é uma diminuição do ritmo processo de expansão do mercado nacional e recentemente passamos a conviver com a experiência das IES de capital aberto. Essas por sua vez iniciam um processo de ampliação do negócio através da compra de outras instituições menores ou em piores condições financeiras.

No DF, a “entrada” das Faculdades Anhanguera é emblemática19. Essa mesma rede, entre os anos de 2007 a 2009, fez 18 aquisições de IES no país, no valor de R$ 536.000.000,00 segundo o levantamento do Valor Econômico, que fez uma análise setorial do setor do Ensino Superior Privado, considerando dados de outubro de 2009.

Segundo o mesmo documento, já em 2009, quatro grandes grupos tinham suas ações negociadas na Bovespa: Anhanguera Educacional, Estácio Participações, Sistema Educacional Brasileiro e Kroton Educacional.

Os processos de expansão e transnacionalização do mercado nacional universitário avançam, mas há também, no atual direcionamento do MEC, uma tendência de avanço na criação de novas universidades públicas e de aumento do número de vagas oferecidas pelas universidades públicas.

19

No ano de 2008 a Faculdade Anhanguera comprou em Taguatinga-DF duas outras IES, mantendo o nome comercial das mesmas, mas modificando todo o processo interno de gerência e coordenação pedagógica (apostilas, calendários de provas, etc.).

Percebe-se uma tendência relevante de reação da universidade pública na oferta de novos campi e vagas em grande parte do território nacional. Esse não é um processo que acontece sem problemas e críticas, mas é muito relevante diante do cenário das últimas duas décadas.

Segundo o relatório do REUNI (Programa de Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) sobre o primeiro ano de atuação do programa, publicado em outubro de 2009, o número de Universidades Federais até 2008 chegou a 58 e os municípios passaram de 114 em 2003 para 237. Foram criadas 13 novas Universidades Federais e 100 novos campi. Em 2007 eram ofertadas pelas Federais 132.451 vagas, já em 2008 foram ofertadas 147.277. Um aumento de 14.826 vagas. No mesmo ano de 2008, foram nomeados, segundo o relatório do programa, 1560 novos docentes.

Além do número de Universidades e de vagas, o programa se propõe a ampliar o número de estudantes por professor que em 2008 era 17,8, ampliar a oferta de cursos de graduação, a elevação em 90% da taxa de conclusão média dos formandos nas graduações e a revisão e flexibilização dos projetos pedagógicos.

O relatório do programa deixa claro os avanços ligados ao número de vagas, ofertas de cursos e abertura de campi, mas não faz uma análise quanto às metas pedagógicas, como a mudança nos currículos, adaptação das Universidades para o possível novo perfil de estudante, combate a evasão e mobilidade estudantil.

Outro programa que possui impacto no cenário da educação superior é o PROUNI – Programa Universidade para todos. Ele foi criado em 2005 e concede bolsas integrais e parciais para estudantes estudarem em IES privadas. As instituições que aderiram ao programa possuem a contrapartida de isenções fiscais. No primeiro semestre de 2010, segundo dados oficiais do MEC, 85.208 estudantes receberam bolsas de 100% e 79.388 receberam bolsas de 50%.

O PROUNI combina critérios econômicos, nota na avaliação do ENEM e a passagem pela escola pública no ensino médio. Pessoas com renda per capita de até 01

salário mínimo podem concorrer a bolsas de 100% e com renda per capita de até 03 salários mínimos podem concorrer a bolsas de 50%.

Em mais um esforço de síntese, pode-se afirmar que, na década de 90, encontramos um fortalecimento da tendência de crescimento das IES privadas, a continuidade da ampliação da vagas para o ensino superior, um crescimento médio acima de 10% ao ano na base de matrículas, segundo o INEP, e uma queda ou paralisia da participação direta do Estado no setor.

A partir dos anos 2000, considerando as fontes do INEP e o estudo do Valor econômico citado anteriormente, encontramos um cenário com as seguintes características: uma tendência de diminuição do número de IES privadas, um aumento de incorporações feitas por grandes Organizações, uma ampliação do capital aberto (de bolsas) no mercado educacional e uma ampliação, também, da participação direta do Estado através de programas como o REUNI, PROUNI e outras formas de financiamento da educação.

Pensar os sentidos do trabalho do professor universitário passa por compreender este contexto e as várias mensagens (por vezes contraditórias) que eles propagam para seus profissionais. É a partir deste contexto e destas mensagens que a organização cotidiana do trabalho docente se dá.

3.5 Organização cotidiana do trabalho docente

As mudanças no campo do trabalho vividas nas últimas décadas atingem de maneira intensa a educação e o trabalho docente. Pode-se afirmar que o processo pedagógico não sofreu grandes mudanças (inclusive desejadas), mas não se pode confundir essa situação pedagógica com as intensas mudanças das relações de trabalho vividas no campo da educação.

Não raras vezes se confunde as mudanças que afetam o trabalho do professor com as mudanças pedagógicas do fazer do professor. Na verdade, existem três questões

distintas: mudanças na organização do trabalho docente, mudança na prática pedagógica e discurso sobre as mudanças pedagógicas (as novidades pedagógicas).

O discurso das novidades em educação pouco tem modificado as práticas pedagógicas, mas, em parte, justifica as mudanças das condições de trabalho dos professores. Aqui reside uma questão delicada que envolve os processos de qualificação profissional que será tratada em um item específico neste mesmo capítulo.

O papel que o conhecimento, de forma geral, desempenha na recente organização do trabalho, desloca para o trabalho docente uma complexidade específica, pois o docente é o trabalhador ou trabalhadora do conhecimento (ao menos no discurso) por excelência.

O uso da mercadoria conhecimento enquanto matéria-prima não é recente, mas a intensidade, a proporção assumida na função de produção, sim – estamos, portanto diante de uma situação na quais as mudanças quantitativas são tão expressivas que modificam qualitativamente o fenômeno. (AMORIN, 2004: 123)

As mudanças ocorridas nas últimas décadas no(s) modelo(s) de organização do trabalho, segundo Almeida (2004), tornou a atuação dos docentes mais tensas e complexas: mudanças na organização do trabalho dando uma aparente centralidade para o conhecimento dentro do modo de produção; as mudanças dos valores e um elogio ao sucesso vinculado à competência e, finalmente, o ritmo da produção de novos conhecimentos são exemplos de mudanças geradoras de novos tensionamentos.

Cabe uma ressalva quanto ao discurso das competências dentro da educação. Além de problemas conceituais, que tornam difícil uma compreensão comum da questão, ele parece, em vários momentos, mais justificar uma precarização das relações de trabalho e relações pedagógicas, do que valorizar o processo de aprendizagem.

“Efetivamente a força da ideologia neoliberal se apóia em uma espécie de neodarwinismo social: são os melhores e mais brilhantes, como se diz em Harvard, que triunfam [...] Por trás da visão mundialista da internacional dos dominantes, há uma filosofia da competência, segundo a qual são os mais competentes que governam, e que têm trabalho, o que implica que aqueles que não têm não são competentes [...] Max Weber dizia que os dominantes têm sempre necessidade de uma “teodicéia dos seus privilégios”, ou melhor, de uma sociodicéia, isto é, de uma justificação teórica para o fato de serem privilegiados”. (BOURDIEU, 1998: 59)

Retomando a questão das mudanças ocorridas nas últimas décadas, verifica-se uma ampliação a partir da década dos anos 90 de políticas educacionais de distribuição de livros didáticos, ofertas de processos de capacitação de professores, ampliação do acesso à merenda escolar, bolsa-escola. Ao mesmo tempo, nota-se o aumento de estudantes por sala de aula, a manutenção de vários turnos escolares, a precária estrutura de funcionamento de grande parte das escolas.

Na Universidade pesquisada, encontramos um exemplo singular sobre a questão das mudanças e suas implicações no trabalho docente. Em 2007 aconteceu um processo de revisão dos projetos pedagógicos dos cursos de graduação. Entre várias modificações nas estruturas curriculares, uma mudança é sintomática para a presente reflexão: a ampliação de turmas comuns para vários cursos de uma mesma área.

Essa mudança possui uma sustentação teórica na perspectiva da interdisciplinaridade e da formação dos estudantes por área de conhecimento. De fato, a estrutura disciplinar de vários cursos de graduação parece exagerada quando acolhemos o debate em torno da necessidade de contextualização, da complexidade e outras questões relevantes para formação dos estudantes.

A mudança possui também um apelo gerencial, pois ao unificar algumas turmas, se diminui o número de horas docentes envolvidas no processo, e o custo do curso, e amplia potencialmente o número de estudantes por turma.

Quanto ao professor das disciplinas comuns, eles (as) passam a viver duas mudanças: precisam reorganizar suas aulas para grupos diferenciados e para turmas com maior número de estudantes. Um exemplo é a disciplina de anatomia presente em vários cursos da área da saúde ou a disciplina de matemática básica presente em vários cursos da área de ciências sociais aplicadas.

Face a esse conjunto de problemas, crescem os sentimentos de fracasso e de frustração que munam as possibilidades de os professores realizarem um trabalho positivo com os estudantes [...] Por um lado aumentam as demandas no campo dos procedimentos dos professores nas atividades desenvolvidas em sala de aula [...] Por outro lado, esse protagonismo dos professores não foi acompanhado da melhoria das condições de trabalho [...]

Eles vivem diariamente a contradição entre o que deveria estar sendo realizado na prática pedagógica e o que é possível ser concretizado [...] (ALMEIDA, 2004: 110).

Oliveira (2004) sinaliza que o processo relatado acima faz parte de uma reestruturação do trabalho docente, constituído por precarização e flexibilização e reforçado pela reformas educacionais mais recentes.

No estudo desenvolvido sobre os programas governamentais, a mesma autora aponta a presença intensa, no campo do discurso, da discussão sobre a necessidade de melhoria das condições de trabalho do docente, mas esta tem pouca repercussão na prática. Para autora, existe uma defasagem entre “o texto e o contexto” das reformas educacionais (p. 131).

Além das mudanças no campo da regulação do trabalho docente, percebe-se, também, um tensionamento das expectativas em torno das escolas e universidades. Já que o seu “enredo” deixa de ser uma propriedade do espaço escolar (o conhecimento ocupa cada vez mais outros espaços), os problemas sociais gerais entram na pauta do espaço escolar, e esperam-se respostas da educação para os mesmos.

Como já mencionado anteriormente, a escola parece viver uma overdose de demandas e uma mudança sutil na natureza das mesmas, ou seja, a escola sempre foi fortemente pautada por questões relativas ao passado (tradição) ou ao presente (demanda para determinados postos de trabalho no período industrial). De certa forma, a escola se ocupava com a “reprodução” cultural que se apresentava como preparação para o futuro. Essa questão ainda se faz presente, mas não parece ser o suficiente para os desafios lançados às escolas.

Uma resposta da escola ao excesso de demandas é a simples inclusão curricular, ou seja, para cada demanda uma nova disciplina ou outro componente curricular. Este tratamento às demandas vem fracionando cada vez mais as estruturas curriculares. Um exemplo recente é a inclusão da disciplina de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) como disciplina obrigatória em todos os cursos de licenciatura e como disciplina optativa nos outros cursos da Universidade. A disciplina de LIBRAS não resolve de fato o desafio da educação inclusiva, mas responde concretamente a uma exigência legal.

Hoje parece que a escola continua com suas pautas tradicionais, mas se vê diante de uma questão nova: educar para o que nem ela sabe bem o que é. Educar para o que ainda não existe. Vamos tentar aprofundar a questão retomando os trabalhos de Mariano Enguita (1998, 2004).

Segundo este autor, a escola cumpriu um papel claro no processo de industrialização, educando e “formatando” os futuros trabalhadores, na construção dos Estados-Nação, ajudando a configurar uma noção de passado comum, de geografia da nação, de língua materna etc.

Porém, é preciso considerar que parte destas mudanças aconteceu com um ritmo em que uma geração ainda se via, em grande parte, capaz de dizer algo para geração futura do ponto de vista da experiência. Hoje percebemos nas mudanças um ritmo acelerado (e um elogio ao ritmo acelerado).

Neste ritmo, o “mundo” dos pais não será o mundo dos filhos quando crescerem ou, em alguns casos, o próprio “mundo” dos filhos será muito alterado quando crescerem, ou seja, presenciamos um ritmo de mudança que acontece em uma própria geração.

Como fica a escola diante desse desafio? E o trabalho do professor e da professora? Ao professor parece ser solicitada uma nova forma de saber: uma especialização em futuro. Aqui, se o argumento que está sendo construído faz sentido, temos uma mudança que agrega uma novidade-tensão para o trabalho do professor.

As pressões feitas à escola e ao trabalho do professor não apontam, geralmente, para transformação do seu papel social. Pode-se afirmar que a escola vive um conjunto de atualizações ou inovações para manutenção do seu papel social. O deslocamento da pauta da escola para o futuro das incertezas, como aponta Castel (1998), não desloca seu papel social predominantemente de regulação social.

De certa forma, a pressão sofrida e exercida pela escola não se difere da pressão vivida na sociedade, mas gera uma pressão de natureza distinta para o trabalho do

professor. Este se vê obrigado a construir referências para uma sociedade em que a flutuação (CASTEL, 1998) é uma evidência e um discurso justificador.

Em um esforço de síntese provisória, pode-se notar que a escola acostumada com uma pauta do passado e quando muito do presente, se vê pressionada, e pressionando, por uma pauta do futuro e, finalmente, neste caminho, em busca da nova pauta, toma para si a diversidade dos problemas sociais (que se transformam em projetos, elementos de currículos, novas disciplinas etc.).

Os elementos anunciados não encerram a complexidade em que se encontra a escola nos dias atuais, mas já são suficientes para demarcar um conjunto de problemas- desafios que impactam na perspectiva que se tem do trabalho dos professores. Parte destas perspectivas é traduzida em processos de qualificação que padecem das mesmas pressões que desejam responder.

Com os elementos apontados até o momento, podemos trilhar por outro caminho que compõe o enredo de mudanças do trabalho docente.

3.6 Uma breve reflexão sobre o cotidiano e o trabalho docente

A vida cotidiana é produto e produtora da realidade social. É produto porque o cotidiano não existe fora das relações sociais, mas além de produto é produtora e reprodutora de uma determinada realidade. Não é possível, por exemplo, pensar a escola fora das “atividades de escola”.

Na escola, a cotidianidade é marcada especialmente pela organização habitual do trabalho pedagógico, que envolve os tempos da escola, atividades de sala, atividades fora de sala, enfim, a organização diária de concretização do currículo escolar, objetivos e projeto político pedagógico da escola. A questão delicada é que, quase sempre, esta organização do trabalho “vive” em uma esfera naturalizada.

O cotidiano é composto pelas “coisas familiares”. A familiaridade, geralmente buscada no dia-a-dia, pode ser também o caminho para o afastamento da consciência do

que se faz. A familiaridade parece ser uma característica da cotidianidade. Desenvolver uma crítica a respeito de uma determinada cotidianidade seria uma coisa, reivindicar sua supressão seria outro caminho que não vamos trilhar.

Kosik (1976) e Heller (1992) indicam que o cotidiano possui uma íntima relação com a história, separá-los seria mistificar a história ou dar ao cotidiano um status de

imutabilidade. O cotidiano seria, na perspectiva dos autores citados, ao mesmo tempo recipiente e conteúdo da história. Schutz (1979: 73) reforça esse entendimento ao afirmar que “O mundo da vida cotidiana é a cena e também o objeto de nossas ações e interações”.

Tal constatação reforça a ideia de que tratar essa temática encurralada somente em seu aspecto privado, sem relacioná-la com a dimensão mais ampla da realidade social, poderia ser uma simplificação da questão.

Mesmo admitindo a necessidade da familiaridade, não é preciso admitir como único caminho um determinado tipo de familiaridade. Um exemplo seria a organização do trabalho docente, que, por estar quase sempre envolto no excesso de tarefas, se aproxima do que Lukács denominou de “superficialidade extensiva” (CARVALHO, 2000) e isto não é uma determinação ou um constitutivo da natureza do trabalho docente e sim resultado de uma determinada forma de divisão do trabalho pedagógico.

“... a vida cotidiana mobiliza em cada homem todas as atenções e todas as