_______________________________________________________________________________________________________________
O programa Aldeias do Castelo e Património partilha em parte da mesma filosofia de concepção e intervenção já reveladas nos dois anteriores programas: encarando o património local das áreas rurais como recurso estratégico numa visão globalizante e integrada, perspectivando ao mesmo tempo uma interligação às áreas envolventes, quer no plano físico, quer no plano sócio-cultural. Este princípio orientador encontra correspondência em termos territoriais, na medida em que a região em questão reúne um conjunto significativo de castelos e fortificações, nomeadamente ao longo da sua orla fronteiriça (mas não só!), os quais se encontram, no entender dos responsáveis pelas entidades promotoras – CCRA e IPPAR, delegação de Évora – bastante aquém do seu aproveitamento, tendo
167
- Esses outros programas, a par do Aldeia do Castelo e Património, são: Aldeia de Água (sobretudo em torno da Barragem de Alqueva, e dos espelhos de água proporcionados por esta), Aldeia de Tradição e Aldeia de Mina.
em conta as possibilidades que os mesmos oferecem no que respeita ao seu potencial de atracção turística e de revitalização económica das comunidades locais.
Neste sentido, foram definidas numa primeira fase dez povoações, que por se encontrarem associadas a estruturas fortificadas, podem constituir uma experiência-piloto em matéria de intervenção no património, em vista à sua revitalização e consequente valorização turística. Essas dez localidades são: Amieira do Tejo, Belver, Castelo de Vide, Evoramonte, Flor da Rosa, Mértola, Moura, Mourão, Terena e Viana do Alentejo.168 As fontes de financiamento associadas a este programa são o PORAlentejo (Programa Operacional Regional do Alentejo), o POC (Programa Operacional da Cultura), o PIDDAC e outros recursos nacionais públicos e privados. Como parcerias estratégicas existentes, a par da articulação entre o IPPAR e a CCRA, destacam-se as autarquias locais envolvidas, o Instituto de Financiamento e Apoio ao Turismo, as Regiões de Turismo, a ENATUR, as Associações de Desenvolvimento Local e de Defesa do Património e a Rota dos Vinhos, entre outras. O financiamento estimado é cerca de três milhões de contos.169
Para os promotores do programa, a ideia subjacente à sua concepção e posterior implementação assenta em vários pressupostos. Desde logo, há a destacar o facto do mesmo ter conhecido um empenhamento político mais explícito e célere por parte dos Ministérios do Planeamento e da Cultura, no sentido de preservar e conservar, de modo mais imediato, os castelos, tendo a preferência por este programa sido mais assumida comparativamente ao anterior. A degradação física de que os mesmos são objecto, constitui, para os técnicos do IPPAR um dos critérios basilares para a selecção das localidades a envolver no programa, indo de encontro a um anteprojecto inicial que esta entidade já tinha delineado. Uma fusão de objectivos entre o IPPAR e a CCRA conduziu assim ao programa
Aldeias do Castelo e Património. Outro critério selectivo prendeu-se directamente com aqueles
castelos sobre os quais seria eventualmente mais fácil intervir, já que a escolha recaiu maioritariamente em localidades em que as respectivas estruturas militares (castelos, fortalezas, cinturas muralhadas) se encontrassem na dependência/tutela directa do IPPAR. Outros, em menor número e na dependência directa dos municípios, também foram integrados no programa.
Por outro lado, a questão financeira associada aos custos inerentes às intervenções no património não constitui um dado de somenos importância na opção por este programa, para implementar a curto e a médio prazo, em detrimento do programa Revitalização de Aldeias e Vilas Históricas da Região
Alentejo. Para a CCRA, a par do empenhamento político atrás referenciado, não é de descurar o facto
da capacidade de financiamento ser mais viável (pelo menos aparentemente na fase inicial) quando
168
- No arranque do programa, 2000-2003, foram contemplados apenas os castelos de Evoramonte, Moura e Viana do Alentejo, com um financiamento aproximado de 1,2 milhões de contos. A fase seguinte decorrerá até 2006.
169
- in CCRA - Comissão de Coordenação da Região Alentejo, Programa de Valorização Territorial, Áreas Rurais -
- 192 -
dirigido a um deles, em menor escala e dimensão. Efectivamente, como nos relata um dirigente da CCRA: “neste momento só está garantido, em termos de financiamento, os Castelos. Em relação aos outros
planos [de acção local], neste momento não há garantia de financiamento dentro de uma forma integrada e global, mas há a garantia de ir financiando projectos pontuais. (...) No entanto, não está posto de parte equacionar-se eventualmente o financiamento um pouco mais integrado ... mas, neste momento, as coisas estão na fase que, o que há definido são os Castelos, os outros iremos financiando pontualmente e depois logo se vê ... Até pode acontecer, este projecto dos Castelos, não correr bem e que as coisas não corram como a gente possa esperar. Uma reorientação, no sentido de ir buscar aqueles planos e financiá-los, talvez de uma forma mais integrada, pode ser possível, mas, neste momento, a situação está um pouco expectante...”170 Consolidar o programa das Aldeias do Castelo e Património parece ser no momento uma prioridade. O resultado desta experiência permitirá retirar ilações e perceber até que ponto será possível e viável recuperar o outro programa, mais amplo e dirigido a mais localidades, no sentido de lhe dar um novo impulso e permitir a respectiva implementação.
Uma das especificidades deste programa prende-se com o facto de contemplar de forma explícita um programa de animação paralelo aos projectos de recuperação e revitalização dos elementos patrimoniais. Esse programa de animação, constitui, na perspectiva da equipa técnica do IPPAR
“uma componente que cabe muito às câmaras municipais ... autonomamente e em colaboração com o IPPAR (...) Não há um programa genérico só para a animação (...) As câmaras também estão sensibilizadas e sabem que há determinados tipos de actividades que são compatíveis em serem realizadas num contexto patrimonial e outras não”.171 Para além dos municípios, outras entidades locais, nomeadamente as associações de desenvolvimento local surgem como “parceiros ideais” na questão da animação e criação de pequenos postos de trabalho ou de artesanato, entre outras actividades.
Este aspecto, das parcerias, é aliás, reconhecido também pela CCRA como um factor essencial para o sucesso deste programa. “Uma das condições que nós temos, quer nos Castelos, quer nas Aldeias e Vilas
Históricas, é exactamente a garantia de uma parceria local para, enfim, dar apoio à implementação dos planos. Nesse ponto não vou falar nas Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, mas dos grupos culturais, grupos de teatro, ... consideramos que estes são parceiros que devem ser associados. A experiência que temos neste momento, que nos é dado conhecer, não é muito famosa. Penso que há uns casos em que as condições locais são um bocado mais favoráveis, ou porque já existia lá um grupo de amigos qualquer, ou porque existia lá um grupo de teatro... e aí quando já há qualquer coisa que faça mexer ... há manifestações de interesse e até de participação, de facto, nos trabalhos. Há outro caso em que, quando isso não acontece, é muito difícil. É muito difícil porque, claro que é preciso criar essa parceria do princípio, acho que é preciso criar uma associação de desenvolvimento local, que é uma das coisas que nós referimos, quando não há nada, a medida é mobilizar as pessoas.”
170
- in entrevista a responsável pela CCRA. 171 - in entrevista a técnicos do IPPAR-Évora.
Ainda no que concerne à dimensão relacionada com a animação dos castelos e dos espaços envolventes, o programa contempla duas vertentes de intervenção intimamente associadas. A primeira, dirigida essencialmente para a recuperação física dos castelos e monumentos, por parte do IPPAR quando estes estão sob a sua responsabilidade e por parte dos municípios quando estes estão na sua dependência, paralelamente a uma intervenção na envolvente, sobretudo no arranjo nos estacionamentos e nos acesos aos mesmos. A segunda, mais directamente relacionada com a componente de animação económica e com um conjunto de acções “imateriais”, ligadas à produção e venda de produtos artesanais, entre outras actividades.
Do que ressalta deste programa, mais circunscrito a dez localidades com castelo é a possibilidade deste poder vir a ser implementado com financiamento assegurado e já faseado. Na perspectiva dos técnicos do IPPAR, “o programa anterior (...) era demasiado vasto para se conseguir um financiamento ... porque era impossível. No fundo, era praticamente requalificar uma aldeia inteira com a parte patrimonial, a parte urbana, ... uma integração de fundo praticamente impossível com verbas de uma fonte única”. Para a
CCRA, os dez projectos estão elaborados, aguardando só a sua implementação. “Agora estamos à espera que
os municípios e as entidades que estão envolvidas façam as respectivas candidaturas...”.
Cabe então neste momento questionar os impactos e os reflexos que ambos os programas descritos proporcionaram, ou estão a proporcionar, nas várias localidades abrangidas por ambos os programas. Escolhemos três para fazer uma breve avaliação, a partir da nossa observação no terreno e das opiniões e criticas de alguns outros actores intervenientes nos processos.
- 194 -