• Nenhum resultado encontrado

5.4 A organização do espaço

5.6.5 O Programa de Aquisição de Alimentos (P A A.)

A reprodução econômica e social passou a depender de políticas públicas que pudessem estimular a produção e a comercialização dos assentados. O que se observou é que houve, por um lado, um excesso de produção e, por outro, uma insuficiência de demanda com relação a certos produtos do assentamento, a exemplo da farinha e da banana, entre outros. Pelo lado da demanda, há uma demanda potencial sem poder de compra, ou seja, um grau significativo da população regional desempregada, sem renda e em estado de miséria. Outro fator é que, como se trata de produtos in natura, de subsistência, a concorrência é acentuada, fazendo cair os preços ao ponto em que não chega a compensar o trabalho e, em última instância, a renda obtida não dava para atender as necessidades das famílias (vestuário, as atividades de lazer, educação, atendimento à saúde em casos graves etc.).

Esses fatores têm sido desestimulantes para a produção no assentamento. A paralisação da cooperativa estancou a entrada de novos recursos no assentamento por toda a década de 2000. Inclusive foram vendidas mais de 200 cabeças de gado, para saldar a dívida da cooperativa. O fracasso desta foi um acontecimento decisivo para o descrédito dos assentados no trabalho coletivo e na comercialização coletiva da produção, que resultou numa série de tropeços e no comprometimento do desenvolvimento.

A instalação do P. A. A. (Programa de Aquisição de Alimentos), em outubro de 2009, tornou-se um importante programa de estímulo ao trabalho e à produção nos assentamentos. A produção, que até então não era escoada ou não vendida, ou vendida a preços baixos na feira ou para os atravessadores, ou mesmo que se perdia na roça (pois há várias frutas que, em época de safra, não eram aproveitadas), passou a ser adquirida pelo governo e repassada para creches, escolas, hospitais etc., garantindo melhoria da renda para os assentados, ao mesmo tempo em que tem servido para alimentar muitas pessoas na região em estado nutricional deficiente, ou seja, passando fome ou alimentando-se insuficientemente. Sobre o exposto, reporta-se a coordenadora do programa no município de Arataca:

A gente percebe uma mudança muito grande, tanto no incentivo à produção, porque um dos gargalos que existe na pequena agricultura e nas áreas de assentamento é a questão da comercialização. Não é dizer que esses agricultores não produzem ou não produzem suficiente, mas é que como a gente tem o histórico, a gente já cansou de ver várias produções se perdendo por causa de comercialização ou então caindo na mão de atravessadores, que de fato quem ganha os bônus são eles. Então, assim, a gente percebe visivelmente uma mudança em todos os aspectos: a auto-estima desses produtores, a gente vê, assim, uma mudança muito (...) muito positiva. As mulheres também estão se envolvendo mais, têm um estímulo maior para se envolver; os jovens também, até as crianças ficam ligadas no dia do P. A. A. (E., feminino, 42).

O reflexo do programa também se fez sentir em Arataca, por parte da população em geral e por parte daqueles que são contemplados com os produtos, cuja expressão é mais bem apresentada pela coordenadora do programa:

O que muito a gente escuta é que, mesmo antes do P. A. A. e durante o mesmo, a gente tem como elementos positivos pra poder estar argumentando: que os assentados não produzem nada, que o município de Arataca nunca viu um tempero verde (coentro) aqui do assentamento; e hoje a gente entra no município e a gente faz questão dos caminhões carregados de produção, a mais variada possível, desde a in natura até a processada, desde a banana até o doce de banana, o chocolate, o corante. E os caminhões entram carregados e passam pela cidade e as pessoas já estão vendo com outros olhos. E dentro do assentamento, em 5 meses de entrega do produto – que nem todos estavam com as declarações de aptidão – foram 150 toneladas de alimentos só aqui, de 3 assentamentos; depois a gente colocou mais um assentamento, que abasteceu as pessoas mais carentes, distribuídos nas escolas, creches e famílias. Para o município de Arataca, foram R$ 280.000,00 (duzentos e oitenta mil reais) que está circulando na mão dos produtores desses três assentamentos; consequentemente esse dinheiro, na lógica, circulando no município; é vantagem para todos. Então, hoje, as pessoas já olham com outro olhar (E., feminino, 42) (parêntese do autor).

De outubro de 2009 para cá, a situação se alterou substancialmente com o P. A. A.; pois, até a sua implantação os assentados percebiam uma renda que variava entre 1 e 2 salários mínimos, levando em conta a renda proveniente da produção, sem as demais rendas. A situação era de um orçamento apertado para as famílias

maiores, do ponto de vista da reprodução, comparando-a à condição anterior. Embora tenha havido melhoras, ficara muito aquém do esperado pelos assentados.

Aponta Wanderley (1999) que os camponeses, em suas constantes migrações, têm por finalidade desenvolver suas atividades agrícolas de maneira que sejam rentáveis e estáveis. “É esse o objetivo que norteia suas estratégias econômicas e que se articulam em dois níveis complementares: a atividade mercantil e o autoconsumo” (p. 43). Portanto, a rentabilidade e a estabilidade não se compatibilizam. A rentabilidade foi comprometida relativamente, afora outros fatores, pelo caráter instável, próprio das atividades agrícolas. A natureza instável dessas atividades, em termos de oferta, demanda e preço, é o que alimenta a lógica que permeia o planejamento da produção dos assentados, privilegiando o cacau, que garante demanda e renda em qualquer época do ano.

A articulação entre esses dois níveis, apontados por Wanderley, é fundamental para a compreensão de um terceiro elemento, que deve estar na estratégia de reprodução dos assentados: a constituição de um patrimônio sociocultural. Portanto, as condições sob as quais os assentados se reproduzem indicam as possibilidades de reprodução desse patrimônio.

A partir da forma de organização da produção e comercialização, o item seguinte faz algumas considerações sobre as diversas formas de renda sob as quais os assentados buscam atender suas necessidades e reproduzirem suas existências.