4 O ADOECIMENTO DOCENTE NA ESCOLA BOSQUE: ENTRE A
4.4 PROGRAMAS DE ATENDIMENTO À SAÚDE DOS TRABALHADORES
4.4.1 O Programa de Atendimento à Saúde dos Servidores da Rede Municipal de
Na Secretaria Municipal de Educação (SEMEC), as questões relacionadas ao adoecimento docente vão passar a ser tratadas com maior atenção somente a partir do ano de 1999. Esta preocupação teve como ponto de partida a Lei nº 8.080/90, federal, que trata das questões relacionadas aos programas de acompanhamento do trabalhador. Tal lei diz respeito às obrigações do Sistema Único de Saúde, nas esferas federal, estadual e municipal com relação à saúde da população e, neste caso, do trabalhador:
Das disposições gerais:
Art. 2 – a saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício.
Parágrafo 2 - O dever do Estado em garantir a saúde consiste na formulação de políticas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e recuperação;
Parágrafo 2 – O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das empresas e da sociedade.
3 – A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do país (BRASIL, 1990).
Com relação à concepção de saúde, a mesma lei é muito clara, no parágrafo único do seu Art. 3º, que reza: “No que diz respeito também à saúde as ações que por força do disposto no artigo anterior, se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico, mental e social.” (grifos nossos). Além do que, esta lei também determina e condiciona a saúde com relação ao trabalho, à renda, à educação, ao transporte, ao lazer e ao acesso aos bens e serviços essenciais. Neste sentido, o próprio instrumento legal avança no que diz respeito ao processo de adoecimento, não mais se restringindo apenas ao seu aspecto biológico.
No ano de 1999, após nove anos de vigência dessa lei (nº 8.080/90), é que se passa a discutir um programa que acompanhasse as questões relacionadas à saúde dos trabalhadores
em educação, e que se deu em concomitância com a discussão de atendimento do conjunto dos servidores do município de Belém. Assim, a primeira medida foi a criação do Programa Saúde do Trabalhador (PST), ainda na gestão do Partido dos Trabalhadores (PT), nesse mesmo ano. Este programa, por não ter autonomia financeira, está submetido ao Departamento de Recursos Humanos (DRH), da Fundação Escola Bosque. Ele deixa, então, de ser um programa e passa a ser um Núcleo de Atenção à Saúde do Trabalhador (NAST).
Este núcleo possui uma equipe formada por pedagogos (dois), assistente social (um), psicólogo (um). Nos trabalhos realizados nas escolas, conta com apoio voluntário de alunos dos cursos de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, da Universidade Estadual do Pará. Segundo o técnico entrevistado, este núcleo trabalha com quase nenhum recurso, o que impede que realize um trabalho efetivo em todas as escolas.
O NAST iria atender a todos os servidores da Rede Municipal de Educação, mas as atividades de atendimento se deram, apenas, a partir do ano de 2005. Até então, as atividades se resumiam à catalogação dos servidores que estavam em processo de licença–saúde; por isso, era preciso fazer uma pasta deste servidor. Outra função, nessa fase inicial, era editar portarias e normas com relação aos afastamentos dos servidores por motivos de saúde, ou seja, era apenas um órgão burocrático, sem efetivamente atender diretamente aos servidores no processo de adoecimento.
As atividades do Núcleo começam ainda na gestão do Edmilson Rodrigues [PT], em 1999, surgindo como Programa de Saúde do Trabalhador (PST). Entretanto, o programa não recebe verba. Então, nós não temos vida própria, portanto não poderíamos ser um programa. Ele ficou muito no início, a partir de 1999, na elaboração e digitação de portarias, que precisavam estar nas pastas do servidor, o tratamento que ele recebia. A partir do ano de 2000, já passamos a pensar em outra organização e, em 2004, o núcleo já começa a ir às escolas, ainda não com este nome de Núcleo de Atenção à Saúde do Trabalhado. (Tec. NAST, 2008).
Como podemos observar, apenas no ano de 2000 é que se passa atender aos servidores nas escolas, com atividades como palestras e minicursos. O núcleo funciona para atendimento de todos os servidores em educação, e isso significa que não existe uma preocupação específica com a situação dos docentes. Neste sentido, a atenção maior é dada aos servidores que trabalham como agentes de serviços gerais, merendeiras etc., que são aquelas pessoas que apresentam maior incidência de adoecimento.
No Gráfico 2, podemos visualizar a situação dos servidores adoecidos nos anos de 2004.
Gráfico 2 - Servidores adoecidos, por cargos e por distritos administrativos·
Fonte: Núcleo de Atendimento a Saúde do Trabalhador (NAST)/ Processos IPAMB (2004)
Nesse gráfico, podemos perceber que o quantitativo de adoecimento, na categoria de servidores docentes, é muito alto em relação às outras categorias que trabalham nas organizações educativas. Este dado, referente ao ano de 2004, expressa o estado de saúde dos docentes; no entanto, não percebemos que exista, por parte deste núcleo, uma proposta de atendimento mais específico para o pessoal do magistério.
É preciso considerar que a Secretaria de Educação possui 4.480 servidores efetivos, lotados em 160 espaços educativos, sendo considerados, para efeitos de análises do Núcleo de Atenção a Saúde do Trabalhador, 64 escolas, 35 Unidades de Educação Infantil, 23 Unidades Pedagógicas e 22 anexos, e 16 espaços administrativos da SEMEC.
Em 2006, aumenta consideravelmente os índices de adoecimento entre os docentes (Gráfico 3).
Gráfico 3 - Servidores adoecidos, por cargo - 2006
Fonte: Núcleo de Atenção a Saúde do Trabalhador (NAST) (2006).
Durante a entrevista com o técnico do NAST, a preocupação demonstrada era em relação ao atendimento dos servidores, principalmente dos que pertencem à categoria de Serviços Gerais; inclusive, já foram realizados encontros como estes funcionários, na Escola Souza Franco (NAST, 2008).
Não observamos uma preocupação com os dados de saúde apresentados na categoria de docentes, pois, durante a entrevista, mesmo sendo constantemente questionado sobre o adoecimento de professores na rede municipal, as explicações do entrevistado se davam mais em nível geral das categorias de servidores que atuam nas escolas da rede. No entanto, diante do relatório do Núcleo, que nos foi entregue, relativo ao exercício de 2006, já é perceptível que na categoria dos docentes, principalmente daqueles que ocupam os cargos de Magistério, o chamado Professor Pedagógico, que são os profissionais que atuam na Educação Infantil (creches e pré-escola), nível de ensino que necessita de um profissional bem preparado física e psicologicamente para lidar com crianças em processo de desenvolvimento bio-psico-motor. Esse grupo apresenta uma incidência (274 casos) significativa de docentes em processo de adoecimento.
Esse fato nos deixa atentos para a relevância em se estabelecer uma política de atendimento especifico aos docentes, visto que é uma categoria que tem apresentado altos índices de adoecimento, conforme se pode constatar nos dados apresentados pelo Núcleo.