A ASSISTÊNCIA SOCIAL EM RIBEIRÃO PRETO E O ATENDIMENTO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE EM SITUAÇÃO DE RISCO.
5.1. A gestão 1993-1996: O “Governo da Solidariedade”
5.1.3. O Programa de Governo e o atendimento à infância
Comparando o atendimento à criança e adolescente em situação de risco com o proposto no Programa de Governo para o trabalho desta gestão, podemos notar alguns pontos.
O Programa de Governo dessa gestão tem como temas mais em evidência a participação popular e a exclusão social.
Com relação à participação popular, no Programa há uma ênfase na participação através da sociedade civil organizada e dos Conselhos, e realmente se observou um movimento nessa direção na gestão estudada.
Foi nessa gestão que foram implantados os Conselhos com participação paritária do poder público e da sociedade civil, como o CMDCA – Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, e o CMAS – Conselho Municipal de Assistência Social,
previstos em lei, e cujos objetivos são os de definir a política municipal em suas áreas de abrangência.
Também houve programas e trabalhos técnicos dentro da Secretaria do Bem Estar Social dirigidos a fornecer recursos e motivar a participação popular, bem como existiu uma Divisão dentro do organograma da SEBES – Divisão de Participação Comunitária – voltada para o fomento dessa participação.
Sobre a exclusão social, verificamos que houve um esforço desse governo com relação à questão social, pelo menos na área da infância. Vários programas foram abertos (14) para atender essa parcela da população.
Tabela 8: Atendimentos à criança e ao adolescente em situação de risco no ano de 1995 Programa/serviço Nº de Atendidos mês Nº de Atendidos total Crianças e jovens atendidos Obs Núcleos 957 11484 1291 SAC – Advocacia da criança 6 72 CAB – Centro de Atendimento Básico 172 2064* *estimado
(a) CACAV – Centro de Atendimento à Criança e ao Adolescente Vitimizado
Casa abrigo 26 154* *6 meses
Programa sócio pedagógico
14 171 criado
Oficina terapêutica 8 97 criado
GAP – Grupo de
Acompanhamento de pais 24 286 criado
Prog. de acompanhamento a vitimizados
62 369* *6 meses
ACASR – Atendimento à Criança e ao Adolescente em Situação de Risco
Pedagogia de rua 239 2863 criado
Pedagogia de rua - família 29 352 200
Núcleo do horto 60 720
Casa dormitório 49 588 criado
Casa aberta 63* 378* *6 meses criado
Casa travessia 9* 27* 11 *3 meses criado
Programa de Atendimento
à fam. substituta realizado pelo
CMDCA
criado
Renda mínima * 1334 2243 criado
Fontes: Relatório de atendimento da SEBES, 1995; relatórios de atendimento do programa Renda Mínima.
O Programa de governo também tinha como objetivo colocar a criança e o adolescente como prioridade da gestão. Observando o que foi efetivado, percebemos que, das cinco Divisões constantes do organograma da Secretaria de Bem Estar Social (Programa de Atendimento à Criança e ao Adolescente em Situação de Risco, Divisão de Participação Comunitária, Divisão de Atendimento Comunitário, Divisão de Creches e Divisão de Núcleos da Criança e do Adolescente), 3 delas, estavam dirigidas ao atendimento dessa parcela da população.
Uma coisa interessante que podemos notar é que o Programa de Governo cita as crianças com vivência de rua, quando fala em situação de risco, e como podemos observar pela data em que foram criados os programas de atendimento na administração, a percepção acerca da situação de vitimização/violência doméstica enquanto situação de risco realmente apareceu depois, quando então foi criado o CACAV – Centro de Atendimento à Criança e Adolescente Vitimizado, em 1995, com a separação deste da Casa Travessia.
O discurso da desestruturação familiar, que se fazia presente no Programa de Governo, também faz parte do discurso dos técnicos que trabalharam no ano de 1995, segundo o que consta no relatório de atendimento.
O Programa também fala bastante sobre parcerias com a iniciativa privada, e essa diretriz se fez notar no atendimento à criança e ao adolescente em situação de risco. Programas e serviços como o Ribeirão Criança, o tratamento de drogadição dos meninos atendidos pela Pedagogia de Rua, o encaminhamento de jovens e adolescentes para o trabalho, entre outros, eram realizados tendo como base a parceria com o empresariado do município, ou com clínicas particulares de outros municípios.
Com relação ao funcionalismo, o governo municipal objetivava, conforme explicitado em seu Programa de Governo, valorizá-lo. Notamos no relatório de atendimento e no discurso de técnicos da área de infância que o problema com o funcionário é colocado em quase todos os programas, seja o número insuficiente dos mesmos para o trabalho, a grande quantidade de funcionários em desvio de função ou, o que decorre deste último, a sua baixa qualificação profissional (PMRP, 1995b).
No entanto, percebemos também que o número de funcionários cresceu significativamente nessa gestão, como em programas recém-criados, como a Pedagogia de Rua, que de 0 foi para 20 funcionários no final da gestão, ou em serviços já existentes,
como o Núcleo do Horto, onde o número de funcionários aumentou. O número de funcionários em desvio de função também diminuiu, segundo relatório (PMRP, 1995b).
Houve um investimento no treinamento e na qualificação, sendo criado um Centro de Formação Continuada, com o fim de melhorar a intervenção. Também foi estruturado um trabalho de supervisão semanal para todos os funcionários dos equipamentos, com supervisores contratados e não pertencentes ao serviço público, bem como foi oferecido um tratamento psicoterápico de grupo, semanal, para os funcionários que trabalham com crianças e adolescentes em situação de risco. Então podemos notar que, ainda que não tenha atingido todos os objetivos propostos com relação aos funcionários, houve um investimento bastante grande nessa área, segundo também pudemos notar no discurso dos próprios trabalhadores.
Durante essa gestão houve o início de funcionamento de programas planejados no Programa de Governo, como o sistema de adoção de famílias “desestruturadas” por outras mais estruturadas; um investimento, ainda que modesto, na formação profissional dos jovens; bem como um trabalho em conjunto entre Secretarias na questão da criança e do adolescente em situação de risco, como por exemplo o trabalho conjunto entre a Secretaria do Bem Estar Social com a Secretaria do Meio Ambiente no Núcleo Especial do Horto.
Com relação à diretiva que o trabalho teve, pudemos notar que os princípios colocados no Programa de Governo de reintegrar a criança em sua família de origem, bem como de integrar as crianças e os adolescentes em sua comunidade de origem, através de atividades de cultura, esporte e lazer, foram efetivados em serviços como a Pedagogia de Rua, que realizava atividades duas vezes por semana no bairro de origem da criança, e como o CACAV, visava o retorno da criança ao convívio familiar.
Nessa gestão também foi criado o Programa de Medidas Sócio-educativas, previsto em lei federal (ECA), que representa uma alternativa a mais para o atendimento ao adolescente infrator, que essa gestão pretendia modificar, segundo o Programa de Governo.
Houve pontos que não foram efetivados e/ou que não pudemos avaliar se foram ou não realizados, como o censo que se pretendia realizar a fim de servir de subsídio para a construção das políticas de atendimento à infância; a construção de pequenos lares (foi criada somente a Casa Travessia).
Outra coisa que podemos observar é que, apesar de proposta uma mudança de alocação das creches municipais para a Secretaria de Educação no Programa de Governo, estas ainda continuaram na Secretaria do Bem Estar Social durante essa gestão.
Nesta gestão também foi aprovado na Câmara Municipal, e implementado, por proposta de vereador do PT, o Programa Renda Mínima, não previsto no Programa de Governo, mas que se enquadra organicamente nas suas metas.