A seguir são apresentadas as premissas para a formação do conhecimento sob a ótica sociointeracionista de Vygotsky bem como as transformações que o professor causa no processo de aprendizagem dos alunos.
3.5.1 Formação do conhecimento sob a ótica sociointeracionista
A fim de considerar um modelo adequado para o contexto da pesquisa, onde o professor é o mediador e não apenas o detentor do conhecimento e o aluno é sujeito ativo no processo de ensino-aprendizagem, respeitando-se suas características socioculturais, optou-se por utilizar a Teoria Sociointeracionista de Vygotsky. Este trabalho teve como base teórica os conceitos de interação, mediação e zona de desenvolvimento proximal da referida teoria.
É importante destacar as pesquisas de Vygotsky, baseadas em princípios marxistas que, segundo Vasconcellos e Valsiner (1995), adotavam as noções de um psiquismo humano
formado a partir do contexto social, onde o indivíduo se desenvolve e propunha a compreensão de que o conhecimento é socialmente construído e culturalmente transmitido ao indivíduo através do diálogo com os quais convive.
A teoria marxista teve papel fundamental no pensamento de Vygotsky, envolvendo-o em disputas acirradas no final dos anos 20 e começo dos 30. A partir disso, Vygotsky procurou reconstruir mudanças intelectuais que normalmente se expressam, gradativamente, no curso do desenvolvimento do indivíduo, por acreditar que os processos psicológicos superiores surgem e sofrem transformações ao longo do seu aprendizado e do seu desenvolvimento (VYGOTSKY, 1998, p. 25 e 26).
Dessa forma, é relevante abordar a perspectiva sócio histórica do psiquismo, também conhecida como abordagem sociointeracionista elaborada por Vygotsky, que visa caracterizar os aspectos humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formam ao longo da história humana e durante a vida do indivíduo, em particular nas classes escolares. Segundo Baquero (1998, p. 138) neste sentido “se apresentam as modalidades de intervenção docente como fornecendo pistas, guiando, persuadindo e corrigindo os pensamentos de estratégias dos sujeitos”.
Este olhar teórico propõe que sejam vistos todos os participantes do processo educativo, considerados sujeitos, inseridos em um momento histórico, provenientes de um grupo social, cada um com classe e cultura diferenciadas, transformados por constantes interações sociais ou interações entre pares. Segundo Baquero (1998, p. 141) os intercâmbios parecem ter “um efeito positivo no desenvolvimento de capacidades dos sujeitos envolvidos, se relaciona com as interações entre pares (grifo do autor) no âmago das atividades escolares”.
Na abordagem sociointeracionista, Vygotsky (1998) considera a complexidade da estrutura humana como um processo de apropriação do conhecimento pelo homem através de sua experiência histórica e cultural. Segundo o autor, organismo, meio e símbolo exercem influência entre si, comprovando que o biológico e o social não estão dissociados. Partindo disso, o homem constitui-se como aprendiz através de suas próprias interações. Vygotsky (1998) baseia-se em duas linhas de desenvolvimento que são o biológico e o social para explicar o comportamento e o desenvolvimento humano. Neste contexto, se forem incluídas as funções psicológicas superiores como fatores de desenvolvimento psicológico, certamente
chegar-se-á a uma nova concepção sobre o processo geral do desenvolvimento. Dentro deste processo pode-se distinguir duas linhas qualitativamente diferentes de desenvolvimento que se diferem quanto à sua origem. Para este autor, de um lado estão os processos elementares, que são de origem biológica (afeto, percepção, motricidade, reflexo) e de outro as funções psicológicas superiores (memória, pensamento, linguagem e atenção), de origem sociocultural. Isso, por si só coloca a infância como o centro da pré-história do desenvolvimento cultural.
Ao interpretar o pensamento vygotskyano, Rego (2000) sugere que as funções psicológicas superiores, que consistem no modo de funcionamento psicológico tipicamente humano (planejamento, memória voluntária, imaginação etc), são consideradas sofisticadas e “superiores”, porque referem-se a mecanismos intencionais, ações controladas conscientemente, dando ao indivíduo a possibilidade de independência em relação às características do momento e do espaço presente. Ainda, segundo a autora, as características humanas individuais dependem do contato com o meio físico e social. Já as funções psicológicas elementares – biológicas – não são suficientes para produzir o indivíduo quando este está fora do ambiente social.
É importante ressaltar que, na abordagem sociointeracionista, o que ocorre não é um somatório de valores biológicos, mas sim uma interação dialética desde o nascimento, entre o ser humano e o ambiente social e a cultura onde o indivíduo está inserido.
Ainda, segundo Matui (1995) é participando na prática social, juntamente com outros, vivenciando funções da linguagem da escrita, da matemática, das ciências e outras, que o aluno apreende o objeto de conhecimento. Esta ação pode ser chamada de experiência pessoal, que se identifica com o tempo ocorrido num dado período da vida e que se realiza, logicamente, no ambiente. Esta é a importância de recriar o meio onde está o indivíduo, de forma didática.
Para Rego (2000) a linguagem é um sistema simbólico fundamental em todos os grupos humanos, que organiza os signos em estruturas complexas e desempenha papel imprescindível na formação das características psicológicas humanas. É através desta linguagem que podemos designar os objetos do mundo exterior, ações, qualidades dos objetos e as que se referem às relações entre os objetos.
“Os signos funcionam como elementos mediadores que permitem a comunicação entre os indivíduos, estabelecendo significados compartilhados por determinado grupo cultural” (Rego, 2000, p. 55).
Assim a passagem da ação para a conceituação é um processo que está no coração do construtivismo. É quando realmente ocorre a construção dos conhecimentos: o sujeito trabalha, mediante a reflexão metacognitiva, o conhecimento fornecido pelas impressões sensíveis, assimilando-o a vários esquemas operatórios para dar-lhe significação. É aqui que se completa o prazer de dar significação ao universo e aos objetos (MATUI, 1995, p. 108).
Outro ponto a ser considerado é a participação do professor como mediador no processo de construção do conhecimento que, segundo Matui (1995) se dá através das interações sociais. Ainda, conforme Oliveira (1995), a mediação é o processo de mediação que ocorre através de um elemento, que é utilizado para realizar determinada intervenção. Esta intervenção deixa de ser direta e é realizada por este elemento, que possui significação através dos seus símbolos.
Com o auxílio do adulto, neste caso representado pelo professor, o aluno assimila ativamente as habilidades que foram trabalhadas através da história social, desta forma os processos psicológicos superiores começam a se formar. A escola e o professor têm papel de mediadores na construção do conhecimento do aluno. O professor, especialmente, atua na perspectiva de dar sentido aos símbolos e possibilitar ao aluno a utilização de instrumentos que estejam inseridos no contexto social ao qual ele pertence.