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O Programa ABC como instrumento de financiamento

O principal instrumento para incentivar a adoção das práticas do Plano ABC é o financiamento de projetos de investimento com condições diferenciadas, dentro do Plano Agrícola e Pecuário por ano safra. Neste sentido, paralelamente a apro- vação do Plano ABC foi criado o Programa para Redução da Emissão de Gases de Efeito Estufa na Agricultura (Programa ABC), por meio da Resolução n 3.896/2010 do Banco Central do Brasil.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi autoriza- do a operar recursos do Programa ABC e a partir dele todos os bancos poderiam operacionalizar os recursos, inclusive o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Fe- deral. A partir do do Plano Agrícola e Pecuário 2011/12, o Banco do Brasil também passou a operar o Programa ABC com recursos da poupança rural. Ambos são equalizados pelo Tesouro Nacional.

De acordo com dados do Plano ABC, a implementação de todas as atividades pre- vistas entre 2011 e 2020 exigirão R$ 197 bilhões, sendo R$ 157 bilhões de recursos via crédito rural e R$ 33 bilhões de recursos do Tesouro Nacional para equalização. Entretanto, desde 2010/2011 a 2019/2020, os recursos totais disponibilizados para o Programa ABC somaram R$ 19,1 bilhões, bastante aquém das necessidades para alcançar as indicações estabelecidas pelo Plano.

É importante salientar que a adoção das práticas preconizadas pelo Plano ABC significa investimentos no sistema produtivo, o que é diferente do crédito para itens específicos financiáveis. Como ressalta o Observatório do ABC,

Para garantir o cumprimento do principal objetivo do Programa ABC – a redução de emissões de GEE na atmosfera, o produtor rural deve apresentar ao agente financeiro um projeto técnico passível de avaliação. O projeto deve ser elaborado de modo a permitir o enquadramento dos itens financiáveis aos objetivos de in- vestimento elencados no Programa ABC. Esse aspecto representa uma inovação na história do crédito rural brasileiro, já que as demais linhas de crédito são orien- tadas apenas por itens financiáveis, enquanto, no Programa ABC, os itens devem

estar relacionados de modo que o objetivo ambiental seja assegurado.13

13. Observatório do ABC. Análise dos Recursos do Programa ABC Safra 2016/17, http://observatorioabc.

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Ao financiar sistemas produtivos e não apenas itens necessários ao custeio ou outras formas de investimento, o Programa ABC permite a adoção de práticas que darão retorno ao longo do tempo, exigem conhecimento e promovam melho- rias relevantes de produtividade. A visão de adoção de tecnologia faz com que se considerem as necessidades da propriedade rural como um todo, sendo o único programa dentro do Sistema Nacional de Crédito Rural com essa característica. O Programa ABC é dividido em subprogramas: recuperação de pastagem, plantio direto, sistemas integrados (ILPF), produção de orgânicos, adequação ambiental, floresta plantada, fixação de nitrogênio e tratamento de dejetos. Cada subprogra- ma financia um conjunto de itens que compõem o sistema produtivo: aumentar a produtividade, resiliência produtiva e adoção de práticas sustentáveis, incluindo a mitigação de gases de efeito estufa. O Programa ABC deve refletir as tecnologias e práticas definidas no Plano ABC e, assim, deve ser revisado após a definição do novo ciclo do Plano ABC.

Os recursos do Programa ABC são destinados principalmente para correção in- tensiva do solo, formação ou recuperação de pastagens, florestamento e reflo- restamento, aquisição de bovinos e cana-de-açúcar. Os dois primeiros itens fi- nanciados representaram 56% de todo o recurso alocado no Programa ABC entre 2013/2014 e 2019/2020, demonstrando grande importância na recuperação de áreas degradadas e no aumento de produtividade. De acordo com os dados do Banco Central, 70% dos tomadores de financiamento do Programa ABC são mé- dios produtores rurais.

Além da capacidade dos produtores em adotar tecnologias conforme apresenta- das nos Plano e Programa ABC, as condições oferecidas no financiamento são muito relevantes na tomada de decisão do produtor. Diferenciar a taxa de juros em relação aos demais programas do sistema nacional de crédito rural, adaptar o prazo de pagamento e de carência aos projetos afetam na demanda pelo crédito do programa ABC.

A Figura a seguir mostra que a demanda de recursos reduziu significativamente com o aumento da taxa de juros, além de ser influenciado também pela crise eco- nômica, fiscal e política do Brasil a partir de 2015.

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Figura 1

Contratação de recursos do Programa ABC

(milhões de R$ e taxa de juros)

Altas taxas de juros podem reduzir o retorno dos projetos de investimento de longo prazo, reduzindo o apetite para adotar essas tecnologias. Dessa forma, é impres- cindível o papel da política agrícola em assegurar recursos, limite por beneficiário e condições de financiamento adequadas e atrativas para o Programa ABC.

Vale destacar que no PAP 2020/2021, as taxa de juros para o Programa ABC va- riam entre 4,5% e 6%, o que denota um sinal relevante visando incentivar maior tomada de crédito para investimentos.

Somado a isso, tem-se um entrave no mercado privado de crédito quando consi- derados a instabilidade macroeconômica do Brasil e os elevados riscos inerentes ao setor agropecuário, sendo dependente de políticas específicas para promover a adoção das tecnologias do Programa ABC.

Vale ressaltar que os recursos do Programa ABC são disponibilizados para todo o país, sendo a alocação regional dependente da capacidade dos produtores e das instituições financeiras em apresentar e aprovar os projetos de investimento. As regiões Sudeste e Centro-Oeste possuem as maiores participações na alocação dos recursos do Programa.

Fonte: SICOR, Banco Central do Brasil. Acessado em 04/06/2020 Nota: (*) dados até maio/2020

0 14/15 500 1.000 1.500 2.000 15/16 17/18 19/20* 2.500 3.000 3.500 4.000 16/17 18/19 1.965 1.134 1.547 1.618 2.016 5,0% 8,0% 8,5% 7,5% 6,0% 7,0% 0% 1% 2% 3% 4% 5% 6% 7% 9% 8% 3.507 3.507

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Figura 2

Alocação de recursos do Programa ABC por atividade e região no

período 2013/14 a 2019/2020 (maio)

(Bilhões de R$) 0,00 0,50 1,00 1,50 2,00 2,50 3,00 1,91 2,55 1,16 0,64 0,75 1,51 2,80 1,50 1,08 0,58 Centro -Oes te Agrícol a Centro -Oes te Pecu ária Norde ste Agrícol a Norde ste Pecu ária Norte Agrícol a Norte Pecu ária Sudeste Agrícol a Sude ste Pecu ária Su l Agrícol a Sul Pecu ária

Fonte: SICOR, Banco Central do Brasil. Acessado em 04/06/2020

Dessa forma, ações regionalizadas são muito importantes para promover a adoção de tecnologias combinada com sustentabilidade ambiental, econômica e produtiva. A discussão do Plano ABC nos estados está apresentada adiante.

Entretanto, não só o Programa ABC financia as práticas e tecnologias do Plano ABC dentro do sistema nacional de crédito rural (política agrícola). Programas como Moderagro e Inovagro, as linhas de crédito de investimento dos programas Pronaf e Pronamp, além do financiamento de investimento sem vínculo a programa espe- cífico financiam diversos itens das tecnologias ABC.

Isso indica duas questões principais a serem avaliadas pela política agrícola: (i) a faci- lidade no acesso a crédito de investimento fora do Programa ABC; (ii) o financiamento de itens específicos que compõem o sistema produtivo da propriedade, mas sem ne- cessitar financiar o sistema produtivo como um todo.

O alcance das ações do Plano ABC é diretamente influenciado pela tomada de crédito do Programa ABC. Considerando que as mesmas práticas são também financiadas fora

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do Programa, o monitoramento e a comunicação quanto ao financiamento e a adoção de práticas agropecuárias sustentáveis que tenham relação com o ABC fica prejudicado. Outro ponto relevante para o Programa ABC bastante debatido é a maior complexidade para as instituições financeiras em relação a análise do projeto e da documentação exi- gida para acessar o crédito, não sendo remunerados de forma diferenciada em relação aos demais programas do sistema de crédito. Do lado da oferta de crédito, este fator também corrobora para o fato de que nem todo o recurso disponibilizado ou anunciado para o Programa ABC pela política agrícola é tomado em sua totalidade, resultando em posterior redução do volume de recursos disponibilizados pela política.

Dessa forma, a própria política agrícola por meio do Plano Agrícola e Pecuário precisa ser repensada para efetivamente promover a adoção das tecnologias ABC e, também, mensurar essa adoção via incentivo público da forma completa, até para finalidade de reportar para a CQNUMC.

É válido destacar que no Plano Agrícola e Pecuária 2020/2021, os recursos para o Programa ABC tiveram aumento de R$ 408 milhões, representando um aumento de 20% em relação último ano safra (2019-2020). Isso representa aumento de 10% do total de recursos para investimentos do Plano Safra, totalizando o valor de R$ 2,5 bilhões para o Programa ABC, com taxas de juros que variam de 4,5% a 6% ao ano. Por fim, outros incentivos além do crédito rural podem ser criados para fomentar a ado- ção das tecnologias do Plano ABC, tais como instrumentos de gestão de riscos para tec- nologias ABC e sistemas produtivos e um fundo garantidor de crédito para o programa14.

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